Escritas

Lista de Poemas

labor ou ofício

se fosse poeta por ofício
escreveria ofícios e despachos
ou outra coisa que não precisasse escrever

se tivesse por labor ser poeta
com certeza faria versos
livres de qualquer compromisso

eu e eles!

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Senha

Abram-se todas as portas
Com palavras retas
E poemas tortos
E ouvidos bestas

Abram-se todas janelas
Que as feias
De calcinhas e meias,
Calçolas e camisolas
Querem dançar

Fechem todas as bocas
Que a poesia quer
Que a prosa cale

Façam da língua faca
Afiada no pescoço,
Da moça, do moço

Língua escrita
Vontade bonita
Calem-se todos e não digam
Senha nenhuma!

Sua senha para me ouvir
Sou eu quem fala:
--Cala a boca!
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Eu resto

Neste envelope sem selo

Contendo um apelo

Anexo ao pedido

Meus restos, sobras e raspas



Uns versos não meus

Conservo entre aspas

Dos meus cacos afiados

No esmeril chamado vida

Que arde e queima a ferida



Entrego meus restos de versos

Sentimentos reversos de apreço

Sem preço te vendo

Sem posse te dou-me



Me junta

Reconstrói

Cata-me, eu que sou resto

De tudo que sobrou

E que presto

Presto, veloz me faço teu

Querendo ser eu resto todo inteiro

Do que sou te me dou

Resto que sou
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Beijo verso

Parece-me estranho escrever o verso profundo

Que em ti chegue tão forte quanto o toque de teus lábios

Despertando em mim o silêncio do verso perfeito.
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Não saia voando

Tenho medo de dizer-te
Qualquer coisa que seja,
Mas digo.


Tenho medo de olhar-te
Nos olhos diretamente,
Mas olho.


Tenho medo de abraçar-te
Com o carinho que sinto,
Mas abraço.


Sabes o que não temo?
A tua cor de pele
Que é a da mais rara flor.


A tulipa negra.


E sabes de que mais não tenho medo?
São duas asas brancas
Enormes que vejo em tuas costas.


Sei que não és anjo nenhum
Mas não entendo
Porque as vejo.


Sei que o medo
Não é de ti.
É de mim mesmo.


Ver-te sair voando
Em direção ao céu
E nunca mais voltar.
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Espuma do mar

Zeus, que susto!


Um homem robusto
Que a acompanha,
Ao sair desta água que parte
E parte dela salgada
Por meu desgosto
Em vê-la acompanhada



Antes fosse saída como Afrodite
Dos colhões de outro deus arrancados
Jogados ao mar, e de espumado
Saiu-lhe A deusa.


Vil desejo...
Sei que passa
Tanto ele; desejo, quanto ela
Onda que vejo, quero e desisto.



E este encanto foi como
A própria de onde saiu
Bateu a beira e voltou atrás
Espumou intensa e dissolveu-se



E eu,
Como "o tolo do Orfeu"...
Dane-se ela, pseudo-Afrodite
Afogo-me mesmo
No encanto da minha Eurídce
Que é o rio que passa constante
De infinitas curvas

Que tanto faz se insinuantes ou não . . .



"o tolo do Orfeu" é uma citação de um poema de Flá Perez : "Sem Lenda"
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Ophelia, a orquídea de Antonia

Nunca escrevi um texto a pedido de alguém, sempre há uma primeira vez!


Coitada das duas, da Antonia e da Ophelia, a Antonia que pensa que é a dona da Ophelia e da Ophelia que vive presa num vaso dentro de um apartamento, nunca experimentou a liberdade de estar na natureza, é cria de cativeiro... Na floricultura pelo menos tinha a companhia das outras orquideas sem donos e sem nomes. Coitado mesmo sou eu, que nunca leu Sheakspear e nem sabe da história da Ophelia, e mais coitado ainda se Caeiro me visse falar isso de uma planta. Meu Deus! Falar que uma planta é uma coitada. Eu não sei nada a respeito da morte dele, mas se foi enterrado está se revirando no túmulo! Coitado do Caeiro se pudesse ler esta bobagem que escrevo...
Eu estou aqui, olhando para uma foto da Ophelia florida, tentando imaginar o que ela sente ou pensa. Ela não sente ou pensa é nada. Ela é que é feliz! Não tem cérebro, essa porcaria que só me enche a cabeça...
É...
Viva a Ophelia que não tem cérebro, que não sabe que exite mas existe, que não sabe que é orquídea e sabe florir, que não fala e nem escreve. Se é feliz? Provavelmente não, plantas não lêem e nem escrevem dicionários pra definir, não criam conceitos de nada, só fazem o que interessa : existir. Mas se sentisse alguma coisa com certeza seria felicidade, por deixar a Antonia de bem, feliz por cuidar de uma planta pela primeira vez na vida e eu feliz em descobrir que sou um idiota tentando fazer de conta que é uma planta pra sentir e escrever como uma delas...
É Ophelia, você sabe florir, alegrar, perfumar... e eu... só te olhar numa foto porque a Antonia pediu uma historinha...
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A novidade

A grande novidade
Trajada de deusa Afrodite
Ou mortal Psique.

Quero a novidade de novo
Que a velha do ontem
é antiguidade de hoje

A novidade de tudo novo
Nova mente
De tudo de novo
Novo de ovo
Botado, chocado

A grande novidade
é velha de novo
é nova de velha
E ideal de ser inédita

A novidade,
Nada mais!
Querer tudo
Velho novo.
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Olhar-te

Olhar-te

Não cria em mim só excitação carnal.

É vontade de olhar-te novamente.

E olhar-te

Para não sentir desejo de posse.

E olhar-te até que percas o sentido

E deixes de ser humana, mulher e seja apenas maravilha.

E olhar-te

Até cegar-me para não poder

Olhar-te

Novamente.

Sentir-te somente.



Olhar-te é mistério.

Deixo de ser humano

E sinto apenas.

Um prazer,

Um bem

estar,

Um êxtase indescritível!

Parecido com frio na espinha, na barriga.

Parecido com um tremor.

Parecido com o que dizem ser amor.
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Pedreiro ou poeta?

Não sou um pedreiro

Construindo um muro



Meu labor não tem hora

Nem resulta em obra

Não me sinto artista

Nem construtor ou poeta

Ajeitando palavras e rimas

Uma em cima da outra

Como se fossem tijolos

Unidos por argamassa

Produzindo um muro

Duro

Em pé!



Sou um reles engenheiro

Que inspira poesia

Respira sentimento

Inspira ar

Respira ar

Lê o que gosta

Escreve o que não gosta



Recuso-me ser

Recuso-me agir

Recuso-me não sentir



Ajeito sentimentos

Por entre as palavras

Deito pela boca o excremento verbal

Mas o desenho em letras e

Fodam-se métrica e rima

Estrofes e versos

Chuto tudo e arrebento

Esta estúpida poesia

Construída como muro.
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Comentários (1)

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Martiniano
Martiniano
2020-04-30

Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.