Lista de Poemas
O que recordo em ti...

O tempo soltou suas ventanias
a saudade a memória ígnea
epífania dos silêncios excepcionais
que se alimentam no destino disfarçado
de brisas indeléveis e fraternais
O que recordo em ti
amordaçou a solidão
deixando
a alma em dores profanas
a vida carente rangendo
nas divagações quase insanas
E dos versos serviçais renovei o desejo
quase caótico numa pirotecnia de palavras
imprevisíveis nascendo passionais
homófonas e inesquecíveis
O que recordo em ti
vou soterrar lá no gavetão das
minhas ternas ilusões onde fabrico
e reivento a luz do teu ser
escapulindo por um triz à desinquieta
noite replicada em beijos convalescendo
no pote do amor sem mais contradições
O que recordo em ti
replico na arquitectura das
palavras nunca ditas
invadindo o dicionário dos sentidos
prenhes onde restauro um sonho omitido
dando entrada na clínica dos meus prazeres
recostados no olhar das distâncias
desalmadamente a dois consentido
O que recordo em ti
fez-se então meu quotidiano
desarmando meu raciocínio
ensopando as horas trajadas
de infortúnio
alimentando o ciclo de vida
qual sentimento em declínio
desabitando-nos pra sempre
numa imprevisível e inusitada
hora se revelando devagarinho
Frederico de Castro
Almost blue

a Chet Baker
Quase sem sentir este sopro habita o jazz
gemendo no teu ser
A musicalidade exilada no pedestal dos céus
ornamenta o virtuosismo das ilusões harmónicas
que levitam quase anatómicas
numa fusão de sons e musicalidades tão viciadas e melódicas
Rompe a voz insinuante e solícita em constante
harmonia até alvorecer o toque lânguido e selvagem do
silêncio breve sulcando a partitura das improvisações
onde apascento o swing extasiado com os ritmos camuflados
da tua inexprimível arte abraçando a sonoridade de um blues
passarinhando aqui comprometido e tão saciado
Frederico de Castro
Secreto e invisível

Tempo de partilhar um gomo de luz
transparente
secreto, invisível
Sentir-me uma ilha descansando
no meio dos oceanos
Atravessar tuas paisagens
pálidas qual vulto navegante
inundando a súbita calmaria
ondulante e curativa
Simples transparências
desnudando minha inspiração
contemplativa
alimentando as franjas de um
sonho corriqueiro trajado a rigor
com tanta malandrice pintalgando
este poema vandalizado...em expectativa
São estados de alma quânticos
Esboços ou rascunhos que a poesia
acata num sonho tântrico
A chatice da ausência
A saudade por inerência
O morrer de amor por cada
palavra apoteótica alimentando
este silêncio sem pedir condolências
Sobraram os restos
do tempo sem permissa
a alma sem ego
solitária, abandonada
caiando a tristeza tão omissa
Os tons da noite
as palavras sem futuro
inacabadas...remissas
A liberdade mitigando
desejos...qual emoção
recuperando desta solidão
quase submissa
O sol sereno lá deixou
seu poente embalar, enxugando
o pranto ao dia que fenece
a cambalear
Resta o suicídio deste poema
despindo os silêncios metodicamente
guardados na vagem do tempo
A transparência da vida que
desabrocha quase Divina
no leito dos sonhos ninando
gargalhadas se regalando
qual poderosa e estimulante anfetamina
Frederico de Castro
Cacos das lembranças

O calculo dos tempos
Na ausência das horas
Toda a vida feita em cacos
A presença da saudade
Na tristeza que parte
Neste iniquo tempo
Trajado de cumplicidade
O vestir dos dias
O despentear tantos meses
Deglutindo cada ano
Passando num segundo
Formatado e tão fecundo
Foram sorrisos levados
Nos ventos da lembrança
Numa náusea prenhe
De serenidade
Enquanto a saudade nos verga
Com toda afeiçoada conivência
Curando uma distância tão breve
Num adeus, anónimo sentido
Zelando só tua ausência
É tempo de domar as saudades
Tranquilizar os desejos ausentes
Remediar a solidão que morre
Devagarinho em nome de um
Abraço madrugando em ti
Assim Docemente
Idos são os tempos num
Momento, passado...passando
Poeira levada na eira dos ventos
Naquela saudade invisível
Unificando os cacos da lembrança
Deixados na distância dos tempos
Frederico de Castro
A mecânica dos silêncios

