Poemas nesta obra
Texto 1
Todo o discurso Ă© apenas o sĂmbolo de uma inflexĂŁo
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ĂŁ sua extraordinĂĄria desordem preside um pensamento
melhor diria âum esforçoâ nĂŁo coordenador (de modo algum)
mas de âmoldagemâ perguntavam âestĂŁo a criar moldes?â
nĂŁo senhores para isso teria de preexistir um âmodeloâ
u ma ideia organizada um cĂąnone
queremos sugerir coisas como âimagem de respiraçãoâ
âimagem de digestĂŁoâ
âimagem de dilataçãoâ
"imagem de movimentaçãoâ
"com as palavras?â perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
nĂŁo tentamos criar abĂłboras com a palavra âabĂłborasâ
nĂŁo Ă© um sentido propiciatĂłrio da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupaçÔes (âdes-sintonizarâ aberto o caminho
para antigas explicaçÔes âdiscursos de discursos de discursosâ etc.)
fixemos essa ideia de âplanosâ
podemos admiti-los como âuma espĂ©cie de casasâ
ou âuma espĂ©cie de camposâ
e entĂŁo evidente para serem habitados percorridos gastos
SerĂĄ que se pretende ainda identificar âlinguagemâ e âvidaâ?
uma vez se designou mĂŁo para que a mĂŁo fosse
uma vez o discurso sugeriu a mĂŁo para que a mĂŁo fosse
uma vez o discurso foi a mĂŁo
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrĂĄrio
era esse o âespĂritoâ o âdestinoâ da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexĂŁo quente
âelas estĂŁo andando por si prĂłprias!â exclama alguĂ©m
estĂŁo a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estĂŁo lançadas por aĂ fora a piscar o olho a ter inteligĂȘncia
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual Ă© possĂvel assistir
ver
como se vĂȘ o que comporta uma certa inflexĂŁo
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vĂŁo destruir-nos sob o tĂtulo
âos autĂłmatos invademâ mas invadem o quĂȘ?
da voz
a insinuação de um gesto uma temperatura
ĂŁ sua extraordinĂĄria desordem preside um pensamento
melhor diria âum esforçoâ nĂŁo coordenador (de modo algum)
mas de âmoldagemâ perguntavam âestĂŁo a criar moldes?â
nĂŁo senhores para isso teria de preexistir um âmodeloâ
u ma ideia organizada um cĂąnone
queremos sugerir coisas como âimagem de respiraçãoâ
âimagem de digestĂŁoâ
âimagem de dilataçãoâ
"imagem de movimentaçãoâ
"com as palavras?â perguntavam eles e devo dizer que era
uma pergunta perigosa um alarme colocando para sempre
algo como o confessado amor das palavras
no centro
nĂŁo tentamos criar abĂłboras com a palavra âabĂłborasâ
nĂŁo Ă© um sentido propiciatĂłrio da linguagem
introduzimos furtivamente planos que ocasionais
ocupaçÔes (âdes-sintonizarâ aberto o caminho
para antigas explicaçÔes âdiscursos de discursos de discursosâ etc.)
fixemos essa ideia de âplanosâ
podemos admiti-los como âuma espĂ©cie de casasâ
ou âuma espĂ©cie de camposâ
e entĂŁo evidente para serem habitados percorridos gastos
SerĂĄ que se pretende ainda identificar âlinguagemâ e âvidaâ?
uma vez se designou mĂŁo para que a mĂŁo fosse
uma vez o discurso sugeriu a mĂŁo para que a mĂŁo fosse
uma vez o discurso foi a mĂŁo
partia-se sempre de um entusiasmo arbitrĂĄrio
era esse o âespĂritoâ o âdestinoâ da linguagem
agora estamos a veras palavras como possibilidades
de respiração digestão dilatação movimentação
experimentamos a pequena possibilidade de uma inflexĂŁo quente
âelas estĂŁo andando por si prĂłprias!â exclama alguĂ©m
estĂŁo a falar a andar umas com as outras
a falar umas com as outras
estĂŁo lançadas por aĂ fora a piscar o olho a ter inteligĂȘncia
para todos os lados
sugerindo obliquamente que se reportam
a um novo universo ao qual Ă© possĂvel assistir
ver
como se vĂȘ o que comporta uma certa inflexĂŁo
de voz
é uma espécie de cinema das palavras
ou uma forma de vida assustadoramente juvenil
se calhar vĂŁo destruir-nos sob o tĂtulo
âos autĂłmatos invademâ mas invadem o quĂȘ?
Texto 10
Encontro-me na posição de estar freneticamente suspenso
das âcenasâ nos fundos da ânoiteâ
algum âteatroâ vem declarar-se pronto para as suas âleiturasâ
O âmovimentoâ procura o âcorpoâ
propriamente
permissivo limpo uma âbiografiaâ de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem âatĂ© ondeâ
âlugaresâ encontrados ânarrativasâ a ocupar uma âatenção Ășltimaâ
a flor que se organizou de um povoamento
de âesforçosâ florais âtentativasâ erros riquĂssimos
a cena traz ondas de treva o silĂȘncio que a âtradiçãoâ manda:
âgaste-seâ
1 raz alguns truques de âestancar e escoarâ
um pouco de pavor enquanto hĂĄ âvĂ©speraâ
mas nĂŁo Ă© sempre a noite? entanto jĂĄ se institui
u ma âcrĂłnica diuturnaâ um helicĂłptero âpor extensĂŁoâ
persegue a sua paisagem uma paixĂŁo do pormenor inventa
os seus âĂłculosâ porque hĂĄ âcoisas para saberâ
e para jĂĄ sabe-se que entre as coisas para saber espera
âa coisaâ para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora âa abertura irradianteâ da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
nĂŁo bem isto ou aquilo
mas uma âvertigemâ que encontrou a âalturaâ justa
se instalou nela fez âa perpetuidade da Ă©poca de perigoâ
agarra-se a esse âdestinoâ a âpersonagemâ saĂda
do âtrabalho das palavrasâ dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropĂłfaga festa
de âestar sobre siâ e de essa obscura dominação
âestar em cima delaâ
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tĂŁo âpraticĂĄvelâ
a âcenaâ em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa âtrocaâ de malevolĂȘncia Ăntima e energia Ăntima
uma âironiaâ como que intangĂvel com que se pintam
cenĂĄrios de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo âinteligĂȘnciasâ para âo equĂvocoâ pĂ©s descalços
que chegam para iludir a ilusĂŁo de iludir
e depois apenas âo corpoâ onde Ă© âo sĂtio de nascerâ
com as suas obras todas implĂcitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a Ășnica sua noite
e o pano corre âescreve-seâ depressa a si mesmo
âo textoâ
o corpo escreve-se âcomo seria e Ă©â que nĂŁo acaba e começa
grande e sempre na âalturaâ propĂcia e precipĂcio teatral âmaiorâ
e nem âa mĂŁoâ se moveu para que fosse âescrituradaâ
das âcenasâ nos fundos da ânoiteâ
algum âteatroâ vem declarar-se pronto para as suas âleiturasâ
O âmovimentoâ procura o âcorpoâ
propriamente
permissivo limpo uma âbiografiaâ de animal
feita
da sua fome e sede e da sua viagem âatĂ© ondeâ
âlugaresâ encontrados ânarrativasâ a ocupar uma âatenção Ășltimaâ
a flor que se organizou de um povoamento
de âesforçosâ florais âtentativasâ erros riquĂssimos
a cena traz ondas de treva o silĂȘncio que a âtradiçãoâ manda:
âgaste-seâ
1 raz alguns truques de âestancar e escoarâ
um pouco de pavor enquanto hĂĄ âvĂ©speraâ
mas nĂŁo Ă© sempre a noite? entanto jĂĄ se institui
u ma âcrĂłnica diuturnaâ um helicĂłptero âpor extensĂŁoâ
persegue a sua paisagem uma paixĂŁo do pormenor inventa
os seus âĂłculosâ porque hĂĄ âcoisas para saberâ
e para jĂĄ sabe-se que entre as coisas para saber espera
âa coisaâ para saber dessas coisas
o lado tenebroso do corpo que avança debaixo das luzes?
agora âa abertura irradianteâ da treva por onde
não bem surpresa não bem milagre não bem tremer de pés e mãos
nĂŁo bem isto ou aquilo
mas uma âvertigemâ que encontrou a âalturaâ justa
se instalou nela fez âa perpetuidade da Ă©poca de perigoâ
agarra-se a esse âdestinoâ a âpersonagemâ saĂda
do âtrabalho das palavrasâ dobra-se sobre esse medo
esse pasmo e alegria essa antropĂłfaga festa
de âestar sobre siâ e de essa obscura dominação
âestar em cima delaâ
polpa asfixiando o caroço e agora o caroço
cancro de frias nervuras fortes tĂŁo âpraticĂĄvelâ
a âcenaâ em que os doces buracos se abrem ao veneno
essa âtrocaâ de malevolĂȘncia Ăntima e energia Ăntima
uma âironiaâ como que intangĂvel com que se pintam
cenĂĄrios de montanhas em metal ramagens vermelhas
irrompendo de paredes negras
uma lua aparentemente desaproveitada
tudo âinteligĂȘnciasâ para âo equĂvocoâ pĂ©s descalços
que chegam para iludir a ilusĂŁo de iludir
e depois apenas âo corpoâ onde Ă© âo sĂtio de nascerâ
com as suas obras todas implĂcitas
a noite onde se habituou a noite que ele habituou
a ser a Ășnica sua noite
e o pano corre âescreve-seâ depressa a si mesmo
âo textoâ
o corpo escreve-se âcomo seria e Ă©â que nĂŁo acaba e começa
grande e sempre na âalturaâ propĂcia e precipĂcio teatral âmaiorâ
e nem âa mĂŁoâ se moveu para que fosse âescrituradaâ
Texto 11
âEstudaraâ muito pouco o comportamento das paisagens
âdo tempoâ pergunto âque sabia ele?â
bruscamente voltara-se para uma explosĂŁo de ĂĄlcool
algures na âbiografiaâ no âmapaâ dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fĂgado? Ă espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das âtranscriçÔesâ que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa âagonia transparente para si mesmaâ
um morto veloz na maneira de pĂŽr os dedos
sobre a âescrita impossĂvelâ
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que âtudoâ poderia ser âelectrocutadoâ
de âluz e trevasâ nĂŁo distinguia nada e desejava
da sua âdesatenção pacienteâ e do âvocabulĂĄrio em pĂąnicoâ
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espĂ©cie de âjardinagemâ o menos peremptĂłria possĂvel
mas exaltante
alguĂ©m Ă s vezes passando debruçava-se queria ârespostasâ
âo que era e quem e como e onde e porquĂȘâ
tudo curiosidades estranhas ao seu tĂŁo grave âtrabalhoâ
todos os dias mais lhe cresciam os âĂłrgĂŁosâ inĂșteis
devotara-se ao âmovimentoâ assustador da âlimalhaâ
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguĂ©m passando desejaria saber do âĂmanâ
âonde? qual?â e talvez âpara quĂȘ?â
sim senhores ele trabalhava bem nestes âinstrumentosâ pequenos
eram para sempre o seu âmodo de escreverâ a tempo
âo erro todoâ
da infĂąncia fora para a adolescĂȘncia e daĂ entrara
nos territĂłrios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar âanalfabetoâ se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por ânadaâ do âalfabetoâ
âele via alguma coisa?â perguntam âvia por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subĂșrbios de tudo?â
nunca encontrara a contas com qualquer âcasaâ
qualquer âoperĂĄrioâ tĂŁo desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no âsĂtioâ certo onde nĂŁo estava
apenas o âtalentoâ dele de estar lĂĄ
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um âmestreâ na âarte longaâ de perder âgramĂĄticaâ
e por isso Ă© que ia sabendo como era isso tudo
âdo tempoâ pergunto âque sabia ele?â
bruscamente voltara-se para uma explosĂŁo de ĂĄlcool
algures na âbiografiaâ no âmapaâ dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fĂgado? Ă espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das âtranscriçÔesâ que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa âagonia transparente para si mesmaâ
um morto veloz na maneira de pĂŽr os dedos
sobre a âescrita impossĂvelâ
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que âtudoâ poderia ser âelectrocutadoâ
de âluz e trevasâ nĂŁo distinguia nada e desejava
da sua âdesatenção pacienteâ e do âvocabulĂĄrio em pĂąnicoâ
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espĂ©cie de âjardinagemâ o menos peremptĂłria possĂvel
mas exaltante
alguĂ©m Ă s vezes passando debruçava-se queria ârespostasâ
âo que era e quem e como e onde e porquĂȘâ
tudo curiosidades estranhas ao seu tĂŁo grave âtrabalhoâ
todos os dias mais lhe cresciam os âĂłrgĂŁosâ inĂșteis
devotara-se ao âmovimentoâ assustador da âlimalhaâ
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguĂ©m passando desejaria saber do âĂmanâ
âonde? qual?â e talvez âpara quĂȘ?â
sim senhores ele trabalhava bem nestes âinstrumentosâ pequenos
eram para sempre o seu âmodo de escreverâ a tempo
âo erro todoâ
da infĂąncia fora para a adolescĂȘncia e daĂ entrara
nos territĂłrios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar âanalfabetoâ se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por ânadaâ do âalfabetoâ
âele via alguma coisa?â perguntam âvia por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subĂșrbios de tudo?â
nunca encontrara a contas com qualquer âcasaâ
qualquer âoperĂĄrioâ tĂŁo desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no âsĂtioâ certo onde nĂŁo estava
apenas o âtalentoâ dele de estar lĂĄ
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um âmestreâ na âarte longaâ de perder âgramĂĄticaâ
e por isso Ă© que ia sabendo como era isso tudo
Texto 12
Sei de um poeta que passou os anos mais prĂłximos do seu
âsuicĂdioâ
a bater com os nĂłs dos dedos pelas paredes a abrir e fechar
as mĂŁos para que o ar saltasse
como âmodeladasâ (âmoduladasâ) aparas de âsomâ
um poeta nos limites da âconsumaçãoâ Ă procura
de um âponto de apoioâ apenas levemente âperceptĂvelâ
para a terrĂfica massa de âsilĂȘncioâ que lhe cabia
a ele que procurara sob as ameaças da confusão
âestabelecer as vozesâ
uma vez pensara: âque o corpo permitisse o corpoâ
e fora para diante com essa ideia
era decerto uma decisĂŁo âexplosivaâ
ele estava sentado a fazer aquilo âpor dentroâ
e foi-se vendo pelo seu ârostoâ que nĂŁo era fĂĄcil tomar a cargo
a coruscante âcaligrafia do mundoâ
mas ele tomou-a atĂ© onde pĂŽde e o âcorpoâ era jĂĄ
o outro lado da âagoniaâ um âtexto monstruosoâ que se âdecifravaâ
apenas âa si prĂłprioâ
depois veio o toque no estuque e nas portas que finalmente
nĂŁo davam nenhuma saĂda ao excesso âcorporalâ
de tanto âtrabalhoâ tanta âpoĂ©tica transgressoraâ tanto
ânomeâ abusivamente âfĂsicoâ
veio o ar espadanando Ă passagem da ânataçãoâ
desesperada
avisos de um nĂł de som a ainda ingĂ©nua âvacilação de planosâ
quando a vozearia criara por fim a âdistĂąnciaâ
uma âfractura no espaçoâ a âvirgulaâ a fremir
na âausĂȘnciaâ isso o âsitioâ onde apoiar a âalavancaâ
porque essa âenergia do silĂȘncioâ jĂĄ atingira
algumas partes da âbiografiaâ dele do âsonoâ de tudo quanto
fizera seu ou lhe viera
enfaixado no âsangueâ e o que pretendia era sĂł
colocar a âmĂșsica extremaâ ao alcance dos âouvidosâ
referir a uma âpautaâ o silĂȘncio em toda a parte
estivera como tanta gente a âressuscitarâ
metade do tempo e metade dele a âmorrerâ muito e muito
achava entĂŁo que tudo deveria ser levado
atĂ© Ă âdecifraçãoâ
por fim havia isso de estuque e dedos para tentar saber
e o ar como deserto a ver se dele irrompia
âo princĂpio da fertilidadeâ
do rosto nĂŁo sei se era âa luzâ que o alagava
ou âa noite de tantas noitesâ
enquanto o âsuicĂdioâ se acercava nĂŁo como uma espĂ©cie
de âregra final de ouroâ
acercava-se apenas e os dedos a baterem sempre na madeira
e o ar fendendo-se enquanto fremiam ainda
as barbatanas a ver se havia alguma coisa a seu favor
no mundo que nĂŁo havia
1971
âsuicĂdioâ
a bater com os nĂłs dos dedos pelas paredes a abrir e fechar
as mĂŁos para que o ar saltasse
como âmodeladasâ (âmoduladasâ) aparas de âsomâ
um poeta nos limites da âconsumaçãoâ Ă procura
de um âponto de apoioâ apenas levemente âperceptĂvelâ
para a terrĂfica massa de âsilĂȘncioâ que lhe cabia
a ele que procurara sob as ameaças da confusão
âestabelecer as vozesâ
uma vez pensara: âque o corpo permitisse o corpoâ
e fora para diante com essa ideia
era decerto uma decisĂŁo âexplosivaâ
ele estava sentado a fazer aquilo âpor dentroâ
e foi-se vendo pelo seu ârostoâ que nĂŁo era fĂĄcil tomar a cargo
a coruscante âcaligrafia do mundoâ
mas ele tomou-a atĂ© onde pĂŽde e o âcorpoâ era jĂĄ
o outro lado da âagoniaâ um âtexto monstruosoâ que se âdecifravaâ
apenas âa si prĂłprioâ
depois veio o toque no estuque e nas portas que finalmente
nĂŁo davam nenhuma saĂda ao excesso âcorporalâ
de tanto âtrabalhoâ tanta âpoĂ©tica transgressoraâ tanto
ânomeâ abusivamente âfĂsicoâ
veio o ar espadanando Ă passagem da ânataçãoâ
desesperada
avisos de um nĂł de som a ainda ingĂ©nua âvacilação de planosâ
quando a vozearia criara por fim a âdistĂąnciaâ
uma âfractura no espaçoâ a âvirgulaâ a fremir
na âausĂȘnciaâ isso o âsitioâ onde apoiar a âalavancaâ
porque essa âenergia do silĂȘncioâ jĂĄ atingira
algumas partes da âbiografiaâ dele do âsonoâ de tudo quanto
fizera seu ou lhe viera
enfaixado no âsangueâ e o que pretendia era sĂł
colocar a âmĂșsica extremaâ ao alcance dos âouvidosâ
referir a uma âpautaâ o silĂȘncio em toda a parte
estivera como tanta gente a âressuscitarâ
metade do tempo e metade dele a âmorrerâ muito e muito
achava entĂŁo que tudo deveria ser levado
atĂ© Ă âdecifraçãoâ
por fim havia isso de estuque e dedos para tentar saber
e o ar como deserto a ver se dele irrompia
âo princĂpio da fertilidadeâ
do rosto nĂŁo sei se era âa luzâ que o alagava
ou âa noite de tantas noitesâ
enquanto o âsuicĂdioâ se acercava nĂŁo como uma espĂ©cie
de âregra final de ouroâ
acercava-se apenas e os dedos a baterem sempre na madeira
e o ar fendendo-se enquanto fremiam ainda
as barbatanas a ver se havia alguma coisa a seu favor
no mundo que nĂŁo havia
1971
Texto 2
NĂŁo se vai entregar aos vĂĄrios âmotoresâ a fabricação do estio
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um âestilo de silĂȘncioâ ou inclinaçÔes graves
expectando âinstantes iluminatĂłriosâ Ă© certo que o cenĂĄrio
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque âa mĂŁoâ vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que âacção de surpresa e sacralidadeâ (se hĂĄ)
o que houver âe vĂȘ-se pela pressaâ Ă© uma
espĂ©cie de vivacidade ou uma turbulĂȘncia Ăntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de âchamarâ de dentro do pavor e âunirâ por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
âprocuram um centro?â sim âuma razĂŁo de razĂ”esâ
uma zona suficiente leve fixa uma como que
âinterminabilidadeâ
serve o cabelo serve uma pedra redonda â a submissĂŁo
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saĂdas
altas entradas altas saĂdas baixas entradas baixas âmovimentosâ
aĂ mesmo Ă© que se desmata o sĂtio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mĂŁo para âescreverâ um propĂłsito inerente a natureza compacta
de um âpeso movimentadoâ atĂ© se encontrar como
âpeso prĂłprioâ
esta doçura que Ă© o escĂąndalo dos âmortos usando
cabeças de ouro o terror da riquezaâ
mĂŁo apenas em dedicatĂłria a lavouras desconhecidas
da âfestaâ
ela mesma a sua festa inferida de aĂ estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a ârotaçãoâ
irresistĂvel enquanto desce enquanto os lĂĄbios
fervem da sua âlepraâ e trevas e luzes se combinam
numa tensĂŁo interna
âescrita e escrituraâ desenvolvidas pelo silĂȘncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta åvida uma dona do espaço
visĂvel proprietĂĄria da luz e sua extensĂŁo
âsinalâ daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um âtranseâ
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um ânascimentoâ o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentĂssima em fundo de atmosfera
o sussurro da noite apresentada pormenores
para um âestilo de silĂȘncioâ ou inclinaçÔes graves
expectando âinstantes iluminatĂłriosâ Ă© certo que o cenĂĄrio
ganharia uma qualidade empolgante
mas desiste-se porque âa mĂŁoâ vem depressa
indagam: que mão? que direcção? que posição?
indagam que âacção de surpresa e sacralidadeâ (se hĂĄ)
o que houver âe vĂȘ-se pela pressaâ Ă© uma
espĂ©cie de vivacidade ou uma turbulĂȘncia Ăntima
e ao mesmo tempo cautela poder serena destreza
de âchamarâ de dentro do pavor e âunirâ por cima
do pavor
agora estamos a fazer força para afastar o excesso
de planos multiplicidades antropofagias para os lados todos
que andam
âprocuram um centro?â sim âuma razĂŁo de razĂ”esâ
uma zona suficiente leve fixa uma como que
âinterminabilidadeâ
serve o cabelo serve uma pedra redonda â a submissĂŁo
de um animal colocado sobre o seu próprio sangue ingénuo
temas de dias consumidos ou consumados teatros para saĂdas
altas entradas altas saĂdas baixas entradas baixas âmovimentosâ
aĂ mesmo Ă© que se desmata o sĂtio excepcional
o acaso da ocasião fértil por si
mĂŁo para âescreverâ um propĂłsito inerente a natureza compacta
de um âpeso movimentadoâ atĂ© se encontrar como
âpeso prĂłprioâ
esta doçura que Ă© o escĂąndalo dos âmortos usando
cabeças de ouro o terror da riquezaâ
mĂŁo apenas em dedicatĂłria a lavouras desconhecidas
da âfestaâ
ela mesma a sua festa inferida de aĂ estar
sobre o rosto que se imprime de dentro a ârotaçãoâ
irresistĂvel enquanto desce enquanto os lĂĄbios
fervem da sua âlepraâ e trevas e luzes se combinam
numa tensĂŁo interna
âescrita e escrituraâ desenvolvidas pelo silĂȘncio
que as não ameaça mas de si as libera como uma
borboleta åvida uma dona do espaço
visĂvel proprietĂĄria da luz e sua extensĂŁo
âsinalâ daquilo que se abriu por sua energia mesma
e nenhum arrepio de horror sequer um âtranseâ
fere o flanco oferecido ao mundo
apenas um ânascimentoâ o ritmo trabalhado noutro e trabalhando
outro ritmo como a malha das artérias
um mapa uma flor quentĂssima em fundo de atmosfera
Texto 3
Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pÎr o pé
no sĂtio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao arâ Ă© a dança
pois vejam o que estĂĄ a fazer o bailarino que desata por aĂ fora
(por âaĂ dentroâ seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidĂȘncia
somos obrigados a âver issoâ
que faz o pĂ© forte no sĂtio forte o pĂ© leve no sĂtio leve
o sĂtio rĂtmico no pĂ© rĂtmico?
e digo assim porque se trata do princĂpio âde cima para baixo
de baixo para cimaâ
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lĂĄ encher o tempo com rapidez de espaçoâ
pensam os pés dele quando o ar estå pronto
o âproblemaâ do bailarino Ă© coisa que nĂŁo interessa por aĂ alĂ©m
mas sĂŁo chegados os tempos da agonia
estamos âexaltadosâ com este pensamento de morte
Ă© preciso pensar no âritmoâ Ă© uma das nossas congeminaçÔes exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxĂlio excepto
nĂŁo haver ainda nomes para âissoâ e haver os ingredientes
do espectĂĄculo i. e. a qualidade âforteâ do sĂtio
esperem pela abertura de negociaçÔes entre ânĂŁoâ e âsimâ
hĂŁo-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fåcil os recursos de designação as acomodaçÔes vårias
jĂĄ se nĂŁo encontram Ă s ordens de vossĂȘncias
comecem a aperceber-se da âenergiaâ como âinstrumentoâ
de criar âsituaçÔes cheias de novidadeâ
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda âo coração caiu-lhe aos pĂ©sâ o banal
a contas com o inesperado talvez entĂŁo se tenha a ideia de murmurar
os pĂ©s subiram-lhe ao coraçãoâ
pois vĂŁo dizendo que exagero logo se verĂĄ
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caĂdo um leĂŁoâ nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas nĂŁo faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as ĂĄguas Ă© ainda o caso do bailarino
âo estiloâ
claro que âistoâ apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
no sĂtio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao arâ Ă© a dança
pois vejam o que estĂĄ a fazer o bailarino que desata por aĂ fora
(por âaĂ dentroâ seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidĂȘncia
somos obrigados a âver issoâ
que faz o pĂ© forte no sĂtio forte o pĂ© leve no sĂtio leve
o sĂtio rĂtmico no pĂ© rĂtmico?
