Escritas

Lista de Poemas

Vaca paciência

do curral

nem se admite

que contenha apenas bois
postos em cabides

assim trançado

de pau a pique

o curral é antes vitrine

de um vago precipício

que nem se sabe de boi

e nem ao menos é legítimo
porque de sê-lo restrito
desdizendo a liberdade

antes nem seja curral

mais uma urgente cidade

que constrange o vacum ofício
de ruminar dias e tardes

pois na reta do olho

talvez a contingência

leve a ver-se apenas homens
bois de sua inconsciência.
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Versos a meu pai

de onde você não estiver

eu me comprazo

em ser apenas o contraponto
do que me cala
 
de onde a vida me bastar
eu morra urgentemente
nas fibras do que não pude
me dizer no teu presente
 
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Versos a Sô Dinda

a distancia

não permite

que o coração
se ponha à deriva
 
nau

ele flutua

num mar que descamba
nessa lida
 
e flui em ondas

que eu sabia

da gente que inventa
essa alegria
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vigílias em tempo

ao tempo

dê-se a vazão

de rio caudaloso

e procissão

pois em sê-lo assim

tão transeunte

nada se lhe acrescente

do que não resuma

pois de tê-lo restrito
mesmo na amplidão

é como tê-lo quase infinito
na palma de cada mão
 
ao tempo

dê-se a contradita

de parecer-se volátil
mesmo definitivo

porque em sê-lo frequente
tenha-se como desuso

de tudo que a razão
cobrar-lhe custo
 
ao tempo dê-se a impressão
de uma inércia voraz

tudo que lhe consome

é sempre um menos a mais
porque inconsútil
tenha-se mais a prazo
como prestação do homem
a tudo que lhe compraz
 
ao tempo

dê-se a suficiência

de ser espaço invertido
tudo que lhe ocupa

é infinito
 
ao tempo

dê-se a raridade

de parecer-se incomum
como a felicidade

pois não lhe trai a feição
o parecer-se pacato
pendurado nos ponteiros
da nossa ansiedade
 
ao tempo

dê-se a segurança

de esparramar-se a miúde
como torneira de mim

e tudo aquilo que pude

é que lhe falta a parcimônia
das pacatas atitudes

tudo que lhe tange é tanto
tudo que lhe punge é tudo
 
ao tempo dê-se a complexidade

de não se parecer matemático

nos algarismo que invade

pois em números não se quantifique
assim em cursos frequentes
quando na razão de nós mesmos
houver um tempo diferente
 
é que ao tempo

não importa

os franzidos do coração

e as pátrias todas da vida
mas a simples constatação
de que é um curso adrede
quando se tem a razão
como uma emoção diferente
da força de cada mão.
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Da Pedra do Tendó em larga cena

Na Pedra do Tendó
a vida voa
ávida garça pétrea
pousada mansa
nas asas da pessoa
como se fosse âncora
de sonhos passageiros
que o olhar, às vezes, solta
como uma pipa, sorrateiro,
e explode no cérebro
como reflexo e brinquedo

Na Pedra do Tendó
o infinito é sertanejo
e tramita suas léguas
transeunte de si mesmo.
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viver

vivo

e tudo que me vive
me explicita

nos risos que guardo 
no bolso da camisa
 
vivo

como quem acredita

que só a dúvida tange

as certezas da vida

e nem adianta vivê-las
em desmedidas

uma e outra constrangem
sua inteira medida
melhor contê-las avulsas
na incerteza do dia
 
vivo

como quem navega

num mar consentido

em que o horizonte de mim
viaja comigo.
 
vivo

como quem morre
intimamente consigo
nada do que me mata
deixa de ter-me vivo.
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Do poema em visceral informe

o poema
não joga
sua delação
é retalho
de sua norma:
decretar-se livre
mas em revolta
seu curso
é só recurso
do que informa

a idéia é o transatlântico
navegando os mares das estrofes
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Trajetória

nas ruas da vida

como ser exato

se todas as manhãs

cabem nos meus passos?
como não cabê-los

nos desvãos do mundo
explodindo em tudo o coração
navegante desses rumos?
como não sabê-los

estradas de mim mesmo

na direção exata do povo

que me coube tê-lo?
 
é que a humano

sempre se permite
amanhecer todas as manhãs
por que se grite

e é de tê-las avulsas

como tempos recatados

das razões de nós mesmos
que tenhamos projetado
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Toda praxe, toda vida

toda praxe

é suspeita

nada do que é novo
lhe enseja

é que não cabe
tradição e futuro

no exercício

de quem quer que seja
 
a praxe

é um avesso

de tudo que avante
se diz começo
 
é que ao futuro

cabe a lida

de parecer-se impróprio
nas praxes da vida
 
a praxe

é apenas um obséquio
de tudo que no passado
foi impretérito

não lhe cabe a medida
de soletrar-se avulsa
pois tudo que lhe tange
é uma constância bruta
 
a praxe

desmede-se dos homens

pois lhes tornam inconclusos
tudo o que lhes movem avante
é uma cordilheira de desusos
 
e desse usar frequente

que lhes fustiga à corrente
nada do que a praxe siga

será estrada consequente

pois o novo é sempre caminho
dos rios todos da gente. 
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Tribal

minha tribo

é tudo aquilo
que convence
meus sentidos
 
indígena
me desfaço

na aldeia geral
do que abraço
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !