Canção da Cabília
Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.
Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.
Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.
— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.
Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.
— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.
Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras
Canção Escocesa
«Porque escorre o sangue pela tua espada,
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
Eduardo, Eduardo?
Porque escorre o sangue pela tua espada,
e porque estás tão triste, oh?»
«Oh, porque matei o meu melhor falcão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu melhor falcão,
e no mundo não há outro nenhum assim, oh!>>
«O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
Eduardo, Eduardo,
O sangue do teu falcão não era assim tão vermelho,
porque me mentes, oh?»
«Oh, porque matei o meu corcel ruão,
minha mãe, minha mãe,
oh, porque matei o meu corcel ruão,
que era delgado e tão ágil, oh!»
«Esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
Eduardo, Eduardo,
esse corcel era velho e possuis outros corcéis,
porque me mentes, oh?»
«Oh, foi meu pai quem eu matei,
minha mãe, minha mãe,
oh, foi meu pai quem eu matei, que
a maldição me cubra para sempre, oh!»
«Que penitência farás pelo teu crime,
Eduardo, Eduardo?
Que penitência farás pelo teu crime,
dize-me, ó filho, oh?»
«Embarcarei para longe, bem longe,
minha mãe, minha mãe,
embarcarei para longe, bem longe,
irei por sobre as águas do mar, oh!»
«E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
Eduardo, Eduardo?
E os teus castelos e torres, que é que deles farás,
que eram tão altos, tão belos, oh?»
«Que fiquem de pé, e que tombem depois,
minha mãe, minha mãe,
que fiquem de pé, e que tombem depois,
e no mundo não reste nenhum sinal, oh!»
«Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
Eduardo, Eduardo?
Que deixas ã tua mulher, e que deixas aos teus filhos,
se te aventuras ao mar, oh?»
«Deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
minha mãe, minha mãe,
deixo-lhes a terra toda para que nela mendiguem,
que nunca mais os verei, oh!»
«E que deixas tu à tua mãe extremosa,
Eduardo, Eduardo?
E que deixas tu à tua mãe extremosa,
que fica sem ti, oh?»
«A maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
minha mãe, minha mãe,
a maldição do inferno, eis agora o que te deixo,
que o meu crime é o teu, oh!»
Canção Tártara
O rosto da minha amada cobriu-se de sangue.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
A cabeça do falcão cobriu-se de sangue.
Soprou o vento e desatou-se uma madeixa de cabelo
uma madeixa o roçou, e o rosto cobriu-se de sangue.
Construí uma casa, e era tudo num sonho.
Uma casa contra o mundo.
— A ponta do meu bordão era tão frágil, tão frágil:
a noite — a nossa noite — era perigosa e alta.
Eu morro porque olhei sempre sempre o meu caminho.
Porque olhei para a direita e porque olhei para a esquerda.
Nem tu nem eu pelo tempo deixaremos
de olhar e olhar para o nosso caminho.
Transmudaram-se as águas em cavalos,
e das mãos nascia o vinho como dedos.
Bebi até ao fundo da minha dor,
e ela cresceu, cresceu, ainda mais forte que o vinho.
Canções de Camponeses do Japão - Amor Mudo
Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!
Canções de Camponeses do Japão - Arrozal de Madrugada
Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?
Canções de Camponeses do Japão - As Três Claridades
A Lua a leste,
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
a oeste as Pléiades,
o meu amado
ao meio.
Canções de Camponeses do Japão - Lírio
O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!
Canções Indonésias
Perdi uma pérola na erva.
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
Pérola perdida que guarda o seu oculto oriente.
— O amor àquela que amo um dia se perderá:
pérola de orvalho que morre e que fulgura.
Formigas vermelhas no bambu vazio, vaso
repleto de essência de rosas —
se a luxúria enche o meu corpo fundo,
apenas minha amada o pode esvaziar.
Ouve-se a água bater no coração do coco verde,
e enquanto amadurece, o dúrio guarda os seus segredos.
Eu sei porque te quero nas minhas mãos,
mas tu ignoras porque te queres na minha boca.
Abre o fruto de odor inquietante,
e nunca, nunca mais te poderás saciar.
Os caroços escorregam como ovos debaixo dos teus dedos.
O sumo é forte e doce como o alho e o leite.
Aos milhares voam os pombos
um apenas vem pousar na minha cerca.
— Eu queria morrer na ponta da tua unha,
queria ser enterrado na palma da tua mão.
Se até vós subir o movimento das águas,
querereis um com o outro vos banhar? —
E se até vós subir o movimento da morte,
querereis um com o outro vos banhar?
Cântico Dos Cânticos - Conclusão
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
Quem é que sobe do deserto apoiada ao seu amado?
Acordei-te sob a macieira,
no mesmo sítio onde tua mãe te concebeu.
Põe-me como um selo em teu coração,
como um selo no teu braço.
Porque o amor é forte como a morte,
o amor único mais forte que a eternidade dos mortos.
As suas feições são como flechas de fogo,
uma chama de Deus.
As grandes águas não poderão extinguir o amor,
nem submergi-lo os rios.
Cântico Dos Cânticos - Primeiro Poema
Sou morena mas bela, ó raparigas de Jerusalém,
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
como as tendas de Quedar,
como os pavilhões de Salomão.
Não olheis meu rosto bronzeado:
foi o sol que me queimou.
Os filhos de minha mãe viraram-se contra mim,
mandaram-me guardar as vinhas.
Porém, eu não guardei a minha própria vinha.
Diz-me, tu a quem ama o meu coração:
onde apascentas o rebanho,
onde o recolhes ao meio-dia?
Para que eu não erre, cara velada, como uma vagabunda,
entre os rebanhos dos teus companheiros.
Coro das raparigas de Jerusalém
Se o não sabes, ó mais bela entre as mulheres,
segue as pegadas dos rebanhos,
apascenta os cabritos junto às tendas dos pastores.
Comparo-te à minha égua, atrelada
ao carro do Faraó.
Inalterável em sua maravilha se conserva teu rosto
ao meio das arrecadas, e o pescoço
com seus colares.
Longos pingentes de ouro e esferas de prata,
para ti.
Enquanto o rei se assenta à sua mesa,
exala o meu nardo o seu perfume.
O meu amado é como um ramo de mirra
cravado entre meus seios —
cacho de ligustro nas vinhas de En-Gaddi.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas.
Como és belo belo, meu amado, como
és belo.
Verde de folhagem é o nosso leito verde.
As traves da nossa casa são de cedro, os forros
em madeira de cipreste.
Eu sou a rosa de Saron, o lírio dos vales.
Como o lírio no meio dos cardos,
assim é a minha amada entre as outras raparigas.
Como a macieira entre as árvores de um pomar,
assim é o meu amado entre os homens.
— Sentei-me à sua sombra, coberta
pelos grandes frutos da sua árvore.
Levou-me o meu amado pelas câmaras da festa,
e era o amor o estandarte que ele abria sobre mim.
— Dai-me bolos de passas, reanimai-me
com maçãs.
Porque eu estou doente de amor.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Cântico Dos Cânticos - Quarto Poema
Eu durmo, mas o meu coração vela.
Ouço baterem à porta.
— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»
— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»
Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.
Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.
Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.
Coro das raparigas de Jerusalém
Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?
O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.
As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.
Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.
E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.
Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.
Coro das raparigas de Jerusalém
Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Ouço baterem à porta.
— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»
— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»
Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.
Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.
Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.
Coro das raparigas de Jerusalém
Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?
O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.
As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.
Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.
E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.
Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.
Coro das raparigas de Jerusalém
Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Cântico Dos Cânticos - Quinto Poema
Tu és bela, minha amiga, como Tirça,
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
esplêndida como Jerusalém.
Terrível como um exército debaixo dos estandartes.
Afasta de mim teus olhos, que me fascinam.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras
deitado nas encostas de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
São sessenta as rainhas e oitenta as concubinas,
e é sem número o número das raparigas virgens.
Única porém é a minha amada,
a minha eleita.
E é a única de sua mãe, a amada filha
de sua mãe.
Viram-na as raparigas, e chamaram-na bem-aventurada,
e celebraram-na rainhas e concubinas.
Coro das raparigas de Jerusalém
Quem é que aparece como a aurora,
grande como a lua,
branca como o sol,
terrível como um exército debaixo dos estandartes?
Desci ao jardim das nogueiras para ver os rebentos do vaie,
para ver se a vinha rebentara,
se as romãzeiras estavam em flor.
— Não sei, mas transportou-me o desejo
para a cabeça dos carros do meu povo.
Coro das raparigas de Jerusalém
Volta, volta, ó Sulamite,
volta, volta, para que nós te contemplemos.
Porque olhais para a Sulamite, como se dançasse
ao som de um coro duplo?
Que soberbos são teus pés nas sandálias,
ó filha de príncipe.
A curva das tuas coxas é como um colar,
obra das mãos de um artista.
Abre-se teu umbigo como uma taça redonda,
em teu ventre, montículo de trigo
cercado de lírios.
Teus seios parecem duas gazelinhas gémeas;
e o pescoço, uma torre de marfim.
Teus olhos são as piscinas de Heshbôn,
junto à porta de Bat-Rabbin.
E o teu nariz é como a torre do Líbano,
sentinela voltada para Damas.
E a tua cabeça ergue-se semelhante ao Carmelo,
e as tuas tranças são como a púrpura.
Um rei está fascinado pela tua cabeleira.
Como és bela bela, como
és bela, ó amor, ó delícias.
No teu impulso, és como a palmeira
— teus seios são cachos de tâmaras.
Sejam teus seios como cachos de uvas;
teu hálito, perfume de maçã;
tuas palavras, um vinho delicado.
Como corre nos lábios dos que dormem,
assim pertence o vinho ao meu amado.
E eu pertenço ao meu amado,
e é para mim que se dirige o seu desejo.
— Vem, meu amor, partamos para os campos.
Passaremos a noite nas aldeias,
e pela manhã iremos aos vinhedos.
Veremos se já rebenta a vinha,
e os pâmpanos florescem, e as romãzeiras estão em flor.
Então eu te farei o dom de mim mesma.
As mandrágoras libertam o seu perfume,
e os melhores frutos estão diante da nossa porta.
Para ti, meu amado, eu guardarei os frutos,
os verdes frutos, os frutos já maduros —
para ti os guardarei, ó meu amado.
Fosses tu meu irmão. Poderia beijar-te,
sem surpresa de ninguém.
Irás comigo a casa de minha mãe,
e tudo me ensinarás.
Dar-te-ei a beber um vinho perfumado,
o meu licor de romãs.
O seu braço esquerdo está debaixo da minha cabeça,
o seu braço direito aperta-me
fortemente.
Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Cântico Dos Cânticos - Segundo Poema
Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
Ei-lo que chega, correndo pelas montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
— «Vem, meu amor.
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas —
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto.»
Não tardou, porém, que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
a frente daquela que me gerou.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor, antes que ele
o deseje.
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas da aliança.
De noite, no meu leito, procurei
aquele a quem ama o meu coração.
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
— «Vistes porventura aquele a quem ama o meu coração?»
Cântico Dos Cânticos - Terceiro Poema
Quem é que sobe do deserto como uma coluna de fumo,
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
vapor de mirra e de incenso,
vapor de todos os perfumes exóticos?
Eis a liteira de Salomão, rodeada
por sessenta guerreiros de estirpe,
nata dos guerreiros de Israel.
Todos valentes na guerra, trazem à cinta
as espadas,
por causa das ciladas nocturnas.
o rei Salomão mandou construir um trono para si
em madeira do Líbano.
Fez-lhe de prata as colunas, de ouro o dossel,
e o assento de púrpura.
O fundo é uma marchetaria de ébano.
— Vinde ver, ó raparigas de Sião, o meu amado
trazendo o diadema que lhe pôs sua mãe
no dia dos esponsais,
no dia da alegria do seu coração.
Como és bela bela, minha amada, como
és bela.
Teus olhos são duas pombas, atrás do véu.
Tua cabeleira é um rebanho de cabras,
descendo pelas vertentes de Galaad.
Teus dentes, rebanho de ovelhas tosquiadas
que sobem do bebedouro,
duas a duas, sempre juntas.
Teus lábios, um fio de escarlata;
e mansas, as palavras que dizes.
Os pomos do teu rosto são como romãs cortadas.
No meio das tranças, levanta-se teu pescoço,
semelhante á torre de David,
edificada para pendurar os broquéis
e os escudos redondos dos guerreiros.
Teus seios são como duas corçazinhas gémeas
pastando por entre os lírios.
— Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite.
irei à montanha da mirra,
à colina do incenso.
Como és bela bela, minha amada, e pura.
Vem comigo do Líbano, meu amor,
comigo do Líbano.
Abaixa teus olhos dos cimos do Amana,
dos cimos do Samir e do Hermon,
covil de leões,
montanhas de leopardos.
Arrebataste meu coração, minha irmã, minha amada,
arrebataste meu coração,
com um só dos teus olhares,
com uma única pérola do teu colar.
Magnífico é o teu amor, minha irmã, minha amada.
E o cheiro dos teus perfumes, melhor
que todos os bálsamos.
Teus lábios, ó minha amada, destilam mel virgem.
Leite e mel na tua língua.
O cheiro dos teus vestidos é como o cheiro do Líbano.
Horto fechado és tu, minha irmã, minha amada,
horto fechado, fonte secreta.
Floresces como um pomar de romãzeiras,
no meio dos aromas raros:
o nardo, e o açafrão, e o cinamomo, e a cana,
e as árvores do incenso, e a mirra, e o aloés —
com os perfumes mais finos.
Ó fonte que fecundas os jardins,
poço de águas vivas, ribeira descendo do Líbano.
Levanta-te, vento norte; corre, vento sul.
Batei no meu jardim, e que os aromas se espalhem.
Entre o meu amacio no seu jardim e prove
seus frutos pesados.
Eu entro no meu jardim, minha irmã, minha amada,
eu colho a minha mirra e o meu bálsamo.
Eu entro no meu jardim, eu como o mel e o favo,
eu bebo o vinho e o leite.
— Comei, amigos. Bebei,
embriagai-vos, ó amados.
Cântico Dos Cânticos, de Salomão
Beije-me ele com os beijos da sua boca.
Amor melhor do que o vinho.
— Delicado é o aroma dos teus perfumes;
e teu nome, unguento que se derrama.
Por isso te amam as virgens.
Leva-me contigo, corramos juntos.
O rei levou-me para as suas câmaras.
— Tu serás o nosso júbilo, a nossa alegria.
Cantaremos teu amor mais que o vinho.
Cheio de razão é o amor de quem te ama.
Amor melhor do que o vinho.
— Delicado é o aroma dos teus perfumes;
e teu nome, unguento que se derrama.
Por isso te amam as virgens.
Leva-me contigo, corramos juntos.
O rei levou-me para as suas câmaras.
— Tu serás o nosso júbilo, a nossa alegria.
Cantaremos teu amor mais que o vinho.
Cheio de razão é o amor de quem te ama.
Cinco Poemas Esquimós
Levanto-me da cama com gestos
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia.
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.
O grande fluxo do oceano põe-me em movimento,
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.
Os mortos que sobem ao céu
por degraus sobem ao céu,
por velhos degraus já gastos.
Todos os mortos que sobem ao céu
por degraus gastos,
gastos ao contrário,
gastos por dentro,
sobem ao céu.
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
— Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
I
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
O invocador te chama.
Vem, e purifica esta terra.
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
Levanto-me:
é no meio dos espíritos que eu me levanto.
Os invocadores me protegem,
conduzem-me por entre os espíritos.
Criança, criança, grande criança,
levanta-te e vem,
grande criança, pequena criança,
aparece entre nós.
II
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.
Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.
Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.
E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia.
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.
O grande fluxo do oceano põe-me em movimento,
faz-me flutuar.
Flutuo como a alga à superfície das águas.
E a abóbada celeste abala-me e o ar violento
abala o meu espírito
e atira-me sobre a poeira.
E eu tremo de alegria.
Os mortos que sobem ao céu
por degraus sobem ao céu,
por velhos degraus já gastos.
