Lista de Poemas

PEDAÇOS

Foi num desses dias em que o tédio domina o ser mais insignificante, que aprendi a viver. Sinceramente, não me interessava as consequências do futuro porque talvez não tivesse um pela frente.
        Conheci a vida tarde, mas de uma forma intensa. Drogas e aventuras embalaram minha entrada na vida adulta.
        Hoje sinto uma dor tão incrivelmente forte que chega a sufocar o que restou de mim. Quem sou eu? Eu existo?
        As viagens sóbreas da vida são mais alucinógenas do que uma balinha.Será que um dia a humanidade será mais receptiva e acolhedora?
        Os homens são os animais mais complexos que já vi! Talvez queria estar onde estive com pessoas que já vivi.
        A dor de um viciado em sonhos é maior que sua jornada social. Por que o mundo insiste em ignorar ou desprezar o diferente? Nós existimos! Grito novamente: Nós existimos!!!
        Preciso de um buraco para ficar e encontrar-me de verdade. Não consigo respirar nesse turbilhão de compromissos impostos desde que nascemos.
        Meus amigos estão por aí, ligados num mundo externo. Estou presa, sozinha. Sair da escória e voltar para a história? O sentido está se perdendo novamente e eu estou me desfazendo. Me perdoe!
        Sábado, aquele sábado! Estive lá no momento certo e na hora certa, apenas não fui a pessoa certa. Estou aqui, hoje, aguentando os resultados dessa sólida viagem.
        Do lado de fora está o medo de correr os mesmos riscos. Talvez eu já esteja caída numa dessas armadilhas factuais e sem volta.
         Meu corpo está fora da casca, mas meu coração está protegido pelo meu temido eu. Como é difícil ser alguém!
         Espero encontrar o verdadeiro caminho. Continuar andando...


ANO: 1995
👁️ 118

SALOMÉ

Boa noite, senhoras e senhores
que rufem os tambores
aqui é só alegria
saiam da rotina

Menina e dançarina
Salomé
a rainha desse cabaré
por favor,
todos em pé

Ela pode te olhar
um rebolado afinado
um decote de matar
e um beijo bem molhado

Salomé é tentação
moça quente e travessura
ela toca sua alma
a fogosa gostosura

Entre plumas e paetês
ela faz malabarismo
mexidinhas pra vocês
sua boca tem sorriso

A mulher virou de costas
sutiã ficou nos pés
ela sabe o que tu gostas
essa é a Salomé

Aquela noite estava quente
e a platéia delirava
um estranho forasteiro
fixamente à ela olhava

Jeremias era o nome
do homem sem paradeiro
ele, antes, um matador
era, agora, seu prisioneiro

Lhe pagou muita bebida
embreagou no seu sorriso
ele, cabra-macho nordestino,
por ela estava perdido

Dançaram juntos na multidão
e amaram-se na escuridão
Salomé, a dançarina
rebolava como menina

O dia amanheceu
e o matador acordou
Salomé abriu os olhos
e um grito escapou

Me discurpa, minha amada
muié boa e tão bandida
vim de longe pra essas bandas
pra colhê a tua vida

Alguém da cidade
bom dinheiro me deu
pra acabá com a muié
que traiu o nome seu

Salomé, atordoada,
lembrou-se da situação
traiu com novo menino
o Coronel de São João

Jeremias atirou
impiedoso, assegurou
estava morta Salomé
na cama rosa do cabaré

Essa é história de uma deusa
da vida noturna, soturna
aplaudam meninos e meninas
porque a vida continua


ANO:2020
👁️ 270

ILUSÃO

Pura ilusão!!!
Todas essas estradas,
tão belas e fartas
te levam ao nada
de mãos atadas
Atenção,
não caia nesse chão
de desgosto
libertino
Essas estradas
não têm destino
👁️ 85

ODE À QUALQUER COISA

Rumo sem distância
ou a vida é um círculo
basta ver a sua dança
e encontrar-se num penhasco
interno, materno, um asco
quer fugir
ou fingir
que é cego
Esperar até nunca!
E ver o amanhecer


ANO: 1993
👁️ 327

MEDO

Se for assim, 
anjos de marfim,
a morte é longe
e perto de mim
azul do hoje,
amanhã talvez
Se for assim,
anjos de cetim,
a morte é perto
mais perto do fim
enquanto respiro
sufoca-me o frio
Se for assim, 
anjos de alecrim,
estou em guerra
na Terra
de perigo,
aviso,
castigo
Medo de viver?


