Escritas

Lista de Poemas

O corvo do abismo

















Esta noite deparei-me novamente
Com a fronteira, com o abismo.
O lugar onde perambulam fadas,
Garotas pálidas de aparência fantasmagórica.
Não havia maritacas barulhentas,
Aquelas que nunca se calam..
Mas uma ave dita de mau agouro assentou-se próximo
E em silêncio me olhou como se fizesse um convite
'Um sobrevoo por sobre o abismo?'

Seus olhos proferiam palavras mudas,
Ecoavam em meu interior.
Um sentimento de negação,
Do saber que não deveria, conteve-me
Num instante se formou nítida a imagem
A ave negra finalmente me encarou e disse :

'A ti não houve Lenora
E hoje aprecias a aurora
Levanta-te logo cedo
Em preces que te abafam o medo

Não te houve Lenora
Porém sentiste e choraste a partida
Buscando inutilmente a calma
Tentaste a cura lambendo a própria ferida
Mas a saliva não lava a alma

Não te estendo as mãos porque não tenho
Não te ofereço uma asa pois ambas me são necessárias



Aproxima-te então e pula comigo
Abandona tudo e encara o abismo
Mas te lembres que não tens asas
E que não voltarás para casa
E tampouco verás aquela que para ti
Foi como Lenora

Não terás mais a dor da lembrança
O sentimento de vazio da desesperança
Conceda-me esta última dança
Mas lembra-te: logo após, nada mais, nunca mais.'



E a ave prostrou-se diante do abismo

Virou-se para trás e fitou-me brevemente
Sem insistir, emudeceu e alçou voo sozinha

Virei-me para os lados
Percebi que não mais havia ali
Fadas ou garotas pálidas

Quando me voltei para ver o corvo
Não havia ali nem corvo ou abismo
Apenas um horizonte árido e um fio d'água
Acompanhados de um gralhar constante em meus ouvidos:
'Nunca mais!
Nunca mais!'
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você

você?

não é um pronome do caso reto.
é uma segunda pessoa,
com certeza indireta.

tuas, melhor dizendo, suas ações
são sempre através de terceiros
mas do caso reto.

se você é uma pessoa?
não...
não, com certeza não

mas substitui uma
pelo nome
pronome
que poderia ser tu

ai sim tu te tornarias uma pessoa
não agindo como uma terceira
e não nos deixando a vossa mercê.

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Contentamento



E eu que ando triste estando contente.
Contente por estar aguentando sozinho
E triste por estar acontecendo sozinho

Eu é que ando triste
Por que estou contente
Em estar sozinho

E tão contente
Em estar sozinho
Que preciso de alguém
Para dividir este contentamento.
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Entrelinhas

Entrelinhas

Entre as linhas

Não há nada!



Somente um espaço em branco,

Ou se estiver escrito, entre as linhas existem letras,

Aglutinadas.

Palavras.

Pontuação.



Entre elas não há significado.

Há sobre elas.

No que está escrito em cima delas.



Entrelinhas

Retas ou tortas

Só existe o que

Supostamente existe.



Existe o que não escrevi

O que não pensei

E o que ninguém vai encontrar.
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Pérolas

Estas pérolas

Que circundam a delicada

Existência do que quero tocar

Com minhas brutas mãos

Que um dia estapearam alguém

Que me deu pérolas, das profundezas

Do nobre sentimento da alma,

E eu não soube valoriza-las



Estas que te circundam

São muitas, e nem as quero.

Você, pobrezinha...

Carrega este apanhado delas

Querendo ser uma grande ostra

Vivente nas profundezas

E possuidora de tudo,

Tudo que guardas em segredo

Ensimesmada

Em si escondida.



Enquanto mostras um enfeite

Ao redor de teu pescoço,

Eu vampiro sedento ti

Quero mais é desmontá-lo todo

Morder-te, beijar-te

E mostrar-te quão preciosa

Simples e única é

A pérola que guardas por dentro

E não a revelas...

E não percebes que és

A Verdadeira Pérola

E não a ostra que a esconde.
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Não pertenço

"Quando escrevo visito-me solenemente" (Fernando Pessoa)

Quando leio me descubro não ser eu
Dou-me por completo a uns poucos versos
Que mal compreendo,
Nem sei bem se dizem o que estou a entender.

Mas e daí?
Tanto faz, quando leio abandono-me solenemente
Ponho-me no esquecimento de que não pertenço a meu corpo
E nem sei mesmo se o sinto,
Versos me possuem, me arrancam de dentro não sentimentos
Arrancam-me sutilmente da quietude fingida
Nos momentos de sobrevivência.

