Escritas

Lista de Poemas

Das militares reservas da continência

O soldado
em posição de sentido
nem se apercebe
das continências da vida
 
atiça-lhe o patriotismo
o sistema em descanso
e uma falsa impressão
de conjunção de planos
 
a farda é só uma bandeira
das aparências e dos enganos.
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Poema à Pátria Grande

cidadão! companheiro!
irmão! camarada!
quem gritará o futuro
nos ombros da madrugada?
por certo, amontoados,
nos braços urgentes do povo
o tempo será nosso abraço
na persistência do novo.
por certo, inventados
pela paciência dos Andes
lavraremos irmanados
a vasta e infinda construção
da Pátria Grande.
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Do amor e outras apreciações

O amor nem sempre é tão vasto
que não tropece pelas avenidas
nem nunca seja, assim, por gasto
que deixe de prender-se à vida
vive-lo é não apenas sorrir
mas mantê-lo sempre com tal sossego
como o construir-se pelo ser amado
a extrema aventura de nós mesmos.
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Poemeto de razões e tanto

Mais não tenha a razão humana
que o invólucro inteiro de um fato
e que sobrepasse o mero espelhar
de tudo que o olho lhe retrata
 
e não se diga inteira quando farta
por lhe faltar um quê de completude
pois o ser assim quase completa
é que denota a escassez que lhe pune
 
e vague pelos sonhos mansamente
armada com os versos que lhe caibam
e adormeça em torno desse canto
com a presteza exata dos que amam
 
mais não tenha a razão humana
que os metros todos da verdade
e que só se perca e se encontre
e se eternize assim quando se invada
 
o mais é cabe-la pela vida
no grito, na palavra e na vontade
e consumi-la aos tragos quando cedo
e permiti-la avante quando tarde.
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Das culpas pandêmicas do lucro

a terra e os homens,
assim como de repente,
respiram as culpas orquestradas
monetariamente
 
adredemente conjugados
humanos não pressentem
que a terra não é um cifrão
de contabilidade urgente
 
a terra é só o colchão
dos futuros todos da gente.
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Do ofício e das horas

cabe ao poeta
engolir as madrugadas
e amanhecer o verbo
no peito das palavras
cabe ao poeta
a estranha lida
de construir andaimes
nos sonhos que exercita
cabe ao poeta
insurgir a vida
e praticar rebeliões
sob medida
cabe ao poeta
alinhavar o tempo
e caminhar pelas calçadas
impunemente
cabe ao poeta
ser quase marinheiro
e navegar as âncoras gerais
que se cravam no peito
cabe ao poeta
promover os sábados
à condição de domingos
e distribuir horas de riso
como gerente dos sentidos
cabe ao poeta
não se pentear
a não ser em espelhos
que apenas comente sua face
cabe ao poeta
abster-se da morte à tarde
e nunca morrer sem verbo
 que lhe resguarde
cabe ao poeta
os infartos
não os do corpo
mas os da alma
cabe ao poeta
todo discurso
que não sendo palavra
tenha lógica mais justa
cabe ao poeta
guardar a outra face
e tanger a noite do mundo
com seu grito de liberdade
cabe ao poeta
viver cedo
mesmo tarde.
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Desrazão

Minha razão
é quase um não
com um sim atravessado
é metro desconforme
é légua controlada
é fração informal
é infinito contado
e chove no meu juízo
como um rio ordenado
fluindo do seu mister
de ser riso encantado.
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Da palavra e sua compleição em sentido estrito

A palavra
nada
todos os mares
de que fala
 
transeunte
não se admite
como passagem de tudo
que se disse
 
é que esconde
no seu jeito de bólide
as imanências todas
que recolhe
 
a palavra
quase sempre
é um disfarce relativo
e displicente
nunca lhe cabe tudo
do verbo que se sente.
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Poema acerca da recorrência e dos abusos

O tempo
nunca é lucro
falta-lhe a essência
de parecer-se avulso
e derramar-se na vida
a qualquer custo
 
o tempo frequentemente
tem-se inadimplente
das tentativas e dos usos
de torná-lo moenda
de suores e abusos
 
o lucro
nunca é hora
apesar dos cálculos
que o dão pela história
assim uma simples competência
de quem maneja o açoite
pelas consciências
 
é que lhe falta o jeito
de um quê humano
se dependesse apenas
da vontade do dono
 
o que lhe regra constantemente
é a necessidade bruta
de fazer-se público
e tornar-se de poucos
o que se fez de muitos
 
o tempo nunca é lucro
por sobre sua cabeça
pesa o futuro
e a compreensão
de que todos constroem
seu imenso curso
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Do pincel e do artista em resumida prosa

O pincel nem sabe
que a cor é um verbo
em que desaba
e inventa desenhos e discursos
no colo das palavras
não as das letras
mas as da alma
 
o pincel é só um transeunte
das encruzilhadas do artista
aquelas que ele inventa
e as que estão na sua vida
 
é que o pincel é microfone
dos comícios tonais de sua lida.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !