Escritas

O corvo do abismo

Guilherme Coutinho
















Esta noite deparei-me novamente
Com afronteira, com o abismo.
O lugaronde perambulam fadas,
Garotaspálidas de aparência fantasmagórica.
Não haviamaritacas barulhentas,
Aquelasque nunca se calam..
Mas umaave dita de mau agouro assentou-se próximo
E emsilêncio me olhou como se fizesse um convite
'Umsobrevoo por sobre o abismo?'

Seus olhosproferiam palavras mudas,
Ecoavam emmeu interior.
Umsentimento de negação,
Do saberque não deveria, conteve-me
Numinstante se formou nítida a imagem
A avenegra finalmente me encarou e disse :

'A ti nãohouve Lenora
E hojeaprecias a aurora
Levanta-telogo cedo
Em precesque te abafam o medo

Não tehouve Lenora
Porémsentiste e choraste a partida
Buscandoinutilmente a calma
Tentaste acura lambendo a própria ferida
Mas asaliva não lava a alma

Não teestendo as mãos porque não tenho
Não teofereço uma asa pois ambas me são necessárias



Aproxima-teentão e pula comigo
Abandonatudo e encara o abismo
Maste lembres que não tens asas
E que nãovoltarás para casa
E tampoucoverás aquela que para ti
Foi comoLenora

Não terásmais a dor da lembrança
Osentimento de vazio da desesperança
Conceda-meesta última dança
Maslembra-te: logo após, nada mais, nunca mais.'



E a ave prostrou-se diante do abismo

Virou-se para trás e fitou-me brevemente
Seminsistir, emudeceu e alçou voo sozinha

Virei-mepara os lados
Percebique não mais havia ali
Fadas ougarotas pálidas

Quando mevoltei para ver o corvo
Não haviaali nem corvo ou abismo
Apenas umhorizonte árido e um fio d'água
Acompanhadosde um gralhar constante em meus ouvidos:
'Nuncamais!
Nuncamais!'