ANO: 1996
👁️ 97

DÉBORA

          -Débora, não mexa nisso!
          Débora se virou para a voz e, com seus passos curtos, continuou explorando o jardim.
          -Débora, tire isso da boca!
         Que nojo! Ela sentiu o goto ruim daquele pedaço de tijole e cuspiu a terra longe. Curiosa, continuou andando.
          -Débora, cuidado! Vai cair se continuar assim.
          E de fato levou um tombo. Não deveria ter corrido. Ainda bem, só esfolou o joelho.
          -Débora, pare de chorar! Não foi nada. Logo sara.
           Seu choro era inútil. Não era o suficiente para passar a dor. Parou de chorar.
           -Enxugue essas lágrimas. Que coisa feia!
           Ela se levantou. Estava com medo de parecer feia.
           -Débora, o que você está fazendo?
            Dessa vez estava quieta, brincando com uma formiga.
            -Tire o dedo daí! Tem bichinhos que podem te machucar.
            Com susto, parou de tentar colocar a mão no formigueiro.
             -Venha, Débora, vamos entrar para tomar banho. Hoje é seu aniversário.
         O que era aniversário mesmo? Já tinha ouvido essa palavra mas não conseguia lembrar exatamente.
             -Cuidado, não espirre muita água. Está molhando todo o banheiro.
             Como era gostoso brincar na hora do banho!
              -Tire o sabonete da boca, isso não é para comer.
               Argh, que horrível! Era amargo. Jogou de volta à água.
               -Agora vou lavar seu cabelo. Feche os olhinhos para não entrar sabão.
               Que choradeira! Seus olhos queimavam.
                -Pronto, já passou.
                Ela estava impecável. Cheirosa, com roupas novas e bem penteada. Alguém bateu à porta:
                -Rosa, pode trazer a Débora que já arrumamos a mesa, os balões e os convidados.
                Fecharam a porta e deixaram as duas sozinhas.
                -Vamos lá, meu amor. A tia Rossa vai te levar para cantar parabéns.
            Então, um nó na garganta a sufocou. Olhou em volta. Todas aquelas camas alinhadas, aqueles desenhos pendurados na parede lhe traziam lembranças de quando ali chegou. Antes, era apenas mais uma enfermeira, mas naquele lugar aprendeu a ser humana, a rir e chorar com cada uma daquelas pessoas especiais, que para muitos não passavam de deficientes mentais. Para Rosa, eles eram sua família! Enxugou as lágrimas e levou débora até a cozinha, onde todos os enfermeiros, médicos, internos e convidados a aguardavam.
                -Parabéns pra você...
                Débora pediu bolo e alguém se aproximou:
                -Rosa, quanto tempo Débora está aqui?
                -Desde que nasceu.
                -Dezesseis anos?! 
                -É, dezesseis anos... - e calou-se com um pedaço de doce.


ANO: 1999
👁️ 293

DESTINOS CRUZADOS

"Alô, Alex?"
"Oi!"
"É a Letícia, tudo bem?"
"Oi Lê"
"Liguei pra dizer que vou fazer um jantar pra nós. Você vem?"
"Legal!" - disse com espanto. Ela, afinal, nunca gostou ou quis cozinhar durante esses três anos de namoro.
"Então você vem?" - agora ela estava surpresa. Ele nunca gostou de nada romântico e que não pudesse controlar.
"Lógico! Que tal um filme tarde da noite?"
"Filme?!" - ele enlouqueceu, com certeza! Conversa estranha! Alex nunca se importou com filmes. Ele só gostava de ganhar dinheiro. - "Claro!"
"Você escolhe." - ela, definitivamente não está bem, pensou. Letícia nunca gostou de nada além de coisas que reforçassem sua beleza. Era o estereótipo narcisista vivo!
"Ok!" - qual seria essa nova versão de Alex? Ele, tão controlador, estava deixando ela decidir? Era assustador.
"Que horas?"
"A de sempre." - ele sempre passava na casa dela para certificar-se de que tudo estava sob seu controle.
Alex riu:
"Você deve estar fazendo piada, né? Às vezes você é muito cruel! É a primeira vez que você me chama pra fazer algo romântico! Já sei: você sabe o quanto gosto disso e resolveu me zombar...Letícia, você é má!"
"Como? Não estou entendendo..."
"Você é má sim! E estranha...e parece outra pesso..."
"Pessoa ? Espere, será que somos quem pensamos que somos? Sou Letícia, noiva de Alex e..."
"Noiva? Não, não. Sou Alex, namorado de Letícia."
"Qual seu número?"
"22655551"
"Opa, liguei errado. Desculpe."
Então desligaram o telefone.

Na mesma noite, Letícia e Alex, o noivo, entrando em um restaurante:
"Não, não. Não quero ficar aqui. Gosto da minha casa, do conforto do meu território."
"Letícia, por favor! Você precisa viver meu mundo. Quer casar? Então, tem que me acompanhar. Garçon, o vinho mais caro, por favor! Com sorte, sairemos em alguma coluna social amanhã. Sorria!"
"Por que você não arruma outra noiva? Eu não sou a mulher perfeita que você quer."
"Não, não é, mas você tem os olhos que eu quero. Minha cara, você será perfeita, acredite!"
Pela porta principal, outro casal chegava em clima de discussão. A loira, alta e esbelta, mostrava-se irritada porque o namorado estva trajado em desacordo com o ambiente e, o que era uma blasfêmia, disse que não gostava de lugares da moda:
"Alex, meu querido! O que faz aqui?" - disse a loira em direção de Alex, o noivo.
"Letícia? Quanto tempo!"
"Esse é meu namorado Alex."
"Essa é minha noiva Letícia."
"Que engraçado! Temos os mesmos nomes. Alex, meu namorado, estava me dizendo que uma Letícia telefonou hoje cedo, por engano, e ele pensou que fosse eu. Tão dramático!"
Letícia, a noiva, corou e olhou para os olhos de Alex, o namorado.
Os quatro se sentaram em uma iluminada e farta mesa. A noite passou entre copos de vinho e papo furado. Ao final, cada um foi para sua casa. Cada um foi para o seu destino: o rompimento dos dois relacionamentos foi inevitável.

Anos depois:
"Mamãe, a gente vai passear esse fim de semana?"
"Talvez, mas acho que seu pai vai querer ver um filme e eu vou cozinhar coisas gostosas para vocês. Amo cozinhar!"
"Que foto é essa?"
Ela estava olhando um caderno com uma fotografia antiga em que quatro pessoas jovens e bonitas estavam em um restaurante. Eles sorriam sorrisos vazios e cansados. Eram infelizes naquela época.
"Sou eu, seu pai e dois amigos: Alex e Letícia."
"Eu já existia?"
Ela sorriu e bagunçou o cabelo da criança:
"Não, seu pai e eu nem namorávamos. Aliás, nós no vimos pela primeira vez durante esse jantar."
"Como foi que vocês se conheceram?"
"Alex, venha explicar para seu filho como nos apaixonamos? Vou preparar um sanduíche."
"Bom, tudo começou quando sua mãe discou um número errado de telefone e eu disse "alô"..."
👁️ 105

O DRAGÃO E A BAILARINA

Ontem, subindo o morro
um dragão de cauda longa
que andou tantos caminhos
de uma vida
tão cansada de ser só

Cuspiu gelo enraivecido
num potinho made in China
cantou sonhos coloridos
de uma doce bailarina

Onde, subindo o morro
um palhaço de aço
tão bobo, 
fez nascer um ar cansado
de uma vida
tão ardente,
tão contida

Viu dragão, duende, bailarina
e chorou porque lembrou de sua filha
que não teve mas nasceu de seu suor
Foste pai, avô, neto da menina
que lhe tocou e aprisionou
numa cauda de dragão


ANO: 2002
👁️ 126

JOGADOS DE LADO

Eram todos os sonhos
jogados de lado,
até que um dia
um jeito diferente
tornou-se padrão
e o que estava largado
fez-se normal
na mesma proporção
👁️ 299

ONDE FICA?

Não é negócio
de puro ócio,
é mais profundo,
um "estar no mundo"
que aconteceu 
de ilusão,
insatisfação
e tensão
Como?

Ei, seu moço
me diga
onde fica
a minha querida
existência na vida?

Não sei se é lá,
aqui, acolá
só sei que preciso
dizer o que digo
pra quem quer ouvir
sentir meu cansaço,
meu medo, meu asco
mas não estar aí
portanto não sei
que porta irei
se vou escolher
falar, eu calei
todas as rimas

...palavras nos levam à ira
do nicho das vozes
que consomem o âmago
de um homem só...


ANO: 2020

👁️ 305

Comentários (5)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2026-01-09

Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.

Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.

Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.

Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.

diogoletriamoraes
2020-02-19

Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.