Lista de Poemas
Do verso em razões
meu verso não diz mais
do que eu consigo
é que dizê-lo tanto
é mais indício
de que a palavra é sempre
um precipício
onde descambam verbos
e infinitos
contrito
meu verso nunca é mais
do que eu digo
é que lhe falta o jeito
e a prática
de ser mais explícito
coisa de ser palavra
que diga mais
do que é preciso
baldio
meu verso inaugura
espaços e tempos
e nem cuida
das permanências da vida
e das distâncias da rua
antes é mais avulso
que as primaveras
um tempo incontido
de descuidos e esperas
invicto
meu verso derrota
as mágoas que entorno
em minhas portas
como se fosse um vendaval
de verbos incontidos
que palmilhassem comigo
todos meus sentidos
transeunte
meu verso caminha
aos solavancos
como se fora um barco
num mar de espantos
navegante de si
adredemente se conjuga
aos gritos das praças
aos ruídos da luta
enfim, meu verso nunca é mais
do que eu digo
é que palavras só viajam
na constância dos sentidos.
Das ânsias militantes pelo futuro
de punir a tática
é quase uma lembrança
de uma distância imaginária
é que o final da luta
é um caminho largo
nada do que lhe tanja
pode ser pulado.
Aos moldes de cordel, com entrelinhas
a uma vida que se quisesse tanta
que não pudesse se engasgar
quando dita em verbo na garganta
e que transitasse pelos poros
com a mesma contradita
com que transitam as verdades
nos desvãos de quem as diga
era assim de parecer-se
a uma faca carente já de corte
que se desfizesse como arma
na placidez de quem a porte
porque resto de uma guerra desusada
que tramitasse em vão em cada grito
e que permeasse uma paz inteira
nas melhores dobras do infinito
era de parecer-se quase um contrário
desmedido em vão na sua teia
cerzido a toda liberdade
construído em todas as centelhas
como se fora um desalinho
que subisse de cada desapego
e que permitisse uma feição humana
aos erros que decreta como medo
era de parecer-se inconcluso
em sua mais carnal postura
porquanto fosse homem em desuso
de alma transparente e algo pura
que não coubesse no discurso
que às vezes se constrói ausente
mas que contivesse um povo inteiro
na compleição exata do que sente
era de parecer-se astronauta
de cosmos de tão diversa trama
que estrela não houvesse na alma
senão daquelas que são chama
e que brilham no rosto dos homens
com a mesma similitude
com que o fogo queima as fogueiras
em que ardem todas as virtudes
era de parecer-se adrede
da mais suspeita constatação
de que a alma dói muito menos
que as ausências da razão
é como se fora um humano
trasladado a outro rumo
que não lhe permitisse o tempo
de quem cumprisse seu mundo
era de parecer-se um mar
de placidez tão avara
que todas as ondas que pudesse
fossem apenas a da calma
e que não pudesse lutar
contra as marés do seu jeito
e construísse jangadas
que navegassem seu peito
era de parecer-se frugal
e ao mesmo tempo tão diverso
que se permitisse como prosa
no meio de cada verso
como se fora um verbo
de tão intestinal textura
que contivesse todas as almas
de quem anda pelas ruas
era de parecer-se informal
como uma tarde estrangeira
que teima em fingir-se de noite
num tempo de tal certeza
que envolvendo o coração
com horas de vaidades
constrói uma vida avulsa
pelo meio das cidades
era de parecer-se praça
de todas as latitudes
que permitisse às estrelas
os cosmos que nem pude
e que brilhassem à sombra
todos os seus caminhos
e que homens assim fartos
andassem todos sozinhos
era de parecer-se estrada
de todas as direções
que conduzissem a tudo
e a todos os senões
como se fora um rio
que contivesse nos passos
a certeza dos destinos
a vontade dos abraços
era de parecer-se imberbe
na sua senilidade
e que dispusesse da vida
com tal celeridade
que chegasse a montar o sonho
com a certeza das tardes
era de parecer-se homem
nas praças de sua luta
com a intimidade do tempo
e a parcimônia das disputas
na inadimplência maior
de todas as suas culpas
era enfim de parecer-se tanto
no roldão da humanidade
como se fora um marco
de sua própria liberdade
construindo todos os poros
no coração das cidades.
De amores em circunlóquio
como as ruas de leningrado
e nem é tão pouco
que não se diga largo
por cabe-lo tanto
en tudo que eu ajo
meu amor é geométrico
em progressão incauta
e tanto lhe faz ser bicho
como astronauta
meu amor é louco
pelo que lhe arma
e mais anda quando se infinita
com o que me sobra pela alma.
Do sono em marinha lógica
como uma rua de tudo
espelha no meio da gente
as maravilhas do mundo
e dormir em suas areias
é um sentir tão profundo
que o sono chega a sorrir
por cima de nossos ombros.
Do exercício da paz
Há que brandir a arma
do tamanho exato da paz
como se fora instrumento
à contradita de tal
pois em ser armistício
de variada postura
dê-se sempre à vazão
de perambular pelas ruas
é que a paz sempre habita
uma consciência difusa
que nem precisa ser tanta
para ser clara armadura
cravada no peito dos homens
como larga escravatura
que lhe põe horizontes na face
e lhe inventa e testemunha
no rol infante da vida
na lida avante do mundo
como se fora uma flor
com sede de absolutos
como a dizer que ao homem
cabe a certeza de tudo
é que ao homem descabe
qualquer semelhança
ao que se faça por guerra
cerzido a qualquer lembrança
malgrado o jeito de paz
que qualquer luta barganha
é que ao homem se apresta
essa via larguíssima
de inventar as manhãs
a partir de sua vida
como se for a prestação
de uma compra infinita
há que brandir a paz
como essa arma precisa
que pulsa no peito do homem
o tamanho de sua lida
como se fora a razão
de toda sua notícia
estampada pelo mundo
à custa de muita vida.
Da guerrilheira feição do tempo
guerrilheiro
teima emboscadas
em seus passeios
e tange os homens
ao redor da vida
nas costas da batalha
em que se realiza
o tempo é só um combatente
do tamanho da vida.
Verso a meu pai e sua constância
meu pai dá-se a jardineiro
que semeia saudades
nas ruas inteiras do meu peito
e é de ver-lhe assim
transgredindo normas
e alinhavando poemas
nos decretos da alma
é que morrer nem sempre
é o que a vida informa
há muitas léguas de todos
depois da última história.
das quilometragens da vida
um espaço enviesado
que se mede por horas
os metros do seu estado
com as fitas da memória
e as saudades no braço
O espaço é apenas
um tempo a desoras
que se mede nas léguas
dos enredos da história
com metros que nem cabem
nas paredes da memória
é que os quilometros da vida
são as estradas das horas.
Do povo em fluviais aportes
na foz de cada vivente
é assim como uma passeata
de tudo que a gente sente
ninguém possui a metragem
das réguas do que é novo
melhor dizê-las medidas
nas léguas do nosso esforço
navegá-lo é como naufragar
nas avenidas do povo.
Comentários (10)
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
abraço
Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.
Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.
Abração !
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Honrado<br />
Obrigado<br />
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.<br />
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.