Lista de Poemas

Para respirar

Pessoas sufocadas,
sem ar para respirar,
arfam ansiosas
por graças que as façam lutar.

Morbidamente seguem
insanos mentores,
que as conduzem
ao imo de seus temores.

O que sobra de oportunismo
a esses menestréis do cinismo
falta em sentimento
para ouvir seus choros e lamentos.

Iludidos, ímpios da verdade,
já não conseguem perceber
a mais dura realidade
e vivem apenas para crer.

Creem na imortalidade,
cultuam mandingas e placebos.
Enquanto asfixiam em inverdades
veneram salvadores nocebos.
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Cortesã rejeitada


Celeste encantada,
tão vibrante.
Em versos, declamada.
És a divina amante.

Dos enamorados
és intensidade.
Dos poetas
a imortalidade.

És inspiração
para os delirantes
e para os incautos
confidentes.

Dedicada cortesã.
Não cansa de cortejar
tua dama pagã
em eterno bailar.

Segredos resguardas,
Cumplice dessa amada
que ainda desejas.
Apesar de tão rejeitada.

Te vestes de brilho,
para iluminar lhe as noites,
buscando alguma atenção,
que console tua paixão.

Mas essa conturbada relação,
eivada de preconceito,
torna cada mostra de sedução
um novo, eterno, tormento.
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Niilismo na separação


Amante lhe cativa,
implora pela sua volta,
mas você, niilista, não liga,
não acredita ou se importa.

Sentimentos reprimidos
explodem e, em vão, redimem
esse acúmulo de sofrimentos,
continuamente constrangidos.

Sorrateiros, corrompidos
agridem carentes corações
que se expõem para serem feridos
por dolorosas desilusões.

Sem despertar a ira dos preteridos,
choram em desespero, os mais arredios,
inconformados com tal condição.
Pois, não aceitam tão rude separação.
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João um eterno retirante


O sol queimava a fronte de João,
que embevecido pelo tristonho lamento,
a ladainha sofrida da típica rabeca,
dormia o sono dos séculos
em seu berço de pano,
a rede dos tempos...

Enquanto dormia,
timidamente sorria,
ocultando atrás da boca sem dentes,
o seu pobre sorriso ausente;
típico de um eterno retirante.
Um João de “barriga vazia”,
um João decente,
mais um João que sofria...

Sonhando seu sonho de vida,
rezava ao “Padim Ciço”
tentando saldar sua dívida,
cobrando dos céus alguma dádiva,
sem conseguir aliviar as suas dúvidas,
dúvidas de um João sem dentes,
um “João-ninguém”,
um João descrente...

Tristemente saudando a pobreza,
seguindo sua via-crúcis,
vendo seu Cristo crucificado em cada estação,
cada dia, cada quilometro sofrido
na vida de um pobre João,
carga de um “pirata”, o novo pau de arara...
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Seu cheiro de tangerina (Miniconto)

Meu nome é João, um jovem brasileiro, que foi pesquisar a cultura do norte da África, um amante de civilizações antigas. Entre uma civilização e outra, apaixone-me por Isis. Uma linda colega de curso de história na Universidade que frequentava.

Ela, sem que eu soubesse, era filha do líder religioso local. Certo dia, voltando do curso, o pai da garota encontrou-nos, juntos, abraçados.

Não falando a língua portuguesa, começou  discutir em espanhol, língua que dominava devido à ligação com a península Ibérica, através de Gibraltar no Mediterrâneo, e, transtornado, repetia sem parar: “Mira con los ojos no con las manos” ou “Olha com os seus olhos, não com as suas mãos”.

Sem a intensão de ser irônico, mas correndo algum risco, respondi: “En la verdad no. El contemplar completo involucra todos los sentidos. Visión, sentido de escucha, olfato, tacto y el sentido del gusto.” 
Ou seja, “Na verdade, não. A contemplação plena envolve todos os sentidos. Visão, audição, olfato, tato e paladar”.

Só, mais tarde, percebi o quanto minha petulância e insensatez o incomodou. O pai de Isis, não se conformando com a situação, retirou-a da Universidade e proibiu-a de ter qualquer relação comigo.

Confirmando a minha opinião, sobre aqueles cuja profissão de fé é castrar o sentimento dos outros e em nome de uma santa moralidade impõem burcas sobre a humanidade, crendo preservar a castidade.

Apesar de toda a pressão, nos encontramos na casa de um amigo, que aceitou ser nosso álibi. Cada momento compartilhado era intenso e nada mais importava. 

“Bastava a candura do seu olhar
para expor o contato já denunciado
no aroma de tão doce menina,
a impactar e envolver meu olfato
com seu cheiro de tangerina.”

Os encontros clandestinos continuaram até o meu retorno ao Brasil, com o fim dos estudos. Continuamos em contato, por algum tempo, mas a distância e a vida foram esvanecendo desejos “muy calientes” e os nossos caminhos seguiram seus rumos.

Hoje, já não tão jovem, quando recordo esse tempo, lembro-me com saudade do “aroma de tão doce menina, com seu cheiro de tangerina”.
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Sem rumo


Eu, só, solidão,
perdido na multidão,
que caminha sem rumo,
sem destino,
que anda, a procura da fé...

Eu, só, solidão,
sinto a brisa soprando,
vejo a rosa chorando,
a vida correndo,
sofrendo a agonia do tempo...

Eu, só, solidão,
vejo a noite,
ela desce soturna
e confirma a solidão,
a angústia da escuridão...

Eu sofri, corri,
fugi da multidão,
abandonei a confusão,
gritei, berrei,
perdi a razão, acordei...

Eu, agora, sem hora,
sinto-me só,
perdido, sentido,
sem destino, sem tino,
sem rumo, eu sumo...
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Pedra de Sísifo


Rolar pedra morro acima,
é  tão desalentada sina,
quanto observá-la descer
é mal demais para padecer.

O ser humano passa a existência
em busca de sua essência,
mas em um mundo desconexo,
torna-se apenas perplexo.

Assediado por entidades envolventes,
como as religiões e ideologias,
paga seus pecados mais contundentes
com revolta sem precedentes.

Como Sísifo, por ter enganado Hades,
foi castigado por Hermes
a empurrar uma pedra morro acima
e tornar a buscá-la, numa eterna rotina.

Seu castigo é observar,
com eterno pesar,
que apesar de toda a revolta,
nada muda, e a rotina sempre volta.
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Selenita

Toda vez que me vejo
onde o desejo
é mais forte que o real
sinto-me sideral...

Percebo, bem de perto,
no céu aberto,
a eterna nave celestial!
Lua, que nos circunda, tal qual.

Vago perdido em devaneios,
na busca de sentidos,
embriagado, por demais, para expressar
o meu encantamento pelo luar.

Esqueço o chão que piso,
com franco sorriso
contemplo a ilusão,
então, improviso...

Declamo um poema,
clamando por órbita
que contorne meu dilema
e, finalmente, me torne fiel selenita.
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Porta-retratos


Observo fotos em profusão.
Percebo momentos congelados,
mas nem sempre preservados,
tais quais pequenas gotas de emoção.

Testemunhos de lembranças,
guardadas no limbo das reminiscências,
que afloram em nossa consciência
como imateriais heranças.

Na sala, no quarto, em destaque,
expondo cenas de família e amigos,
merecendo aplausos da melhor claque
pelos instantes intensamente vividos.

Partes de um confuso quebra-cabeça,
onde cada peça guarda a sua riqueza,
mimetizada em imagens e cores
de inesquecíveis alegrias e amores.

Edito o longo filme de uma vida.
Monto, a partir de dispersos fotogramas,
um universo de histórias comovidas,
que me rementem a romances e dramas.
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Encontro

Busco a todo momento,
liberdade que só encontro,
debruçada no horizonte,
entre delicados filamentos...

Nuvens metafóricas,
inebriadas de retórica,
que falam aos meus sonhos,
sobre meu Eu, meus sentimentos...

Construo um píer para o limiar...
Resoluto, das nuvens, me aproximo,
com meu coração brandindo,
certo de meu Eu encontrar...

Então, me elevo ao firmamento,
contemplando o rubro entardecer
refletir nos meus pensamentos,
e fico sereno por meu Eu... amadurecer...
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