O ENIGMA DE OUTRO MUNDO
Em O enigma de outro mundo, o riso rasgando a carne expõe
o fracasso não apenas da ciência, mas do ser humano em lidar
com sua própria insuficiência. Essa insuficiência surge, no filme,
no momento em que os indivíduos, na base, são confrontados,
de várias maneiras, com o que revela a fragilidade da espécie
humana, como ocorre, quando presenciam o informe que a
coisa articula, suas manifestações labirínticas, sua paródia do
corpo humano. Mas a insuficiência aparece também como o
vazio de uma luta contra o nada, pois, em seu embate com
aquilo que desconhece, o ser humano enfrenta a si mesmo,
para perder-se, no labirinto de suas próprias vísceras, como um ser
acéfalo. Seus medos, seus fantasmas, se projetam naquele que
está à frente, à medida que o desfazem e sobra, como espelho,
uma face que se revela, ao mesmo tempo, dele e desse outro.
Assim, as últimas palavras do filme, “Por que apenas não
ficamos aqui, por enquanto? Ver o que acontece.”, referem-se ao
eu não como uma entidade autônoma, mas à mercê sempre do
outro. Sob a condição de também ser monstro, o ser humano
deve lidar com esse outro, ao se deixar levar pelas hipóteses que
elabora sobre ele e ao saber que nenhum conhecimento, agora,
nada vale. É necessário a renúncia de si mesmo, abraçar o
vazio, para que no auto sacrifício, ironicamente, haja alguma
chance, ainda que não se saiba para quem ou o quê.
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