Escritas

Lista de Poemas

poema a Lane num sono qualquer de sua vida

I

assim anoitecida
carregas no gesto
todas as tardes
por não seres noite
nem por isso
deixas de escurecer meu peito
com o alegre burburinho das estrelas

II

navego teu sono
como uma jangada morna
de sonhos tanto como velas

III

e se resmungas
teu lençol é uma bandeira tangida
pelos grandes ventos
na noite em que me constróis

IV

teu sono
tem a concisão de um sonho
que amarrotas nos lábios
adredemente amanhecidos
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Poema preferencial à massa

quando indivíduo
assim subtraído
vem-me à face a razão
de não ser compreendido
porque tenha da vida
uma tão dessemelhança
que não me cobre coerência
qualquer desvão da esperança

quando indivíduo
assim desencantado
vem-me a razão à face
de não me ser amado
porquanto tenha do amor
uma crua transigência
de parecer-me pacato
num mar de insolência

quando indivíduo
assim tão tático
vem-me à face a estratégia
de sentir-me armado
porquanto tenha da arma
uma visão avara
que diz-me nexo de tudo
e desconvoca a alma

quando indivíduo
trançado em desatinos
vem-me ao riso a razão
de parecer-me irresolvível
porquanto possa jogar-me
no dorso das consequências
e parecer-me mais crível
apesar das aparências

quando indivíduo
assim contrariado
vem-me à morte a razão
de parecer-me um fardo
jogado em jeito morno
mas de intensa frialdade
e que nunca me convence
dos metros de minha idade

quando coletivo
eis-me indivíduo
guardados metros de mim
na longidão de meus sentidos
porquanto cerzido à massa
venha-me sempre a razão
de parecer-me soldado
com minha vida na mão

quando coletivo
eis-me solucionado
na contradição infinita
de todos os meus fardos
porquanto mágoas carregue
elas trazem-se tão cruas
que jogam-se em meu peito
e perdem-se nas ruas

quando coletivo
eis-me amado
nos vãos mais largos das ruas
e nas praças em que me trago
porquanto seja urbano
de uma rural compostura
no grave abraço que o povo
constrói na sua postura

quando coletivo
íntimo da liberdade
queiram-me morrer em praças
nas quais eu sempre caiba
porquanto minha carne
ultrapasse um mero músculo
e esconda na história
aquilo por que me custo

da massa
tem-se a impressão
de um jornal estendido
nas costas da nação
que ocupa em suas páginas
a grave contradição
de quem empunha as praças
com a fome nas mãos

e tem-se resolvida
na irresolução
dos futuros que repete
em cada contradição
porquanto passada não use
a mesma geometria
que diz-lhe soma de uns
e viés das maiorias

mas seja concatenada
como a calda das usinas
que se quer rio de mel
nessa profunda oficina
que apenas não é a soma
de um açúcar inconsumido
mas a simples composição
de vários infinitos

da massa
tem-se a impressão
de uma rosa vermelha
cravada na escuridão
porquanto flor já não seja
tenha-se sempre à vontade
em ser planta do mundo
semente da liberdade

da massa enfim
tenha-se a certeza
de que mesmo gasta a manhã
ganha-se a tarde inteira 



 

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Do avarandado das culpas e seus melindres

na varanda das culpas
resta o veredito
de que o fato resiste
a qualquer artifício
e de não ser ato
mas interna condolência
a culpa apenas medra
num desvão da consciência
em que mesmo objeto
o sujeito desdiz sua presença

nenhuma culpa se presta
a consertar por si a existência
👁️ 350

A temporal exaustão dos futuros

a saudade do futuro
desmonta o presente
como se o tempo vivesse
no passado da gente

e o passado futuro
montado nos neurônios
sonha com outros tempos
com o presente nos ombros
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Das andanças do povo

A multidão
contrita
laça o peito da história
na avenida

o que lhe tange
é o favor da lida
de criar futuros
e entorná-los pela vida.
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Das léguas razões dos meus enfados

Nas ruas da vida
como ser exato
se todas as léguas
cabem nos meus passos?
Como não cabê-las
nos desvãos do mundo
explodindo em tudo o coração
navegante urgente desses rumos?
como não sabê-las
estradas de mim mesmo
na direção exata do povo
a que me coube tê-lo?

É que a humano
sempre se permite
amanhecer todas as manhãs
por que se grite
e é de tê-las avulsas
como tempos recatados
das razões de nós mesmos
que tenhamos projetado
👁️ 3 404

Versos diagonais em torno da usança do viver

a ansiedade
é só um destempero
de quem faz do futuro
um medo

a dúvida
é só um lapso
das certezas que se traz
fora dos braços.

👁️ 3 156

Poeminha humanitário

que ilusão

a droga sonha tudo
eu não

e objeto e inimigo
não me distingo

das rédeas

em que não me dirijo
a droga

é um interstício

entre mim

e todos meus indícios
homem

nada me proclama

o atestado de sujeito
ou de quem ama
 
a droga

resulta inumana

nada do que é sujeito
lhe reclama

apenas um inteiro indício
de que a vida

nem é chama
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Possibilidade

inverto.

sou aquilo

que nem me conheço.
 
invento.

sou o contrário
do meu medo.
 
intento.

ouso amar-me 
como me invento.
👁️ 3 210

dos olhares e tanto

que se admita:

ao homem é dado o olho
e a vista

e no entanto

não se permita

que o olhar seja maior
que a coisa dita

porque em sê-lo

o olho desvirtua

o que apenas verbo
desabita a rua

é que aos olhares

não se admite

que sejam reticências

de algum alvitre

porque em tê-los luz

em compreensão exata
nada lhes retire

o aval da prática

que consolida o olho
enquanto instrumento
de medir a vazão

de todo pensamento
 
ao olho

nunca reste
a noção
 de que retrata

tão somente perscrute

o que indaga

e se pousa na língua

como verbo inflacionado

há que perdurar um tanto

na condição de projeto incalculado
 
 
ao olho

em todas as vias

resta uma feição de atalho
da alegria

porque baldio

mesmo reticente

o olho é janela

de inventar a gente
 
ao olho

em desoras
cumpre um tempo

de demoras

pois ao restar na face
como farol incauto
o olhar demonstra avessos
dentro da alma
 
ao olho contudo

é dada a serventia

de inventar-se em noites
mesmo dia.
 
eis a razão:

o olho deve sempre caber
na palma da mão.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !