Lista de Poemas
4O
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
3A
Com o rosto molhado,
eu posso ficar com o rosto molhado,
com os olhos grandes.
Neste lugar absoluto pelo sopro,
fervem as víboras de ouro aos nós
sobre as pedras enterradas. Leopardos
lambem-me as mãos giratórias.
E eu abro a pedra para ver a água estremecendo.
A água embebeda-me.
Como nos corredores de uma casa brilha o ar,
brilha como entre os dedos.
—A minha vida é incalculável.
3B
como pretexto para luzirem
cortejos: animais, bárbaros crânios de ouro;
um branco suspiro extenua as gargantas dos áruns;
pálpebras no granito despedem-se do mundo. Quando
começam os sítios
íngremes. Porque a treva aproveita
a madurez para onde
se debruça a paisagem. E fique a púrpura
nos dedos, só
por deslizarem. O objecto ao meio é o vaso
em que trabalham. A noite coloca um degrau,
até que do invisível
— reservatórios de linfa e gás entenebreçam.
Os longos mesteres da argila: órgão macio e baixo.
O espasmo que o faz rodar, a beleza
que o transforma num crânio
astral: — Vaso
dolorosamente fechado sobre a fulguração da massa
de átomos. Embriaga-se à volta
do buraco exasperado. O papel redemoinhando às lunações
das unhas. Brilha, escurece. Depois é cor de sangue: o sorvo,
e o sôfrego
movimento externo.
4G
em si mesma. A morte serve-a.
Serve-se dela. Arte da melancolia e do instinto.
Quando agarro a cara, a rotação do mundo faz rodar
a olaria astronómica: uma cara
chamejante, múltipla, luxuosa.
Deus olha-a.
E a arte alta do sono fica pesada:
— Mel, o mel em brasa, a substância
potente, elementar, ardente, obscura, doce de uma doçura
fortíssima,
o mel,
arrebatada. Uma arte inextricável que,
pela doçura, enche as bolsas cruas
da carne, embriaga, queima tudo, mata,
mata.
4H
vibra com tanta força,
as unhas fulguram sobre a toalha.
Cada palavra pensa cada coisa.
Entre imagens de ouro e vento, a constelação arterial dos objectos
do mundo alarga os braços furiosamente
de abismo a abismo.
A mão convulsa manobra a vida máxima.
E então sou devorado pelos nomes
selvagens.
3G
bate numa pedra com o buraco aberto à exaltação
da lua, bate onde
espumejam as ribeiras que atravessam
as embocaduras
siderais. E a madeira
levanta-se, chameja a pedra astrológica, cerra-se
a água nos cântaros de lava.
A altas atmosferas bate nas estâncias negras.
E eu durmo com o sangue luzindo na boca.
O ritmo lunar muda-me os sonhos.
O rosto queima-se.
Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
Aferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à monstruosa
inocência da terra.
4Q
Rosas ascendem do coração trançado
das madeiras.
As caudas dos pavões como uma obra astronómica.
E o quarto alagado pelos espelhos
dentro. Ou um espaço cereal que se exalta.
Escondo a cara. Avoz fica cheia de artérias.
E eu levanto as mãos defendendo a leveza do talento
contra o terror que o arrebata. Os olhos contra
as artes do fogo.
Defendendo a minha morte contra o êxtase das imagens.
Se olhas a serpente nos olhos, sentes como a inocência
é insondável e o terror é um arrepio
lírico. Sabes tudo.
A constelação de corolas está madura contra o granito alto
nas voragens. Rosaceamente.
Atua vida entra em si mesma até ao centro.
Podes fechar os olhos, podes ouvir o que disseste
atrás das vozes
do poema.
3J
demorado. Mergulham devagar o peso até ao coração
unido. Pétalas e pálpebras, soletrou-as
conjugalmente
o ouro. Acolhe-os a côncava casa
do sono. Rodaram como bilhas ou amonites ou ancas
pálidas — ao sopro e número
do fogo. Passou a onda abaladora.
E fecham agora os olhos sobre a deslumbrante
chaga das núpcias.
Alto e baixo, pai e filha, ouro e imagem,
transmutaram-se numa só massa exaltada.
—Acame redonda que se fecha
na sua casa madura.
5A
Por dentro a chuva que a incha, por fora a pedra misteriosa
que a mantém suspensa.
E a boca demoníaca do prodígio despeja-se
no caos.
Esse animal erguido ao trono de uma estrela,
que se debruça para onde
escureço. Pelos flancos construo
a criatura. Onde corre o arrepio, das espáduas
para o fundo, com força atenta. Construo
aquela massa de tetas
e unhas, pela espinha, rosas abertas das guelras,
umbigo,
mandíbulas. Até ao centro da sua
árdua talha de estrela.
