22/10/2023

Tenho acumulado tentativas
com a teimosia de um parvo.
Deixado para a última hora
o que já não podia esperar.
Gargalhado sobre as migalhas
de uma tristeza convalescente.
Decifrado todos os livros
pelo aceno vulgar da capa.

Encaram-me com confusão,
como se lessem um prefácio
e, atônitos, estimassem tratar-se
de outro livro qualquer. Outrem.
Pois saibam que nem mesmo
o bruxulear da consciência alheia
é capaz de emitir luz que encontre
a saída para o labirinto falado
em que tranquei-me, jogando fora
a chave, o mapa e a convenção.

Deem-me por morto e hasteiem
a bandeira negra do dia passado.
Encarem-me, mas suspirem,
como se experimentassem saudades.
Assustem-se com a sombra
que remete ao corpo um dia existente.
Deixem-me assim, a sete palmos
de todo esse fingimento protocolar.
Mas quando eu chego no ofício...
mas quando eu bebo o santo licor
de toda essa indiferença de nuvens opacas...
mas quando vejo-me na tela
sem ver-me além da verossimilhança...
posso jurar ser verdadeiro.
Morbidamente verdadeiro.


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