Lista de Poemas
BEETHOVEN VIA MONTALE
Muss es sein?
Não podemos considerar
se é fútil a pergunta
ou até que ponto foi preciso
o exagero e a simulação.
Deixamos cair tudo
o que supúnhamos necessário
para nos mantermos presos
uns aos outros como deuses
e monstros, como crianças
que queimam o papel
e não esperam por nada.
Ninguém pode ver
o corpo durar apenas
a extensão de um único instante.
Sem onde segurar,
sem imagem verdadeira,
alheios à perda,
não aceitamos olhar para trás
e descobrir que,
por um momento, tudo nos
escuta em silêncio.
Não podemos considerar
se é fútil a pergunta
ou até que ponto foi preciso
o exagero e a simulação.
Deixamos cair tudo
o que supúnhamos necessário
para nos mantermos presos
uns aos outros como deuses
e monstros, como crianças
que queimam o papel
e não esperam por nada.
Ninguém pode ver
o corpo durar apenas
a extensão de um único instante.
Sem onde segurar,
sem imagem verdadeira,
alheios à perda,
não aceitamos olhar para trás
e descobrir que,
por um momento, tudo nos
escuta em silêncio.
👁️ 214
BELA LUGOSI NO ATELIÊ DE KANDINSKI
Não deixava a noite falar diante dos olhos.
Incomodava-se com a rigidez
do momento,
com o que não podia ser
submerso no abrigo das feridas.
O medo, encarava como forma
de se concentrar nos objetos
que regressavam a si mesmos.
As paisagens o satisfaziam muito pouco.
Passou, então, a evitar espelhos
e o que estava frente a eles.
Assim permaneceu, intacto e invariável,
submisso aos caprichos
de suas perfeições contraditórias.
Teceu-se no sopro um rosto,
cortante como pausas perdidas na garganta.
Incomodava-se com a rigidez
do momento,
com o que não podia ser
submerso no abrigo das feridas.
O medo, encarava como forma
de se concentrar nos objetos
que regressavam a si mesmos.
As paisagens o satisfaziam muito pouco.
Passou, então, a evitar espelhos
e o que estava frente a eles.
Assim permaneceu, intacto e invariável,
submisso aos caprichos
de suas perfeições contraditórias.
Teceu-se no sopro um rosto,
cortante como pausas perdidas na garganta.
👁️ 207
A ÚLTIMA CEIA
Ainda não é muito tarde para morrerem.
A mesa está servida.
Próximos e nus, iluminados por uma luz
que não se sabe de onde vem, eles agonizam
à mesa, com os dedos sujos de sangue,
as bocas queimadas pelo mar.
Não é tanto o prato que os atrai,
mas a sutileza da sintaxe,
a maneira como a página se impregna de gordura
e as letras ganham novas formas
quando a saliva desliza sobre elas.
Alguns dizem que se deve ler à mesa
sem essa tal sutileza da sintaxe, dando à refeição
uma certa distância, afastando-a dos olhos
através de formações erosivas,
verticais.
Que sentido teria então uma nostalgia de foices,
a pedra dentro do copo, a ferida além da armadilha?
Às vezes, os ossos escapam à carne,
a gordura,
novamente a gordura, torna transparente
um ponto qualquer do papel
e as mãos
se perdem em objetos estranhos,
para os quais nunca foram projetadas.
A mesa está servida.
Próximos e nus, iluminados por uma luz
que não se sabe de onde vem, eles agonizam
à mesa, com os dedos sujos de sangue,
as bocas queimadas pelo mar.
Não é tanto o prato que os atrai,
mas a sutileza da sintaxe,
a maneira como a página se impregna de gordura
e as letras ganham novas formas
quando a saliva desliza sobre elas.
Alguns dizem que se deve ler à mesa
sem essa tal sutileza da sintaxe, dando à refeição
uma certa distância, afastando-a dos olhos
através de formações erosivas,
verticais.
Que sentido teria então uma nostalgia de foices,
a pedra dentro do copo, a ferida além da armadilha?
Às vezes, os ossos escapam à carne,
a gordura,
novamente a gordura, torna transparente
um ponto qualquer do papel
e as mãos
se perdem em objetos estranhos,
para os quais nunca foram projetadas.
👁️ 193
EXERGUE
Não, sem ver
a água sobre a pele,
os olhos à beira
dos espelhos, cortados,
mas sem sangue,
sem ver, à beira de si,
sem a pele, agora
o antes, água e
tempo, ela, cega
pelos espelhos,
sem noite
onde antes havia
mãos, agora ossos,
sem pele onde antes
a água cobria tudo
ou melhor quase
tudo, com seus olhos
abertos pela noite,
nos espelhos, agora,
sem pele, apenas
pálpebras e o reflexo
onde antes era agora,
havia olhos, sem
vértebras onde antes
havia corpo onde
os olhos eram cegos
antes do agora,
do sempre, cegos
pela água, sobre
a pele, o corpo
sem espelhos,
sem pálpebras,
agora e sempre.
a água sobre a pele,
os olhos à beira
dos espelhos, cortados,
mas sem sangue,
sem ver, à beira de si,
sem a pele, agora
o antes, água e
tempo, ela, cega
pelos espelhos,
sem noite
onde antes havia
mãos, agora ossos,
sem pele onde antes
a água cobria tudo
ou melhor quase
tudo, com seus olhos
abertos pela noite,
nos espelhos, agora,
sem pele, apenas
pálpebras e o reflexo
onde antes era agora,
havia olhos, sem
vértebras onde antes
havia corpo onde
os olhos eram cegos
antes do agora,
do sempre, cegos
pela água, sobre
a pele, o corpo
sem espelhos,
sem pálpebras,
agora e sempre.