Todos os mortos que sobem ao céu
por degraus gastos,
gastos ao contrário,
gastos por dentro,
sobem ao céu.
Vejo aproximarem-se os brancos cães da aurora:
— Alto!, que vos atrelo ao meu trenó de gelo!
I
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
O invocador te chama.
Vem, e purifica esta terra.
Espírito do ar, vem,
vem depressa.
Levanto-me:
é no meio dos espíritos que eu me levanto.
Os invocadores me protegem,
conduzem-me por entre os espíritos.
Criança, criança, grande criança,
levanta-te e vem,
grande criança, pequena criança,
aparece entre nós.
II
Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.
Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.
Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.
E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.
Enigmas Astecas
Um espelho numa casa feita com ramos de pinheiro?
O olho com a sobrancelha.
Uma velha com cabelos de feno branco, velando à porta da casa?
A meda de milho.
Uma pedra branca de onde saem plumas verdes?
A cebola.
Uma coisa que caminha, levando à frente plumas vermelhas,
seguida por um bando de corvos?
O incêndio das savanas.
Uma coisa que tem sandálias de pedra e se levanta à porta de casa?
Os pilares laterais da porta.
Uma coisa que vai pelos vaies fora, batendo as palmas das mãos como uma
mulher que faz tortilhas?
A borboleta voando.
O olho com a sobrancelha.
Uma velha com cabelos de feno branco, velando à porta da casa?
A meda de milho.
Uma pedra branca de onde saem plumas verdes?
A cebola.
Uma coisa que caminha, levando à frente plumas vermelhas,
seguida por um bando de corvos?
O incêndio das savanas.
Uma coisa que tem sandálias de pedra e se levanta à porta de casa?
Os pilares laterais da porta.
Uma coisa que vai pelos vaies fora, batendo as palmas das mãos como uma
mulher que faz tortilhas?
A borboleta voando.
Enigmas Maias
Filho, quais são as bocas tristes por onde as canas se lamentam?
Os buracos da flauta.
Filho, viste acaso duas pedras verdes com uma cruz ao meio?
Os olhos do homem.
Filho, e o papagaio que levanta a saia, e tira a capa, e a camisa, e o
chapéu, e os sapatos? Filho, passou acaso por ti? Talvez tivesses passado
tu por ele, pela alta pedra que se levanta à entrada do céu, e está na
porta da muralha. Quando por lá passaste, viste porventura avançarem para
ti homens como touros inclinados?
A pupila e o par de olhos.
Filho, viste as velhas que traziam ao colo os enteados e outras crianças?
Pai, estão aqui enquanto como, e não os posso deixar. O polegar e os
outros dedos.
Filho, por onde passaste há um riacho.
Pai, esse riacho está em mim. É o sulco ao meio das minhas costas.
Filho, vai buscar uma mulher de Jalisco que tenha os cabelos em desordem
e seja muito bela e virgem. Que lhe dispo o vestido e o saiote, e ficarei
feliz de vê-la assim. O seu perfume será de terra, e um turbilhão será a
sua bela cabeça.
É a tenra espiga de milho verde cozida debaixo da terra.
Ele ganha e, contente, leva consigo a pedra vermelha com que sonhou. O
orvalho do céu com que sonhou.
Os buracos da flauta.
Filho, viste acaso duas pedras verdes com uma cruz ao meio?
Os olhos do homem.
Filho, e o papagaio que levanta a saia, e tira a capa, e a camisa, e o
chapéu, e os sapatos? Filho, passou acaso por ti? Talvez tivesses passado
tu por ele, pela alta pedra que se levanta à entrada do céu, e está na
porta da muralha. Quando por lá passaste, viste porventura avançarem para
ti homens como touros inclinados?
A pupila e o par de olhos.
Filho, viste as velhas que traziam ao colo os enteados e outras crianças?
Pai, estão aqui enquanto como, e não os posso deixar. O polegar e os
outros dedos.
Filho, por onde passaste há um riacho.
Pai, esse riacho está em mim. É o sulco ao meio das minhas costas.
Filho, vai buscar uma mulher de Jalisco que tenha os cabelos em desordem
e seja muito bela e virgem. Que lhe dispo o vestido e o saiote, e ficarei
feliz de vê-la assim. O seu perfume será de terra, e um turbilhão será a
sua bela cabeça.
É a tenra espiga de milho verde cozida debaixo da terra.
Ele ganha e, contente, leva consigo a pedra vermelha com que sonhou. O
orvalho do céu com que sonhou.
Hino Orfico a Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias. Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu
própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.
Cantarei a criadora dos homens e deuses — cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias. Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu
própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.
O Mistério de Ameigen
(Irlanda)
Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e que anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.
Eu sou o vento que sopra à flor do mar,
sou vaga do mar,
o bramido do mar.
Sou o boi das sete lutas,
ave de rapina sobrevoando as falésias,
e dardo solar.
Eu sou o que navega, o inteligente.
Javali sangrento.
Lago na planície violenta.
Sou palavra de ciência.
Espada viva abrindo a noz das armaduras.
Eu sou o deus que implanta o fogo na cabeça,
e espalha a luz pelas montanhas,
e que anuncia as idades lunares,
e ensina ao sol onde morrer.
Oração Magica Finlandesa Para Estancar o Sangue Das Feridas
Pára, sangue, de correr,
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos.
de ressaltar aos borbotões,
de me inundar como torrente,
de me brotar sobre o flanco.
Como contra uma parede,
imóvel como uma sebe,
lírio marinho direito
como espadana na espuma,
como pedra no talude
e o recife na corrente.
Sangue, sangue, se o desejo
te faz correr com tal força,
circula dentro da carne,
abraça-te aos ossos vivos.
Belo, belo que é correr
na obscura pele compacta,
sussurrando nas artérias,
murmurando contra os ossos.
Pára, sangue, de correr
sobre a fria terra morta.
Não corras, leite, no chão,
sangue inocente no vale,
beleza humana entre a erva,
oiro de heróis na colina.
Desce fundo ao coração,
bate surdo nos pulmões,
desce, desce fundamente
aos órgãos vivos do corpo.
Não és rio que se escoe,
nem calmo lago parado,
nem fonte que brote assim,
nem barca velha com rombos.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Açucena
As mãos da Primavera edificaram, no cimo dos caules, os castelos da
açucena;
castelos com ameias de prata onde, em volta do Príncipe, os guerreiros
empunham espadas de oiro.
açucena;
castelos com ameias de prata onde, em volta do Príncipe, os guerreiros
empunham espadas de oiro.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Barca
Lá vem a barca como um nadador de pernas rígidas, rápida como um falcão
que se abate sobre um peixe-voador.
Parece também uma pupila que contempla o ar, as pálpebras cercadas pelas
pestanas dos remos.
que se abate sobre um peixe-voador.
Parece também uma pupila que contempla o ar, as pálpebras cercadas pelas
pestanas dos remos.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Beringela
É um fruto de forma esférica, gosto vivo, alimentado nos jardins peia
abundância das águas.
Cingida pela capa do pecíolo, é um coração encarnado de cordeiro nas
garras de um abutre.
abundância das águas.
Cingida pela capa do pecíolo, é um coração encarnado de cordeiro nas
garras de um abutre.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Cegonha
Emigrante de outras terras, que anuncia o tempo,
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
que desdobra as asas de ébano, e despe o corpo de marfim, e ri claro com
bico de sândalo.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Leitura
Meus olhos resgatam o que está preso na página: o branco do branco e o
preto do preto.
preto do preto.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Lua
A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o
papel branco.
Poemas Arabico-Andaluzes - a Noz
É uma envoltura formada por duas peças maravilhosamente unidas: pálpebras
que o sono fecha.
Quando as separa uma faca, surge uma pupila que o esforço de olhar torna
convexa.
E o interior é comparável ao interior de uma orelha, com suas pregas e
esconderijos.
que o sono fecha.
Quando as separa uma faca, surge uma pupila que o esforço de olhar torna
convexa.
E o interior é comparável ao interior de uma orelha, com suas pregas e
esconderijos.
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
Troca-me a prata peio oiro do vinho — digo eu ao copeiro. — Dá-me vinho
novo.
Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:
brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
novo.
Vinho para a minha dor. E logo ao cimo sobrenadam, como espuma, as
bolhas:
brancos dedos de um bebedor petrificado, na mão retendo eternamente a sua
taça.
Poemas Arabico-Andaluzes - Bolhas
Quando o encheram de vinho, inflamou-se o jarro, vestindo-se com uma
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
túnica de chamas.
E maravilharam-se os olhos, quando ao de cima vieram as bolhas:
Granizo sobre vivas chamas, granizo que nascia do próprio coração das
brasas.
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Alazão
Era um cavalo alazão, e à sua volta a batalha acendia-se como um tição de
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Branco
Alvo como luz quando o sol se levanta — orgulhoso avançava, ajaezado com
a sela de ouro.
Vendo-o caminhar atrás de mim para a guerra, disse alguém:
«Quem pôs bridas à aurora com as Pléiades e selou o relâmpago com o
crescente lunar?»
a sela de ouro.
Vendo-o caminhar atrás de mim para a guerra, disse alguém:
«Quem pôs bridas à aurora com as Pléiades e selou o relâmpago com o
crescente lunar?»
Poemas Arabico-Andaluzes - Cena de Amor
Enquanto a noite arrastava a cauda negra, dei a beber à minha amada vinho
sombrio como pó de almíscar.
E estreitei-a contra mim como um guerreiro estreita a espada, e
semelhantes a talins as suas tranças pendiam dos meus ombros.
E, quando levemente adormeceu, afastei-a de mim.
Afastei-a do meu peito, para que não adormecesse sobre uma almofada
palpitante.
sombrio como pó de almíscar.
E estreitei-a contra mim como um guerreiro estreita a espada, e
semelhantes a talins as suas tranças pendiam dos meus ombros.
E, quando levemente adormeceu, afastei-a de mim.
Afastei-a do meu peito, para que não adormecesse sobre uma almofada
palpitante.
Poemas Arabico-Andaluzes - o Dedal
Dedal dourado como o sol: todo se ilumina, se lhe bate a luz de uma
estrela.
Modelou-o o ourives com esmero, até torná-lo vivo como o próprio ouro.
É um pequeno capacete picado pelas lanças, a que um golpe de espada
tivesse arrancado o elmo.
estrela.
Modelou-o o ourives com esmero, até torná-lo vivo como o próprio ouro.
É um pequeno capacete picado pelas lanças, a que um golpe de espada
tivesse arrancado o elmo.
Poemas Arabico-Andaluzes - o Nadador Negro
Nadava um negro num lago, através de cujas límpidas águas se viam as
pedras do fundo.
Tinha o lago a forma de uma íris azul de que o negro era a pupila.
pedras do fundo.
Tinha o lago a forma de uma íris azul de que o negro era a pupila.
Poemas Arabico-Andaluzes - o Rio
Belo deslizava o rio no seu leito, e melhor seria nele mergulhar a boca
do que mergulhá-la numa boca de mulher.
curvado como uma pulseira, rodeado pelas flores como uma Via-Láctea.
Estreitava-se às vezes até parecer um pesponto de prata numa túnica
verde.
Cercavam-no os ramos como pestanas em volta de uma pupila garça.
O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do crepúsculo sobre a prata da
água.
Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado cujo reflexo mordia as
mãos dos convivas.
do que mergulhá-la numa boca de mulher.
curvado como uma pulseira, rodeado pelas flores como uma Via-Láctea.
Estreitava-se às vezes até parecer um pesponto de prata numa túnica
verde.
Cercavam-no os ramos como pestanas em volta de uma pupila garça.
O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do crepúsculo sobre a prata da
água.
Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado cujo reflexo mordia as
mãos dos convivas.
Poemas Arabico-Andaluzes - Os Jarros
Pesados eram os jarros, mas quando os encheram de vinho puro,
tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
tornaram-se leves, e quase levantaram voo com sua carga preciosa, do
mesmo modo que os corpos se aligeiram com os espíritos.
Poemas Arabico-Andaluzes - Rio Azul
Murmuro, um rio de pérolas corre transparentemente.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
Grandes árvores o cobrem de sombra ao meio-dia, e a flor das águas é cor
de ferrugem.
Guerreiro com loriga, envolto em sua túnica de brocado, estendido à
sombra da bandeira.
Poemas Arabico-Andaluzes - Rosas
Desfolharam-se as rosas sobre o rio e, passando, espalharam-nas os
ventos.
como se o rio fosse a couraça de um guerreiro rasgada pelas lanças, por
onde corresse o sangue das feridas.
ventos.
como se o rio fosse a couraça de um guerreiro rasgada pelas lanças, por
onde corresse o sangue das feridas.
Poemas Arabico-Andaluzes - Visita da Mulher Amada
Vieste um pouco antes de soarem os sinos cristãos, quando o crescente
lunar se abria no céu.
como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.
E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de múltiplas
cores, cauda enorme de pavão.
lunar se abria no céu.
como a branca sobrancelha de um velho ou a curva delicada de um pé.
E, apesar da noite, o arco-íris brilhou no horizonte, o arco de múltiplas
cores, cauda enorme de pavão.
Poemas do Antigo Egipto - Exorcismo
Oh vai, vai dormir, e vai aonde estão as tuas belas mulheres,
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
sobre cujos cabelos se verteu a mirra
e sobre cujos ombros se verteu o incenso fresco.
Poemas do Antigo Egipto - Fragmento do Cairo
Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.
Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
«Dá-me esta noite a minha amada.»
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de flores.
E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
— E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.
Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
— Olha para mim.
Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.
Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos.
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.
Desço o rio numa barca,
ao ritmo dos remadores.
Com um feixe de canas ao ombro,
vou para Mênfis,
e direi a Ptah, senhor da verdade:
«Dá-me esta noite a minha amada.»
Este deus é como um rio de vinho,
com seus maciços de canas.
E a deusa Sekhmet é como se fosse a sua moita de flores.
E a deusa Earit, seu lótus em botão.
E o seu lótus aberto, o deus Nefertum.
— E a minha amada será feliz.
Levanta-se a aurora através da sua beleza.
Mênfis é um cesto de tomates
posto frente ao deus de rosto puro.
Bom é mergulhar, bom,
ó deus meu amigo,
é banhar-me diante de ti.
Adivinhas-me quando se molha
minha túnica de fino linho real.
E juntos entramos nas águas,
e à tua frente eu saio das águas,
agarrando entre os dedos
um estupendo peixe encarnado.
— Olha para mim.
Tanto se alvoroça meu coração, de puro amor,
que metade da minha cabeleira se desfaz,
quando corro ao teu encontro.
Para que me vejas sempre igual e bela
diante de ti,
eu componho os meus cabelos.
Poemas do Antigo Egipto - Ode do Desesperado
A morte está agora diante de mim
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.
A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.
A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se á beira da embriaguez.
A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.
A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.
como a saúde diante do inválido,
como abandonar um quarto após a doença.
A morte está agora diante de mim
como o odor da mirra,
como sentar-se sob uma tenda num dia de vento.
A morte está agora diante de mim
como o perfume do lótus,
como sentar-se á beira da embriaguez.
A morte está agora diante de mim
como o fim da chuva,
como o regresso de um homem
que um dia partiu para além-mar.
A morte está agora diante de mim
como o instante em que o céu se torna puro,
como o desejo de um homem de rever a pátria
depois de longos, longos anos de cativeiro.
Poemas do Velho Testamento - Saltério
SALMOS 137, 88, 22, 42, 57, 69 e 139
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
(Segundo montagem de Jean Grosjean)
Sôbolos rios que vão por Babilónia, sentados
chorámos as lembranças de Sião,
e nos salgueiros pendurámos as harpas
contra o vento.
Porque nos pedem cânticos e alegria.
— Entoai, dizem eles, as canções de Sião.
Mas como em terra estranha elevaremos um canto
ao Eterno?
Que me seque a mão direita se te esquecer,
Jerusalém!
E a língua paralise se abandonares
as câmaras da memória,
se Jerusalém não for a mais alta alegria.
