Lista de Poemas
O FIM DA HISTÓRIA
Caros amigos,
a história acabou.
O último que sair,
por favor, apague a luz.
Sim, sei, não
houve motim
e todas as ordens
foram seguidas à risca.
Mas é algo que não
dá para mudar.
A história acabou,
e ninguém furou
os próprios olhos
ou disse
“o resto é silêncio”.
Não, não há nenhuma
“waste land”
ou comédia
para alegrar os tolos.
Evitem fazer perguntas
tão maldosas.
As tvs continuam
ligadas. Então por que
o desespero?
Esqueceram, sim,
corpos
ao longo da praia.
Talvez quisessem
deixar algum sinal
ou enigma
para aqueles que nunca
passaram por aqui.
O latido dos cães
continua a incomodar?
Mas isso não é
nenhum enigma.
Há sempre alguém
que se distrai
com o latido de cães,
quando nada existe
para se escutar.
Cuidado, fizeram
um longo desvio à frente
e dizem que depois
da última curva
há um grande abismo.
Não, não e não.
Quantas vezes já disse:
não podemos olhar
para dentro dele.
Em breve chegaremos
lá, não no abismo, mas
depois dele, onde teremos
todo o tempo
do mundo e se acaso
nos cansarmos de fazer
nada, aí, sim,
poderemos ao menos
nos espancar
a história acabou.
O último que sair,
por favor, apague a luz.
Sim, sei, não
houve motim
e todas as ordens
foram seguidas à risca.
Mas é algo que não
dá para mudar.
A história acabou,
e ninguém furou
os próprios olhos
ou disse
“o resto é silêncio”.
Não, não há nenhuma
“waste land”
ou comédia
para alegrar os tolos.
Evitem fazer perguntas
tão maldosas.
As tvs continuam
ligadas. Então por que
o desespero?
Esqueceram, sim,
corpos
ao longo da praia.
Talvez quisessem
deixar algum sinal
ou enigma
para aqueles que nunca
passaram por aqui.
O latido dos cães
continua a incomodar?
Mas isso não é
nenhum enigma.
Há sempre alguém
que se distrai
com o latido de cães,
quando nada existe
para se escutar.
Cuidado, fizeram
um longo desvio à frente
e dizem que depois
da última curva
há um grande abismo.
Não, não e não.
Quantas vezes já disse:
não podemos olhar
para dentro dele.
Em breve chegaremos
lá, não no abismo, mas
depois dele, onde teremos
todo o tempo
do mundo e se acaso
nos cansarmos de fazer
nada, aí, sim,
poderemos ao menos
nos espancar
👁️ 468
AS FORMAS CANSADAS
O mar invade o corpo,
apodrece
as vozes, as retinas.
Não há retorno,
o tempo precipita
na garganta
o frio das estrelas mortas,
o que sobra
das fotos,
quando esquecemos delas.
Mas, sempre esse mas,
os órgãos despedaçados
coagulam,
sedimentam tais fotos.
Como então acariciar
as máquinas,
perdê-las sob a carne?
apodrece
as vozes, as retinas.
Não há retorno,
o tempo precipita
na garganta
o frio das estrelas mortas,
o que sobra
das fotos,
quando esquecemos delas.
Mas, sempre esse mas,
os órgãos despedaçados
coagulam,
sedimentam tais fotos.
Como então acariciar
as máquinas,
perdê-las sob a carne?
👁️ 414
PINTURA ABSTRATA Nº5, DE AD REINHARDT
Como debruçar-se
sobre o vazio com a ameaça
de nos destruirmos?
Poderia um lado nosso
falar pelo lado dos anjos?
Aqui, tudo se assemelha
a si mesmo, sem se imitar.
Cada coisa perpetua sua incógnita.
Não diríamos que o espaço
reage à perda de sua evidência,
mas, ao separar-se daquilo
que tomou
outras formas, simplesmente
nos queima.
sobre o vazio com a ameaça
de nos destruirmos?
Poderia um lado nosso
falar pelo lado dos anjos?
Aqui, tudo se assemelha
a si mesmo, sem se imitar.
Cada coisa perpetua sua incógnita.
