Lista de Poemas
Poesia
Que certas noites meus lábios ilumina
E amargamente, a sós, a dor me ensina
Num lânguido chorar que a morte embala
Como alma de outro alguém que em mim se instala
Ou raio de outro mundo que fulmina
Como misteriosa nau que em mim faz escala
Lusitana, mágica, latina!
Naufrágio
E não é água nem sangue o que de meu corpo escorre
São memórias que fugindo, correm p’ra nenhum lado
Pelo rio da minha alma que enfim se esgota e que morre
Como um estranho sentimento amargurado
Que lentamente pelo presente me percorre
Que por mim passa…, e o que decorre
Afunda-se, enfim, lívido, cansado
De ser no tempo a solidão que o rio sustenta
Ou quiçá o fantasma atormentado
Pela bruma cega que na escuridão inventa
O espírito que sou, alucinado
Se sou só vento, leve-me a tormenta
Esvaído de mim mesmo, naufragado.
Nudez
Se louco e nu, pelos campos, deambular pudesse
E a luz dessa nudez espantasse minhas dores
De loucura douraria os trilhos que fizesse
Para que nos arvoredos mais ninguém se perdesse
Em ardentes medos ou outros males de amores...
Das mágoas, se as houvesse, nasceriam flores
E do amor, em versos, o mais que soubesse
Entre os verdes prados, na paz dos pastores
Num trinado de aves, asas de mil cores
Trovador seria, em poesia ou prece...
Mas, se em devaneios, sedento, adoecesse
Por humanas causas ou outras superiores
Na luz me esconderia quando anoitecesse
Para que dessa cura não mais padecesse
Se fosse essa febre a sede de todos os temores...
Fevereiro/2025
Noite Triunfal
Como vãs as preces são, e as orações
Padecem de saber e em convulsões
Vomitam a verdade e a razão
E eu fujo assim de mim, das multidões
Estendendo ao vazio amigo a minha mão
Mas o que toco é mágoa, dúvida, solidão
Cobrindo a urna fria das minhas ilusões
Que partiram deste mundo magoadas
Vestidas de tristeza, adultas, enlutadas
Caladas num grito rouco e imortal
Ficam sangrando palavras de mãos dadas
Apodrecendo em páginas guardadas
Fico eu e a triste noite, triunfal!
Outono
Desse mar de cor vestido de vento
Que deriva morno e desagua em flor
No jardim secreto do meu pensamento
Onde a paz por entre pétalas vagueia
E as fadas existem num qualquer sorriso
Onde ávido vivo dos sonhos que improviso
Como vaga-lume que a si próprio se encandeia
Ou incauta aranha que na própria teia
Tece de amor enleios com que se devora
Como o velho lobo que na lua cheia
Ferido na revolta com que se incendeia
Uiva à alcateia que o mandou embora!
Desencanto
Envolto em louvores e com bravura tanta
Se é de medo que minh'alma se agiganta
Se saudoso vou, do nada que não vi!
Se por feito maior tenho o que não cumpri
Se este estar por estar me desencanta
P’ra quê quereres gritar, pobre garganta
Se o teu grito é tudo o que esqueci...
Versos meus, se me julgais amigo
Covarde fui p’la vida que vos dei
Cuidando amar-vos fui, vosso inimigo
Sou no meu trono de loucura, rei!
Porque chorando escrevo aquilo que não digo
E escrevendo choro tudo o que não sei!
Ausência
No banquete dos eleitos
No festim dos escolhidos,
De diamante polidos
Vestidos de amores-perfeitos…
Ou se em eventos de ouro
Engastados de marfim
Safiras e prata boa
Recusei, ingrato, a coroa
Não quis ser esse Delfim…
Relevem a minha falta
No desfile da aparência
Dos sorrisos porcelana
Cortejo de falso nirvana
Quedei-me na doce ausência…
Ou se em pódios fulgentes
Na soberba da vitória
Enjeitei troféus dourados
Vislumbro-os enferrujados
Deixo-vos tamanha glória!
Asas
Um não sei quê de ti
Um não sei quê de mim
Um não sei quê maior
Há nas borboletas
Um não sei quê de nós
Um não sei quê de luz
Em forma de cor
Há nas borboletas
Um não sei quê de céu
Um não sei quê de sol
Um não sei quê de flor
Há nas borboletas
Um não sei quê de paz
Um não sei quê de asas
Em forma de amor...
Submersão
Abatia-se sobre o meu corpo como bátega ofegante
Na pele da tua cama, prado errante
Encharcado na memória do teu olhar
Inundava-me na torrente sem me debater
Adormecido no teu amanhecer
Porém, quando submerso, parti pelas águas
Com as asas que a enchente revelou
Foi só o som da tua chuva que ficou…
Mãe
Com a clara nitidez que tanto desejava
Como raio último de um sol há muito posto
No poço da memória que, cruel, o tempo escava
Nem da tua voz, mãe, nem do teu cheiro
Nem sequer do teu sorriso que imagino
Adormeceram nas lembranças de um menino
Que homem se fez, sem te ter por inteiro
Mas deixa-me dizer-te mãe, com a ternura
Que do alto dessa luz de eterno amor
Por vida gerares, a chama acendeste
Que ainda hoje na face sinto o calor
Por mais fria que seja a noite escura
Daquele último beijo que me deste...
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Sensibilizada com os poemas
O melhor dos melhores
Encantada
Nasceu em Sá da Bandeira, Angola, em 1969. Licenciado em Ciências Sociais (Psicologia), desempenha profissionalmente funções como Inspector da Segurança Social, no I.S.S., I.P., em Setúbal, cidade onde vive. No seu percurso literário contam-se participações esporádicas na década de 90, na página cultural “Arca do Verbo” do jornal “O Setubalense”, sob direcção do poeta João Raposo (Livraria UniVerso); Participação na colectânea de poesia Projecto Cultural “Poemas do País da Vida” – MJ Real IMO Editora; Participação na colectânea de poesia Traços da Memória – Casa da Poesia, Setúbal 2003, 28 Poetas Sadinos; Participação na colectânea “Entre o Sono e o Sonho” - Antologia de Poesia Contemporânea - Vol. VII - Chiado Editora; e participações esporádicas em concursos de poesia e conto.
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