e digo assim porque se trata do princĂpio âde cima para baixo
de baixo para cimaâ
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lĂĄ encher o tempo com rapidez de espaçoâ
pensam os pés dele quando o ar estå pronto
o âproblemaâ do bailarino Ă© coisa que nĂŁo interessa por aĂ alĂ©m
mas sĂŁo chegados os tempos da agonia
estamos âexaltadosâ com este pensamento de morte
Ă© preciso pensar no âritmoâ Ă© uma das nossas congeminaçÔes exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxĂlio excepto
nĂŁo haver ainda nomes para âissoâ e haver os ingredientes
do espectĂĄculo i. e. a qualidade âforteâ do sĂtio
esperem pela abertura de negociaçÔes entre ânĂŁoâ e âsimâ
hĂŁo-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fåcil os recursos de designação as acomodaçÔes vårias
jĂĄ se nĂŁo encontram Ă s ordens de vossĂȘncias
comecem a aperceber-se da âenergiaâ como âinstrumentoâ
de criar âsituaçÔes cheias de novidadeâ
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda âo coração caiu-lhe aos pĂ©sâ o banal
a contas com o inesperado talvez entĂŁo se tenha a ideia de murmurar
os pĂ©s subiram-lhe ao coraçãoâ
pois vĂŁo dizendo que exagero logo se verĂĄ
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caĂdo um leĂŁoâ nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas nĂŁo faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as ĂĄguas Ă© ainda o caso do bailarino
âo estiloâ
claro que âistoâ apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
Texto 4
Eu podia abrir um mapa: âo corpoâ com relevos crepitantes
e depressÔes e veias hidrogråficas e tudo o mais
morosas linhas e gravaçÔes um pouco obscuras
quando âlerâ se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insĂłnia vulcĂąnica sala contendo toda a febre tĂĄctil
furibunda maneira
esse era entĂŁo uma espĂ©cie de âlugar internoâ
ĂĄspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim Ă leitura que se esqueceu do seu âmedo
O corpo com todas as âincursĂ”esâ caligrĂĄficas
âreferĂȘnciasâ florais âdesviosâ ortogrĂĄficos da famĂlia dos carnĂvoros
âantropofagiasâ gramaticais e âpĂšgadasâ
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
âum mapaâ onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da âtraça
primeiraâ e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
âum papelâ apenas a branca tensĂŁo do nĂ©on
no tecto o jorro de cima âdeclarandoâ qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolĂȘncia ou explosiva
âvigilĂąnciaâ combustĂŁo das massas ao comprido
do âdesenhoâ irregular
e sĂł entĂŁo assim desterrado do ruĂdo nos subĂșrbios
ele apenas agora âcomposiçãoâ forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo âfotografiaâ
de um âestudoâ para sempre
como lhe bastava ser possĂvel tĂŁo-sĂł uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitaçÔes no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das âmanchasâ que se uniam
essa energia sem espaço sĂșbita âgeometriaâ a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir atĂ© ao fim âcom os olhosâ
como uma paisagem de espinhos faiscantes
âo contornoâ que queima de uma lĂąmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartĂłgrafo
e depressÔes e veias hidrogråficas e tudo o mais
morosas linhas e gravaçÔes um pouco obscuras
quando âlerâ se fendia nalguma parte um buraco
que chegava repentinamente de dentro
a clareira arremessada pelo sono acima
insĂłnia vulcĂąnica sala contendo toda a febre tĂĄctil
furibunda maneira
esse era entĂŁo uma espĂ©cie de âlugar internoâ
ĂĄspera geologia alcalina e varrida e crua
exposta assim Ă leitura que se esqueceu do seu âmedo
O corpo com todas as âincursĂ”esâ caligrĂĄficas
âreferĂȘnciasâ florais âdesviosâ ortogrĂĄficos da famĂlia dos carnĂvoros
âantropofagiasâ gramaticais e âpĂšgadasâ
ainda ferventes
ou minas com o frio bater e o barulho escorrendo
âum mapaâ onde se lia completamente o sangue e suas franjas
de ouro o irado desregramento da âtraça
primeiraâ e o apuramento do mel com a labareda
inclusa o corpo na prancheta
para a lisura sentada onde se risca a posição mortal
âum papelâ apenas a branca tensĂŁo do nĂ©on
no tecto o jorro de cima âdeclarandoâ qualquer rispidez
a suavidade toda uma bastarda
graça
de infiltração na sonolĂȘncia ou explosiva
âvigilĂąnciaâ combustĂŁo das massas ao comprido
do âdesenhoâ irregular
e sĂł entĂŁo assim desterrado do ruĂdo nos subĂșrbios
ele apenas agora âcomposiçãoâ forte e atada de elementos
escarpas rapidamente
decorrendo
corpo que se faltava em tempo âfotografiaâ
de um âestudoâ para sempre
como lhe bastava ser possĂvel tĂŁo-sĂł uma certa
temperatura
grutas aberturas minerais palpitaçÔes no subsolo
tremores
anfractuosidades esponjas onde pulsavam canais dolorosos
e a arfante matéria irrompendo nos écrans
com o susto leve das âmanchasâ que se uniam
essa energia sem espaço sĂșbita âgeometriaâ a costurar de fora
mordeduras velozes delicadezas
nervuras vivas
para seguir atĂ© ao fim âcom os olhosâ
como uma paisagem de espinhos faiscantes
âo contornoâ que queima de uma lĂąmpada acesa
toda a noite no gabinete do cartĂłgrafo
Texto 5
âUma devassidĂŁo aracnĂdeaâ se se quiser
pĂ”e aqui uma descontente atenção e Ă© quanto basta âaquiâ
o Ășnico problema Ă© encontrar essa se possĂvel dizer
como que âclareira obscuraâ aqui onde existem âĂĄscuas de ouroâ
o silĂȘncio ex.: ânĂŁo se precisa sair do silĂȘncioâ
por favor eu quero dizer que âĂ© preciso entrar neleâ
no silĂȘncio das clareiras obscuras das ĂĄscuas de ouro
ficar como um cavalo no campo
e nĂŁo decerto por acaso falo de um cavalo no campo
uma coisa completamente viva e completamente distante
âque estĂĄâ
notåvel que se estabeleça um cerco de cabeças com apenas
âum toque de lumeâ veja-se uma expressĂŁo
tudo a fazer força de dentro no escuro um sĂł âlampejoâ
tudo para fora uma vĂscera brilhando âpara verâ
uma tensĂŁo
âcomo se comessem bananasâ
os intestinos a arderem pelo poder dos alimentos
coisa sibilina essa afinal sempre a mesma
o toque ĂĄspero na raiz dos cabelos âeles eriçam-seâ
o medo de saber alguma coisa quando se vĂȘ o campo
o cavalo tudo vivo e longĂnquo
âtrouxeram fotografias onde estava o silĂȘncio
ainda todo molhado e atravessaram-no
parando aqui escrutandoâ
o gosto era jå algo tão puro como uma vocação
hĂĄ âaĂâ uma bruta elegĂąncia uma coisa fugitivamente louca
âuma devassidĂŁoâ que Ă© como uma referĂȘncia Ă s âpalavrasâ
mas tinham medo de dormir o sono traz
uma gentileza perigosa e tambĂ©m porque âno sono se revela o rosto"
bem sei forçoso é colocar os dedos lå no fundo
âqueimaâ dizem e âpois Ă© verdade que queimaâ
