Lista de Poemas
PAUSA
lembra de mim?
Espero que não,
porque vou te assombrar,
te sugar,
te chicotear,
te maltratar e
te fazer
PARAR
...
Entra e sai da minha mente
e confunde o que já é confuso
CHEGA!!!
... (silêncio)...
...a-ma-nhã
vou te
tor-tu-rar...
PAUSA
ANO: 1999
LIBIDO
ainda escorre nos meus lábios
onde seu mamilo já foi rei
no furor da minha boca
atormentada de prazer
de viver o ápice
de querer
o seu toque
re-toque
foi pecado
Ah, porque essa cama é tão imensa
para guardar tão nobres sonhos
de uma noite inesquecível
ah, porque esse quarto é tão pequeno
para guardar tantos segredos
de uma soprano adormecida
Seu cheiro ainda está no meu vestido
que, tão ligeiro, foi despido
por suas mãos enfurecidas,
por sua sede de desejo
de pecado do querer
ah, porque esse dia é tão estreito
para guardar tantas lembranças
de uma vida enlouquecida
ah, de tantos toques me peguei
num canto escuro sem você
numa tensão enternecida
ANO: 2002
JOÃO NINGUÉM
Cresceu do nada
Viveu do nada
Só suas ilusões o sustentava
Ele passava fome
Não tinha nome
E sempre come
Da mão de um pobre homem
Mas um dia cansado de tudo
De mal com o mundo
Foi lutar
Pra se sustentar
E não acabar
Com fome de não poder falar
No primeiro ano foi aquele pano
De só trabalhar
Não ter onde morar
E se matar
Pra ser alguém
Ia de trem
Trabalhar sem
E não tem Ninguém
No segundo ano
Não teve nem pano
Não tinha trem
Vivia sem
Trabalhar também
Era o "João Ninguém"
Ele nasceu do nada
Cresceu do nada
Viveu do nada
Nem suas ilusões o sustentava
Não tinha a quem
Pedir amém
Diziam estar sem
Pois ele era o "João Ninguém"
ANO: 1993
JOGO
até quando haverá luz?
Extraterrestres por toda a Terra
muitas mortes, doenças, soldados,
estamos cercados por todos os lados
há um coração chorando
em algum lugar,
há uma dor devorando
em algum lugar,
há multidões gritando
em algum lugar,
há uma vida acabando
em algumm lugar,
há ódio brotando
em algum lugar
Violência em quadrinhos,
sorvete de sangue,
falsos anjinhos
A humanidade é um mangue
presidente, ministros, prefeitos perfeitos
soldados, coronéis e um homem eleito
amantes e amados
destinos mudados
secas, enchentes, frio e calor
tochas que ardem a todo vapor
dias, conflitos, suor e amor
num jogo noturno
quem ganha é o senhor
ANO: 1993
O PIANO
Era uma moça muito bonita e atraente, sonhadora e, às vezes, desligada. Amava conhecer e estudar sobre o movimento Romântico do século XIX. Essa época a fascinava.
Morava, como quase todos os estudantes, com uma amiga, com quem dividia despesas. Estava no segundo ano de música e se preparava para a difícil vida de artista.
Romeu era um ladrão profissional. Sua cabeça era um emaranhado de planos e movimentos, tal qual um jogo de xadrez.
Tinha uma rotina de aventuras e era despreendido de qualquer sentimento romântico. Romantismo era coisa de tolo! - dizia.
Aquela tarde, os planos de Romeu diziam respeito ao pretenso ataque ao condomínio de classe média em que as meninas moravam. Ele entrou pelos portões e, já preparado para confiscar as jóias que, diziam, Eugênia guardava, foi surpreendido por uma linda melodia de Mendelssohn.
Sentiu-se tocado, imaculado, apaixonado com toda a alma por aquela canção. Escondido, subiu as escadas e, no andar de cima, sentada ao piano, estava uma jovem de pele morena, cabelos longos e um sorriso ingênuo e encantador. Era, sem dúvida, a visão mais doce que ele já teve. Em silêncio, ficou observando e apreciando a deliciosa melodia dos deuses.
Por mais de uma hora Eugênia tocou e, por mais de uma hora Romeu esperou. Não pretendia furtar nada, nem fazer planos sagazes sobre fortunas fáceis. Ele só queria ficar ali, se entregando aos sonhos mais secretos que ela lhe despertara.
Então, por fim, deu conta do tempo passado e se retirou, mergulhando numa profunda solidão do anoitecer da cidade grande.
Os dias foram passando e Romeu vegetava: não comia, não dormia, não roubava. Ficava entregue aos seus devaneios, imaginando beijos, amores, cores em seus sonhos.
Todo final de tarde e início da noite, ele ia para perto da janela ouvir Eugênia tocar. Tudo nela o seduzia. Observava de longe suas dores, suas alegrias, suas dúvidas, seus temores. A conhecia tão bem que sabia exatamente como se sentia só pela forma como dedilhava as teclas.
Certa noite, ao chegar, encontrou Eugênia rindo e conversando com outro rapaz. O ciúme corroeu sua alma, e com olhos cheios de lágrimas, Romeu saiu pela lateral. Entretanto, ao olhar uma última vez pela janela, ele presenciou um ataque em que o estranho investia contra a moça.
Sem pensar, ele foi até a porta principal e a derrubou. Subiu as escadas com euforia e, instintivamente, agrediu o rapaz. A luta durou alguns minutos. Eugênia se enconlheu em um canto e, enquanto o rival fugia, Romeu a acolheu e a confortou.
Ela agradeceu. Ele confessou amor. Ela sorriu e pediu para que ele fosse embora. Desapontado, ele agarrou uma rosa vermelha em cima do piano e saiu para encontrar a sua dor.
-Eugênia, você soube o que acabou de acontecer? - perguntou a amiga que acabava de chegar em casa.
-O que houve?
-Um moço acabou de morrer atropelado na esquina de casa. A rua está um alvoroço.
-Não gosto de falar sobre morte. Por que você me diz isso?
-Porque ele morreu chamando seu nome.
Então, o desespero a invadiu. Desceu a rua correndo e, ao chegar no local, Romeu estava deitado, segurando fortemente, nas duas mãos, a rosa vermelha que ele lhe roubou.
ANO: 1993
NADA
O ouro, comando, prata?
Por que ninguém quer saber
Quantas pessoas a fome mata?
Somos objetos manipulados
Por animais de gravata
Todos precisam ser mandados
Pra no mundo ter uma vaga
Nos subúrbios da consciência
Existe uma dor em evolução
É preciso ter paciência
Pra rejeitar essa tentação
Quais as virtudes da humanidade?
Quais os caminhos da sociedade?
O mundo é medíocre, o homem é vulgar
Ninguém sabe
Até quando isso vai durar
As indústrias nos transformam em matérias
O homens de gravata nos resumem em fala
No fundo somos todos iguais
No fundo não somos
NADA
ANO: 1993
LÁGRIMAS DE SANGUE
um olhar triste e sombrio
preso no próprio silêncio,
na dor de ser alguém
Quando sorria,
seu sangue brotava
através das lágrimas sufocadas,
da luta de conseguir algo em vão
E chegar lá era ver
a frustração
angústia
Engula seus sonhos,
doce menina!
Dormir tranquilo era ver
que o mundo se consumia
e os nervos ficavam
a flor da pele
e ela...
...não era ninguém
ANO: 1995
INTER-ROGA-(A)ÇÃO
e as cores eram doces
o céu estava longo
e a vida tão confusa
quando os olhos da imensidão
tocou na possível forma do ser
então deram-se as mãos
e o mundo foi todo entendido
como nunca ousou entender
Foi, então, que toda a multidão
compreendeu que nascia
mais um novo sonho
e saíram só os dois
a cantar e festejar
pois se encontraram
e viveram
felizes
dia sim, dia não
como todos os mortais...
ANO: 2000
GÊMEOS
e não posso entender
como demorei tanto
para ser capaz de ver você!
Toda vida procurando
alma gêmea tão perdida
tenho medo de você
afinal, somos iguais
temos o mesmo potencial
que machuca e amarga
o que é doce
queremos o amor
com liberdade
e, claro,
libertinagem
ANO: 1998
AO AVESSO
O que parece ser verdade,
no fundo sangra mentira;
O que se acha bonito
é só casca superficial;
Se é dia e pode ser noite,
por que não viver e ver com olhos próprios
que a verdade é, talvez, mentira?
O que vemos pode ser miragem
e a miragem pode ser real,
mas é complicado
porque
o complexo é simples
vemos tudo
e não enxergamos nada...
às vezes, para sair da escuridão
precisa-se apagar a luz
ANO: 1994
Comentários (5)
Minha cara Poetisa. Carol Ortiz - teus texxtos poéticos , estou sempre a lelos - em lembranaças de Infância. e cheia de incertezas e de amores... cortados em pedaços certos e errados. a infância ainda é de lembranças alegres. mesmos com sonhos não realizados. a não ser é claro quando sofremos violencias intimas. abaços de seu seguidor ademir.
Olá Carol Poetisa... Boa noite, certamente este mundo não é tão banal... mas os anjos de Istambul ...voam em formas de arco-iris na plenitude de teu imaginário poético. felicidades.
Olá Carol Poetisa.... Boa noite.... certamente que marte é por aqui , seu jeito de esquecer e poético. abraços. de seu sempre admirador. ademir.
Minha Cara e Grande Poetisa.... seus contos e poesias, são deslumbrantes, menina você é demais , me sinto bem pequenino no que tuas mãos escrevem. felicidades. e muitos amores seus versos irão conquistar. abraços e sejas muito feliz.
Adoro suas poesias como adoro seus lábios, minha esposa amada.
Nasci em Campinas, SP. Morei em muitos lugares e voltei para mesma cidade para envelhecer. Sou casada e mãe de cachorros e crianças que precisem de colo. Essas poesias foram escritas durante toda a minha vida e em épocas diferentes. Algumas foram publicadas em coletâneas e outras não. Para quem gosta e quer passar u tempo em contato com a literatura, boa leitura :)
Se quiserem se corresponder, e-mail: cacal.ortiz@hotmail.com (posso demorar para responder, mas sempre respondo). Acessem meu canal no youtube sobre livros:
https://www.youtube.com/channel/UCOj_DssoWp0_1HO7VCXgRcA?view_as=subscriber
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