Lembra-te, Ó Eterno, de quando
gritavam na terra de Jerusalém: — Devastai-a
até às raízes!
Feliz daquele que em suas mãos erguer teus filhos
e na pedra os esmagar, ó devastadora
filha de Babel!
De dia grito e gemo à noite, à tua frente:
abre-te aos meus soluços. Que te atinja minha dor.
Bêbeda de infortúnio, a minha vida rola.
Estou deitado junto aos mortos e fechado no silêncio,
perdido entre aqueles de quem se perdeu a memória.
A tua fúria me lança nos lugares tenebrosos,
contra mim desencadeias teus turbilhões obscuros.
Apartaste de meu lado os que eram os amigos.
Ao cativo sem esperança o choro consome os olhos.
Digo o teu nome nas trevas, estendo-te as mãos incansáveis —
mas que esperas tu dos mortos? que te importam sombras idas?
Louvam-te acaso a graça na perdição do abismo? Conhece-se o que é justiça
na noite do esquecimento?
Cada manhã meu clamor se levanta para ti:
porque afastas tua face do cerco da minha voz?
Moribundo desde a infância, eu sofri os teus terrores,
teus espantos me esmagaram.
Rodeado pelas ondas, já me afundo sob as vagas.
— Minhas mãos abrem-se e fecham no grande país das trevas.
Meu Deus. meu Deus, porque me abandonaste
e te afastas dos meus gritos?
Brado) em vão e sem repouso.
Encho os dias e as noites com as vozes desta angústia,
e o teu silêncio me cerca.
Chamavam por ti os antigos, e os apelos ecoavam
em tuas altas escarpas.
Eu porém sou como um verme — a vergonha do meu povo.
Escarnece quem me vê:
— Confia no teu Senhor, porque salva aqueles que ama.
Foste tu quem me tirou do ventre de minha mãe,
tu que eras o meu Deus desde o fundo da matriz.
Oh, não te afastes mais de mim, quando a angústia
me rodeia.
Inumeráveis me envolvem os touros de Basã.
Leões que abrem as bocas para me dilacerar.
E os meus ossos desconjuntam-se.
Derrete-se meu coração como cera contra as chamas.
Seca-se a boca de argila.
Ladra o tumulto dos cães. Sangrando de pés e mãos,
rolo sobre um chão mortal.
Espalharam os meus ossos, dividiram minha túnica:
não te afastes mais de mim, ó grande força celeste!
Arranca aos cães e ao gládio esta vida singular.
Toma-a ás garras dos leões e aos altos cornos dos búfalos.
A gazela brame correndo para a água, e corre a minha alma para ti.
Quando verei Aquele de que tenho tanta sede?
Cresce-me o pranto se me perguntam onde está o Deus vivo.
Triste, lembro-me de haver caminhado para ti,
entre os gritos delirantes de um povo na sua festa.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Sobre os montes do exílio tua lembrança me enlouquece.
O abismo tem sede de abismo: tuas chuvas turbilhonantes
caem sempre sobre mim, no fragor das cataratas.
Nascia-me de ti um canto tumultuoso,
longamente agora esqueço nesta inspiração das lágrimas.
— Onde está o Deus vivo? — perguntam-me os frios
de coração. E eu pergunto onde está o meu Deus vivo.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Onde está o Deus vivo, que se não esgota
o tempo das trevas? Sobre os montes do exílio, tremo
e peço que revele a sua luz.
Que eu mencione em minha cítara um Deus de alta presença.
Que tens, ó minha alma, que estremeces de melancolia?
Porquê gemer e não cantar Aquele
onde se apoia a tua face?
Piedade, ó Deus, piedade!
Agacho-me debaixo da sombra das tuas grandes asas.
Em ti espero a passagem dos flagelos.
Alto Senhor abrindo-se sobre mim, resguarda-me
dos devoradores.
Oh, sê fiel ã tua fidelidade!
Porque a minha alma está deitada entre os leões,
entre fogos e flechas.
Urde-se o canto no silêncio do coração.
Despertai a glória da manhã, ó cítara e alaúde!
Sê fiel á tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Que se embaracem nas redes os que me lançaram
as redes da sua malícia.
Que se envolvam nas suas próprias trevas.
Toldam-se as nuvens em tua graça.
Oh! sê fiel à tua fidelidade!
Ergue-te, ó Deus, pássaro terrível,
sobre todos os céus.
Levanta a tua glória sobre as raízes da terra.
Salva-me, ó Deus, sobem-me as águas até à alma.
Mergulho no lodo profundo, afundo-me no abismo
das águas. Minha vida queimou-se
na espera do Senhor.
Tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas que ela não atinja aqueles que te esperam.
Por ti eu conheci o tempo da confusão, e uma face tenebrosa
se encostou à minha face.
Eu agora sou estranho em casa de minha mãe,
eu agora já não caibo na minha própria casa.
Devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Faço a conta aos inimigos como se contam cabelos.
Tornei-me para eles numa coisa fabulosa.
Nas canções dos bebedores o meu nome passa e passa
como uma sombra maligna.
Que tu conheces, ó Deus, toda a minha loucura.
Mas devorou-me o amor da tua Casa longínqua.
Levanta-me do abismo das muitas águas profundas,
tu que sabes toda a angústia.
Alimentaram-me a fel, deram vinagre a beber.
Faz com que tombem á mesa e que a cegueira os fulmine.
E em sua casa vazia e em sua deserta cidade,
o teu furor os calcine!
Volta a folha do teu livro, e o seu nome se dilua.
Mas a mim, que tu vergaste pelas máquinas da dor,
levanta-me do abismo das muitas águas profundas.
Que me devorou o amor da tua Casa longínqua.
Tu me sondas. Senhor, e me conheces.
Sabes quando me sento e me levanto,
de longe tu escrutas as menores intenções,
reconheces minha marcha e vigias o meu sono.
Nada de mim te é estranho.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Estás em frente do meu rosto, estás atrás das minhas costas,
e pousaste a tua mão sobre a carne do meu ombro.
— Oh, tua ciência é a mais prodigiosa.
Como fugir à tua Face, como evitar teu Espírito?
Acho-te nos campos celestes e nas funduras da treva.
Se voo nas asas da luz para o outro lado das águas,
agarra-me a tua mão que jamais me deixará.
E se as trevas sem astros se derrubam sobre mim,
para teus olhos as noites nada mais são do que luz.
Foste tu, eu sei, quem ergueu a minha carne,
quem lentamente me urdiu no ventre de minha mãe.
Maravilho-me ao pensar no enigma criado.
De há muito já decifravas labirintos da minha alma,
e vias erguer-se a máquina dos meus ossos obscuros.
Minha vida estava inscrita no teu livro encoberto.
Ainda antes do tempo fixaras os meus dias.
Mas os teus, os teus enigmas, quem os pode decifrar?
Que se estendem pelo tempo como na terra as areias.
Odeio os teus inimigos com um ódio absoluto.
Tu me sondas, Senhor, e me conheces.
Adivinhas a palavra que se tece ainda em mim.
Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta,
dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Iúca
Mesmo diante da casa, no alto
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
daquela montanha,
cresce a flor da iúca,
vibrante tocha dos deuses.
É a sua luz que me cega.
É a sua luz que é mais alta
do que eu sobre um cavalo.
E não se rasga no vento, balançando
as suas ancas.
Sob o peso das estrelas, muitas vezes
estremece. «Porque sou assim tão grande,
assim tão só? Ah, ah! Ué!»
E a dormideira e a alfazema devagar
se acariciam. «Porque sou assim tão grande,
tão exposta ã solidão? Ah, ah! Ué!»
Mas no meio da manhã ela cresce
mais ainda.
Como a flor da iúca, tu também
— alta, intacta.
Tocha dentro dos meus sonhos, cada vez
mais no espaço.
— E a minha mão mal te roça.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Obscuridade
Esperamos na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Vinde, vós que escutais, vinde
saudar-nos na viagem nocturna:
nenhum sol agora brilha,
nem luz agora nenhuma estrela.
Vinde, ó vós, mostrar-nos o caminho:
que a noite secreta é inimiga,
a noite que fecha as próprias pálpebras.
