Lista de Poemas
Cegueira
Não porque vagos meus olhos se tornassem
Foi como se ao sol as pálpebras fechassem
E cuidando ser noite, sem querer, adormeci
E na negra escuridão, como se a velassem
Das longínquas estrelas, cadentes, vi
Pelo fim da luz do mundo em que vivi
Lágrimas caírem, como se chorassem
Porém, quando desperto, tornei desse sono
E ao lúgubre infinito quis pintar cor
Lívido amanheci nesse abandono
Pois neste universo dolente, de fel e dor
Se em verso me couber tão triste outono
Poeta só serei, deveras, se acaso for!
Chuva
Que a chuva me trouxesse de enxurrada
Naquela tarde calma, abandonada
Como se do céu caísse o meu destino
Se minha sina fosse de água moldada
E de vento criar pudesse meu desatino
Poderia, quiçá, dos ares ser um paladino
Galanteador da chuva, minha amada
Mas ouvidos não me deu, Éolo à prece
E em Zéfiro só eco fez o meu clamor
O Olimpo à minha voz não obedece
Por isso, de desejos, ousei-me trovador
Versos alto lancei e eis que acontece
Em vez de água dos céus, choveu amor!
Asas de Vidro
E a tristeza em silêncio erguer a voz
Lembra-te de mim, em ti, de nós
No meio da multidão, livres, a sós
Descidos, sem saber, do paraíso
Ou se um dia cair tão sem aviso
Em tua cândida boca a noite atroz
Não te detenhas mais, corre veloz
Corta as amarras, estilhaça os nós
Que violentam as asas do teu riso
Lembra-te do mar, se for preciso
Sem medo da cruel noite feroz
E nele molda a luz feita de nós
No meio da multidão, livres, a sós
Se um dia anoitecer no teu sorriso
Noite
cada passo, cada traço
cada dia
cada lua que me envia
mais um pedaço de amor
À noite sei-me de cor
sei a pena e o tinteiro
cada vírgula, cada espaço
vogal perdida na história
sei que nasço
À noite sou o oleiro
e o poema brota esculpido
no barro da minha memória
À noite fico
nascido
mas morro primeiro
Difamação
Em cadência fétida de esgoto
De ti se alimentam vermes, bichos cegos, infectados...
Os habitantes do teu corpo poluído são mulheres…
São homens como eu, como estes que me lêem.
Não, não fales. Cheiras mal!
Tal como a sarjeta da qual fizeste a tua casa. A nossa casa…
Não, não digas nada. Porque as tuas palavras, mortas
Flutuam no caldo podre da tua boca. Da nossa boca…
És como nevoeiro transportado pelo caos. Lento.
Cuidado! Vê onde pões os pés.
Não pises os teus filhos, a cama onde te deitas…
Não abras essa porta! Ainda te vêem nua.
Tapa-te! És feia demais para que te vejam…
Por isso escorregas pelas esquinas escuras
E venenosas das palavras…
Enrolada em véus de línguas bifurcadas…
Miras-te no charco lamacento da tua maldade
E julgas-te bonita. Perfeita.
Ah sua vaidosa! Não passas de uma menina mentirosa
Com inveja da verdade…
És como nevoeiro transportado pelo caos. Turvo.
Espalhas-te porque não te suportas…
Sustentam-te as lâminas com que te cortas e nem dás por isso
Esvais-te! Mas o teu sangue não é mais
Que o vómito que te corre nas veias.
Alimentas de nojo a multidão que te venera
Sem saber porquê…
És a Deusa da Escuridão e cegos os teus seguidores.
Coitados!
Nem percebem que a tua língua não é mais
Que a raiz ressequida de onde brota fruta azeda!
Segredo
Que vivia atormentado
Cativo do próprio medo
Que um dia, por ser revelado
Deixasse de ser segredo!
Mas eis que chegaram homens armados
Com cravos encarnados
E vieram e abriram todas as celas
Todas as portas de todos os céus
E todas as janelas
E quando saíram à rua todos os sonhos
O segredo também saiu e viu que era verdade
Agora já não tinha medo
Deixara de ser segredo
Era a Liberdade!
Espelho Secreto
De horas inquietantes adornado?
De que são feitas essas dúvidas brilhantes?
Esses anéis de incerteza, cintilantes
Pedras preciosas, hesitantes
Que levas nos dedos, a tremer, pra todo o lado?
E o temor com que te vestes, de que é feito?
Que seda fina é essa que te cobre o peito
Tão luminosa que te ofusca sem querer?
De que são feitos os teus medos radiosos
Esses que ostentas, trémulos, nervosos
Com lantejoulas de inveja a condizer?
Para onde vais assim tão belo, tão inquieto?
Cobrindo de raras plumas o esqueleto
Perfumado de raiva, mágoas e desdéns?
Mira-te uma vez mais, diz-me se gostas
De ti no espelho secreto das respostas
Para onde vais? De onde vens?
Revelação
caído no colapso
desta paz imensa
vertigem suspensa
que me sustem
e onde permaneço
o instante é respirar
sobressalto breve
leve recordação
a despertar
em cada recomeço
sono suspenso
que sustenta
a revelação
onde pertenço
Uni Verso
No clamor dos silêncios indizíveis
No perpétuo dos instantes prometidos
Por horas imperfeitas, impossíveis
Sobrevivo, na magia da poesia em turbilhão
Nestas palavras poucas que entrelaço
Neste nó que em mim mesmo chamo abraço
E me toma de assalto o coração
Sobrevivo, na conquista imprevista do meu verso
Esse timoneiro louco e sem razão
-Larga o leme, perde a direção!
-Leva-me de volta ao Universo!
Inquietação
Como alísios ventos em busca de monção
Esboço de cratera com ânsias de vulcão
Rumor, revolução, motim.
Ventos que escurecem a cor dentro do céu
Mar que endoideceu, instável culto
Rebelde filho da ilha que nasceu
Temor, inquietação, tumulto.
São estrelas, cometas, metáforas cadentes
Ardendo em labiríntico alfabeto
Alma deste papel raro e inquieto
Em tempo e espaço para sempre ausentes!
Comentários (3)
Sensibilizada com os poemas
O melhor dos melhores
Encantada
Nasceu em Sá da Bandeira, Angola, em 1969. Licenciado em Ciências Sociais (Psicologia), desempenha profissionalmente funções como Inspector da Segurança Social, no I.S.S., I.P., em Setúbal, cidade onde vive. No seu percurso literário contam-se participações esporádicas na década de 90, na página cultural “Arca do Verbo” do jornal “O Setubalense”, sob direcção do poeta João Raposo (Livraria UniVerso); Participação na colectânea de poesia Projecto Cultural “Poemas do País da Vida” – MJ Real IMO Editora; Participação na colectânea de poesia Traços da Memória – Casa da Poesia, Setúbal 2003, 28 Poetas Sadinos; Participação na colectânea “Entre o Sono e o Sonho” - Antologia de Poesia Contemporânea - Vol. VII - Chiado Editora; e participações esporádicas em concursos de poesia e conto.
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