ora nĂŁo havia de queimar âque pensam eles?â
Ă© o silĂȘncio
ainda tĂȘm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a âuma paisagem interrompida pelo frioâ
em termos despropositados âuma pontuação coerenteâ
precisava-se de âum pintor de cavalosâ
um homem que abandonasse a famĂlia apenas
para ser um obscurĂssimo âpintor de cavalosâ
uma criatura viva de dedos vivos longĂnqua de coração longĂnquo
nada menos que um selvagem que viu âmonstros douradosâ
e a si mesmo dissesse âentrega-te ao que melhor te pode esquecerâ
ou âdez dedos ainda assim Ă© extenso para quem tem uma vidaâ
animais blocos de ouro uma energia inexplicĂĄvel
toda a luz sugeria nele uma pulsação nocturna
uma leveza indomĂĄvel uma leveza
ele entrava na posse de uma âvisĂŁoâ uma herança de ritmos
entĂŁo poderia destruir tudo numa âdevassidĂŁo aracnĂdeaâ
o perto e o longe âo cavalo no campoâ ele âo bĂĄrbaroâ
apenas um pintor de cavalos âo impossĂvelâ
pĂ”e aqui uma descontente atenção e Ă© quanto basta âaquiâ
o Ășnico problema Ă© encontrar essa se possĂvel dizer
como que âclareira obscuraâ aqui onde existem âĂĄscuas de ouroâ
o silĂȘncio ex.: ânĂŁo se precisa sair do silĂȘncioâ
por favor eu quero dizer que âĂ© preciso entrar neleâ
no silĂȘncio das clareiras obscuras das ĂĄscuas de ouro
ficar como um cavalo no campo
e nĂŁo decerto por acaso falo de um cavalo no campo
uma coisa completamente viva e completamente distante
âque estĂĄâ
notåvel que se estabeleça um cerco de cabeças com apenas
âum toque de lumeâ veja-se uma expressĂŁo
tudo a fazer força de dentro no escuro um sĂł âlampejoâ
tudo para fora uma vĂscera brilhando âpara verâ
uma tensĂŁo
âcomo se comessem bananasâ
os intestinos a arderem pelo poder dos alimentos
coisa sibilina essa afinal sempre a mesma
o toque ĂĄspero na raiz dos cabelos âeles eriçam-seâ
o medo de saber alguma coisa quando se vĂȘ o campo
o cavalo tudo vivo e longĂnquo
âtrouxeram fotografias onde estava o silĂȘncio
ainda todo molhado e atravessaram-no
parando aqui escrutandoâ
o gosto era jå algo tão puro como uma vocação
hĂĄ âaĂâ uma bruta elegĂąncia uma coisa fugitivamente louca
âuma devassidĂŁoâ que Ă© como uma referĂȘncia Ă s âpalavrasâ
mas tinham medo de dormir o sono traz
uma gentileza perigosa e tambĂ©m porque âno sono se revela o rosto"
bem sei forçoso é colocar os dedos lå no fundo
âqueimaâ dizem e âpois Ă© verdade que queimaâ
ora nĂŁo havia de queimar âque pensam eles?â
Ă© o silĂȘncio
ainda tĂȘm uma certa leviandade porque examinam tudo
como se se destinasse a âuma paisagem interrompida pelo frioâ
em termos despropositados âuma pontuação coerenteâ
precisava-se de âum pintor de cavalosâ
um homem que abandonasse a famĂlia apenas
para ser um obscurĂssimo âpintor de cavalosâ
uma criatura viva de dedos vivos longĂnqua de coração longĂnquo
nada menos que um selvagem que viu âmonstros douradosâ
e a si mesmo dissesse âentrega-te ao que melhor te pode esquecerâ
ou âdez dedos ainda assim Ă© extenso para quem tem uma vidaâ
animais blocos de ouro uma energia inexplicĂĄvel
toda a luz sugeria nele uma pulsação nocturna
uma leveza indomĂĄvel uma leveza
ele entrava na posse de uma âvisĂŁoâ uma herança de ritmos
entĂŁo poderia destruir tudo numa âdevassidĂŁo aracnĂdeaâ
o perto e o longe âo cavalo no campoâ ele âo bĂĄrbaroâ
apenas um pintor de cavalos âo impossĂvelâ
Texto 6
Não se esqueçam de uma energia bruta e de uma certa
maneira delicada de colocĂĄ-la no âespaçoâ
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas âfulminantesâ
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referĂȘnciaâ ou como âpretexto espaço-tempoâ
para aplicação da âdançaâ
experimentem uma ou duas vezes ou trĂȘs reter determinada
âimagemâ e metam-na âpara dentroâ assim imĂłvel
e fiquem parados âaĂâ com a imagem parada talvez brilhando
(âą qualquer coisa como uma sagrada suspensĂŁo
e abrindo os olhos entĂŁo o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela âpareceâ que o movimento parte de novo
Ă© uma âlinguagemâ e energia e delicadeza atravessam o ar
espectĂĄculo do âverbo primeiro e Ășltimoâ apanhem a figura âabsolutaâ
do pĂ© esquerdo o patim refulge a mĂŁo direita âprolonga-seâ
vamos achar bem que o stique seja a ârespiraçãoâ
extrema e extensa
a bola pĂ”e-se a âcaligrafarâ todo um sistema de planos
intensos leves
"metĂĄforaâ decerto minuto a minuto destruĂda pela pergunta
"que jogo Ă© este para o entendimento dos olhos?â
a resposta âalegriaâ tudo esgota
mas sĂł um sentimento de urgĂȘncia corporal dĂĄ ao jogo
uma ânecessĂĄria dimensĂŁoâ
âo jogo respira?â perguntam e diz-se âque respiraâ
âentĂŁo deixem-no lĂĄ viverâ como se se tratasse de
âuma criaturaâ
podemos confundir âistoâ com âacertarâ?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto Ă© o prĂłprio
âjogoâ
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em âiminĂȘnciaâ
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre Ă beira de âserâ e parando e continuando
e ainda âapagando e recomeçandoâ como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
âreferido a quĂȘ senĂŁo ao absurdo de um espelho?â
âa enviar-seâ cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela âausĂȘncia vivaâ
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo âbĂĄsicoâ de âestar a serâ
maneira delicada de colocĂĄ-la no âespaçoâ
ponham-na a andar a correr a saber
sobre linhas curvas e linhas rectas âfulminantesâ
ponham-na sobre patins com o stique e a bola como
"ponto de referĂȘnciaâ ou como âpretexto espaço-tempoâ
para aplicação da âdançaâ
experimentem uma ou duas vezes ou trĂȘs reter determinada
âimagemâ e metam-na âpara dentroâ assim imĂłvel
e fiquem parados âaĂâ com a imagem parada talvez brilhando
(âą qualquer coisa como uma sagrada suspensĂŁo
e abrindo os olhos entĂŁo o jogo retoma a imagem
que entretanto ficou incrustada no escuro a brilhar sempre
e dela âpareceâ que o movimento parte de novo
Ă© uma âlinguagemâ e energia e delicadeza atravessam o ar
espectĂĄculo do âverbo primeiro e Ășltimoâ apanhem a figura âabsolutaâ
do pĂ© esquerdo o patim refulge a mĂŁo direita âprolonga-seâ
vamos achar bem que o stique seja a ârespiraçãoâ
extrema e extensa
a bola pĂ”e-se a âcaligrafarâ todo um sistema de planos
intensos leves
"metĂĄforaâ decerto minuto a minuto destruĂda pela pergunta
"que jogo Ă© este para o entendimento dos olhos?â
a resposta âalegriaâ tudo esgota
mas sĂł um sentimento de urgĂȘncia corporal dĂĄ ao jogo
uma ânecessĂĄria dimensĂŁoâ
âo jogo respira?â perguntam e diz-se âque respiraâ
âentĂŁo deixem-no lĂĄ viverâ como se se tratasse de
âuma criaturaâ
podemos confundir âistoâ com âacertarâ?