E eis como a noite inteiramente nos esqueceu.
E esperamos, esperamos, na obscuridade.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - a Puberdade
Sai depressa, depressa.
Já quase morrem esta noite os ecos.
Mulher virgem, mulher virgem não tem sono.
Vela, veia, através da noite.
Áspero e gigante, o cacto despedaçado:
e minhas penas caídas elevam-se no ar,
mais alto que o cume do monte da Mesa.
E eis que o jovem moveu as pedras sonoras,
e a mulher ouviu, e não pôde dormir.
E partiram-se as unhas de meus pés.
Quando eu passava, tombaram os ramos da noite,
e quebraram-me as penas.
Já quase morrem esta noite os ecos.
Mulher virgem, mulher virgem não tem sono.
Vela, veia, através da noite.
Áspero e gigante, o cacto despedaçado:
e minhas penas caídas elevam-se no ar,
mais alto que o cume do monte da Mesa.
E eis que o jovem moveu as pedras sonoras,
e a mulher ouviu, e não pôde dormir.
E partiram-se as unhas de meus pés.
Quando eu passava, tombaram os ramos da noite,
e quebraram-me as penas.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - As Estrelas
«Somos estrelas que cantam,
cantamos a nossa luz.
Somos as aves de fogo
por sobre os campos celestes.
A nossa luz é uma voz
que abre caminho aos espíritos.
Entre nós três caçadores
seguem o rasto de um urso.
Não há memória de tempo
em que os três o não caçassem.
Vemos lá em baixo as montanhas.
Esta é a canção das estrelas.
cantamos a nossa luz.
Somos as aves de fogo
por sobre os campos celestes.
A nossa luz é uma voz
que abre caminho aos espíritos.
Entre nós três caçadores
seguem o rasto de um urso.
Não há memória de tempo
em que os três o não caçassem.
Vemos lá em baixo as montanhas.
Esta é a canção das estrelas.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Levantei-me cedo, cedo — e era azul
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
toda a manhã.
Porém, o meu amor já havia partido:
— já tinha atravessado as grandes portas da aurora.
No monte Papago a presa na agonia
olhou-me
com os olhos da minha amada.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Canção de Amor
Esta mulher é formosa
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
como uma flor da montanha,
mas é fria, fria, e é fria
como a margem de neve
onde fria floresce.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Dons do Amante
Sobre a tua cabeleira hei-de pôr, para as núpcias,
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
uma coroa de borboletas com suas
asas pintadas.
Terás de volta ao pescoço flores de abóbora,
em prata,
e a lua que para ti noites e noites forjei.
Andarás pelo povo sobre um cavalo em turquesa.
Um cavalo ardente e leve, animado
pelo meu fogo de amor.
E a teus pés eu lançarei uma pedra quente quente:
o coração onde correm
milhões de gotas de sangue.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Pintura Na Areia
Para curar-me, o feiticeiro
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
pintou tua imagem
no deserto:
areia de oiro — teus olhos,
areia vermelha — a tua boca,
areia azul para os cabelos,
e branca, branca areia, para as minhas lágrimas.
Pintou durante o dia, e tu
crescias como uma deusa
sobre a imensa tela amarela.
E pela tarde o vento dispersou
tua sombra colorida.
E, como sempre, na areia
nada ficou senão o símbolo das minhas lágrimas:
areia prateada.
Poemas Dos Peles-Vermelhas - Ritual da Chuva
Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Entre as andorinhas,
andorinhas azuis
que gritam, que gritam,
vem a chuva,
vem a ohuva comigo.
Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Entre as andorinhas,
andorinhas azuis
que gritam, que gritam,
vem a chuva,
vem a ohuva comigo.
Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Desde os tempos antigos,
vem a chuva,
vem a chuva comigo.
Poemas Indochineses - Cantos Alternados
Uma Rapariga
Sou como uma peça de seda cor-de-rosa,
ondulando no mercado.
Não sei em que mãos irei cair.
Meu corpo é como um poço aberto no meio do caminho;
nele alguns lavam o rosto,
lavam nele outros os pés.
Tivesse este rio uma medida de largo,
que eu faria uma ponte, amigo, com um cordão do meu corpete.
Um Rapaz
Rapariga que levas agua com um balancim de junco,
dá-me um balde dessa água para regar o plátano.
Sobre o plátano mais belo, sobre o plátano mais verde,
a fénix virá pousar.
Amo-te, primeiro por teus cabelos em rabo de galo.
Segundo, amo-te pelo modo como falas.
Terceiro, amo-te por causa do teu rosto admirável.
Quarto, amo-te pelos teus vestidos, que são da cor do teu rosto.
Quinto, amo-te porque trazes ganchos nos cabelos e trazes na mão um
leque da China.
Sexto, amo-te por causa dos teus cabelos verdes.
Sétimo, amo-te porque teus pais um dia te puseram no mundo.
Oitavo, amo-te por causa dos teus olhos de fénix que me olham
profundamente.
Nono, amo-te porque vamos estar unidos um ao outro.
E amo-te, em décimo lugar, porque é a mim unicamente que te desejas
unir para sempre.
Sou como uma peça de seda cor-de-rosa,
ondulando no mercado.
Não sei em que mãos irei cair.
Meu corpo é como um poço aberto no meio do caminho;
nele alguns lavam o rosto,
lavam nele outros os pés.
Tivesse este rio uma medida de largo,
que eu faria uma ponte, amigo, com um cordão do meu corpete.
Um Rapaz
Rapariga que levas agua com um balancim de junco,
dá-me um balde dessa água para regar o plátano.
Sobre o plátano mais belo, sobre o plátano mais verde,
a fénix virá pousar.
Amo-te, primeiro por teus cabelos em rabo de galo.
Segundo, amo-te pelo modo como falas.
Terceiro, amo-te por causa do teu rosto admirável.
Quarto, amo-te pelos teus vestidos, que são da cor do teu rosto.
Quinto, amo-te porque trazes ganchos nos cabelos e trazes na mão um
leque da China.
Sexto, amo-te por causa dos teus cabelos verdes.
Sétimo, amo-te porque teus pais um dia te puseram no mundo.
Oitavo, amo-te por causa dos teus olhos de fénix que me olham
profundamente.
Nono, amo-te porque vamos estar unidos um ao outro.
E amo-te, em décimo lugar, porque é a mim unicamente que te desejas
unir para sempre.
Poemas Indochineses - Uma Rapariga Responde a Perguntas
Cresce o bambu ao lado do pagode.
O búfalo sai de manhã à procura de alimento.
Quando nasce, o nabo é muito pequeno.
Canta o galo no pátio dos Três Palácios.
A candeia é mais fresca e mais bela do que a flor.
Teu rosto é vermelho como a pele do sol.
Para edificar o templo é que serve esta madeira.
A prece do bonzo deve ser murmurada noite e dia.
A pimenta é pequena e ardente.
Embora minúscula, é hábil a moeda à porta do juiz.
Mascando bétel, pode criar-se a união.
Serei talvez pouco bela, mas melhor do que as fadas da montanha.
O búfalo sai de manhã à procura de alimento.
Quando nasce, o nabo é muito pequeno.
Canta o galo no pátio dos Três Palácios.
A candeia é mais fresca e mais bela do que a flor.
Teu rosto é vermelho como a pele do sol.
Para edificar o templo é que serve esta madeira.
A prece do bonzo deve ser murmurada noite e dia.
A pimenta é pequena e ardente.
Embora minúscula, é hábil a moeda à porta do juiz.
Mascando bétel, pode criar-se a união.
Serei talvez pouco bela, mas melhor do que as fadas da montanha.
Poemas Zen
Para poder caminhar através do infinito vazio,
a vaca de aço deve transpirar.
A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos,
ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.
De tarde o galo anuncia a aurora,
brilha o sol vivamente à meia-noite.
As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.
Se tirares água, pensarás que as montanhas se movem;
se levantares o véu, verás a fuga das falésias.
Cantam ã meia-noite os gaios de madeira,
e os cães de palha ladram para o céu límpido.
Se acaso vires na rua um homem iluminado,
não o abordes com palavras, não o abordes com silêncio.
Conduz o teu cavalo sobre o fio de uma espada,
oculta-te como puderes no meio das labaredas.
Há tantos anos vive o pássaro na gaiola
que hoje pode voar por entre as nuvens.
Quando o peixe se move, turvam-se as águas;
quando o pássaro voa, uma pena.
No fundo das montanhas está guardado um tesouro
para aquele que nunca o procurar.
As colinas são azuis por elas mesmas;
por elas mesmas, brancas são as nuvens.
Sentada calmamente sem coisa alguma fazer.
aparece a primavera, e cresce a erva.
Os rochedos levantam-se no céu,
o fogo brilha no fundo das águas.
Colhe flores, e as tuas vestes ficarão perfumadas;
tira água, e a lua estará nas tuas mãos.
O vento pára, as flores caem, um pássaro canta
— a montanha conserva o seu mistério.
a vaca de aço deve transpirar.
A verdade é como um tigre que tivesse muitos cornos,
ou então como uma vaca a que faltasse o rabo.
De tarde o galo anuncia a aurora,
brilha o sol vivamente à meia-noite.
As palavras não fazem o homem compreender,
é preciso fazer-se homem para entender as palavras.
Se tirares água, pensarás que as montanhas se movem;
se levantares o véu, verás a fuga das falésias.
Cantam ã meia-noite os gaios de madeira,
e os cães de palha ladram para o céu límpido.
Se acaso vires na rua um homem iluminado,
não o abordes com palavras, não o abordes com silêncio.
Conduz o teu cavalo sobre o fio de uma espada,
oculta-te como puderes no meio das labaredas.
Há tantos anos vive o pássaro na gaiola
que hoje pode voar por entre as nuvens.
Quando o peixe se move, turvam-se as águas;
quando o pássaro voa, uma pena.
No fundo das montanhas está guardado um tesouro
para aquele que nunca o procurar.
As colinas são azuis por elas mesmas;
por elas mesmas, brancas são as nuvens.
Sentada calmamente sem coisa alguma fazer.
aparece a primavera, e cresce a erva.
Os rochedos levantam-se no céu,
o fogo brilha no fundo das águas.
Colhe flores, e as tuas vestes ficarão perfumadas;
tira água, e a lua estará nas tuas mãos.
O vento pára, as flores caem, um pássaro canta
— a montanha conserva o seu mistério.
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Canto de Itzpapalotl
Ireis à região das piteiras selvagens,
para colher os cactos e as piteiras selvagens,
para erguer uma casa de piteiras selvagens.
Ireis à região onde é a raiz da luz,
para atirar os dardos:
águia amarela, tigre amarelo, serpente amarela,
coelho amarelo, veado amarelo.
Ireis à região onde é a raiz da morte,
para atirar os dardos:
águia azul, tigre azul,
serpente azul, coelho azul, veado azul.
Ireis à região das sementes húmidas,
para atirar os dardos sobre a terra florida:
águia branca, tigre branco, serpente branca,
coelho branco, veado branco.
Ireis à região dos espinheiros bravos,
para atirar os dardos sobre a terra violenta:
águia vermelha, tigre vermelho, serpente vermelha,
coelho vermelho, veado vermelho.
E depois de atirar os dardos e atingir os deuses,
o amarelo, o azul, o branco, o vermelho,
águia, tigre, serpente, coelho, veado —
colocai sob a sua protecção
os veladores do deus antigo — o deus do tempo.
para colher os cactos e as piteiras selvagens,
para erguer uma casa de piteiras selvagens.
Ireis à região onde é a raiz da luz,
para atirar os dardos:
águia amarela, tigre amarelo, serpente amarela,
coelho amarelo, veado amarelo.
Ireis à região onde é a raiz da morte,
para atirar os dardos:
águia azul, tigre azul,
serpente azul, coelho azul, veado azul.
Ireis à região das sementes húmidas,
para atirar os dardos sobre a terra florida:
águia branca, tigre branco, serpente branca,
coelho branco, veado branco.
Ireis à região dos espinheiros bravos,
para atirar os dardos sobre a terra violenta:
águia vermelha, tigre vermelho, serpente vermelha,
coelho vermelho, veado vermelho.
E depois de atirar os dardos e atingir os deuses,
o amarelo, o azul, o branco, o vermelho,
águia, tigre, serpente, coelho, veado —
colocai sob a sua protecção
os veladores do deus antigo — o deus do tempo.
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Celebração da Cidade do México
I
Estende-se a cidade em círculos de esmeralda:
extraordinária México, oh plumagem ardente.
Por toda a parte passam em barcos os guerreiros,
através da nação, como bruma florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é o teu lugar.
Aqui é que se ergue o teu grande louvor,
através da nação, como bruma de pétalas.
Brancos salgueiros e gladíolos brancos — cidade do México.
Desdobra as tuas asas, ó garça-real azul.
Desdobra as tuas asas e a tua cauda redonda,
porque vives na cidade como uma verdade profunda,
como neve florida.
Reina a cidade entre nenúfares de esmeralda,
sob a esmeralda do resplendor solar:
e os príncipes regressam como neve florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é a tua casa.
Aqui é que ressoa o teu grande louvor.
Sobre os brancos salgueiros e os ciprestes brancos,
passas voando, ó garça-real azul.
Através da nação desdobras as asas soberbas,
a tua cauda redonda.
Que viva para sempre nesta cidade profusa o
deus em quem se apoiam
o alto céu, a terra funda — ele, o rei
da vossa mortal tristeza.
E erguem-se os gritos antes da batalha.
O guerreiro faz crescer a aurora
através da cidade florida.
E todos regressam sob os leques de plumas,
sob as caudas abertas de assombrosas pedrarias.
— Nas mãos do deus,
um suspiro de tristeza dobra o guerreiro
como um arco.
Estende-se a cidade em círculos de esmeralda:
extraordinária México, oh plumagem ardente.
Por toda a parte passam em barcos os guerreiros,
através da nação, como bruma florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é o teu lugar.
Aqui é que se ergue o teu grande louvor,
através da nação, como bruma de pétalas.
Brancos salgueiros e gladíolos brancos — cidade do México.
Desdobra as tuas asas, ó garça-real azul.
Desdobra as tuas asas e a tua cauda redonda,
porque vives na cidade como uma verdade profunda,
como neve florida.
Reina a cidade entre nenúfares de esmeralda,
sob a esmeralda do resplendor solar:
e os príncipes regressam como neve florida.
Ó ser que dás a vida, aqui é a tua casa.
Aqui é que ressoa o teu grande louvor.
Sobre os brancos salgueiros e os ciprestes brancos,
passas voando, ó garça-real azul.
Através da nação desdobras as asas soberbas,
a tua cauda redonda.
Que viva para sempre nesta cidade profusa o
deus em quem se apoiam
o alto céu, a terra funda — ele, o rei
da vossa mortal tristeza.
E erguem-se os gritos antes da batalha.
O guerreiro faz crescer a aurora
através da cidade florida.
E todos regressam sob os leques de plumas,
sob as caudas abertas de assombrosas pedrarias.
— Nas mãos do deus,
um suspiro de tristeza dobra o guerreiro
como um arco.
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Elogios
Deitada, repousa a flor. Deitado, além, repousa o canto.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turquesa.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de colo vermelho e
plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.
No pórtico de flores, no corredor de flores,
canta o cantor e eleva seu canto puro:
«Chegaram os pássaros diferentes:
o pássaro azul, o pássaro amarelo, o pássaro de ouro e cor-de-rosa
o maravilhoso pássaro da luz.»
Na casa do deus levanta-se agora o canto admirável.
Bracelete, fino unguento, esmeralda brilhante,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
Colares de luzentes e redondas pedras de jade,
enorme plumagem de quetzal,
arco de finíssimas plumas,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
És uma flor vermelha de milho queimado.
Abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
As borboletas do mundo libam em ti o mel vivo,
e em ti libam o mel os pássaros semelhantes ás águias roubadoras.
Tua casa verde refulge como um grande sol —
a casa de aquáticas flores de jade.
Flores espalham-se, soam os guizos.
Príncipe, são os teus guizos.
És uma flor encarnada de plumas:
abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
E teu perfume caminha pelo mundo, espalha-se entre a multidão.
Uma pedra de jade rolou na poeira, nasceu uma flor: o teu canto.
Esplende o sol
somente quando na terra do México levantas tuas flores virgens.
Lapido esmeraldas, derreto o ouro: e eis o meu canto.
Engasto esmeraldas: eis o meu canto.
O homem inclina-se para polir o canto como uma turquesa.
E o deus faz brilhar o escudo de plumas de quetzal.
Imitas o pássaro verde-azul, o pássaro de fogo.
Embriaga-se teu coração: absorve a flor da pintura, o canto pintado.
E abres agora as asas de quetzal.
Ondulas com tuas plumas de arco-íris, ó pássaro de colo vermelho e
plumagem cor de malva.
Bebe o mel. A grande flor perfumada apareceu na terra.
No pórtico de flores, no corredor de flores,
canta o cantor e eleva seu canto puro:
«Chegaram os pássaros diferentes:
o pássaro azul, o pássaro amarelo, o pássaro de ouro e cor-de-rosa
o maravilhoso pássaro da luz.»
Na casa do deus levanta-se agora o canto admirável.
Bracelete, fino unguento, esmeralda brilhante,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
Colares de luzentes e redondas pedras de jade,
enorme plumagem de quetzal,
arco de finíssimas plumas,
ouro, flauta acordada. Eis o que o teu canto é para mim.
Belas são as tuas virgens flores.
És uma flor vermelha de milho queimado.
Abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
As borboletas do mundo libam em ti o mel vivo,
e em ti libam o mel os pássaros semelhantes ás águias roubadoras.
Tua casa verde refulge como um grande sol —
a casa de aquáticas flores de jade.
Flores espalham-se, soam os guizos.
Príncipe, são os teus guizos.
És uma flor encarnada de plumas:
abres na terra do México tuas pétalas ardentes.
E teu perfume caminha pelo mundo, espalha-se entre a multidão.
Uma pedra de jade rolou na poeira, nasceu uma flor: o teu canto.
Esplende o sol
somente quando na terra do México levantas tuas flores virgens.
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Hino a Nossa Mãe
A divindade posta sobre os cactos sumptuosos:
nossa mãe, borboleta de obsidiana.
Ei-la, terrível, nas nove planícies, devorando
corações de veados.
Tu és a nossa mãe, ó rainha terrestre:
com tuas plumas novas e tua argila fresca.
E quebraram-se as flechas nos quatro orientes:
rainha súbito transfigurada em corça.
E viemos para ver-te por sobre os campos áridos.
nossa mãe, borboleta de obsidiana.
Ei-la, terrível, nas nove planícies, devorando
corações de veados.
Tu és a nossa mãe, ó rainha terrestre:
com tuas plumas novas e tua argila fresca.
E quebraram-se as flechas nos quatro orientes:
rainha súbito transfigurada em corça.
E viemos para ver-te por sobre os campos áridos.
Poesia Mexicana do Ciclo Nauatle - Nascemos Para o Sono
Nascemos para o sono,
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
nascemos para o sonho.
Não foi para viver que viemos sobre a terra.
Breve apenas seremos erva que reverdece:
verdes os corações e as pétalas estendidas.
Porque o corpo é uma flor muito fresca e mortal.
Quatro Poemas Árabes - Decepção
Disseram que a minha Layla vive em Tayma,
quando os barcos do estio aí lançam as âncoras.
Eis porém que se esgotaram os meses de verão.
Porque a arrasta o exílio de lugar em lugar?
quando os barcos do estio aí lançam as âncoras.
Eis porém que se esgotaram os meses de verão.
Porque a arrasta o exílio de lugar em lugar?
Quatro Poemas Árabes - Divisa
Conhecem-me os cavalos e a noite e os desertos
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
traiçoeiros e a guerra e as feridas e o papel e a pena.
Quatro Poemas Árabes - Ornatos
O vinho cor-de-rosa é bom, ó companheiros.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Sim, eu voltei, e melhor do que o vinho é o regresso.
Dai-me esse vinho antigo no seu vestido de vidro,
jacinto flamante no interior de uma pérola.
Cinzela nele a água ornatos cor de prata,
ramalhete de círculos evanescentes
que me livraram, eles, das chamas do inferno —
o que não posso negar e humildemente agradeço.
Quatro Poemas Árabes - Tudo o Oue É Novo É Belo
De tudo O que é novo nasce um novo prazer,
mas eu sei que não é boa a jovem morte.
Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar,
nem é como o vinho, nem como o sumo das uvas.
mas eu sei que não é boa a jovem morte.
Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar,
nem é como o vinho, nem como o sumo das uvas.
Quinze Haikus Japoneses
Ervas do estio:
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
lugar onde os guerreiros
sonham.
Um cuco
foge ao longe — e ao longe,
uma ilha.
Primeira neve:
bastante para vergar as folhas
dos junquilhos.
Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
um pimentão.
Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.
Pelo meio do arrozal
vou até à ameixoeira —
para ver o seu perfume.
Pirilampos
sobre o espelho da ribeira.
Dupla barragem de luz
Festa das flores.
Acompanhando a mãe,
uma criança cega.
Casa sob as flores brancas.
Onde bater?
Mancha sombria da porta.
Crescente lunar.
O tubarão esconde a cabeça
debaixo das vagas.
A lua deitou sobre as coisas
uma toalha de prata.
Azáleas brancas.
Monte de Higashi.
Como o corpo
sob um lençol.
Caracol,
lento, lento, lento — sobe
o Fuji.
Um cuco
cuja voz se arrasta
sobre as águas.
Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam os dias lentos.
Três Canções do Epiro - Canção da Laranja Vermelha
Disseram-me que estás doente, laranja vermelha.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
Estás doente da garganta, e eu estou mal da cabeça.
— Sobre as lajes em volta da igreja,
estavam sentadas três raparigas
atando os cabelos com fitas verdes.
Três túmulos se abriram e deles saíram
três belos rapazes.
Ó coração doloroso, consola-te a ti mesmo —
dores iguais a essas já o mundo viu muitas.
Coração doloroso que não estás só no mundo.
Três Canções do Epiro - Diálogo de Marinheiros
Quem viu a árvore de cor verde?
Rapariga dourada de olhos sombrios.
Coberta de lindas folhas de prata.
De olhos sombrios e sombrias sobrancelhas.
Com ouro acumulado lá no cimo.
Raparigas em lágrimas.
E aos pés uma fonte fria, fria.
Onde a sede faz perder toda a memória.
Sobre a água me inclinei para beber água fria.
Oh, o amor que me queima.
Para beber água fria, para tirá-la com as mãos.
Pudessem os meus lábios tocar os olhos sombrios.
Lenço bordado de seda, caiu-me o lenço na fonte de água fria.
— Toda a minha alegria, lenço bordado de seda.
— E lá longe onde o bordaram
cantavam belas raparigas,
muito jovens, muito belas, três raparigas virgens,
cantando, semelhantes às cerejas de maio.
Rapariga dourada de olhos sombrios.
Coberta de lindas folhas de prata.
De olhos sombrios e sombrias sobrancelhas.
Com ouro acumulado lá no cimo.
Raparigas em lágrimas.
E aos pés uma fonte fria, fria.
Onde a sede faz perder toda a memória.
Sobre a água me inclinei para beber água fria.
Oh, o amor que me queima.
Para beber água fria, para tirá-la com as mãos.
Pudessem os meus lábios tocar os olhos sombrios.
Lenço bordado de seda, caiu-me o lenço na fonte de água fria.
— Toda a minha alegria, lenço bordado de seda.
— E lá longe onde o bordaram
cantavam belas raparigas,
muito jovens, muito belas, três raparigas virgens,
cantando, semelhantes às cerejas de maio.
Três Canções do Epiro - o Desejo
Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maça, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes á procura da espada,
e as raparigas correram á procura da mantilha,
e correram, correram as crianças á procura da maça.
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.
Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.
Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maça, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes á procura da espada,
e as raparigas correram á procura da mantilha,
e correram, correram as crianças á procura da maça.
Português
English
Español