
Calei-me
Deixei passar todos os ecos
perfilados na ausência
da tua voz
Revelei todo o silêncio aprumado
no dorso deste verso
me consumindo pela noite onde
me esgueiro quase inanimado
Frederico de Castro

Nem sei se te descortino ali
juntinho a um abreviado adeus
quando conectei o wireless num ponto
qualquer no modem dos teus desejos
utilizando o bluetooth dos nossos afagos
alimentando a osmose desta interface
endereçada ao teu e-mail no areópago
das conexões @ . com
onde tantos...tantos, milhões de desenlaces
se configuram em digressões virtuais
via satélite ou na fibra óptica sintetizada
num chip repleto de emoções
perdi a ligação wi-fi numa rede
periférica entre cortada por brados
deste hardware do qual me tornei
fiel usuário
a compor a memória dos teus
anseios
insiro no motor de busca
a fonte onde formato
o tempo trajado de tantos galanteios
alimentando um servidor disponível
e crucial
num download exclusivo para os
meus ficheiros protegidos por
direitos autoriais
esgotou-se na homologação
dos dias
quando desligámos a hiper banda
de tantos abraços comercializados
por hackers incorporados
no sistema banal
assim monitorado por um anti-virús
tão passional
deste meu wi-fi tão convergente
alimentado num protocolo
de beijos on-line
visualizado nos limites de uma
rede social interactiva
pernoitando naquele blog de desejos
que se postam
nestes versos direccionados para
o link do teu ser onde por
fim e sem mais atalhos
e em toda a banda larga
digitalmente nos conectamos
Frederico de Castro


Ali ao lado
juntinho a uma página escrita
na brevidade de uma caricia
mora o tempo insuflado em memórias
que a saudade descobriu no baú
da vida tão migratória
Ali a o lado
cruzam-se os jogos de palavras
martelando estes versos devagarinho
empihando-os no silêncio
que descamba
quase num chorinho
Ali ao lado
vi sucumbir a primavera
pela ponta do tempo
gemendo ao relento da noite
onde desabrocham
um poema
uma confissão
tantos beijos
perfumados de alfazema
Ali ao lado
no baú das memórias
assumo o trono
desta poesia alcatifada
ao cetro soberano
onde elejo a adulante luz
que mergulha feliz
num manto real suserano
Ali ao lado
rebelo-me todo
tatuando um hieróglifo
de emoções plenas
divertindo a arquitectura
das palavras arremetidas
sem faixa etária
nem insígneas que o silêncio
acomodou
neste hospício do tempo
que o tempo em pinceladas
de desejos pra sempre
teu retrato emoldurou
Frederico de Castro

Sigo o latido dos
silêncios que correm
em debandada
Desperto no dia
insurgindo-me no valsar
de tantas gargalhadas que
teu sol irradia
Renova-se cada milagre
saltitando em sinfonias
doidas
sem rédias
silenciosamente selvagens
deambulando neste poema
ancorado em rebeldia
Descanso por fim
enfeitando a noite
estupefacta
tão solitária como a hora
que se despe no tempo
quase intacta
O perfume que o dia tece
em tuas pétalas trajadas
de primaveras
inunda de cor
as constelações docemente
iluminando todas as essências
viajando na minúcia deste poema
caiado de alegria
onde albergo a meiguice
ensurdecedora de um beijo
imergindo
delicadamente em ti
em soluços condimentados de euforia
que num instante breve
latindo
a todos embebeda e inebria
Frederico de Castro

Ilusionista dos sonhos
emerjo profundo na senda
de cada devaneio
escavando no meu ser
o clarão de felicidade que toda
a alma enxerga
quando desesperadamente
por ti tanto anseio
deixo o luto dos meus
silêncios apaziguar-me
em teus galanteios
onde mendigo um pequeno
farrapo de alegria quando
nocturno te pastoreio
despojo neste tempo
um caudal de palavras
escritas em todas as horas
onde me esgueiro
acelarando toda esta excitação
trajada num verso que tateio
num ameno silêncio
algemado às miragens
desta vida onde habito
quase excêntrico
ilumino os vitrais desta existência
dissimulando as sombras
recolhidas nesta transparência
espiritual
onde creio
me intruso em cada capítulo
colado à derme do tempo
que foge de permeio
toda a noite sedada
convertendo a luz dos pirilampos
numa marcha de incandescências
desfraldando o espectro
descalço deste destino
em cânticos de vigília
inspirando os versos
onde por fim me aconchego
e te escrutino
nos braços impetuosos de uma brisa
emolduro o relicário do tempo
onde incudo minhas dores
dormindo casualmente no regaço
do silêncio me consumindo inexoravelmente
Frederico de Castro

O que faço das palavras senão a
minha arma perpetrando-te
como as ciladas que invento
ao alimentar a inspiração
faminta em cada momento
senão as pontes tangenciais
onde unimos as margens do
silêncio
reencontrando-nos a bordo de cada
palavra navegando de contentamento
deixadas no réveillon dos tempos
sem sequer me consumir no sabor
da tua harmonia trajada
no colorido dos ventos
deixando todas as vogais atónitas
espraiar-se na sonoridade intercalada
nos desejos e nas preces
despressurizando-me tão caladas
morrendo grávida e faminta
por uma rima que tarda
e depressa se requinta
regurgitando sonoridades
quase perfeitas
formosas
e toantes
desembocando na grafia
de um verso rimando sem limites
em emoções tão beligerantes
embriagadas na noite
contornem o semblante esquivo
e expectante do teu ser
Pincelem o tamanho das lágrimas
que espiam o eco pitoresco de uma
eleita ode se refinando na ermida
dos silêncios tão quânticos
e inebriantes
Frederico de Castro


E depois escrevi estes versos
no sossego de um dia
murchando devagarinho
reconciliado num adeus,
até depois... tão órfão e peregrino
de tempo
que pavimentamos o soalho
da vida
repleto de sedução
caminhando pelas ruelas
da saudade quase desbotada
implorando urgente
uma singela obra de manutenção
despedindo-se dentro de nós
ao desencontro do nada que resta
indiferente à perpétua hora
morrendo devagarinho num recanto
qualquer perdido na fresta
ou no silêncio dos teus prantos
abandonando-me de vez
melindrado
vulnerável
formal
deixando na plataforma deste versos
o som do canto aflito
demorando na despedida
o aperto comovido do adeus
na hora da partida
partindo pra lugar nenhum
demorando a presença do teu ser
esquecido
encontrar o nosso remetente
amenizando as cicatrizes
umbilicalmente abraçadas a estes versos
que deixamos amortecidos
na matriz do tempo
algoz e sem outra directriz
sonhar-te cada noite
imaginar pra lá de um
sumido sonho
o reencontro da vida fecundada
na antecipação de uma lágrima
alimentando cada ciclo de um adeus
onde me aventurei como passageiro
desta saciada existência madrugando
na chama das lembranças eternamente camufladas
onde me fiz teu fiel hospedeiro
Frederico de Castro

Sou simplesmente uma partida
sem mais regresso
esvaindo-me em digressões
numa travessia quase louca
rumo a lugar nenhum
sem trajecto nem etapa
errando simplesmente
nesta peregrinação divertida
consumada... com palavras
veladas na colorida escultura
que talho de mansinho pela
noite costurada em tantas
tantas desventuras
Assim lavramos o destino
no tempo que resta
esculpindo na escuridão da noite
uma luz ou um brado sereno
urdido em mil gargalhadas
abastecendo de vida
toda a vida desabrochando
como gotas abençoadas de criatividade
reflectindo neste lúdico silêncio
a inexorabilidade
do tempo que jaz no carrocel
da nossa imensa cumplicidade
onde nos sincronizamos até à imortalidade
Frederico de Castro
