Escritas

Lista de Poemas

MENSAGEM

cansado
que nunca cheguei a falar

a tua exatidão chora-me de rir
a tua vontade explícita cobre-me de cheiro
A tua planície alarga-me
a carne
grave de palavras

ouve
destino que germinas cometas
da terra

A minha Meta é fracassar




Eu moro nas minas
a cavar ninhos
Abro o céu à minha vontade negra
de preguiça
Peço-lhe como um mendigo
quero ser eu mesmo
ninguém
cafés imaginários conversas soltas
em estradas longínquas
Eu vim para quebrar promessas
o tempo passa
mas eu vivo
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Um dia

Um dia os cabelos serão negros, ou loiros, num campo
de trigo. Os lábios grossos em forma de beijo
serão de menina

Um dia amar não será menos que amar o ciclo contínuo da vida
Mas de verdade. Amar de verdade.

Um dia o Sol irá nascer dentro de uma janela escura.
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Encontro

Olá, eu sou o macaco fingidor
mas podes chamar-me Poeta.
Não tenho sede, mas bebo,
tenho sede. Para despir este segredo
Que me dói e que te ofereço.

E tu, de onde vens?

Eu sou a macaca, não tenho nada de especial para fazer
mas estou aqui sentada à espera
Que alguém me leve
E escreva a minha
Biografia.
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Espera

Tenho sono
Até onde a vista me alcança
Entre a aurora das pessoas que passam
E os pássaros que demoram


Na paisagem verde e sonora os girassóis
batendo no vento
E as luzes claras são estrondos daquele silêncio
tão eterno e tão lento


A minha cadeira virada para o coração
das paredes frenéticas do tronco
deste pinheiro
É um sopro azul nesta sala de Aeroporto


Tantas palavras deitadas
À espera - parece que gostam de esperar
Mas a vida é feita de vidro
Com duas portas entreabertas


E entro nos pinhais como um bicho que desfolha
As estrelas altas da ramagem
Muito para além da partida
Onde não é preciso sonhar


Que chegue a Morte
algum sinal
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Cientificamente

Cientificamente como um prumo
Tanto e tão tombados
O chão e o muro
Vou antes chamá-los de búzios
E goivinhas-da-praia



Seguindo a Elipse
Vou ser seminarista
Vou fazer madeixas às bruxas
Com dedos de bambu
e maresia



Nas quadrículas da vida
Os palácios de colmo
São degraus virgens
E todas as ânsias do Mundo
Levou-as o Mar que é salgado
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Escrever poemas não cansa

Escrever poemas não cansa
O que mais cansa é escrevê-los
Postos ao Sol em tranças
Sem ganchos a prendê-los

Qualquer verso que nasça é puro
É por isso que os meus poemas
Nunca rimam com muros
Mas hão-de rimar sempre!

Um poema tem de caber
Do Sol que ginga até ao fruto
Se diz amor, ajudo
E entrelaço fonemas

Eu sou tão sábio como um mocho
E o meu desgosto não convém
Escrevo para um todo
Não mais para ninguém

E vão para o Diabo que as leve!
Suas metáforas de pluma
Suas corcundas, credo
Abrindo a fechadura

Um dia vou pôr-me atrás delas
Daquela tinta azul canela
Sílabas só de penas
Que não façam poemas
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No Aeroporto

Olhos nos olhos
E tenho a vida por um fio
Como se fosse uma garça
Em ti verto as minhas asas
Coladas
Na candura do vôo


Podemos falar um pouco
Eu vou dobrar um sino
Em searas amarelas
Recortar caminhos
Refém de uma vénia que te faço


Tu vais redondo em sobrecarga
E nervos vertebrais, versáteis
Semear Países
Recitar no teu caminho
O Verão e a Primavera
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Sádico

Vem divertir-te no meu jardim perverso
Em flores estendido e ordinário
Põe-te ilustrada por avesso
E agita o teu chapéu como um corsário


Que eu te quero sem amor debaixo
das Palmeiras e de Abacates
Que eu quero-te lisa num banco estreito
Sonhado a ouro de nenhum quilate

Porque Amor é droga seminal
É soneto que se dobra de um regaço
E o teu corpo é mais belo afinal
Na demora de um astro


Tu que preferes os ventos por sentir
Deixas-me, embora frágil, desmedido
Na praia onde delira inexplorada
A nossa Amizade arrebatada!
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O relógio

Os ponteiros do relógio
Do alto da torre
Giram conforme o vento;
Quem é que marca as horas exactamente,
O relógio, ou o vento?


Aquela menina de leite
Hoje é de Estio e centelha, bonita
como uma fruta;
Quem é que ficou vermelha,
Foi ela, ou foi a Lua?


No fundo do meu coração
Nascem versos que me põem
de joelhos;
É o Mundo que me quer velho, ou eu
é que celebro a solidão?
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Epopeia

Sou Capitão de navios; as almas
Que não carrego jazem docemente,
Como nos lábios se desfazem calmas
As bátegas frias de Mar dormente.
Fiz-me de casco, tâmaras e Palmas,
Capitão de navios, não de gente;
E na fúria do Mar que me quer santo,
À crista das vagas navego e canto.

Só Deus bem alto, qual Vénus e Baco
Cede; que na outra mão da tempestade,
Da espuma caia arroz, ou só tabaco
Que amarre por amor a Humanidade.
Abismos também amo mas abarco
Aqueles que se elevam de verdade;
Meu lar é a Via-Láctea sempre escuro
Porque é outra cintura que procuro.

Assim vou mareando, como as aves
Assim que o Mar desce: o acorde breve
De uma nota, e outra, e outras mais graves,
Acelerando mais e mais o leme
leve, dos meus últimos sonhos suaves.
E à noitinha, numa onda que regresse
É como se eu fizesse amor contigo,
Repetindo um poema repetido.









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Comentários (2)

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Ana Martins
Ana Martins
2019-04-24

Daniel, qualquer coisa se passou com a(s) rede(s) de algum telemóvel. Já sei que está tudo bem. Beijinho e continua a escrever.

Ana(bela) Martins
Ana(bela) Martins
2019-04-23

Daniel, só agora te descobri e gostei do que li. Voltarei mais vezes. Mas vou dizer-te a razão por que te encontrei: ligo para a tua mãe e ninguém atende. O que se passa? Um abraço e continua a escrever.