Escritas

Lista de Poemas

Do trajeto e da permanência

Não se enquadre o fato
de o homem parecer-se resoluto
com qualquer dessemelhança
entre sua prática e seu discurso
 
é que retorne sempre ao tudo
o quanto só se foi do nada
somadas todas as esperanças
do que se gastou nas madrugadas
 
e, enfim, conte-se pelos dias
que restaram no peito dos viventes
tudo que se construiu tão amiúde
no transcurso de todos seus repentes.
👁️ 113

Do amor que se pretenda

Do amor que se pretenda
ouse mais do que decida
e que esteja sempre infante
ao redor do tempo e da vida
 
que o amor que se pretenda
nunca exato se disfarce
e que mesmo ausente sempre caiba
em verbo tanto que se baste
 
que o amor que se pretenda
nade pela vida em largo vau
nos rios de quem ainda nade
a infinita certeza dessa nau.
👁️ 90

De tempo e de vezes

no meio da alma e dos ventos
voam meus ancestrais
nas palavras do tempo
 
tudo que havia deles
como um mapa indeciso
hoje cabe indócil
no jeito do meu riso
 
e é por sê-los e tê-los assim
que sempre me admito
como uma alma intensa
adredemente infinita.
👁️ 135

Da extrema condição da vida

Ao Camarada Moses Mabida
 
Na cordilheira dos andes
brutalmente descansada
eu vi a noite que trazias arquivada
no vão da tua face
 
eu vi a imensa pedra
derramar-se incontrolada
nos ombros de minhas pupilas
nos olhos de minha mágoa
 
eu vi meus irmãos negros
destravando a madrugada
na mesma peripécia insone
com que os povos lavram a alma
 
eu vi no colo das serras
os verbos que ainda não temos
e sonhos que de tão sonhados
estavam gastos de paciência
eu vi o grito de Neruda
espalhar-se por inteiro
e construir todos os vãos
desde Manágua até Soweto
 
eu vi a fímbria da tarde
descrever esquinas no meu peito
e me propor ângulos tão vastos
quanto a extensão dos meus desejos.
👁️ 115

Palavras a George Floyd

A garganta
inventa na palavra
uma bandeira negra
desfraldada
 
a garganta
respira o mundo
com a força da paz
e a certeza de tudo
 
e o tempo
grávido de povo
aponta a trilha
de inventar o novo.
👁️ 119

De um tanto rumo compulsório

O limbo
das palavras
me instaura
nem tudo
tem o trânsito 
que declara
 
o tempo
em cambulhadas
me escancara
nem tudo
que é a vida
me desata
 
os nós de tanto
apenas declaram
que existe sempre um porto
onde desaguamos
da solidez dos desejos
da completude do que somos

👁️ 89

Carta XVII ao Camarada Gregório Bezerra

Gregório deitado
no meio da sala
tem a altura exata
de uma grande palavra
 
seu sangue
ao invés de rio
é uma espada latente
no seu peito frio
 
Gragório deitado
não é morto
é apenas a maior parte
do rosto do povo.
👁️ 225

Palavras ao Camarada Maia no fragor da luta

Quantos vulcões
restarão na tua boca
que ainda cuspiremos a vida
em tão extremo desconforto?
 
assim renhido
na batalha tanta
quem adivinhar te possa
a esperança?
 
és um inifinitivo
que ninguém alcança
convulsa a realidade
enrolada em suas tranças.
👁️ 96

Novamente o tempo

Ao tempo
dê-se a impressão
de parecer-se exato
apesar de não
e que sua textura
revele a consistência
de tudo que não se cobra
nos desvãos da consciência
 
ao tempo’
dê-se o desatino
de consumir-se avulso
pelos caminhos
quando a constância da forma
traia-lhe o jeito
a desoras
 
ao tempo
dê-se a textura
de manter-se intacto
mesmo em andaduras
porque lhe sobre a feição
de transeunte constante
que mede sempre nos passos
o rumo que lhe tange
 
ao tempo
dê-se regra cogente
tudo que lhe some diminua
o que se tem pela frente
porque não seja mistério
um certo quê de repente
que teima em dar aos olhos
um espaço diferente
 
ao tempo
dê-se a monotonia
de parecer-se uma noite
que nunca chega a ser dia
pois lhe falta a parcimônia
um pouco mais apressada
que teima em fazer do tudo
um pedacinho do nada
 
ao tempo
dê-se a sinergia
de ser paisagem eclética
dos espaços e das lidas
pois lhe reverbera a função
de parâmetro inconcluso
das incertezas que as gentes
carregam pelo mundo
 
ao tempo
dê-se a dialética
de franzir-se amiúde
quando em futuro se sabe
os passados que pude
e que lhe sustenta um contrário
a contracorrente do mundo
 
ao tempo
assim à contraluz
negue-se-lhe o rumo
a que o olho conduz
por contradizer-se retilíneo
nas curvas em que se produz
 
ao tempo
dê-se um coração milimetrado
e todas as réguas possíveis
de todos os compassos
pois é de tê-lo medido
no tamanho de cada abraço
 
ao tempo
dê-se o outro,
como em nós, oficina
a construção do que somos
nessa humana usina
que navega todos os mares
daquilo que nos oprime
 
ao tempo
dê-se o não
como afirmação absurda
de tudo que se permite
quando a vida abunda
e derrame-se constante
naquilo que nos desusa
 
ao tempo
dê-se a outra face
nesse mister tão avaro
de permitir-se avulso
e quase à vontade
na exata proporção
de tudo que não seja tarde
 
ao tempo
dê-se o anonimato
de quem remói nas palavras
um silêncio inato
que nem precisa ser verbo
para dizer-se liberdade
 
ao tempo
dê-se a consistência
de ser um mar atravessado
no varal da consciência.
👁️ 171

Da concretude do eu

Nunca me iludo
a ilusão
é só um custo
de quem discursa
uma realidade baldia
e avulsa
 
minha ilusão
é só trajeto
das razões que o sonho
me projeta
 
é ilusão
e quase fato
todas as léguas de mim
e o gesto dos meus passos,
👁️ 137

Comentários (10)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !