Lista de Poemas

Quadro da vida



Aquela imagem do poeta dentro do retrato

parece que fala, mesmo estando calado;

bem, também, me olha; mexe com eles parados.

Enfim, sai de lá, e já não mais está na parede;

senta no sofá, deita na rede;

diz, ainda, querer um pouco de água para matar sua sede.

Em seguida, me pede um café, e logo de pé,

tira do bolso um cigarro e um isqueiro;

no mesmo instante, o acende e começa a fumar.

Eu acho graça em toda a sala cheia de fumaça;

com o semblante de mágoa, pede-me o cinzeiro,

coloca a mão num papel que estava sobre a mesa.

E, assim, do nada, como mágica,

faz aparecer, entre os dedos, uma caneta.

Escreve um poema que é uma beleza,

e queixa, apesar disso, de seu enredo, de sua inspiração;

faz alguns riscos e rabiscos,

e algumas caretas que não trazem nenhum medo.

Em flagrante, encontro-o com o pensamento distante,

sabe-se onde; pois, pergunto e ele não me responde,

fica, quem diria, dando risada.

Desconsolado, dá uma olhada para o lado;

de um jeito torto, com toda prática e aprendizado,

tenta me convencer ao dizer que bom é o poeta morto.

Dali, eu mesmo via que não mais existia no quadro

sua imagem,

dando margem que nasceu de novo.

Dentro dessa "ressuscitação", passou por uma restauração,

para ter de volta a fama, caiu na graça do povo,

e o povo, como ama, o pôs na crucificação.

Mataram-no, deixaram vivo o seu espírito,

mas, mesmo depois de morto, deixou o seu grito.

Dessa forma, permanecia vivo no quadro da vida,

mesmo pregado, agia em forma de poesia;

como eu mesmo prego, mesmo com prego, não nego,

que continua vivenciado.

Enfim, vós vedes

que até assim és um poeta imortal,

e, de repente, somente, voltastes, afinal,

ao quadro da parede.
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Polícia



Parece que passou, apenas, um segundo;

pois, lembro

das nossas primeiras férias de dezembro.

No fundo, éramos tão crianças;

mas guardo na lembrança,

aquela vez...

Misturando coragem com timidez,

arrependo só de uma coisa que a gente não fez;

que, de repente, foi a única, talvez,

de cada roubar do outro um beijo.

Mesmo com o desejo, tivemos medo;

porém, mais tarde, aquele beijo poderia vir mais cedo.

Como sentíamos, um covarde, de maneira encorajada,

estávamos, assim, do nada,

de mãos dadas.

E logo me veio à pergunta:

O que fazer estando nossas mãos juntas?

E continuando juntas nossas mãos,

como resposta, me levou para a varanda.

Assim, rodou-me feito pião;

e, ali, já depois, estávamos nós dois,

brincando de ciranda.

Por isso digo a importância

da infância;

porque vejo que, naquela época,

não tínhamos nenhuma malícia.

Pensava (não com essa mesma ignorância):

Se eu lhe roubasse apenas um beijo,

poderia você chamar a polícia?
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Fases



Um dia, a Lua é cheia;

outro dia, é nova;

hoje, já é minguante;

amanhã, crescente.

Cada dia anda diferente;

antes fosse uma coisa somente.

Vive em fases,

não tem uma base.

Uma hora está gorda, ou magra;

outra hora dividida, ou inteira;

ou, então, bonita ou feia;

sempre está de uma maneira: de um jeito dorme; de outro, acorda.

E a gente a flagra,

toda vez, no céu, de uma forma.

Talvez, não se conforme;

não saiba o que quer.

Isso prova

mais até...

que não sabe direito quem na verdade é.

Assim, está a vida sua

como a da Lua,

mulher.
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Van Filosofia



Prefiro que me prenda no calabouço,

arranque minha cabeça

e deixe intacto o meu pescoço. Mesmo que alguém aconselhe, ou não queira que, nele, eu me espelhe;

ou ainda que, em nós, nada se pareça,

pela dúvida, quem sabe, o improvável aconteça,

de forma inimaginável obedeça

em fazer nossa vida 'correr parelha'.

Assim como "Van Gogh", por mais incabível, eu pense em cortar minha orelha minuto a minuto,

ou algo que, talvez, se assemelhe,

por tanto absurdo que ouço,

pois, era preferível estar surdo.

