Escritas

Não saber

Gisele Leite

Nossa ignorância
Procuramos definições nas sombras
Nas esquinas

 

Nossa ignorância
diante da noite estrelada.

Ínsita em estranhas químicas.

 

Lá atrás, houve um caminho.
Existiram dias, anos e séculos...


Quanto tempo ainda há para percorrer?
E, quando o punho se fechar sobre você?
Ou quando da hora do soco surgir,

tenha  se agachado.
Numa covardia íntima explícita.

Ninguém quer sofrer...

 

Qual palavra pronunciar se
o sono não vier...?
Quando os sonhos não flutuarem.

E, a chuva guiar-se sem chofer.

 

 

Pedimos para ficar só mais um dia.
Só mais um pouco.
Deve haver algum sentido.

No labirinto deve haver alguma alegria.

 


Deve haver um vetor-chave.
Um significado colado no peito.
Deve haver uma bússola movida a sinapse.

 

Deve haver uma resposta
Para os enigmas do silêncio.
Para os que calam e gemendo
renunciam à vida, com dor e tristeza.

 

Qual será a derradeira palavra?
Qual será a última sentença?
O último devaneio da alma
que o capitão da nau irá ter...

E se a carranca não sobreviver...

 

Quando chegar ao porto.
Um ponto perdido no infinito
Fora dos mapas e dos sentidos.


Um porto perdido onde a âncora
vai dormir na ânsia de ser erguida.
E, novamente desbravar o desconhecido.

Dentro desse perfume de cânfora...

 

Quando cessar seu movimento.
A Terra ainda em rotação.
Recitará poesias em sua translação.

 

Enquanto isso, permaneço insone.
Diante da mão que me oferta o afeto.
E, a renúncia de tudo.
A abdicação de todos os tronos.
A ideia cindir-se em sonhos imortais.

Libertando-se da verve de inseto.

 

Em afagos inesquecíveis.
E, a manhã infinita que traz todos os
dias novamente. 

Onde há ignorâncias invencíveis...

 


 

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