No furor
o ruído
o eco do software
O devaneio de um grito
reverberando no
castiçal dos silêncios
preenchendo a ressonância de
todo o meu hardwere
O frémito ruído
o desembaraçar do tempo
num sentimento cego
sem sossego, alvoraçado
soltando gemidos num
fluído de palavras esperneando
num putrificado dia desfasado
A mecânica dos silêncios
o verso bramindo na noite
calada
a sombra passageira onde
jaz a voz quieta
num rumor vagabundo
que agora até desinquieta
A caligrafia deslizando
no sepulcro do silêncio
O obcecado e astuto ruído
atrelado ao doce silvo
de um beijo deixado no
rodapé desta algazarra
onde se fez gritante o
sorriso ocluído
Resta o farfalhar
do Outono
O chorar mansinho das
horas e dos lamentos
extenuados
A madrugada se incrustando
entre estes versos sitiados
empurrando a maçaneta da
vida gemendo entreaberta
ao suave ninar dos silêncios
que quero somente perpetuar
Na prisão dos ventos uivantes
preencho cada hora minguando
no chinfrim de um sonho
martelando a noite numa arritmia
louca, festiva
engolindo uma gargalhada soando
límpida no tilintar da tempestade
batucando, vituperando nos disjuntores
da vida num curto-circuito
eléctrizando esta canção eclodindo emotiva
Frederico de Castro
A mímica dos silêncios

Qualquer singelo momento
Emana da grandeza de um gesto
Mais que palavras
Falar, expressar
Deixar-se comover na
Virtude ou na mimica
Do que assim manifesto
Nem contesto sequer
O gesto
A conversa no silêncio
Os sorrisos que empresto
Basta só
A delicadeza nesse jeito
De olhar que te não
É molesto
Partir depois
Assim discretamente
Num aceno final
Sem palavras
Proferindo tua imagem
Que guardo absolutamente
Ficou solitária a canção
Das minhas fadigas
Confundidas entre vozes
Que se debruçam na varanda
Do tempo vadiando pelos
Ritmos desta vida
Subitamente o amor
Num gesto conciliando
Valem mais que mil palavras
Um gesto que alimente
O perfil deste silêncio
Um verso
Um recado, um eco sem demora
O adeus tecido no áspero
Momento de uma hora em fuga
Com a conivência de uma
Gargalhada tão sedutora
Somente um gesto e tua lágrima enxuga
Frederico de Castro
Um eco...num brado

Cai a tarde ardendo dentro
Frederico de Castro
A sístole do silêncio

O porteiro da noite escancarou
o silêncio nascido na vagem
do tempo bravio
desventrando o dia que pousa
ao colo do teu semblante predador
qual beijo que desperta alucinante
e intimidador
Foi benigna tão farta excitação
quando destranquei a loucura
onde me embebedei de paixão
Converti milímetro a milímetro
este momento numa pílula
de felicidade colorindo a dor
que descalço momentaneamente
assim
tu envergues minha solidão
anexada, tranquila
entre dois gomos de poesia
desordenada em verberação
Viver com a meta
já ali neste destino equivocado
é aclamar à marcha do tempo
onde filtramos palavras
movediças carregando no ventre o
infinito poema transitando
nas avenidas do tempo
tão esquecediças
Andará bramindo
a existência latindo em nós
descontente
aconchegando-me ao espiral
de silêncios onde premedito
a vida batendo em sístoles
tão latentes
esvaziando o átrio deste coração
onde me enfarto com diástoles
tão persistentes
Vivo desta contemplação
quase eterna deixando fibrilhar todo
este agitado poema em constante
arritmia e apelação
alimentando o habitat da razão
onde nossas gargalhadas celebram
o milagre que acontece num coração
que festeja cada desejo ventrículado
na aorta dos meus silêncios
em constante desfribilação
Frederico de Castro
Simples nuances

