Escritas

Naufrágio

Gisele Leite










Tudo afundando



Lentamente



Num mar de enigmas e silêncios



E sumindo, perdendo a forma



Contornando sinuosas curvas



Da imaginação







Tudo afundando



Em lama, em água



Infiltrando-se em sólidos



Insólitos



Pérfuros-contundentes







Cortando, molhando



Dispersando toda a essência



No mar de inquietude e



angústia







Tudo afundando de forma vertical e



Adernada



Solene e



progressivamente apagando-se



Do limiar do horizonte



O risco do arco-íris,



a promessa do cais aberto



Os punhos em riste



E, a palavra imaculada na garganta



Encravada na madrugada



Só a luz permanecera ali



A pairar sobre o mar,



soberana perante a lua e as vagas







Tudo afundando em sangue



Em vermelho pulsante



E coagulando



Escurecendo



Às vistas perdendo imagens



Como lágrimas







As vistas perdendo imagens



Num branco absurdo e opaco



No absurdo da luz no fim das trevas.







Tudo afundando



Em solidão e se perdendo em



retilíneas vertentes



E, quando as retas chegam ao infinito



Descobrimos com saudades



da geografia,



da etnia,



da melodia



encantada do naufrágio



lirismo imaginário das sereias,



da cor improvável das areias



da realidade encoberta de máscaras



de iniqüidade.







Tudo afundando no raso da tarde



Num copo d'água



A sede, o rancor e o

porre.















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