De tudo, um pouco; tenho um pouco de tudo.

Louco, não por falta de estudo,

já que estudo feito louco.

Prefiro ser mudo para melhor ser compreendido;

e, quando não sou compreendido, ai é que mudo.

Iludo, por sentir também, muitas vezes, tão desiludido;

atrevo a escrever, não porque escrevo e nem por ser atrevido.

Escrevo não só pelo dever, mas porque devo deixar escrito;

não posso isso evitar, nem pelo que já evito.

Mas isso parece ser um compromisso irrecusável;

até quando recuso, uso e abuso de maneira inevitável.

Mesmo se tolero, eu não espero tolerar, pelo tanto que já espero.

Mesmo se tolero, não espero tolerar de modo tão tolerável.

Então, prefiro evitar, também, o preferível

e fazer o impossível ser possível,

por mais que eu veja que isso impossível seja;

vendo que é possível, pois acredito até no inacreditável.

Sonho mesmo acordado; acordo como tenho sonhado,

de olhos fechados, imagino-me de olhos abertos.

Certo estou que estou errado, decerto, com o erro acerto;

fazendo o certo, mesmo nas vezes em que, raramente, tenho acertado;

pois até estando errado deixo acertado

que, mesmo fazendo o certo, não acerto, decerto.
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Carta que encaminha



Vossa Alteza: a terra é uma beleza; o nome veio como luz;

o monte alto, chamado Monte Pascoal, a terra batizada de Vera Cruz.

Índios totalmente nus, índias belas por sinal,

isso seduz mais até do que as raparigas de Portugal.

Bom fruto, realmente, aqui se produz.

Ai Jesus! Aqui é algo que ninguém traduz.

Sabendo que nem tudo que reluz é ouro,

mas de ouro e prata é cercada toda mata;

e, também, de outros tesouros.

O capitão mostrou aos nativos:

papagaio, carneiro e galinha;

eles, com medo, mostraram:

gato, lobo e onça-pintada.

De tão inocentes, tudo davam

a troco de nada

pelo que a tripulação tinha.

Fossem espelhos, rosários ou pentes,

enfim, entregavam, de mão beijada, todas as suas riquezas.

Para não levarmos nenhuma flechada,

não dávamos risadas, nem ficávamos descontentes;

estando certos de que tudo não passava de uma grande gentileza.

Nós éramos espertos, tão espertos a ponto de não deixar notar nossa esperteza;

e, assim, agíamos pelo o motivo

de sermos tão ativos.

Com certeza,

é mesmo aqui''um país tropical e bonito por natureza".

Afinal, desde que foi descoberta por Cabral,

a ilha deixou de ser uma maravilha.

Dentro dessa garrafa, envio-lhe essa carta,

esperando que, em mãos certas, ela parta.

Se pudesse, junto mandaria um cartão-postal

para mostrar o Corcovado, o Cristo Redentor, o Planalto Central,

a Amazônia, o Pantanal, o Futebol e o Carnaval.

No entanto, saberá disso só no futuro, porque os correios cobram a quantia,

e por fora elevados juros para chegar no mesmo dia.

Bom escrever, já que nunca mesmo adivinhará,

mas a independência dos coloniais virá de longínquo parentesco.

Então, pense antes em querer ter filhos com a rainha;

como dizem aqui: ''pimenta nos olhos dos outros é refresco".

Assinado: Pero Vaz De Caminha.
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Vice- Versa



Não há mundo todo sem todo mundo.

Não há, na verdade, mentira sem a mentira na verdade.

Não há felicidade eterna sem a eterna felicidade.

Não há, no fundo, ninguém sem ninguém no fundo.
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Cadáver



Só de pensar, alimento: alimento de pensamento.

Quando tenho sede, atravesso o deserto e bebo do meu sangue.

Ponho o barco no mangue, subo feito calango nas paredes;

inverto as coisas de modo certo.

Fumo o cigarro apagado;

fumo o cigarro como se não tivesse fumado.

Vivo o futuro, pensando no passado;

durmo com a insônia na cabeça.

Penso e, na mesma hora, penso que o melhor é que de tudo eu esqueça;

mas esqueço que esqueci naquilo que vivo sempre pensando;

pensando sobre amnésia; assunto sobre o qual, sobra-me ideia.

Assim, penso em algo que penso que conheci e que desconheço;

penso conforme esqueço.

Sou assim: a vida vai passando

e eu cultivando somente aquilo que colhi;

no mesmo compasso vou mudando os passos;

até meus próprios passos ultrapassando.

Não escolhi nascer;

e só vou morrer depois de viver tudo o que tenho que viver;

ainda não sendo esta a vida que escolhi.

Ah! Se fosse para ser o que eu quisesse ser;

não deixaria de ser o ser que é do meu querer;

vivendo sem saber;

sabendo no fim,

que, enfim, serei sim, um defunto;

e, comigo, a vida levarei junto.

Então, eis a questão:

Ser ou não ser.

Mas, como cada cadáver ver de uma maneira,

com o crânio da caveira na mão, pergunto:

_Ser e não ser,

mesmo um cadáver?

Cadáver até o fim,

pela vida inteira

De alguma forma,

isso nem seja ruim, .

para este, que parece que bem se conforma,

e, talvez, viva mesmo, melhor assim.

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Persona



Por achar que existe uma multidão em nós,

fico comigo a sós,

e essa multidão invade minha solidão.

Para não me sentir, totalmente, solitário,

encontro vários de mim,

e comigo estou eu: que sou meu maior adversário. Vejo vários assim,

com o mesmo perfil,

que são frutos mil,

que são meus próprios frutos.

Quando, simplesmente, me despacho,

num outro me acho.

Procuro um substituto

que fará parte de mim no futuro.

Mas, de todos que sou,

vejo que junto,

também, estou fazendo parte desse mesmo produto.

De todos, no fundo,

sou eu, somente, todo assunto,

sou eu, somente, todo mundo;

ou, mesmo, um indigente

no meio de tanta gente; enfim, absoluto.

Mesmo eu sendo um,

num todo, existe, ainda, algum.

Sem todos, sinto um Deus que se torna ateu;

de todos, dá nenhum,

pois de todos, sou mais eu.
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Music Match



Anjos não tocam banjos, mas sim harpas douradas.

No céu, tão modesto, está Deus com a batuta,

comandando com muita luta

a orquestra, para ficar bem afinada.

Com o diabo, em disputa com o Criador,

fazendo um barulho infernal.

Assim, o céu todo em festa,

como evento musical,

promove um festival.

Deus inova com um coral,

uma música que, além de calma,

dá para sentir na alma.

Todos ouvem como se fosse uma seresta,

aquele canto de louvor.

Lúcifer, com integrantes da banda

que traziam: guitarra elétrica, contrabaixo, teclado e bateria,

apresenta-se no vocal.

Enfim, como cantor,

sem que impressione a maioria,

testa o microfone

e começa, após a melodia,

ao som de um Rock& Roll totalmente radical.

A platéia acostumada a dançar ciranda,

como torcida, na hora do gol,

festejou muito naquela ocasião;

fez uma confusão;

mais parecia carnaval.

Talvez, pela mudança,

pelo escarcéu em geral,

até o Pai Celestial entrou na dança.

Mas depois que a música chegou ao fim,

tudo voltou ao normal.

Entre o som da trombeta,

anunciou o querubim, que o vencedor

não era ninguém mais do que o próprio capeta.

Humildemente, o Altíssimo entregou-lhe o troféu

e, por favor, pediu discretamente,

que não mais volte a cantar no céu.
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Marias



Maria, Maria,

dizem que é santa.

Maria, Maria,

são tantas.

Maria, Maria Madalena.

Maria, Maria,

que ama José.

Maria, Maria,

que, às vezes, nem Maria é.

Maria, Maria,

são quantas?

Maria, Maria,

com outro nome qualquer.

Maria, Maria,

mulher, Maria, Maria, que nunca vai sozinha.

Maria, Maria,

em nossa garganta.

Maria, Maria,

alta, média, pequena.

Maria, Maria,

branca,preta, morena.

Eta!

Maria, Maria,

que mesmo não sendo Maria Antonieta,

são consideradas rainhas.

Talvez, antes de Eva,

quando o mundo ainda era trevas,

Maria, Maria,

já havia

em nosso planeta.

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Daniela
Daniela
2023-03-03

Lindo