Não diríamos que o espaço
reage à perda de sua evidência,
mas, ao separar-se daquilo
que tomou
outras formas, simplesmente
nos queima.
👁️ 489
À MARGEM DO CORTE
Sua mão
se dissolve
na areia,
onde, agora,
aquele que
a persegue
se rende.
Não há água
o bastante,
mas ela o segue.
Sobre a pele
da criança
morta, a sede.
se dissolve
na areia,
onde, agora,
aquele que
a persegue
se rende.
Não há água
o bastante,
mas ela o segue.
Sobre a pele
da criança
morta, a sede.
👁️ 490
PORQUE O MUNDO É OCO E EU TOQUEI O CÉU
A chuva rasga
a pele, expõe
as feridas,
os passos rápidos,
nada mais
que superfícies.
O olhar se perde
no tumulto
dos corpos,
na água que
se mistura
à realidade,
ao silêncio
de nossa morte.
a pele, expõe
as feridas,
os passos rápidos,
nada mais
que superfícies.
O olhar se perde
no tumulto
dos corpos,
na água que
se mistura
à realidade,
ao silêncio
de nossa morte.
👁️ 478
UM FILME SÉRVIO
Já é tarde, queremos
ficar nus à beira da lâmina,
lavados pelo brilho dos punhais.
Mas como atravessar as ruas
sem se importar
se haverá chão para pisar,
carne para sangrar?
Eles enterram nossos olhos
dentro dos corpos,
e não lamentam
o que está fora de seu alcance.
ficar nus à beira da lâmina,
lavados pelo brilho dos punhais.
Mas como atravessar as ruas
sem se importar
se haverá chão para pisar,
carne para sangrar?
Eles enterram nossos olhos
dentro dos corpos,
e não lamentam
o que está fora de seu alcance.
👁️ 315
ANJO EXTERMINADOR
Ainda há cortinas
para impedir a paisagem,
mas o medo permanece.
"Amanhã será outro dia".
Ela diz, com a boca no meu ouvido,
a mão atravessando minha carne.
Suas presas serão as minhas?
Abateremos, além dessas sombras,
dessas palavras,
os ingênuos e os culpados,
nossos reflexos
jamais vistos nos espelhos?
Nada a dizer
assim como se diz tudo
e depois cansado se perde
no corpo, mais do que na noite,
um lamento
pelo que não se pode ter.
para impedir a paisagem,
mas o medo permanece.
"Amanhã será outro dia".
Ela diz, com a boca no meu ouvido,
a mão atravessando minha carne.
Suas presas serão as minhas?
Abateremos, além dessas sombras,
dessas palavras,
os ingênuos e os culpados,
nossos reflexos
jamais vistos nos espelhos?
Nada a dizer
assim como se diz tudo
e depois cansado se perde
no corpo, mais do que na noite,
um lamento
pelo que não se pode ter.
👁️ 405
O ENIGMA DE OUTRO MUNDO
Em O enigma de outro mundo, o riso rasgando a carne expõe
o fracasso não apenas da ciência, mas do ser humano em lidar
com sua própria insuficiência. Essa insuficiência surge, no filme,
no momento em que os indivíduos, na base, são confrontados,
de várias maneiras, com o que revela a fragilidade da espécie
humana, como ocorre, quando presenciam o informe que a
coisa articula, suas manifestações labirínticas, sua paródia do
corpo humano. Mas a insuficiência aparece também como o
vazio de uma luta contra o nada, pois, em seu embate com
aquilo que desconhece, o ser humano enfrenta a si mesmo,
para perder-se, no labirinto de suas próprias vísceras, como um ser
acéfalo. Seus medos, seus fantasmas, se projetam naquele que
está à frente, à medida que o desfazem e sobra, como espelho,
uma face que se revela, ao mesmo tempo, dele e desse outro.
Assim, as últimas palavras do filme, “Por que apenas não
ficamos aqui, por enquanto? Ver o que acontece.”, referem-se ao
eu não como uma entidade autônoma, mas à mercê sempre do
outro. Sob a condição de também ser monstro, o ser humano
deve lidar com esse outro, ao se deixar levar pelas hipóteses que
elabora sobre ele e ao saber que nenhum conhecimento, agora,
nada vale. É necessário a renúncia de si mesmo, abraçar o
vazio, para que no auto sacrifício, ironicamente, haja alguma
chance, ainda que não se saiba para quem ou o quê.