o jogo apenas acerta consigo mesmo e este acerto Ă© o prĂłprio
âjogoâ
nele ressaltam só qualidades de acção força delicadeza
envolvimento em si mesmo
e o prazer de maquinar o universo numa restrita
organização de linhas vividas em âiminĂȘnciaâ
de imagem em imagem se transfere o corpo
sempre Ă beira de âserâ e parando e continuando
e ainda âapagando e recomeçandoâ como se continuamente
bebesse de si e tivesse o ar pequeno para demonstrar
a grandeza de si a si mesmo
âreferido a quĂȘ senĂŁo ao absurdo de um espelho?â
âa enviar-seâ cerradamente entre os seus limites
zona frequentada pela âausĂȘncia vivaâ
destreza porque sim forma porque sim aplicação porque sim
de tudo em tudo
de nada em nada pelo gozo âbĂĄsicoâ de âestar a serâ
Texto 7
Tenho uma pequena coisa africana para dizer aos senhores
âum velho negro num mercado indĂgena
a entrançar tabacoâ o odor hĂșmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza ârĂtmicaâ dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase âintĂĄctilâ sobre algo
âalgo tabacoâ
o que começa a tornar-se como uma âloucura comovidaâ
por cima dessa massa viva de tabaco
âcomo ele aflora Deus digitalmente debruçado!â
de repente âvĂȘ-seâ a inocente diligĂȘncia
o âsimâ sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crĂąnio
por tudo ser de novo tĂŁo concentrado e leve
a dor em nĂłs de uma tĂŁo forte âignorĂąncia activaâ
âa fazer-seâ uma prova
de elegĂąncia na ârazĂŁoâ do tempo
nenhuma dĂșvida apenas a lisura branda de um âestiloâ
transcorrendo
apetece nĂŁo ter mais do que a interminĂĄvel âescritaâ
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacĂĄvel
âpormenorização oracularâ
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tĂŁo pertinaz a graça e terrĂfica
a digitalidade do âsilĂȘncioâ
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e entĂŁo o puro toque no tabaco cria
uma âfria ocorrĂȘncia de pavorâ pois tudo Ă© âambĂguoâ
nesta ârima obsessivaâ a pertinĂĄcia ganha âformasâ insuportĂĄveis
dedos na nuca ligamentos invisĂveis de tendĂ”es
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imĂłveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da âluzâ
e percebe-se entĂŁo o âsangueâ a ir e vir
sempre âentrançandoâ o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila âgerminaçãoâ
e a terra como um monstro âmaternalâ que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim âĂ© isto o estilo?â atĂ© que a cabeça
Ă© como âa vistaâ e a ideia desta coisa se transforma
ânesta coisaâ
e quando enfim alguĂ©m ârealmenteâ adormece
nada påra e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos ânegrosâ em todos os âsentidosâ
e nunca mais serĂĄ possĂvel esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no âtabaco terrenoâ
a pulsar
âlinguagemâ extenuante pela sua prĂłpria âverdadeâ
âum velho negro num mercado indĂgena
a entrançar tabacoâ o odor hĂșmido e palpitante sobe dos dedos
a subtileza ârĂtmicaâ dos dedos chega a ser uma dor
fere na cabeça o pensamento da sua devotação
extrema quase âintĂĄctilâ sobre algo
âalgo tabacoâ
o que começa a tornar-se como uma âloucura comovidaâ
por cima dessa massa viva de tabaco
âcomo ele aflora Deus digitalmente debruçado!â
de repente âvĂȘ-seâ a inocente diligĂȘncia
o âsimâ sem nada mais
o medo como se fosse mel a escorrer do crĂąnio
por tudo ser de novo tĂŁo concentrado e leve
a dor em nĂłs de uma tĂŁo forte âignorĂąncia activaâ
âa fazer-seâ uma prova
de elegĂąncia na ârazĂŁoâ do tempo
nenhuma dĂșvida apenas a lisura branda de um âestiloâ
transcorrendo
apetece nĂŁo ter mais do que a interminĂĄvel âescritaâ
prestes a sufocar e dedo a dedo salva
nas suas pautas gravada a direito como uma implacĂĄvel
âpormenorização oracularâ
como se pode tornar tão veemente uma doçura humana
tĂŁo pertinaz a graça e terrĂfica
a digitalidade do âsilĂȘncioâ
e a candura quase a corromper-se à força de candura
e entĂŁo o puro toque no tabaco cria
uma âfria ocorrĂȘncia de pavorâ pois tudo Ă© âambĂguoâ
nesta ârima obsessivaâ a pertinĂĄcia ganha âformasâ insuportĂĄveis
dedos na nuca ligamentos invisĂveis de tendĂ”es
centros nervosos irradiando impulsos cruéis
imĂłveis animalidades fremindo ocultamente debaixo da âluzâ
e percebe-se entĂŁo o âsangueâ a ir e vir
sempre âentrançandoâ o movimento dos dias e das noites
sobre a tranquila âgerminaçãoâ
e a terra como um monstro âmaternalâ que parece dormir
planetas a gravitar em redor dos dedos
uma dolorosa absorção do tabaco pelo ritmo
e assim âĂ© isto o estilo?â atĂ© que a cabeça
Ă© como âa vistaâ e a ideia desta coisa se transforma
ânesta coisaâ
e quando enfim alguĂ©m ârealmenteâ adormece
nada påra e o tabaco continua a ser entrançado
por dedos ânegrosâ em todos os âsentidosâ
e nunca mais serĂĄ possĂvel esquecer
tudo se repercute um toque passa um toque
a matéria passa de matéria em matéria
o ritmo ligeiro como uma alucinação
falanges falanginhas e falangetas no âtabaco terrenoâ
a pulsar
âlinguagemâ extenuante pela sua prĂłpria âverdadeâ
Texto 8
Nenhuma atenção se esqueceu de me cravar os dedos
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande âvocabulĂĄrioâ
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvĂĄtica e eriçada âlinguagemâ
uma crua âexposição de designaçÔesâ
brutais sem vĂcios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar Ă âleitura explĂcitaâ de mim mesmo âtextoâ
sem marĂ©s âcolocadoâ definitivamente
sempre em mim se avizinhou o âexcesso vocalâ
da âvocação silenciosaâ
sempre a âmovimentação errĂĄticaâ se aproximou
de um âsono extensoâ e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a âdança imĂłvelâ
o acesso Ă âparagem frementeâ foi-me dado
como ciĂȘncia infusa
o palco apenas sem cenĂĄrios a personagem sem gestos
a fala ânĂŁo aposta nem supostaâ
isto sĂł bastaria como âactoâ
de cima e de baixo uma luz âindiscutĂvelâ
bloco visĂŁo fulminante do âsentidoâ de tudo
a impossibilidade de ârotaçÔes e translaçÔesâ
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si prĂłprio
tangĂvel apertado completo
contudo estĂŁo sempre a virar-me para a âpaisagemâ
dizem âvĂȘ as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempoâ
levam-me assim Ă audĂĄcia dos âespectĂĄculosâ
desviam de mim âo centroâ essa paixĂŁo da unidade
âo compacto discursoâ das trevas ou da luz
âgradaçÔesâ sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para alĂ©m disso unido Ă s vĂsceras
pelo seu prĂłprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do âdicionĂĄrioâ que eu podia
