Lista de Poemas

Ao Mestre Machado

Eu tive um enorme espanto
Na primeira vez em que li
Os contos e romances do Bruxo do Cosme Velho,
Foram como um soco no crânio a lá Kafka.
Vivia absorto nas grandes nuvens,
Iludido, romantizado. Mas aí o verme
Que roeu as frias carnes de Brás Cubas
Atravessou como afiada lamina minhas entranhas.
Numa visão irônica, num sarcasmo sem fim,
Num animo morno cinza me acostumei
Em ver a decomposição e contradições
Dessa sociedade lançada ao fracasso...
Mundo em que o amor é uma pedra embalsamada de cifrões.

Os misteriosos olhos da amada de Bentinho
São tão difíceis de decifrar quanto à imensidão do mar.
Da leitura das sandices de Simão Bacamarte desaprendi
Os limites entre o normal e o anormal nas cabeças dos homens.
Percebi que todos os louros da razão, da fria ciência,
Geraram caminhos de alienação, nuvem cinza de discriminação.
Na metafísica análise das batatas feita por Quincas Borba,
A destilação da bílis negra do nosso maior escritor
Diante da vida repleta de mediocridade e lixo.
Com pontapés críticos no crânio, os icônicos textos retratam

Um pó repleto de vícios que vociferam todos os homens.
Seja na aurora do século XIX ou na planície seca dos dias atuais,
A escrita machadiana se estica como elaborado microscópioa
A desvendar as baixezas das aventuras humanas.
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Os Limites da Ciência

Desde o período universitário, intrigado com os mistérios do mundo,
Dediquei vários momentos da vida ao ofício científico.
Estudei sociologia, história, obtive condecorações em pesquisas,
Certificados de palestras dadas, elogios na ministração de aulas.
Mas passam teorias, métodos, instantes de apreensão da empiria...
E a ciência não me diz o que preciso ter para suportar a vida.
Ela não me informa quais julgamentos morais devo obter quando sofro dos nervos,
Muito menos o que sentir caso chova perturbantes sentimentos em meu dilúvio diário.
Ela não me diz nem como usar o seu próprio conhecimento.
Do que adianta resolver os mistérios do universo,
Qualificar biológicas matérias, descrever as anomias de grupos sociais,
Senão sou capaz de lustrar finalidades perante as vértebras subjetivas
Que vibram e se estabelecem no íntimo do eu?
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Sentimentos Após o 25 de Dezembro

Contas bancárias, status social,
Relações profissionais, exposições virtuais,
O mundo condiciona os dias dos homens
Na miragem de valorizar a existência
Como marionetes dos tempos líquidos.
Afinal, somos títeres de um simulacro
Ou atores no palco desenhado pela liberdade?

Seja aonde for, vá acompanhado dos afetos,
São eles potentes remédios para as horas de tormentos.
Diante de aparentes prazeres ou sob uma discutível fama,
Busque dormir bem ao fim do dia,
Relaxe na tranquilidade do lar,
Tenha como luxo a família que te ama,
Os bons amigos que te acompanha,
A necessária comida na mesa
E o teto que lutou para construir...
Riquezas que não sucumbem ante a miserabilidade dos objetos.

No altar das emoções, mesmo em todas as
Suas contradições, problemas, limites,
Busque sempre o amor - ele que eleva a vida.
Não deixe esfriar a inconstante chama do peito.
A vivência das emoções é uma redução
De danos nos tortuosos caminhos,
É combustível que alimenta o querer viver
Mesmo quando o corpo beija a pior desgraça.
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Ataraxia Epicurista

É medonho o prazer buscado nas bebedeiras sem fim,
Que nas faces tediosas mostram os ânimos bastante esvaziados.
É fútil o contentar do espírito nos falsos banquetes,
Como se o estômago cheio pudesse atear vivacidade ao ego.

Não é o deliciar de uma fina iguaria em uma mesa farta, rodeado de amigos,
Que a vida será refeitório em que se morde os pedaços da felicidade.
Não há joias, carros ou posses que curem a febre dos dias mórbidos.
De todos os objetos e valores que circulam na órbita humana, a prudência
É o princípio pelo qual o existir e suas paixões devem ser analisados.
É dela que se originam as demais virtudes.

A vida simples e a autossuficiência bebidas nos seios mimosos dos desejos,
Numa vivência sem luxos - as coisas tranquilas de se ver e sentir.
O céu do contentamento num universo sem excessos ou faltas.
Ser sereno é avaliar os prazeres e dores contidos em cada gesto,
Em cada ato e extrair destes instantes apenas o estrito necessário à vida.
A felicidade é o caminho da simplicidade, a liberdade da prudência,
Moradia que afasta a escravidão dos extremos obtidos nos prazeres.
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Eudaimonia Sim

E agora questiono ao mundo, aos homens que pregam fáceis soluções,
Afinal, onde está a felicidade, esta leveza do espírito? Alguns dizem que
A hora esplêndida do contentamento mora em algo exterior ao ser.
É a avalanche de elogios, a chama consumista de comprar coisas, a bela aparência,
O combate na obtenção do capital, popular imagem em redes sociais.
Mas tudo isso é vaidade, minúsculas pobrezas colhidas por
Garfos e bocas com poucas satisfações na vida.

O caminho que pulula vitalidade ao esqueleto, a monarquia de sentimentos
É encontrada pelos pés que se deslocam rumo a objetivos intrínsecos ao próprio ser.
É feliz por si só aquele que na secura de suas necessidades mentais
Refresca o crânio naquilo que realmente é, sem emular o caráter.
É contente aquele que banha no rio da simplicidade, trata bem os próximos,
Afeta e é afetado sem rodeios pelas outras pessoas.
É satisfeito os que possuem a capacidade de amar, os que estremecem
O coração frente a quentura dos relacionamentos.

É completo aquele que não baixa a cabeça diante das desigualdades sociais,
Que não fecha os olhos perante discriminações e outras vilanias mil,
Mas que movimenta mãos e pernas para estremecer o coisificante cotidiano.
Luta com robusta espada para expulsar as pequenas valorações,
Tenta tornar o mundo um lugar um pouco melhor.
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Alívios Diante da Peste

O vírus letal é uma fenda em que desgraças 
Sem fim escorregam pelos pulmões alheios.
A mãe natureza gerou um dantesco inferno
Para dizimar todo homo sapiens e o mesmo
Não incomodar mais o seu habitat, as suas leis.
Mas meu ego, meu conatus, minha trilha sem rumo
É grande como o planeta, uma galáxia de desejos
Para mergulhar nas profundezas de uma vida 
Ainda não vista, um Everest de alteridades. 
Perante a tragédia injeto renovado sangue nas artérias,
Deixo fluir no crânio ideias que preencham a oca rotina,
Vivo um jardim de amor com os próximos, busco virtudes
Para persistir à batalha da vida com determinação 
E abraçar o indeterminado caminho com intensidade. 
Posso não viver mais um bocado de anos perante o risco de qualquer vírus,
Seja a covid-19 ou a peste que assolou Oran, mas morrerei para viver... 
Transcendentalmente ser além do que sou, está adiante dos mornos dias, 
Acrescentar ao meu presente outro agora, uma multiplicidade de experiências.
Eu serei muito mais que uma entediante carne a ser consumida pelo húmus,
Revirando as fezes do hoje, alterando as posições de consoantes e vogais,
Buscarei alívios com fervor e afagarei a dor num canto de sabenças.
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Ao Queimar Minha Língua

O músculo que não me deixa preciso,
Aquele que nem é todo racional ou imagético,
É agora um inchado órgão ao provar alimentos.
A vermelhidão em sua superfície mostra uma série
De frutas em bolor postuladas como distinto prato.
As queimaduras começaram quando transgrediram
O bom senso coletivo, tentaram me enfiar goela abaixo
Uma salada composta de ignorância, misticismo e preconceitos.
O paladar entra em um sombrio mar de água anti-razão.
E como arde, irrita a volta do neomedievalismo social.
Parece que alisam minhas papilas gustativas com
Apologias a tudo que é tosco e incita o nojo.
Num excesso de sal de autoritarismos,
Nos gostos amargos do espírito acrítico das massas,
Não me servem nenhum farol de libertação das malditas gulas.
Cada vez com a língua cheia de sinais, feridas brancas,
Não encontro novos sabores ou remédios
Que amenizem esse mundo de desgostos e torpezas.
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O Ser e o Universo

Num canto longínquo surgem as inquietantes indagações:
Sobre quais ilusões agora vivo?
Quais coisas valorizo pelo mero tumultuar do coração?
Estático num desmoronamento existencial, observando o céu, afirmo:
Centenas de estrelas tremulando na tela negra de fundo,
O mundo, esta formação de gases comprimidos,
Localizado no mais íntimo de uma minúscula consciência (a minha).
E eu refletindo sobre os porquês de tudo ao redor.

Nascer, procriar, produzir, socializar e morrer...
Vive-se um longo tempo no cético questionamento de não
Saber por quais motivos surgiu esse comboio existencial.
Ao vértice da dúvida, na profunda questão cosmológica, a pergunta primordial:
Por que existe algo (seres, universo, vida) ao invés de nada?

Por mais que as ondas das incertezas quebrem uma a uma,
Que pareça que a vida é coisa nenhuma, grão miúdo,
É nessa praia de areias vazias que criamos um sentido,
Deixamos valores e motivos que aqueçam o frio da existência.
Por mais duros e absurdos que sejam os caminhos,
É o homem que escolhe os sentidos para suportar o peso do mundo.
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Renovação Sob o Sol

Sol, despertar da vida, farol dos rebeldes contra a desumanização,
Astro que acalma mentes exaustas, 
Revelando a miséria daqueles que prosperam
À custa da carência alheia... 
Renova-nos neste planeta de seres vulneráveis.
Que minha devoção floresça a cada amanhecer, 
No avançar firme, na busca por uma vida sob o curso das transcendências.
Agora que superei obstáculos, não mais exalando infortúnios,
As tempestades se aquietaram, as atitudes desumanizadoras ficaram para trás,
Grande círculo incandescente, ilumine meu caminho com um dia brilhante,
Desfaça os sentimentos sombrios, guie-me na renovação através de tua luz.
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Prazeres Diários

Um banho depois de cansativo trabalho.
Um quarto em um dia nublado.
Um game em um sábado a tarde.
Um rock escutado e cantarolado no banho.

Uma lasanha dominical com os pais.
A leitura de poemas após estafante tarde.
Um vinho depois de exaustivo dia.
Um jogo do Botafogo para animar os ânimos.
Um beijo na boca após convívio com estranhas pessoas.
Uma cama confortável após afazeres.

Prazeres diários que enfeitam a vida,
Riquezas residentes na simplicidade,
Abundâncias degustadas, pureza de momentos.
O encanto está nos detalhes simples,
Atos que adornam nosso dia a dia.
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