Lista de Poemas
4N
o objecto brusco. É um trabalho recôndito
do nome, que o nome escrito
na lenha,
o tronco reverdeceu. E da madeira a mão levanta abismadamente
a corola.
A profissão de marceneiro, inspira-a
a embriaguez. Deus vê a talha cândida
da sua obra. Matriz, umbigo, meio da tábua,
a estrela principal, transfundem-se
em palavra. O marceneiro arranca das entranhas
a sua rosa. A pulso e bebedeira.
Arranca o olho que a olhava
espelhada. Enquanto se ligam lua e sol
debaixo
da plaina.
5C
inclinação das rosas contra os dedos
iluminava em baixo
as palavras.
Abri-as até dentro onde era negro o coração
nas cápsulas. Das rosas fundas, da fundura nas palavras.
Transfigurei-as.
Na oficina fechada talhei a chaga meridiana
do que ficou aberto.
Escrevi a imagem que era a cicatriz de outra imagem.
A mão experimental transtornava-se ao serviço
escrito
das vozes. O sangue rodeava o segredo. E na sessão das rosas
dedo a dedo, isto: a fresta da carne,
a morte pela boca.
— Uma frase, uma ferida, uma vida selada.
1985, revisto em 1987.
4F
olha as coisas completas.
O barro enlaça a água que suspira lunarmente,
que impregna o barro com a sua palpitação
aluada.
São uma coisa única
e plena: uma bilha. Quem bebe e olha
fica
misterioso, maduro.
Tudo se ilumina da altura de uma pessoa imóvel.
Quem se dessedenta delira,
vê a obra:
O que se bebe das bilhas que a lua
enaltece — água e nome
na boca.
3D
Os braços apertam os pulmões da estrela.
E o golpe freme a toda a altura negra. Tremo
na linha sísmica que atravessa o sono.
De ferro em brasa na cabeça,
medo e delírio,
o sombrio trabalho da beleza com as unhas fincadas
na matéria atenta
à olaria.
E súbito, apenas pelo uso elementar das coisas,
esse júbilo terrível.
4S
Alua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.
4B
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
ÚLTIMA CIÊNCIA 407
cardíaca e mútua.
— De nome em nome passam por mim os sopros.
Paisagem caiada, sangue até ao ramo das vértebras:
habitações concêntricas
de insónias, luzes, vozes, trevas, bebedeiras
— interiores,
nupciais,
atmosféricas.
Se Deus me toca no fundo da palavra.
2F
diante, a sombria habilidade de bombear o sangue de um vaso
para outro vaso. Dulcíssimo
leite, plasma
agre, a jóia galvanizada
mão a mão.
“Quando eu morrer.” Porém.
Na linha escrita subira um planeta exorbitante.
Se eu agora morrer, quem te chamará à roupa
que humanamente levantavas
entre asteróides, ó carne
habitante de um nome? Porém ficaste, sucessiva
meteorologia,
pressão tão alta têmpora a têmpora:
às vezes enlouqueço da palavra que a tudo deste.
Há dias poderosos de uma presença total.
Toco-te a mão que assombra a minha
mão. — E a cara, tão lírica,
aterradora, frente
a frente, cercada pela tensão lunar.
Vejo-a crispar-se com a minha imagem
inserida. E escrevo:
“Quando eu morrer.” — erguendo esse espelho
em tamanho de espuma.
Como se fosse a beleza, a transfusão amarga,
o sopro boca a boca.
5B
os dias de espuma, as varas cor de malva
nos lugares altos
levantam o enxofre na treva.
Ei-la, a criança louca
— uma rotação turquesa, nos buracos estrelas centrífugas
com membros.
Sei agora onde me alcança o vergão de sal:
no mamilo rosa esquerda, em cima
das válvulas negras. Arranca-se o nervo ao espelho,
arranca-se a veia à palavra: não fica
o rosto, a criança não fica no abismo sonoro.
Louca sob essas varas de gelo, lufadas
redondas
onde ela se volta, a cabeça radiosamente com membros.
Os salões do mundo são atravessados por cometas drapejantes.
E explode a espuma no filme
sideral. O talento tumultuoso de uma camélia
debaixo das varas. E ao meio,
eu — inocente, inocente. Largo na testa
para a loucura e o baptismo.
Arte de redacção: ver isto,
ver a morte — dar-lhe um nome de diamante com o nervo
dentro. Aveia selvagem trespassando a acerba
massa
dos vocábulos. E nos lugares visuais do paraíso,
assinar: o demoníaco — com todas as letras
doces.
2E
A mão que dolorosamente extraíra
rosas de mármore
dos sítios difíceis. Essa mão agora
nos trabalhos da alma: o flanco acordado, o abismo
da palavra. Resplandecia.
Levantava a pálpebra de jóia instantânea.
Das brancas ramas desentranha a corola
compacta, intrínseca, propagada
na árvore. Flanco e mão. E o nome que os ilumina
arboreamente.
3C
— blocos zoológicos, laterais, devorados
por líquenes. Vem-lhes — de gotas, botânicas
vidradas, insectos,
o vento que os embriaga, as coisas plurais
da terra — esse
fluxo e refluxo de potência cega.
Se lhes toco nos flancos, ou nas jubas, ou entre
as patas dianteiras,
sinto dos dedos ao coração a tenebrosa
pancada do sangue.
— Guardo no meu segredo aquele segredo
central,
inseparável.
Comentários (4)
I can't keep a secret??
H. H.
Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10
Casava
Etc
Exemplos
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1961
Poemacto
1961
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1962
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1963
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1963
A Máquina Lírica (Electronicolírica)
1964
Húmus
1967
O Bebedor Nocturno
1968
Apresentação do rosto
1968
Cinco canções Lacunares
1968
Antropofagias
1973
Os brancos arquipélagos
1973
Cobra
1977
O corpo, o luxo, a obra
1978
Photomaton & Vox
1979
Flash
1980
A cabeça entre as mãos
1982
Última ciência
1988
Os selos
1990
Os selos, outros, últimos
1991
Do mundo
1994
A faca não corta o fogo
2008
Servidões
2013
A morte sem mestre
2014
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