trava-se um pouco âa marchaâ
mas vou para um âsilĂȘncio que tremeâ
âo violino sobre a mesaâ a poeira que vem
âproduzir a eternidadeâ
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violĂȘncia luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na âmĂșsicaâ
subindo por dentro a âtemperaturaâ atĂ© os termĂłmetros
caĂrem por eles abaixo
e a âexplosĂŁoâ preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a âlinha vivaâ
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo âirredutĂvelâ
na massa malévola e fervente e levemente doce
de um grande âvocabulĂĄrioâ
até que apenas quis ter as mãos expostas ao ar
e à minha frente o deserto pétreo das cacofonias
uma pobre selvĂĄtica e eriçada âlinguagemâ
uma crua âexposição de designaçÔesâ
brutais sem vĂcios de beleza ou graça
ou ambiguidade
chegar Ă âleitura explĂcitaâ de mim mesmo âtextoâ
sem marĂ©s âcolocadoâ definitivamente
sempre em mim se avizinhou o âexcesso vocalâ
da âvocação silenciosaâ
sempre a âmovimentação errĂĄticaâ se aproximou
de um âsono extensoâ e logo entendi
mal se fez para os meus olhos a âdança imĂłvelâ
o acesso Ă âparagem frementeâ foi-me dado
como ciĂȘncia infusa
o palco apenas sem cenĂĄrios a personagem sem gestos
a fala ânĂŁo aposta nem supostaâ
isto sĂł bastaria como âactoâ
de cima e de baixo uma luz âindiscutĂvelâ
bloco visĂŁo fulminante do âsentidoâ de tudo
a impossibilidade de ârotaçÔes e translaçÔesâ
precipitação mortal e ainda voluta faiscante
para o corpo chegar-se o arco de si prĂłprio
tangĂvel apertado completo
contudo estĂŁo sempre a virar-me para a âpaisagemâ
dizem âvĂȘ as colinas a andarem em todos os espaços
ao mesmo tempoâ
levam-me assim Ă audĂĄcia dos âespectĂĄculosâ
desviam de mim âo centroâ essa paixĂŁo da unidade
âo compacto discursoâ das trevas ou da luz
âgradaçÔesâ sibilam eles contentes da subtileza
mas eu estou para alĂ©m disso unido Ă s vĂsceras
pelo seu prĂłprio fogo
não me enxameiem a cabeça com as aspas coruscantes
uma nostalgia dourada do âdicionĂĄrioâ que eu podia
trava-se um pouco âa marchaâ
mas vou para um âsilĂȘncio que tremeâ
âo violino sobre a mesaâ a poeira que vem
âproduzir a eternidadeâ
depois a alegria total de uma tentação dos dedos
parados
franquear a violĂȘncia luminosa
suspensa
qualquer maneira de intervir na âmĂșsicaâ
subindo por dentro a âtemperaturaâ atĂ© os termĂłmetros
caĂrem por eles abaixo
e a âexplosĂŁoâ preparada sorver-se implosivamente
e para sempre se restabelecer a âlinha vivaâ
que une ao ar a labareda
um discurso sem palavras atravessado pela febre
fria
de um saber extremo âirredutĂvelâ
Texto 9
Porque tambĂ©m âissoâ acontece dizer-se que se lavra
a cantaria ou o ar ou mesmo
âespaços de luminosidadeâ a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitåria do mundo é um modo demorado
de ver âuma porta que se abreâ afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela ârevelaçãoâ fulgura aqui a sabedoria do âtactoâ
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se hĂĄ-de encontrar âum nĂłâ
o fulcro dessa palpitação a correria dos âsinaisâ
para uma âpautaâ atravĂ©s de âtemperaturasâ
surgem ideias como âatmosferasâ ou âclimasâ
regista-se entretanto que Ă© uma âtransformação do ritmoâ
ârostoâ
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das ĂĄguas
que requer âa sua zonaâ alĂ©m das neblinas e vapores
uma âescritaâ com a glĂłria prĂłpria cometida contra
ameaças climåticas distorçÔes de leitura ligas suspeitas
de matĂ©ria âlevezas e pesosâ precipitados irreferenciĂĄveis volĂșveis
quem Ă©? que Ă©? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido nĂŁo jĂĄ para o seu prĂłprio âreflexo
irradianteâ mas a âabsorçãoâ do poder difundido
para um novo impulso centrĂfugo
âdiĂĄlogo daqui para lĂĄâ cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada Ă© a outra pancada e uma pancada Ășnica
sustĂ©m a tensĂŁo do som uma âpermanĂȘnciaâ
dos sentidos voltados âentre siâ para o que sĂŁo
em si mesmos âsentidos de algo irrefutĂĄvelâ
a forma enfim criada pelo âgosto de serâ e para
o âgosto de que sejaâ
que a vergastem luzes e serĂŁo as âsuasâ luzes
gravita dentro e fora do que Ă© o seu
âmovimento interiorâ e âexterior movimentoâ ao longo
da ârespostaâ quando tudo pergunta âonde?â
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de âtemporalâ
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mĂŁo se levanta da prata
mas ficarĂĄ âgravaçãoâ do tumulto na geometria ou severo
ânĂșmeroâ em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente âtodas elasâ
a cantaria ou o ar ou mesmo
âespaços de luminosidadeâ a negra dança lavra-se
sobre
a ficção unitåria do mundo é um modo demorado
de ver âuma porta que se abreâ afinal subitamente
de uma certa ordem para uma ordem certa
pela ârevelaçãoâ fulgura aqui a sabedoria do âtactoâ
dedos a ler por linhas quentes
e pensa-se que se hĂĄ-de encontrar âum nĂłâ
o fulcro dessa palpitação a correria dos âsinaisâ
para uma âpautaâ atravĂ©s de âtemperaturasâ
surgem ideias como âatmosferasâ ou âclimasâ
regista-se entretanto que Ă© uma âtransformação do ritmoâ
ârostoâ
alguma coisa que procura equilibrar-se acima das ĂĄguas
que requer âa sua zonaâ alĂ©m das neblinas e vapores
uma âescritaâ com a glĂłria prĂłpria cometida contra
ameaças climåticas distorçÔes de leitura ligas suspeitas
de matĂ©ria âlevezas e pesosâ precipitados irreferenciĂĄveis volĂșveis
quem Ă©? que Ă©? que limite estabelece ao concreto?
que desencadeamento solicita ao meio das forças?
o rosto dirigido nĂŁo jĂĄ para o seu prĂłprio âreflexo
irradianteâ mas a âabsorçãoâ do poder difundido
para um novo impulso centrĂfugo
âdiĂĄlogo daqui para lĂĄâ cerrada conversa
entre forma e formas troca sem fendas comunicação
ininterrupta
o eco da pancada Ă© a outra pancada e uma pancada Ășnica
sustĂ©m a tensĂŁo do som uma âpermanĂȘnciaâ
dos sentidos voltados âentre siâ para o que sĂŁo
em si mesmos âsentidos de algo irrefutĂĄvelâ
a forma enfim criada pelo âgosto de serâ e para
o âgosto de que sejaâ
que a vergastem luzes e serĂŁo as âsuasâ luzes
gravita dentro e fora do que Ă© o seu
âmovimento interiorâ e âexterior movimentoâ ao longo
da ârespostaâ quando tudo pergunta âonde?â
decerto se tece o que sobre ela fervilha
de âtemporalâ
fios partidos ondas quebradas a chama que se desliga
da obra quando a mĂŁo se levanta da prata
mas ficarĂĄ âgravaçãoâ do tumulto na geometria ou severo
ânĂșmeroâ em tudo o que atravessa a desordem
das coisas geralmente âtodas elasâ
PortuguĂȘs
English
Español