Seu buraco de água na minha boca.
E construindo falo.
Sou lírico, medonho.
Consagro-a no banho baptismal de um poema.
Inauguro.
Fora e dentro inauguro o nome de que morro.
4K
a estrela de água.
E a cobra enrola-se ao torso, mergulha
na bolsa tenra. O sopro da víbora incha a pedra
de ombro a ombro.
E a pedra formada, a víbora fria, a estrela
que funciona,
transmudam-se umas nas outras.
— Todas as canções são canções múltiplas
e únicas
de demência.
Comentários (4)
I can't keep a secret??
H. H.
Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10
Casava
Etc
Exemplos
A colher na boca
1961
Poemacto
1961
Lugar
1962
A máquina de emaranhar Paisagens
1963
Comunicação Académica
1963
A Máquina Lírica (Electronicolírica)
1964
Húmus
1967
O Bebedor Nocturno
1968
Apresentação do rosto
1968
Cinco canções Lacunares
1968
Antropofagias
1973
Os brancos arquipélagos
1973
Cobra
1977
O corpo, o luxo, a obra
1978
Photomaton & Vox
1979
Flash
1980
A cabeça entre as mãos
1982
Última ciência
1988
Os selos
1990
Os selos, outros, últimos
1991
Do mundo
1994
A faca não corta o fogo
2008
Servidões
2013
A morte sem mestre
2014
Minha cabeça estremece - Herberto Helder // Rodrigo Leão
Herberto Helder
Morreu o poeta Herberto Helder
Herberto Helder dito por Luis Miguel Cintra
Deixarei Os Jardins A Brilhar Com Seus Olhos| Poema de Herberto Helder narrado por Mundo Dos Poemas
Não Sei Como Dizer-te | Poema de Herberto Helder com narração de Mundo Dos Poemas
Os poetas - "No sorriso louco das mães" (Herberto Helder) disco "entre nós e as palavras" (1997)
Herberto Helder :: Bate-me à porta, em mim / Por Luís Lucas
Poesia e realidade pela obra de Herberto Helder - Aula 1
Um livreiro que, às vezes, desaconselha a poesia de Herberto
A última bilha de gás durou dois meses e três dias
Este Lugar Não Existe, Herberto Helder
Descortinar Herberto Helder com Joana Matos Frias
HERBERTO HELDER - Poetas do Mundo #17
Herberto Helder :: Havia um homem que corria pelo orvalho dentro
Herberto Helder :: A manhã começa a bater no meu poema
Herberto Helder — O amor em Visita (por José-António Moreira)
Herberto Helder diz "Este lugar não existe" disco single s/ titulo (1968)
Os poetas - "Minha cabeça estremece" (Herberto Helder) disco "entre nós e as palavras" (1997)
"Levanto à vista" - Poema de Herberto Helder, dito por Fernando Alves
“Poemas Completos”, de Herberto Helder
Ep 512 | Herberto Hélder
Herberto Helder: Crítica e Criação - Profa. Dra. Joana Matos Frias
Não sei como dizer-te | poema de Herberto Helder
Sobre Um Poema | Poema de Herberto Helder com narração de Mundo Dos Poemas
Herberto Helder diz "A manhã começa a bater no meu poema" disco single s/ titulo (1968)
Herberto Helder :: Levanto à vista / Por Fernando Alves
Herberto Helder :: Minha cabeça estremece / Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes
Herberto Helder :: Um quarto dos poemas é imitação literária / Por Fernando Alves
Herberto Helder - via INIMIGO RUMOR
Herberto Helder :: O actor / Por Mário Viegas
HERBERTO HELDER E O ESFACELAMENTO DO SIGNO
Dons do Amante, Herberto Hélder
Alguns traços da obra poética de Herberto Helder
Herberto Helder - Tríptico (por José-António Moreira)
RODRIGO LEÃO - HERBERTO HELDER
Herberto Helder
Tributo a Herberto Helder
Não sei como dizer-te - poema de Herberto Helder.
16 poemas Zen de Herberto Helder: 06 - o galo de madeira
Poesia e realidade pela obra de Herberto Helder - Aula 2
Herberto Hélder ● A Simple Tribute
Herberto Helder :: As manhãs começam logo com a morte das mães / Por Fernando Alves
herberto helder
Herberto Helder diz "Havia um homem que corria" disco single s/ titulo (1968)
Evandro Affonso Ferreira recomenda "Os Passos em Volta" de Herberto Helder | Super Libris
16 poemas Zen de Herberto Helder: 08 - o teu cavalo
Tributo a Herberto Helder
16 poemas Zen de Herberto Helder: 10 - o peixe e o pássaro
Poesia e realidade pela obra de Herberto Helder - Aula 4
Português
English
Español