Escritas

Poema ao meu povo em dias de premonição

AurelioAquino
há que vê-los joões
cerzidos à parcimônia
franzidos na consciência
embutida em seus sonhos
 
há que vê-los aos risos

nos prantos em que se lavam
construindo as manhãs

no desespero das tardes
 
há que vê-los transeuntes

de sonhos tão alheios

que entornam de suas mentes
com a certeza de vivê-los
 
há que vê-los civis

em militares continências
brandindo a vida à pulso
pelos vãos da inocência
 
há que vê-los marginais
trazidos à coerência

de lutar por algo tanto

que a simples sobrevivência
 
há que vê-los indecisos

nas certezas que navegam

como se fossem de um mar

que as ondas sempre lhes negam
 
há que vê-los urbanos

nas suas rurais investiduras
como se fossem os campos
de sua eterna escravatura
 
 
há que vê-los incontidos
nas desmedidas do tempo
pelas certezas de que tudo
caminha sempre aos ventos
 
há que vê-los em paciência
nos horrores da batalha
tangendo sua miséria

com a urdidura da fala
 
há que vê-los resumidos
num infinito incoerente
que trava o jeito do mundo
no peito aberto da gente
 
há que vê-los marias
trançadas pelas lembranças

das mulheres que apenas vigem
nas dobras da esperança
 
há que vê-los imberbes
na senectude da face
meninos quase senis

nos desvãos de sua idade
 
há que vê-los tão magros
como interrogações urgentes
como se ossos fossem razão
de construir seus viventes
 
há que vê-los nas noites
embutidos nas madrugadas

como se a vida fosse um pingente
que tramitasse no nada
 
há que vê-los condenados
na alforria de todos

como se toda liberdade
fosse uma espécie de cobro
 
há que vê-los passados
num futuro tão incômodo
que pulsa pelos seus passos
como um eterno retorno
 
há que vê-los alegres

nessa exata pantomima

que enche o andar da vida
com os risos de quem caminha
 
há que vê-los materiais
no imaterial desconforto
de subverter o espírito
nos combates do seu foro
 
há que vê-los absolvidos

das sentenças mais incautas
que julgam o raso dos homens
com ganas de astronautas
 
há que vê-los reticentes
na multidão de juízos
que atropelam as gentes
quando viver é preciso
 
há que vê-los combatentes
nas guerras mais combatidas
rasgando seu coração

nos peitos das avenidas
 
há que vê-los senhores
numa terra sem escravos
como se fossem da praça
os seus sonhos mais avaros
 
há que vê-los, enfim, libertos
pela força dos seus pulsos
nas praças em que o tempo
tenha o povo como discurso.
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