Lista de Poemas
O corvo do abismo

Aproxima-te então e pula comigo
E a ave prostrou-se diante do abismo
Virou-se para trás e fitou-me brevemente
você
você?
não é um pronome do caso reto.
é uma segunda pessoa,
com certeza indireta.
tuas, melhor dizendo, suas ações
são sempre através de terceiros
mas do caso reto.
se você é uma pessoa?
não...
não, com certeza não
mas substitui uma
pelo nome
pronome
que poderia ser tu
ai sim tu te tornarias uma pessoa
não agindo como uma terceira
e não nos deixando a vossa mercê.
Contentamento

Entrelinhas
Entre as linhas
Não há nada!
Somente um espaço em branco,
Ou se estiver escrito, entre as linhas existem letras,
Aglutinadas.
Palavras.
Pontuação.
Entre elas não há significado.
Há sobre elas.
No que está escrito em cima delas.
Entrelinhas
Retas ou tortas
Só existe o que
Supostamente existe.
Existe o que não escrevi
O que não pensei
E o que ninguém vai encontrar.
Pérolas
Que circundam a delicada
Existência do que quero tocar
Com minhas brutas mãos
Que um dia estapearam alguém
Que me deu pérolas, das profundezas
Do nobre sentimento da alma,
E eu não soube valoriza-las
Estas que te circundam
São muitas, e nem as quero.
Você, pobrezinha...
Carrega este apanhado delas
Querendo ser uma grande ostra
Vivente nas profundezas
E possuidora de tudo,
Tudo que guardas em segredo
Ensimesmada
Em si escondida.
Enquanto mostras um enfeite
Ao redor de teu pescoço,
Eu vampiro sedento ti
Quero mais é desmontá-lo todo
Morder-te, beijar-te
E mostrar-te quão preciosa
Simples e única é
A pérola que guardas por dentro
E não a revelas...
E não percebes que és
A Verdadeira Pérola
E não a ostra que a esconde.
Não pertenço
Quando leio me descubro não ser eu
Dou-me por completo a uns poucos versos
Que mal compreendo,
Nem sei bem se dizem o que estou a entender.
Mas e daí?
Tanto faz, quando leio abandono-me solenemente
Ponho-me no esquecimento de que não pertenço a meu corpo
E nem sei mesmo se o sinto,
Versos me possuem, me arrancam de dentro não sentimentos
Arrancam-me sutilmente da quietude fingida
Nos momentos de sobrevivência.
Adoro comida, comer, dormir e não ler nada.
Um absurdo paradoxal, quando digo que leio e gosto
Gosto sim, não gosto é da preguiça que sinto
Em abrir um livro e mover os olhos
Cansam-me os músculos, esta perseguição insólita
Correndo e correndo atrás de letrinhas paradas
Que não se movem, que não falam e não exalam
Quando leio, não sou eu quem lê
É a minha vontade em fazer de conta que gosto de não fazer o que faço sempre.
Escrever o que leio e ler o que escrevo e imitar quem leio e aprender a ler e entender
Que um verso escrito já não pertence mais a quem o escreveu
Eu sou eu e não me pertenço
Minha poesia é minha somente nos instantes em que está em mim
Após escrita eu sou mais dela e ela a dona
Porque não sei uma delas sequer em memória
Mas elas são certas de si
E existem sozinhas
E saídas de mim
A elas não sou mais ninguém e nada
Não me pertenço
Elas não me pertencem
Mas elas são a minha maneira
De ser eu mesmo sem sentir-me dono
Nem delas, nem de mim, sendo assim
Não pertenço.
Mas estou vivo dentro delas
E elas já não mais em mim.
Ajuda de Neruda
Caro Neruda
Empresta-me versos
Preciso de ajuda
Os meus são dispersos
Na penumbra surgida
Em um crepúsculo
O sol tornado
Menos que inteiro
Metade
Menor
Ausente
Meu coração tomado, espremido
Por entre os dedos
Desta penumbra
Restada
Sobrada
Pós-beleza
Empresta-me este verso
Que pôs cheiro nas letras
Cores nas dores
E nomes nas penas
Resta-me o socorro em ti
Meu caro, agora ausente
Grato pela ajuda
Fez-me crepúsculo insistente
Na penumbra gélida e muda.
Completamente livre
Chamado 'meu corpo'
Aprisionado dentro da carne
Contido pelas amarras
Das necessidades fisiológicas
Vivo preso num manicômio
Que se chama 'minha mente'
Repleto de jardins,
Fontes e estátuas de musas,
Infindáveis rebanhos errantes
Nas colinas azuis dos delírios
Das árvores cheias de maritacas
Vivo completamente livre
Em um lugar chamado
Sociedade, livre do que quero
Livre do que espero
Livre das minhas idéias
Sou insano e comportado
Louco e consciente
Responsável e doente
Crente na anarquia
Que existe plena
Nas prisões em que
Sou plenamente livre
Caleidoscópio
Caídos de corpos doloridos
De toda sorte de dores
Sentimentos e cores
De amores roxos
Decepções amarelas
Alegrias azuis
Recolhidos aos montes
Acondicionados com cuidado
Na memória, minha história
De fantasia, linda sinfonia
Choro bom de alívio
De lágrimas opacas
Fracas, tão fracas,
Quase de força escassa
Insistentes em não se derramarem
Por saberem que estavam negras
Com medo de assustar quem as queria fora
Lágrimas de sangue...
Antes assim fossem
Sangue vivo e lavado
Mas assim escuras, levaram todas as cores
Mesmo as tristes que coloriam as dores.
Quitanda (a Eça de Queirós)
Abrir uma boa quitanda
Dedicar meu precioso tempo
Em algo útil, vender comida, fruta.
Lindas mangas, brilhantes de cor intensa
Subjugo meus sentimentos a outro
Que deveras não irá senti-los
Minhas doces mangas
Ah estas sim, sentirão de fato o sabor.
Entrego-me despido
Sem pudores moralistas
Pensando ser altruísta
Que alguém se identifique
E o que vivi lhe sirva de ajuda
Ledo engano
Vou é vender fruta
Mesmo.
'Bom dia senhora'
'Obrigado pela preferência'
'Tchau, até amanhã'
Quanta gentileza!
Apodreçam meus versos
Todos na gaveta
Amadureçam os frutos
Todos na prateleira
Um livro meu?
Só se for do fluxo de caixa
Da minha nova empreitada.
Minha prosa e poesia serão encaixotadas
Junto das berinjelas velhas
Chicórias murchas
Tomates podres
E depois jogados
À terra virgem
Para servirem de adubo
A algo que cresça
E sirva para alguma coisa
Minha quitanda vai chamar-se:
Livraria.
E vai ter livro com casca
E fruta com capa
E versos de cebola
E cachos de letras
E abobrinha do tipo prosa
E poesia do tipo goiaba
E verde...
Só Cesário.
E eu...
Vou ser empresário.
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Considerações :
De acordo com uma história que conheço... ao fim da vida, Eça de Queirós disse que teria sido mais útil a sociedade se tivesse aberto uma Quitanda.
Já pensaram?
Comentários (1)
Este (desejo primeiro) é um texto do poeta Victor Hugo.
Minha biografia
Será um livro de capa dura,
Dura de abrir.
Para que ninguém tenha vontade de ler
As folhas todas em branco
As páginas numeradas
De acordo com os anos de vida
Nelas escrito nada
Quem quiser saber-me
Leia-me!
E não minha vida contada.
Não terá utilidade,
Só matar curiosidade.
Não sou santo de ninguém
Não faço bem a todo o mundo
Não quero bem a quem me quer mal
Vivo insatisfeito com o exterior
Plenamente confuso em olhar
Inconformado com os valores alheios
Imperfeito sujeito
Predicando sem verbo
Transitando na indecisão
De ser ou não ser
Seja lá o que quer que seja.
Umas dúvidas não tenho.
Eu sou eu e pretendo ser mesmo,
E não sou Deus!
Melhor!
Minha biografia terá um nome
“Sinto muito”
Sem páginas em branco
Uma única escrita
Dito isto:
“Vivi por que não quis existir.
Quem existe é Deus
O que fiz de bom não fui eu
O amor que dei não era meu
O que falei de bom não era meu
Fiz o que quis sempre (escrever)
Tive o que me dei
Quando fui eu mesmo
Deixando de lado o querer entender
O significado ou sentido da vida.
Nada disso existe.
Não me entreguei à sorte
Do desejo, do saber, do conhecer.
Senti muito, demais, coisas ruins e boas.
E tive vida em meu ápice.
Entender-me com Deus”
Mas por enquanto sou vivo
E essa é biografia nenhuma.
Sim ficção criada,
Pelo personagem que ainda sou
E só terei vida vivida depois de morrida.
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