Escritas

Lista de Poemas

Não

Não é a felicidade que eu procuro. Ela mata-nos os olhos, a boca, os ouvidos

Não quero beber esse silêncio, essas lágrimas de alegria

Não sentes? O nosso corpo solto, molhado, caindo das janelas,

Não vês ? Podemos ser como a chuva que lavra lá fora...

Não é a felicidade que eu procuro. Há-de ter outro nome, outro rosto, outra força...
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Amo todos os stressados

Amo todos os stressados
E mais aqueles que estão sempre a reclamar,
E os músculos da voz a escavar
Suas queixas de queixados!

Contenta-me as pessoas que nunca se contentam
E não contentes com isso,
Sempre se não contentam disso!
E sempre se descontentam...

Honestamente, gosto!
Os que não sabem fazer sacrifícios;
Os púdicos, que são para mim um vício,
Os que não se importam com os outros!

Adoro sentar-me à mesa com os escravos do prazer,
Os que não aguentam estar sozinhos
Os muy nobres elitistazinhos,
Fico bêbado de os ver!

Os frios, de cortar os ouvidos;
Os intolerantes como Jesus Cristo!
Sérios, arrogantes, os de alma despidos
Cegam-me de amor imprevisto!

Amo ainda todas as pessoas como eu:
Os molengões mais criativos, tão sem jeito!
Os mais felizes tristes passaréus...!
E aqueles que não possuem estes defeitos,

E não têm mais nada seu!
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Alice

Alice chamava-se assim: uma menina bonita

Os dedos sempre longos, como tranças

num rosto de boneca recortadas.

Os cabelos rabiscados como armas

sobre os ombros e uma boca de bondade.

(Desenhem-se uns olhos verdes de fruta, num corpo de missangas

E um perfil estreito de ilha...)



Dos lábios incómodos (e de aspecto melífero)

Alice trincava Fábulas e ruía.

Inocente compulsiva, aquele sorriso impune...

Aquela fragrância ilícita...
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Insónia

Ao pé de ti, não durmo.
A noite é clandestina
da esperança,
Que os teus gestos acordam.


À janela
Do teu castelo branco,
Toda a pornografia
roubada
se mostra.


No medo da guerra,
Barulho
Em que tudo morre,
Os meus olhos são aves que pousam no teu peito.
Ao pé de mim, não dormes...
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Confissão


és minha.
Confesso
Que não te dou a liberdade.
Na minha boca, flor
do campo,
há uma insanidade
que mais ninguém
conhece...


Sim, pirilampo,
és minha.
eu confesso:
Confesso que não te respeito;


E sempre soube
que isto que eu sei que tu sabes
que és minha,
foi apenas um sonho...

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Foi preciso

Foi ontem, às três da tarde
Da tarde de todas as tardes
Que tardam no coração do tempo
Mas foi preciso esperar

Foi preciso sair para a rua sem nenhum objetivo
Que não fosse andar às voltas
em círculos
Foi preciso

Abandonar reuniões, despedir-me de mim
E dos meus pares
De tudo o que me era íntimo
e metafísicamente seguro

Foi preciso
ficar sem falar com ninguém durante meses

beijarem-me num gesto longo
e desconhecido.

Foi preciso
olhar
Foi preciso olhar
e olhar-me de novo até deixar de me rever
no reflexo dos teus quadros.
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Instante


Podes sentir a música estalando no chão,
como paredes de nuvens? Eu sinto.
O navio a chegar, aqui mesmo
A este cais,
E partir
Os sonhos fogem da caixa de música
que me deste. O vento, esse, é o
mesmo, e flutua. Flores de Espaço
de uma força matinal.
Sinto o que estavas a fazer antes de
saberes o meu nome.
Possuo a palavra quente da noite,
enquanto danças.
Tenho para mim a satisfação, como
um dia pleno.
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O Mar

Vejam o Mar que chegou hoje!
O tigre pintado
de Azuis!
O Mar do desejo
Listrado
No fogo,
Rugindo aos teus seios
Azuis!


Chegaste, Mar!
Com garras
Na alma:
Entrelaçaste as tuas lavas
no Verão, e foste tocar
as ondas,
arrastar
a rebentação!
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Quando

Quando eu tiver uma mulher e me tornar o seu escravo
E depois tiver filhos e me tornar o seu escravo
escravo da cozinha
escravo da TV
escravo de tudo
Serei feliz

Por enquanto ainda me perco nos jardins
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Hoje


Hoje nasci.



Hoje fiz 10 anos




Hoje fiz 20 anos




Hoje fiz 30 anos




Hoje fiz 40 anos




E hoje sonhei





Que sumi!
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Comentários (2)

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Ana Martins
Ana Martins
2019-04-24

Daniel, qualquer coisa se passou com a(s) rede(s) de algum telemóvel. Já sei que está tudo bem. Beijinho e continua a escrever.

Ana(bela) Martins
Ana(bela) Martins
2019-04-23

Daniel, só agora te descobri e gostei do que li. Voltarei mais vezes. Mas vou dizer-te a razão por que te encontrei: ligo para a tua mãe e ninguém atende. O que se passa? Um abraço e continua a escrever.