Adoro comida, comer, dormir e não ler nada.
Um absurdo paradoxal, quando digo que leio e gosto
Gosto sim, não gosto é da preguiça que sinto
Em abrir um livro e mover os olhos
Cansam-me os músculos, esta perseguição insólita
Correndo e correndo atrás de letrinhas paradas
Que não se movem, que não falam e não exalam

Quando leio, não sou eu quem lê
É a minha vontade em fazer de conta que gosto de não fazer o que faço sempre.

Escrever o que leio e ler o que escrevo e imitar quem leio e aprender a ler e entender
Que um verso escrito já não pertence mais a quem o escreveu

Eu sou eu e não me pertenço
Minha poesia é minha somente nos instantes em que está em mim
Após escrita eu sou mais dela e ela a dona
Porque não sei uma delas sequer em memória

Mas elas são certas de si
E existem sozinhas
E saídas de mim
A elas não sou mais ninguém e nada

Não me pertenço
Elas não me pertencem
Mas elas são a minha maneira
De ser eu mesmo sem sentir-me dono
Nem delas, nem de mim, sendo assim
Não pertenço.
Mas estou vivo dentro delas
E elas já não mais em mim.
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Ajuda de Neruda

Peço-te licença,
Caro Neruda
Empresta-me versos
Preciso de ajuda
Os meus são dispersos
Na penumbra surgida
Em um crepúsculo
O sol tornado
Menos que inteiro
Metade
Menor
Ausente

Meu coração tomado, espremido
Por entre os dedos
Desta penumbra
Restada
Sobrada
Pós-beleza

Empresta-me este verso
Que pôs cheiro nas letras
Cores nas dores
E nomes nas penas
Resta-me o socorro em ti
Meu caro, agora ausente
Grato pela ajuda
Fez-me crepúsculo insistente
Na penumbra gélida e muda.
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Completamente livre

Vivo preso num hospício
Chamado 'meu corpo'
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas


Vivo preso num manicômio
Que se chama 'minha mente'
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas


Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas idéias


Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre
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Caleidoscópio

Cacos coloridos
Caídos de corpos doloridos
De toda sorte de dores
Sentimentos e cores

De amores roxos
Decepções amarelas
Alegrias azuis

Recolhidos aos montes
Acondicionados com cuidado
Na memória, minha história
De fantasia, linda sinfonia

Choro bom de alívio
De lágrimas opacas
Fracas, tão fracas,
Quase de força escassa
Insistentes em não se derramarem
Por saberem que estavam negras
Com medo de assustar quem as queria fora

Lágrimas de sangue...
Antes assim fossem
Sangue vivo e lavado
Mas assim escuras, levaram todas as cores
Mesmo as tristes que coloriam as dores.
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Quitanda (a Eça de Queirós)

Talvez deva mesmo
Abrir uma boa quitanda
Dedicar meu precioso tempo
Em algo útil, vender comida, fruta.
Lindas mangas, brilhantes de cor intensa

Subjugo meus sentimentos a outro
Que deveras não irá senti-los
Minhas doces mangas
Ah estas sim, sentirão de fato o sabor.


Entrego-me despido
Sem pudores moralistas
Pensando ser altruísta
Que alguém se identifique
E o que vivi lhe sirva de ajuda


Ledo engano
Vou é vender fruta
Mesmo.


'Bom dia senhora'
'Obrigado pela preferência'
'Tchau, até amanhã'


Quanta gentileza!


Apodreçam meus versos
Todos na gaveta
Amadureçam os frutos
Todos na prateleira


Um livro meu?
Só se for do fluxo de caixa
Da minha nova empreitada.


Minha prosa e poesia serão encaixotadas
Junto das berinjelas velhas
Chicórias murchas
Tomates podres


E depois jogados
À terra virgem
Para servirem de adubo
A algo que cresça
E sirva para alguma coisa


Minha quitanda vai chamar-se:
Livraria.
E vai ter livro com casca
E fruta com capa
E versos de cebola
E cachos de letras
E abobrinha do tipo prosa
E poesia do tipo goiaba


E verde...
Só Cesário.
E eu...
Vou ser empresário.

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Considerações :

De acordo com uma história que conheço... ao fim da vida, Eça de Queirós disse que teria sido mais útil a sociedade se tivesse aberto uma Quitanda.

Já pensaram?
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Comentários (1)

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Martiniano
Martiniano
2020-04-30

Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.