Tudo que resta neste sonho
aconchegou-se à nesga de fé
que pousa enfeitando o absorto
gargalhar dos dias
onde invento
um tempo só pra mim
peço uma eternidade para dois
um cálice de novas chances
para tantos
louca voragem ou nuance
gesto infindo repleto num sorriso
com direito reservado nesse romance
Tudo o que resta são simples impressões
Iluminando a existência perene
embebedando a fluorescência dos
nossos subtis silêncios...quase infâmes
numa procura de paisagens mágicas
desatando as aragens que penteiam teu
ser em cada hora amiúdadamente nostálgica
O que resta são destinos planeados
a vida renascendo ansiosa
no corolário do tempo
quase refém e despojado
e por nós desesperadamente velado
Fiz-te hoje minha tatuagem singular
desenhei nossas convicções vitoriosas,
instantâneas qual prémio perpetuado
no auge do amor despertando louco
e fanaticamente dissimulado
O que resta fica reservado
no corpo em êxtase
decora as metástases dos sentidos
as perífrases dos despertares inesquecíveis
acorrentados a esta luz da vida
iluminando obstinada estes versos dissertando
entre prerrogativas e sintaxes
quase imperceptíveis
São simples impressões que justificam
nobres desejos
Brilham nos meus hemisférios de loucura
entre coligações assombrosas de beijos
e sorrisos que nutrimos
ao conjugar cada verbo no pretérito
mais que perfeito
São lágrimas que já nem choro
brotam simplesmente para suavizar
a enfâse de outras dores comemorativas
deixando morrer nossas saudades
desertificando o tempo de
tantas esperanças imperativas
São sombras deambulando vadias
migrando neste tempo que foge
devastador
Emoções vagabundas alimentando
a placenta das saudades
São ígneas chamas sustentadas
numa canção que aquieta e desmaia
suspirando nesta fé celebrada
onde se esboça a vida agora fecundada
É toda a morosidade da alegria pulsando
num esplêndido momento inspirado
onde despertámos emancipados
qual acto de amor
acometido sem profanos perdões
apenas e inesperadamente comprometidos
entre o interlúdio de uma oração paliativa
e a trilha sonora das minhas solidões
graciosamente introspectivas
Frederico de Castro
No silêncio das casuarinas
Esbelta delicada
compartilhas neste dia
todo perfume cacheado
nas flores rompendo o
amendoado silêncio lisonjeado
Ornamentas meus jardins
resguardando todo a extensão
colorida embebida na percepção
do equatorial e dançarino gemido
ecoando nos ventos felizes da
vida se entregando numa
esplendorosa e perfeita concepção
Reabilitas os sambas e sembas
mordendo a epiderme do tempo
quando batucamos na calada da noite
com brados e cânticos longínquos
num acorde sensual e desenfreado
afagando e florindo o tronco de
cada silêncio esfomeado
grunhindo num adocicado calafrio
fluindo em nós aveludado
Cheguei, calado
de mansinho pra não
despertar o silêncio das casuarinas
Recompensei-te com abraços
atrevidos
atados às cordas do meu violão
ladeado de versos ávidos
servidos na bandeja de cada
renovada esperança despertando
na génese da vida erigida em
todo silêncio desaguando no pote
do tempo hoje...aqui saltitando
embriagado
Frederico de Castro
Comentários (3)
BOA TARDE...lindo e sublime.parbns.att.
BOA TARDE...lindo e sublime.parbns.att.
Poeta...li e reli vários de teus poemas e só tenho que te agradecer por compartilhar teu talento...muito obrigada!
Português
English
Español