Lista de Poemas
A CAMA
os maiores amores de uma vida,
escondidos sob lençóis
desgastados,
desbotados,
de anos de existência
Minha primeira dor,
meu grande amor,
tudo ali registrado,
com o tempo amarelado
e na sua estrutura
solidamente eternizado
Quando nasci,
fui naquela cama parido
Entre lágrimas, angústia e dores
o primeiro contato com o amor:
minha mãe me segurou,
apesar de tanta dor
Minha primeira grande febre
fiquei noites tossindo e acordado
mas estava feliz
tinha mamãe ao meu lado
A madrugada veio
e com ela o desespero:
no meio do sono profundo
molhei o lençol inteiro
Não acreditei que fiz xixi
justo na cama em que nasci!
Cinco anos se passaram
e para o interior mudei,
a cama foi conosco
e ali que me curei
Na tempestade tive medo,
trovões gritantes e pesadelo
A cidade apavorante
despertou meu desespero
Minha mãe me abraçou,
pediu calma e me confortou
Desde então nunca temi
as tempestades
pelas quais vivi
Já adolescente, a primeira namorada
que, digo verdade, até hoje,
por tanto tempo é por mim amada
Naquela tarde de verão,
minha mãe e meus irmãos
foram para cidade viajar
eu fiquei sozinho
para minha musa encontrar
Entre travesseiros e curiosidades
de dois adolescentes
de quase a mesma idade,
tudo foi acontecendo,
e nosso amor crescendo
Testemunha foi a cama
daquela louca chama
Naquele inesquecível bê-a-bá
eu aprendi a amar
Entre dias e correrias,
de namorada passou a esposa
e já adulto e maduro,
naquela noite infeliz,
no meio do escuro
atendi ao telefone
A voz rouca me dizia
que àquela cama eu voltaria
Cheguei com esposa e filhos
embaixo do temporal
Aos prantos olhei no quarto,
pois não tinha hospital
Soluçando, segurei suas mãos,
com um aperto no coração,
trêmulas, diziam adeus
falei de amor e beijei os lábios seus
Naquela hora meu peito doeu,
mas tive que aceitar: minha mãe morreu
A partir daquele dia
toda a nossa grande família
como mágica se separou
mas eu fiquei com a cama
que sempre me acompanhou
Meus filhos dormiram lá
e minha esposa também
Hoje, porém, é um triste dia
que, apesar da alegria,
minha neta ali deitada
talvez nunca irá saber
que a cama tão antiga,
tão cansada e tão vivida
foi abrigo de minhas histórias,
meus amores e minhas glórias
Hoje a cama vai ser queimada
e na memória guardada
Sob seu lençol amarelo,
toda a história de um velho
Vou apagar o que ocorreu
destruindo a cama
que, destino, o cupim comeu
O amor de uma vida toda
se perdendo entre cupins
Talvez seja uma tola história
mas é o conto que a vida quis
ANO: 2004
UM GESTO NO VAZIO
e o beco está escuro
vejo a luz aqui de fora
mas a garagem
é sombria
noite que me persegue
Estão todos lá dentro
trancados,
mundinho particular,
ouço ecos de palavras
mal articuladas
e a solidão de existir
Temo ir em frente,
as estradas são opostas
e a confusão está ofuscando,
chamando para o além
O que é viver?
Uma dor de ilusão?
Cacos mal vividos?
Uma trégua?
Purgatório?
Me tocar,
asas angelicais,
vôo panorâmico
na cidade cimentada,
uma queda,
vertigem,
para algum lugar
no eu
ANO: 1998
MENINO
A fome que se vela
Une todos à mesma panela
Um garoto magricela
Ouvindo Hino com voz rouca
Suas ilusões são poucas
ANO: 1993
O ENCONTRO
que os olhos briharam
e os corpos se tocaram
seu sorriso era puro
e o sentimento, inseguro
foi assim que, de repente,
vendo a cena de euforia
seu destino se agarrou
no momento de alegria
e então teve certeza
que diante de seus olhos
estava o amor verdadeiro,
o seu companheiro
pro resto da vida,
era certo,
concreto
Foi num dia tão comum
que aconteceu o especial
ANO: 1996
LIQUIDIFICADOR DE SENTIMENTOS
um triturador sem eletricidade,
um demolidor confuso,
uma peça a mais,
um local obscuro
o tempo não volta atrás
Esmagador de esquecimento
tudo feito sem movimento
com massa, óleo, cimento
uma máquina ou sentimento
cada vez mais girando,
triturando, confundindo,
esmagando e diluindo
Como explicar essa invasão?
Simples liquidificador ou homem?
Eis a questão
ANO: 1995
DISRITMIA BULÍMICA
com o bolo, ballet,
bolacha de leite
bombom e chiclet
Bole com a vida
vontade de ver
vitória no espelho,
ventre de vento
visão de bebê
Bole com as coisas
com o que sente e tem
Bole com tudo
comer é um bem
Devora comida,
imagem, estima,
devora a vida
sentida à deriva
gordura, caloria
devolve podridão
da massa falida
nostalgia, anemia
Devora, vomita,
vomita, devora
visão definida
sexo preferencial
vida assumida
suicídio fatal
Bole, bulímica
beleza beijada
flor amargurada
e os pulsos nus
no final, são cortados
pela faca dourada,
pelo desejo de morte
e ser forte
é tudo o que quis
mas não desejou...
ANO:2003
COTIDIANO
fechou seu livro
estava livre
mas infeliz
Calou-se no soluço
olhou a vida
e nada fez
Esperou,
esperou,
esperou...
Passava horas,
às vezes dias,
na multidão
dormia pouco
comia resto
sentia o vazio
e a certeza
que seu trabalho
era a salvação,
a união
de dois mundos:
humano,
sombrio
Mas, tudo bem,
mesmo que fugisse,
mesmo que gritasse,
mesmo que se escondesse,
o monstro,
terror total,
o cotidiano,
talvez o maior medo
e mais mortal
iria te achar,
te devorar
e fazer dos seus dias,
por mais cheios de alegrias,
fossem todos iguais
Então fechou os olhos
e saltou para o vazio
ANO: 2000
SORRIA
você está sendo filmado
por algum olhar marcado
pelas ruas em que passa
Sorria,
você está sendo procurado
vivo, morto ou desmembrado
desse sonho amargurado
Sorria,
você está sendo gravado
no leito, cruxificado
na cena de enlatado
Não chore por estar vivo
porque tudo não conta nada
e o sorriso é uma farsa
da estupidez de ser um mero,
não quero, um zero
Se perca na lucidez
de algo que já foi
no passado antigo
escondido
nas sombras da imensidão
do tempo
simples evento!
ANO: 2003
VALE DO ESGOTO
Até que ponto o fim está perto?
Longe de algum parco lugar
Onde filosofias de revistas
Jorram nas mentes doentias
E essa sombra colossal?
E Merlin, vem buscar-me?
As pessoas chegam para assombrar
Todo o temor enternecido
De alguma coisa que um dia foi
Dói, a vida dói
E a cada náusea está partindo
O princípio de um longo fim
Estou amando a morte...
ANO: 1997
ROSTOS APAGADOS
Fernando,
Edson,
Eduardo,
são tantos nomes
que minha agenda
não guardou
Nessa imensidão
desse cômodo apertado
onde ecoa o vazio,
cheio de pessoas risonhas,
espero você, Giovane,
ou talvez seja Maurício
Então apague a luz
e venha me sentir,
me tocar, me cheirar,
me beijar,
só não ligue, Daniel,
se eu, por algum motivo,
lhe chamar de Adriano,
é que são meros nomes
sem importância alguma
para mero desejo vulgar
ANO: 1998
Comentários (5)
Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.
Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.
Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.
Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.
Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber
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