Escritas

Lista de Poemas

Da manutenção das horas

guardo o tempo
como um fardo
de tudo que vivo
quando me trago
e tenho lapsos
nessa contagem
das horas que guardo
como bagagem
vive-las tantas
como infindas
é deixa-las pelas ruas
nos ombros dos caminhos
👁️ 1

do rumo do destino

a estrada,
veia do futuro,
aponta o destino
em seu curso
tece-lo nos passos
como construção
é passea-lo contrito
em sua amplidão
deixa-lo soltar-se
em sua vontade
é distrato do rumo
da liberdade
👁️ 2

Do poema em larga estrada

e se o poema
der-se à razão
de transitar palavras
à contramão?
e se o mundo
deitado em suas curvas
der-se ao pessimismo
de suas contraturas?
talvez o verbo
em sumular postura
dê-se à condição
de vestir-se da disputa
e embrenhar-se inteiro
na verdade literária da luta
👁️ 9

Dos arcos do povo

o arco-íris,
escrito no vento,
parece assinatura
das léguas do tempo
flui nos olhos
como exata ponte
nas cores que lança
no horizonte
assim como um recado
ninguém sabe de onde
o arco do povo
inscrito nas ruas
é a assinatura civil
dos arco-íris da luta
👁️ 1

do samba em passos e medidas

o sambista
pisando suas mágoas
enche o ritmo dos olhos
que inventa pelo asfalto
tece tambores oníricos
na marcação das batidas
e marca todos os agogos
das correntezas da vida

o sambista é só um transeunte
engravidando de rumo a avenida
👁️ 1

Do menino de Alepo

em Alepo, nos escombros
o menino carrega o futuro
abraçado nos sonhos
o choro é só o peso
das lágrimas como chafariz
de espantar o medo
nas ruínas de Alepo
o menino aponta a vida
como um largo enredo

que os homens estejam meninos
para borrar as tardes do cedo
👁️ 2

Das convulsōes matemáticas em aula posta

o número
envolto na lógica
tecia equações
à minha volta
a mente
esquadrinhando o tempo
revia na razão
seus contratempos
o caderno
inóspito
jazia deserto
no seu ócio
a matemática franzia o cenho
à espera de alguma porta
👁️ 8

Violão em saudade intensa

o violão,
em seu manifesto,
acorda a saudade
como um protesto
escreve bemóis
no pensamento
espalha lembranças
tão impunemente
o violão é quase um lençol
cobrindo as marcas do tempo
no urgente grito das cordas
navegando o colo dos ventos
👁️ 1

Viagem I

o caminho, posto nos olhos,
nos braços da tarde,
pulsava horizontes
na varanda da vontade

o homem, resoluto,
senhor dos passos,
dava-se a seu rumo
na sola dos sapatos

a estrada, dona do destino,
displicentemente, passeava-se
tangendo homens e ventos
numa promíscua caminhada

👁️ 4

Póstuma perspectiva

a morte
não é uma desculpa
que o tempo dá
em suas lutas
vige apenas
como limite
entre a contradição
e suas lides
a morte
é só um passo
do que vive
melhor deixa-la suspensa
em qualquer cabide
👁️ 2

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino
2026-01-17

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques
2025-12-04

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto
2025-02-27

Abração !