Escritas

Lista de Poemas

Vínculo

Meu vínculo
é o que sinto
ditas que sejam tantas
as razões desse exercício
e dos misteres tais
que exercito
construindo em verbos
o que digo.
 
Meu vínculo
é o que persigo
na eficiência do abraço
a que me permito.
Dou-me, assim,
ao interstício
de fazer-me perto
do que acredito.
 
Meu vínculo
eu transmito
a cada palmo de mim
que é legítimo
na proporção exata
do que luto e grito.
 
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A cada um de tudo

Cada um
é um sol inadimplente
que tenta brilhar o tudo
na parcimônia de gente
 
cada tudo
é um um inconcluso
que teima em brilhar os sóis
atravessados no mundo.
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Odes africanas

Primeiro
a noite noticia
a pela negra do homem
que por ser noite
amanhecia
 
não lhe vai na alma
qualquer desmedida
tudo é exato na manhã
em que nascia
 
e as sinapses
que em si vigiam
cobriam o dia de uma razão
que nem sabiam
porque o futuro resguardava
um tempo de vigília
 
era um princípio
que nem sabia
que a pela negra do homem
era uma estranha serventia
de cobrir de noite a razão
que em cada um vivia,
 
II
 
O continente contém mais do que a si
pois de sua soma assim desregulada
inventam-se todas as cores
de uma cabal desnatureza
manhã que nem seja tanta
como tão pouca é a certeza
a terra carrega em cada útero
uma rebelião tão incontida
que explode na cara dos afetos
na plástica feição de uma guerrilha
 
o grito simula uma nação
que fosse assim compreendida
entre o que falta para ser repente
e o que sobra da urgente revelia
 
III
 
 
África seja apenas o batismo
de quem nasceu desmedida
de ser uma noite desgarrada
do tamanho de todas essas vidas
 
África seja o desconforto
que habita cada sentimento
de sentir que homens não são estrelas
que possam estar sob moendas
por fluírem num céu tão mais pacato
que a maioria de todos os firmamentos
 
África seja indizível
pelo futuro que cogita
e que vive entranhado
em todas as raízes
as da terra como prenúncio
as do homem como matrizes
de uma vida tão larga
como vasta é a consciência
de quem mesmo sendo noite
carrega o dia na paciência
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Itinerário frequente

A Rogério Benevides e Bebeto, in memoriam
 
 
Nem a bruta pedra
resvalará em nosso medo
quando a vida se tem a custo
e não se custa aquilo que é tão cedo
 
por certo que abismos fruiremos
no estranho equilíbrio que nos tenha
e velejaremos pelo vão da vida
na exata proporção que nos convenha
 
mas nem civis
nos restaremos ainda sãos
a não ser nos bolsos da memória
onde se guardam cidadãos
e, assim, inconsumidos
na competência farta da gente
ainda restarão pequeno dotes
para se sentirem quando ausentes
 
e nessa surda inequação
tão imatemática e fugaz
a vida é sempre rumo
de se seguir, e sempre e mais.
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Similitude

meço as minhas réguas
com a mesma infinitude
com que alinho os metros
do que eu nunca pude
 
e é de tê-las tantas
estendidas pela vida
no roldão das conveniências
em que as quero resumidas
 
meço as minhas réguas
pelos espaços do que posso
nunca por as haver como avaras
fosse razão para dizê-las óbvias
 
e sou de aferir a todas
na relatividade dos ócios
a que me obrigo como cidadão
quando a vida ainda cabe nos ossos
 

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Vigência

no meio de mim,
impunemente,
tudo é sempre.
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Ode aos meus possíveis

Meus complexos
não os meço
melhor cabe-los todos
no meu verso
 
e sempre os trago
à algibeira
guardados inúteis
como brincadeira
 
e mesmo que a noite
os entenda
eu os deixo pela madrugada
pendurados numa alma
que me contenha.
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Das Vertentes do Futuro em Manifesto

a utopia
mais dias, menos dias,
é só o bordado da história
que o povo construia
 
é que a luta, por complexa,
dá-se por estranha,
às vezes incompleta
quando o destino dos homens
larga-se numa paz grávida da guerra
 
a ânsia do futuro
sempre se apresta
a bordar  pelo mundo
muitos et ceteras.
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Versos ao sol sustenido menor

assim composto
tens na pauta
a mesma compleição
da madrugada
e te revelas
e te resvalas
como uma garça impune
pela salas
 
e caças a mim
desenfreado
eu transposto em som
nessa estranha matemática
que me prega na pauta
de todas as minhas mágoas
 
a música é só a fala
das engrenagens da alma.
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À guisa de haicai

entre mim
e a paisagem
dói a tarde.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !