Lista de Poemas

274 - O OLEIRO

Lava-se a lua no límpido lago:
Lembro relatos do Livro que leio.
Livre de lástima, luto e receio,
Logo o valor dos relógios é vago.

Longe do lodo nas lápides trago
Lenço de linho de lágrimas cheio.
Largo-me a longos soluços e creio:
Levam-me alívio do lânguido afago.

Lá ao relento o silêncio calou-me,
Lança-me além do relâmpago e vou-me
Leve nas lutas e alegre na lida.

Louvam o Oleiro tão lúcido e sábio
Luzes celestes falando sem lábio,
Língua e palavras ao longo da vida.

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 31/07/2020)
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273 - UM NOVO DIA

Está chegando sim um novo dia,
Está surgindo até que o sol desponte!
Está nascendo a fé que, no horizonte,
Está causando o fim da noite fria!

Estou sentindo a paz que não sentia:
Estou se a ordem é que só me apronte;
Estou subindo a pé ao santo monte;
Estou correndo atrás de quem me guia.

Estou pregando e sei do chão que trilho.
Estão sabendo: Rei já é teu filho!
Está salvando e vi que bem governa.

Estou, ó Jeová, dizendo ao povo:
"Está raiando já um dia novo,
Está brilhando aqui a luz eterna!"

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 27/07/2020)
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Sonnet 061

I was once hired in order to be born.
I have retired from youth and come of age.
I have just been dismissed from life with scorn.
I have just quit without a living wage.
While labouring to rest and living on
I drudge away at pleasure, joy and fun
And toil at my short lifespan till I'm gone
And slave at freedom though all work is done.
It's not worth shirking this unpleasant task
Of living rough because I cannot rob
My conscience of all honesty and ask 
My heart if I can lie down on the job.
Although I earn my living death each day
Life never works and dying will not pay.

(Author: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Written in 09/09/2002)
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272 - QUEM SEREI? O QUE TEREI?

Eu? Quem serei? Eu não serei ninguém!
Do oposto não há quem me persuada.
O que terei? Eu não terei mais nada
De tudo que me torna e que me tem.

Eu? Quem já sou? Por fim, não sou além
Do que sombra que ao fundo se traslada.
O que já tenho? Tenho todo e cada
Repúdio deste mundo e seu desdém.

Prefiro tê-los sim a ser refém
Dum ávido desejo que me invada
E que me expulse aqui de mim também.

Sim, antes desistir do que me agrada
Do que viver atrás do que não vem,
Do que morrer da coisa desejada.

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 27/07/2020)
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Sonnet 001

While we walk home along this lonely beach,
Ships passing in the night run aground.
The lukewarm sand your feet can hardly reach.
To watch your sorry figure I look 'round.
Though we have taken thousands of steps each
Only few of my footprints I have found
While looking backwards over shoulders... Screech!
Screech out in pain, let out your first clear sound!
I wish that you expressed your thoughts by speech.
When your lips move my echoes do abound.
To me you keep on sticking like a leech.
Would you drift with my body if I drowned?
When the night comes near I will feel alone.
That you might appear I wish that you shone.

(Author: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Written over 20 years ago)
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270 - VELHA FOTO

Esqueço que a tarefa mais ingrata
É não lembrar um tempo tão remoto
Com péssimos eventos que encaixoto
Para que não os ache e não me abata.

Então, espreito a fétida barata
Roendo a borda duma velha foto,
Em cujo verso amarelado noto
Dedicatória, assinatura e data:

E diz: "Dedico a quem não tem memória
Que vês se te olhas num espelho fosco."
Foi assinado: "Imagem provisória."

Datado: "Dia vão que não existe:
Apenas o presente está conosco.
Que o teu passado não te deixe triste!"

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 20/07/2020)
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269 - ÉRAMOS COMO SE...

Éramos como se nunca soubéssemos
Que nos tornamos a soma dos músculos,
Ossos e as peles de seres minúsculos:
Zeros à esquerda com outros de acréscimos.

Éramos como se nunca estivéssemos
Lendo o refrão com letreiros maiúsculos
Presos nas testas, durante os crepúsculos:
"Sempre corremos em círculos péssimos!"

Éramos como se nunca nos víssemos:
Em impressões e conceitos baixíssimos,
Máscaras caras e esplêndidas túnicas.

Éramos como se nunca nem fôssemos
Réplicas frágeis, sentindo-nos próximos
Aos que acreditam que somos as únicas.

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 17/07/2020)
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266 - OCEANOS E MONTANHA

Pobre menino que fui, se soubéssemos
Que te afogavas em mim, se salvássemos
Náufragos que nos tornei, se afundássemos
Sonho à deriva sentindo-nos péssimos...

Homem que ainda serei com acréscimos
Destas lembranças, se a mente alcançássemos
E se, com ímpeto e frêmito máximos,
Outra escalada ao passado fizéssemos...

Venha sem âncora a súbita síndrome
Como se eu fosse oceanos e singre-me:
Faço-me logo profundo; melindro-me.

Venha sem cólera, escale-me incólume
Como se eu fosse a montanha mais íngreme:
Torno-me sólido e gélido; isolo-me.

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 09/07/2020)
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267 - OS BERROS MEUS

Depois de repentino sobressalto
Cá nesta cama vã em que me deito
Há noites em que nutro no meu peito
Uma vontade de berrar tão alto!

É uma angústia vil com que me exalto
Que não me deixa mais dormir direito
E que me faz querer sair do leito
E então correr descalço pelo asfalto!

Já não me escuto: os berros meus vieram
Ao coração e os ecos reverberam
Ainda na cabeça inútil, oca!

Enquanto escrevo e penso, sou quem berra
Mais alto que oprimidos numa guerra
Com todos os silêncios desta boca.

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 10/07/2020)
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265 - VEM, VIDA

Vem, Vida, contra mim se não me humilho
E humilha-me batendo nesta cara
E nela esfrega bem verdade clara:
Que só te fui bastardo, nunca filho!

Enxota-me descalço e maltrapilho,
Castiga-me depois com fina vara
E joga sal na chaga que não sara:
Que dó jamais te sirva de empecilho!

Vem, põe-me, sim, no meu lugar escuro
Mas deixa-me levar-te enfim pois isto
É mais do que mereço atrás do muro.

Que Deus me queira ouvir e ver de cima
E então saber quem sou enquanto existo
E, assim, com humildade me redima.

(Autor: EDEN SANTOS OLIVEIRA. Escrito em 06/07/2020)
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