Escritas

Lista de Poemas

simulacro

eis o simulacro:

o outro não será tanto
que não seja como

no meu abraço
 
eis o simulacro:

a manhã nem toda

é uma fração do tempo
em que se baste
 
eis o simulacro:

razões serão já todas
as que eu tenha

e as que me constatem
 
eis o simulacro:

nem tudo que é a manhã
é um dia que me baste.
 
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Súbitas apreciações acerca do verbo

admito

a palavra é quase sempre
o que digo
 
é que, às vezes,

no meio dos abraços

a palavra entorna gestos
em que não se lavra
 
admito

a palavra é muito mais
do que um simples rito
 
é que, às vezes,

no meio dos verbos

há sempre alguma coisa
de subversivo
 
tudo que a palavra leva
traz no seu bojo

um infinito
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Sonata de introspecção

eu quero o aval de tuas coxas
para atravessar tranquilo

as noites de mim mesmo

e ouvir o gosto de tua voz
nas paredes de minha pátria
eu quero o aval de tuas coxas
para encontrar os caminhos
que não pude
e fruir os jogos de minha consciência

e me desmembrar urgente a memória
eu quero a sombra dos teus olhos

para estende-la nos varais do meu bairro
e tê-los sempre apontando o dia

ainda mesmo que não haja.

eu quero o aval de tuas coxas

para engolir os tragos da vida

com a infinita calma dos teus sonhos.
 
 
👁️ 95

quereres

quero trazer

meu coração á mão

como uma bandeira coletiva

pra espalhar pelo mundo

os pulmões de rosa do meu povo
quero medir o infinito

com os palmos do meu grito
quero arrepiar meus cabelos

nas ruas gordas de gente

quero dançar com meus irmãos
alguma valsa do futuro

ou, talvez quem saiba,

borbulhar na rua

como um hidrante de afeto
 
quero empalmar minha alegria
como os jovens empalmam a vida
e os restos de angústia

que se entrançam no peito

quero lançá-los ao vento

pelas frestas dos cabelos.

Quero pousar na paz
indefinidamente

e sonhar todos os sonhos

que se dêem a gente.
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Sou

sou.

penso.

e divirjo de ser e pensar
constantemente:

os medos me caem entre os dedos
de repente
 
sou

e sempre

a vida finge pensar
aquilo que nem se sente.
 
estou

impunemente
naquilo que nem sei
se sou tão sempre.
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dos avanços da rebeldia

a revolução
nunca é utopia
tudo que lhe tange
é sempre alegria
coisa de ver-se  o povo
inventando a energia
de tudo que se enfrente
no peito de quem sentia

rosa da manhã urgente
lavrada na contramão
como se forja um compasso
no meio da multidão
medindo os passos de todos
no rumo do coração.
👁️ 101

Dos viveres insabidos

sobro
de tudo que me cabe
a vida é sempre maior
do que se sabe

e nem lhe reste
a contradição
de conformar-se cedo
com o que é tarde.

viver é sempre um tempo
de conjugar a liberdade
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Renitência

insisto

o tempo me repete
vitalício

nada do que vivo

é vestígio

de que há um tempo
que permito

tudo que me tange

é um tempo definido
em que distribuo à vida
todos meus indícios
👁️ 101

quero meu amor à mão

quero meu amor à mão
como o gesto mais frugal

e comete-lo impunemente
seja no ócio ou em ofício tal
 
que nunca se distinga

o que lhe seja avesso
mas que se traga ao largo
de todo o meu medo
 
e que lhe sinta a carne

e uma virtual saudade
porque me seja tanto e farto
pra distribui-lo à vontade
 
quero meu amor provisório

como a estrela mais precoce

que vive apenas da tarde

o limite da luz que não lhe guarde
 
e que lhe sinta as entranhas

como um discurso latente

que construa versos na praça

em gramáticas que nem se consentem
 
quero meu amor teúdo
apesar de coletivo

e tê-lo na exata proporção
de tudo que eu não digo
 
quero meu amor subjetivo

como os adeuses que não dei

e remoê-lo pelo chão da tarde

na imprecisão de tudo que não sei
 
quero meu amor não meu

mas que se faça variado

e que tenham em mim limite tanto
por tanto que se faça vasto
 
quero meu amor

sem ilimites

perfeitamente desatado

e que encontre pedras em seu leito

e que encontre leito em seus enfados
 
quero meu amor desesperado
na falta e na presença

farto pelo que de tanto

gasto pelo que de menos
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Sinopse noturna

o bar

remói a vida

bêbado de gente.

Os sonhos

postos nos copos

têm agora

uma feição azeda

já não faiscam nos olhos
como chama

mas ainda murcham
líquidos de mágoas

no resto de madrugada
que se desfaz em cama.
 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !