Escritas

Lista de Poemas

Sancho Pança revisitado



Prepara-te, Sancho, para os encontros e as despedidas                                                                              de hoje, que os ângulos do amanhã não podem esperaar                                                                     (serás governador, porque o delirante prometeu-te).

Areja então as mãos com o sumo do espanto, e conta                                                                             mais aforismos e pilhérias que mantenham cegos de riso
os da feira - pura filosofia entre legumes e frutas e vinho. 

Ao longe o mar, do outro lado da rua 
luz trêmula, luz de melaço, sempre um teatro por fazer
num lugar por visitar; Prepara-te, velho poltrão,
que o mundo te quer sempre rolando feito um seixo.
 

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Milagre dos peixes

 

Não recordo como eras no último outono, mas

embora passado pouco tempo, os peixes
chamando por ti, e com o assunto reclamando vistas,
fui aos peixes, não a milagres
que pudesse talvez o amor fazer; por isso não me lembro
como eras no último verão em que salgamos em demasia
a carne, e logo se fez tenebroso inverno, e sob a capa de gelo
nenhum peixe foi mais possível. Nada.

Restou a ponte da amizade.

***

Darlan M Cunha. O ar em seu estado natural  - Textos sobre letras do Clube da Esquina.
Editora CBJE, Rio de Janeiro, 2010, p. 40
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Soma




O corpo sofre variações sob sol maior
e racha no gelo, a pressão variando
sob o salário do medo
no atacado e no varejo murmura-se
"vou me jogar debaixo de algum amém."

Na aldeia com seus climas psíquicos
deteriorados, procura-se tábua de salvação
nem sempre apta, mas tubarões há
na rampa do navio, porque corpo é danação
e tu somatizas o que não queres

sofrendo variações em ré sustenido menor.
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Têmpera



Reiterando sua rede de percepções
um homem vai a mais dúvidas, mais pedras, que a ele 
não lhe cabe nada ameno, só babar pelo risco dos metais.

Vida de voo está mais além disso.

Quem sabe se com os ossos de ontem, as dívidas a cobrar,
e se bem medida a reação dos vivos abra-se o assombro
por trás do qual há pessoas rindo-se

à vaca solta, desatentos ao teor dos véus
em sua crista, que um homem sabe o que fazer de outro: 
pasta espelho relho ralo tambor cinzas.

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Teia


Visão do apocalipse é o que pensas
sobre aqueles morros fumando
mas te enganas de todo

ao pôr estranhezas no natural.
Eis o crime, normal, à tua porta
a boca da injúria vindo em ondas
 
como um jorro que as luzes
da aldeia disfarçam com ânsia
doentia, renovada, e as peças

do tabuleiro mudam de conceito
sem se darem por isso os da aldeia.

Cansados estão velhos e moços
sem prumo definido, em paz

não se dorme num batente de cruz.
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João em Sevilha



Dias de cão quem não os teve, quem
não os viveu na conta da língua ?
quem não os absorveu dolorosa míngua ?
Dias de negativas, de más assertivas
quem não engoliu saparia, noite e dia ?
Somos o que à mesa pomos: a sopa
ou o amargo das sementes de mamão.
Pelo caminho há sempre alguma onda
de espanto, mas de vez em quando
os ombros sentem as mãos do encanto
e assim a apostasia e os cálculos renais
dissolvem-se sem menos e sem mais
nos dias e noites de um pão que a vida fatia.
Ó, quem não percebeu em si estes rituais,
chame-se Laura, Rafael, João ou Maria ?

*

NOTA: Poema escrito sob a lembrança, a admiração,
ou seja lá o que for, dos anos em que o diplomata
João Cabral de Melo Neto trabalhou na cidade de
Sevilha - cidade pela qual tomou grande afeição.
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Duelo



A mim não me passa nada
ou quase nada que não queira
ou não aceite de bom grado
muito embora se saiba que 
engolir sapos seja humano.
Revidando com a outra face
da moeda, a mim me passa 
o que não desejo, não ensejo
com leveza, até porque viaja-se 
com uma corda no pescoço
a qual está sempre noutras mãos.

 

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Frestas



Frestas surgem devagar ou súbito, assim os dias
e seus imprevistos: eis um osso
com o qual o cão não contava, muito embora
sempre atento, pois as coisas acontecem mesmo
é nas ruas.
 

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Dueto



Com eles não lhes passa nada
ou quase nada que não queiram
ou não aceitem de cara boa
muito embora se saiba que 
engolir enganos seja humano.
Revidando com a outra face
da moeda, com eles lhes passa 
o que não desejam, não querem
por estigma, até porque todos 
viajam com uma corda no pescoço
a qual está sempre noutras mãos.

 

O inferno são os outros.*

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Sendo

Somos os nomes sem questão definida 
os homens ocos dos quais tanto se fala e se cala, 
todos de trela com a mãe pressa e a avó dúvida, 
somos os homens ocos, inventores 
da calúnia, da traição e dos enfados. Ocos.

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Comentários (4)

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namastibet
namastibet
2018-04-21

Bopa poesia Darlan (continua)

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

Sônia Brandão
Sônia Brandão
2018-04-03

Gostei dos seus poemas. Obrigada pela visita e gentil comentário.

sergioricardo
sergioricardo
2017-12-04

Claro que sim, prezado: ambos sabemos que todos podem e devem escrever. Mas até que quase todos entre todos evoluíssem da mera curiosidade de criança que aprendeu a andar, boa parte poderia e deveria escrever para si. Alguns anos de fermentação, portanto. A superpopulação de agulhas diletantes em meio ao palheiro, torna difícil, doloroso e até sangrento procurar por uma palha, que seja. Tendo a crer que o mecanismo de seleção natural é manco: a tendência inegável é que o capim sufoque e mate o trigo e que o abraço fatal dos cipós nas árvores transforme toda a floresta em um deserto verde. Em outras palavras, o bom não é coisa que sobressaia. Morrem, a rigor, todos no mesmo emaranhado de tertúlias das quais todos se afastam, desanimados e incrédulos, ao final das contas.