👁️ 444
ATE ONDE A VISTA ALCANÇA
Insistia
que meninas
cegas
lhe prestassem
serviços,
elas, com
os pés
queimados,
os corpos
ancorados
à margem
do olho,
vindos de
não se sabe
que fundo
falso
ou coração
enterrado
na lama.
que meninas
cegas
lhe prestassem
serviços,
elas, com
os pés
queimados,
os corpos
ancorados
à margem
do olho,
vindos de
não se sabe
que fundo
falso
ou coração
enterrado
na lama.
👁️ 469
WHO WATCHES THE WATCHMEN?
Nada os agrada mais do que se conceberem
como exceções, indivíduos fora da espécie,
monstros nem sempre repugnantes.
Não é possível que as imagens desses corpos
possam ser vistas entre outros corpos
sem com eles se confundirem.
Parece mesmo que não há nenhum ali.
Todas as coisas incompreendidas
se desfazem. Sem cessar, os rostos desaparecem
e ressurgem entre os ossos,
as carnes retorcidas após cada luta.
Como que caminhando para fora do mundo,
às vezes acontece de suas mãos não mais se reconhecerem,
de tudo conspirar para silenciá-los.
Tais figuras, enfim despidas de toda sedução,
podem formar, com outras figuras,
constelações que são inacessíveis
ao significado e aos sentidos,
localizados muito além de qualquer interesse pela vida
ou pela morte,
no espaço oco de um céu irreal.
como exceções, indivíduos fora da espécie,
monstros nem sempre repugnantes.
Não é possível que as imagens desses corpos
possam ser vistas entre outros corpos
sem com eles se confundirem.
Parece mesmo que não há nenhum ali.
Todas as coisas incompreendidas
se desfazem. Sem cessar, os rostos desaparecem
e ressurgem entre os ossos,
as carnes retorcidas após cada luta.
Como que caminhando para fora do mundo,
às vezes acontece de suas mãos não mais se reconhecerem,
de tudo conspirar para silenciá-los.
Tais figuras, enfim despidas de toda sedução,
podem formar, com outras figuras,
constelações que são inacessíveis
ao significado e aos sentidos,
localizados muito além de qualquer interesse pela vida
ou pela morte,
no espaço oco de um céu irreal.
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Comentários (1)
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thaisftnl
2020-05-25
Sua construção poética é de fato encantadora, estou embriagada por sua poesia, simplesmente bela!
Alexandre Rodrigues da Costa possui graduação em Letras pela UFMG (1997), mestrado em Letras pela UFMG (2001), e doutorado em Letras pela UFMG (2005). Em 2010 e 2011, desenvolveu pesquisa sobre as obras poéticas de Georges Bataille e Samuel Beckett como pós-doutorado na Pós-Graduação em Estudos Literários da Faculdade de Letras da UFMG. É autor de Objetos Difíceis (7Letras/Funalfa, 2004), vencedor do Prêmio Cidade de Juiz de Fora 2003; Fora de Quadro (7Letras, 2005), vencedor do Prêmio Vivaldi Moreira da Academia Mineira de Letras; Peso morto (7Letras, 2008), Corpos cegos (7Letras, 2012), Bela Lugosi no ateliê de Kandinski (7Letras, 2013), Prêmio Barueri de Literatura - categoria Livros Já Editados, A mímica invertida dos desaparecidos (7Letras, 2014), Acidentes de Leitura (Editora do autor, 2015), Como assistir a um road movie em pé (7Letras, 2016), Do outro lado sedimentos, ou até onde a vista alcança (7Letras, 2018), A transfiguração do olhar: um estudo das relações entre artes visuais e literatura em Rainer Maria Rilke e Clarice Lispector (EdUEMG, 2019). Organizou e traduziu Poemas de Georges Bataille (Editora UFMG, 2015) e Corpos labirínticos: textos de Hans Bellmer (Editora Gramma, 2019). É professor de disciplinas teóricas da Escola Guignard (UEMG) e do Programa de Pós-Graduação em Artes (UEMG).
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