Lista de Poemas

BEETHOVEN VIA MONTALE

Muss es sein?

Não podemos considerar
se é fútil a pergunta
ou até que ponto foi preciso
o exagero e a simulação.

Deixamos cair tudo
o que supúnhamos necessário
para nos mantermos presos
uns aos outros como deuses
e monstros, como crianças
que queimam o papel
e não esperam por nada.

Ninguém pode ver
o corpo durar apenas
a extensão de um único instante.

Sem onde segurar,
sem imagem verdadeira,
alheios à perda,
não aceitamos olhar para trás
e descobrir que,
por um momento, tudo nos
escuta em silêncio.

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BELA LUGOSI NO ATELIÊ DE KANDINSKI

Não deixava a noite falar diante dos olhos.
Incomodava-se com a rigidez
do momento,
com o que não podia ser
submerso no abrigo das feridas.
O medo, encarava como forma
de se concentrar nos objetos
que regressavam a si mesmos.
As paisagens o satisfaziam muito pouco.
Passou, então, a evitar espelhos
e o que estava frente a eles.
Assim permaneceu, intacto e invariável,
submisso aos caprichos
de suas perfeições contraditórias.

Teceu-se no sopro um rosto,
cortante como pausas perdidas na garganta.
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A ÚLTIMA CEIA

Ainda não é muito tarde para morrerem.
A mesa está servida.
Próximos e nus, iluminados por uma luz
que não se sabe de onde vem, eles agonizam
à mesa, com os dedos sujos de sangue,
as bocas queimadas pelo mar.

Não é tanto o prato que os atrai,
mas a sutileza da sintaxe,
a maneira como a página se impregna de gordura
e as letras ganham novas formas
quando a saliva desliza sobre elas.

Alguns dizem que se deve ler à mesa
sem essa tal sutileza da sintaxe, dando à refeição
uma certa distância, afastando-a dos olhos
através de formações erosivas,
verticais.

Que sentido teria então uma nostalgia de foices,
a pedra dentro do copo, a ferida além da armadilha?

Às vezes, os ossos escapam à carne,
a gordura,
novamente a gordura, torna transparente
um ponto qualquer do papel
e as mãos
se perdem em objetos estranhos,
para os quais nunca foram projetadas.
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EXERGUE

Não, sem ver
a água sobre a pele,
os olhos à beira
dos espelhos, cortados,
mas sem sangue,
sem ver, à beira de si,
sem a pele, agora
o antes, água e
tempo, ela, cega
pelos espelhos,
sem noite
onde antes havia
mãos, agora ossos,
sem pele onde antes
a água cobria tudo
ou melhor quase
tudo, com seus olhos
abertos pela noite,
nos espelhos, agora,
sem pele, apenas
pálpebras e o reflexo
onde antes era agora,
havia olhos, sem
vértebras onde antes
havia corpo onde
os olhos eram cegos
antes do agora,
do sempre, cegos
pela água, sobre
a pele, o corpo
sem espelhos,
sem pálpebras,
agora e sempre.
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MANHÃ

O cheiro de fezes
invade o quarto.

Lá fora,
os cães latem,

rosnam.
Brindariam com sua urina

a dor do orgasmo,

as poses instáveis,

o silêncio
dos reflexos?
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ACIDENTES DE LEITURA

À margem de si,
à custa de minha presença,

assustada,
ela abre o contorno
da lâmina.

Diante do gesto
despedaçado, oculta,

entre as coxas,
a ignorância,
o poço escuro
onde me perco.

Faltarão olhos para negar
o que sempre a despiu?

A mesma sede,
a mesma fome,
o espaço confuso das mãos?
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O CORPO SEM SÍLABAS

Acariciavam a cabeça
do cavalo morto,

cobriam de farelos
a noite.

Com o rosto aberto,
os olhos atravessados

por espelhos,

a paisagem se escondia
atrás do corpo,

do corpo sem sílabas,

agarrado pelos dentes.
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AUTO-RETRATO NO FIM DE UMA CORRIDA

ele armara
a câmera,
acionara o tempo,
o único
tempo
que lhe foi
permitido,
tinha calculado
tudo: no fim
daquilo que ele
entendia
como pista,
ela o esperaria,
a foto,
mas algo
rompera o trajeto
de onde seu olhar
partiu,
como fugir
de um acontecimento
que lhe nasce
às costas,
vencer o que se
extinguiria tão
inexoravelmente
diante dele?
teve que repetir,
várias vezes,
a derrota,
a violência
do lugar
que ocupava,
até salvar-se
nas bordas
do quadro, até
encontrar o vazio
no qual, de tanto
correr,
acabaria por cair,
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SACRIFÍCIO

Os dedos das mãos feridos.

Nada de encenação,
apenas a dor como
forma de anestésico,

ou (por que a ingenuidade?)

antídoto
para os venenos misturados
às palavras
que ela me obrigava gentilmente
a aceitar, quando tocava
em meus lábios e dizia:

“não, a vida já não basta,

é necessário me ater
àquilo que é dado,
teus ossos, tuas vísceras

e o futuro que elas escondem”.
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ELA ENTRE OS DESAPARECIDOS

Nada impede
de se cortar
com o que a forçaram
a ser:

perseguidora, vingadora,
puta.

Ó meu anjo cruel
com um olho apenas.
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Comentários (1)

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thaisftnl
2020-05-25

Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!