Lista de Poemas
Do trajeto e da permanência
de o homem parecer-se resoluto
com qualquer dessemelhança
entre sua prática e seu discurso
é que retorne sempre ao tudo
o quanto só se foi do nada
somadas todas as esperanças
do que se gastou nas madrugadas
e, enfim, conte-se pelos dias
que restaram no peito dos viventes
tudo que se construiu tão amiúde
no transcurso de todos seus repentes.
Do amor que se pretenda
ouse mais do que decida
e que esteja sempre infante
ao redor do tempo e da vida
que o amor que se pretenda
nunca exato se disfarce
e que mesmo ausente sempre caiba
em verbo tanto que se baste
que o amor que se pretenda
nade pela vida em largo vau
nos rios de quem ainda nade
a infinita certeza dessa nau.
De tempo e de vezes
voam meus ancestrais
nas palavras do tempo
tudo que havia deles
como um mapa indeciso
hoje cabe indócil
no jeito do meu riso
e é por sê-los e tê-los assim
que sempre me admito
como uma alma intensa
adredemente infinita.
Da extrema condição da vida
Na cordilheira dos andes
brutalmente descansada
eu vi a noite que trazias arquivada
no vão da tua face
eu vi a imensa pedra
derramar-se incontrolada
nos ombros de minhas pupilas
nos olhos de minha mágoa
eu vi meus irmãos negros
destravando a madrugada
na mesma peripécia insone
com que os povos lavram a alma
eu vi no colo das serras
os verbos que ainda não temos
e sonhos que de tão sonhados
estavam gastos de paciência
eu vi o grito de Neruda
espalhar-se por inteiro
e construir todos os vãos
desde Manágua até Soweto
eu vi a fímbria da tarde
descrever esquinas no meu peito
e me propor ângulos tão vastos
quanto a extensão dos meus desejos.
Palavras a George Floyd
inventa na palavra
uma bandeira negra
desfraldada
a garganta
respira o mundo
com a força da paz
e a certeza de tudo
e o tempo
grávido de povo
aponta a trilha
de inventar o novo.
De um tanto rumo compulsório
O limbo
das palavras
me instaura
nem tudo
tem o trânsito
que declara
o tempo
em cambulhadas
me escancara
nem tudo
que é a vida
me desata
os nós de tanto
apenas declaram
que existe sempre um porto
onde desaguamos
da solidez dos desejos
da completude do que somos
Carta XVII ao Camarada Gregório Bezerra
no meio da sala
tem a altura exata
de uma grande palavra
seu sangue
ao invés de rio
é uma espada latente
no seu peito frio
Gragório deitado
não é morto
é apenas a maior parte
do rosto do povo.
Palavras ao Camarada Maia no fragor da luta
restarão na tua boca
que ainda cuspiremos a vida
em tão extremo desconforto?
assim renhido
na batalha tanta
quem adivinhar te possa
a esperança?
és um inifinitivo
que ninguém alcança
convulsa a realidade
enrolada em suas tranças.
Novamente o tempo
dê-se a impressão
de parecer-se exato
apesar de não
e que sua textura
revele a consistência
de tudo que não se cobra
nos desvãos da consciência
ao tempo’
dê-se o desatino
de consumir-se avulso
pelos caminhos
quando a constância da forma
traia-lhe o jeito
a desoras
ao tempo
dê-se a textura
de manter-se intacto
mesmo em andaduras
porque lhe sobre a feição
de transeunte constante
que mede sempre nos passos
o rumo que lhe tange
ao tempo
dê-se regra cogente
tudo que lhe some diminua
o que se tem pela frente
porque não seja mistério
um certo quê de repente
que teima em dar aos olhos
um espaço diferente
ao tempo
dê-se a monotonia
de parecer-se uma noite
que nunca chega a ser dia
pois lhe falta a parcimônia
um pouco mais apressada
que teima em fazer do tudo
um pedacinho do nada
ao tempo
dê-se a sinergia
de ser paisagem eclética
dos espaços e das lidas
pois lhe reverbera a função
de parâmetro inconcluso
das incertezas que as gentes
carregam pelo mundo
ao tempo
dê-se a dialética
de franzir-se amiúde
quando em futuro se sabe
os passados que pude
e que lhe sustenta um contrário
a contracorrente do mundo
ao tempo
assim à contraluz
negue-se-lhe o rumo
a que o olho conduz
por contradizer-se retilíneo
nas curvas em que se produz
ao tempo
dê-se um coração milimetrado
e todas as réguas possíveis
de todos os compassos
pois é de tê-lo medido
no tamanho de cada abraço
ao tempo
dê-se o outro,
como em nós, oficina
a construção do que somos
nessa humana usina
que navega todos os mares
daquilo que nos oprime
ao tempo
dê-se o não
como afirmação absurda
de tudo que se permite
quando a vida abunda
e derrame-se constante
naquilo que nos desusa
ao tempo
dê-se a outra face
nesse mister tão avaro
de permitir-se avulso
e quase à vontade
na exata proporção
de tudo que não seja tarde
ao tempo
dê-se o anonimato
de quem remói nas palavras
um silêncio inato
que nem precisa ser verbo
para dizer-se liberdade
ao tempo
dê-se a consistência
de ser um mar atravessado
no varal da consciência.
Da concretude do eu
a ilusão
é só um custo
de quem discursa
uma realidade baldia
e avulsa
minha ilusão
é só trajeto
das razões que o sonho
me projeta
é ilusão
e quase fato
todas as léguas de mim
e o gesto dos meus passos,
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.