👁️ 441
MANHÃ
O cheiro de fezes
invade o quarto.
Lá fora,
os cães latem,
rosnam.
Brindariam com sua urina
a dor do orgasmo,
as poses instáveis,
o silêncio
dos reflexos?
invade o quarto.
Lá fora,
os cães latem,
rosnam.
Brindariam com sua urina
a dor do orgasmo,
as poses instáveis,
o silêncio
dos reflexos?
👁️ 182
ACIDENTES DE LEITURA
À margem de si,
à custa de minha presença,
assustada,
ela abre o contorno
da lâmina.
Diante do gesto
despedaçado, oculta,
entre as coxas,
a ignorância,
o poço escuro
onde me perco.
Faltarão olhos para negar
o que sempre a despiu?
A mesma sede,
a mesma fome,
o espaço confuso das mãos?
à custa de minha presença,
assustada,
ela abre o contorno
da lâmina.
Diante do gesto
despedaçado, oculta,
entre as coxas,
a ignorância,
o poço escuro
onde me perco.
Faltarão olhos para negar
o que sempre a despiu?
A mesma sede,
a mesma fome,
o espaço confuso das mãos?
👁️ 237
O CORPO SEM SÍLABAS
Acariciavam a cabeça
do cavalo morto,
cobriam de farelos
a noite.
Com o rosto aberto,
os olhos atravessados
por espelhos,
a paisagem se escondia
atrás do corpo,
do corpo sem sílabas,
agarrado pelos dentes.
do cavalo morto,
cobriam de farelos
a noite.
Com o rosto aberto,
os olhos atravessados
por espelhos,
a paisagem se escondia
atrás do corpo,
do corpo sem sílabas,
agarrado pelos dentes.
👁️ 308
AUTO-RETRATO NO FIM DE UMA CORRIDA
ele armara
a câmera,
acionara o tempo,
o único
tempo
que lhe foi
permitido,
tinha calculado
tudo: no fim
daquilo que ele
entendia
como pista,
ela o esperaria,
a foto,
mas algo
rompera o trajeto
de onde seu olhar
partiu,
como fugir
de um acontecimento
que lhe nasce
às costas,
vencer o que se
extinguiria tão
inexoravelmente
diante dele?
teve que repetir,
várias vezes,
a derrota,
a violência
do lugar
que ocupava,
até salvar-se
nas bordas
do quadro, até
encontrar o vazio
no qual, de tanto
correr,
acabaria por cair,
a câmera,
acionara o tempo,
o único
tempo
que lhe foi
permitido,
tinha calculado
tudo: no fim
daquilo que ele
entendia
como pista,
ela o esperaria,
a foto,
mas algo
rompera o trajeto
de onde seu olhar
partiu,
como fugir
de um acontecimento
que lhe nasce
às costas,
vencer o que se
extinguiria tão
inexoravelmente
diante dele?
teve que repetir,
várias vezes,
a derrota,
a violência
do lugar
que ocupava,
até salvar-se
nas bordas
do quadro, até
encontrar o vazio
no qual, de tanto
correr,
acabaria por cair,
👁️ 466
SACRIFÍCIO
Os dedos das mãos feridos.
Nada de encenação,
apenas a dor como
forma de anestésico,
ou (por que a ingenuidade?)
antídoto
para os venenos misturados
às palavras
que ela me obrigava gentilmente
a aceitar, quando tocava
em meus lábios e dizia:
“não, a vida já não basta,
é necessário me ater
àquilo que é dado,
teus ossos, tuas vísceras
e o futuro que elas escondem”.
Nada de encenação,
apenas a dor como
forma de anestésico,
ou (por que a ingenuidade?)
antídoto
para os venenos misturados
às palavras
que ela me obrigava gentilmente
a aceitar, quando tocava
em meus lábios e dizia:
“não, a vida já não basta,
é necessário me ater
àquilo que é dado,
teus ossos, tuas vísceras
e o futuro que elas escondem”.
👁️ 265
ELA ENTRE OS DESAPARECIDOS
Nada impede
de se cortar
com o que a forçaram
a ser:
perseguidora, vingadora,
puta.
Ó meu anjo cruel
com um olho apenas.
de se cortar
com o que a forçaram
a ser:
perseguidora, vingadora,
puta.
Ó meu anjo cruel
com um olho apenas.
👁️ 447
Comentários (1)
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thaisftnl
2020-05-25
Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).
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