Lista de Poemas
Daqui a Uns Tempos Acho Que Vou Arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma,
contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas,
pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e
treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do
fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa
impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
Pensam: É Melhor Ter o Inferno a Não Ter
— como a tantos tanto o nada os apavora!
eu acho que o génio da doutrina está nessa promessa exímia:
ninguém que espere a eternidade
espera o paraíso:
provavelmente o paraíso é improvável como imagem, dêem-nos
algum pouco do inferno, o bastante para
ocupações gerais,
trabalhos breves,
jogos da mente,
jogos distraídos,
jogos eróticos talvez, os muçulmanos tiveram palpite disso,
e os cristãos que receberam formação comercial, penso:
ia pôr a mão no fogo, ia cortar uma orelha,
eu que em mim sou obscuro, não, não,
então recebe lá a minha prece quotidiana:
dá-me o êxtase infernal de Santa Teresa de Ávila
arrebatada ar acima num orgasmo anarquista,
a ideia de paraíso é apenas um apoio
para o salto soberano,
não um inferninho brasileiro com menininhas de programa,
púberes putinhas das favelas,
mas o inferno complexo onde passeia a Beatriz das drogas duras,
um inferno à medida de cada qual dificílimo,
onde se é evasivo,
subtilezas desde o xadrez à fisica quântica,
à poesia pura,
aos fundamentos da levitação xamânica,
ao sufismo,
ao surfismo
l a metáfora do fogo, de que argúcias e astúcias é ela rarefeita?
a metáfora da água?
a ideia de paraiso é muito brutal e louca,
e o purgatório como purga é tão tôrpe, tão terrestre, tão trivial e trôpego,
tão político,
tão tenebroso!
não resulta,
dá-me esse inferno oh quanta força e ofício nos idiomas:
formar uma estrutura estritamente poética
na sua glória mesma,
só com uma inteligência de duplos sentidos,
o poema que pede mais que dez dedos,
nem os braços lhe bastam e o coração ao meio,
e os cinco litros de sangue com que se abraça tudo e se abusa do mundo,
e o político e o cívico e o administrativo e o económico-financeiro,
enfim o ínvio,
para quê tantos capítulos?
oh claros corredores ao longo das vozes a capella,
sim sim, organizam a morte,
e depois quem tem sorte entra pelo inferno dentro,
fulgurante, poemático,
edições os trabalhos do diabo,
post-scriptum:
meu amor, o inferno é o teu corpo foda a foda alcançado,
e lá fora eles cantando, os castrati, a capella, vozes
furiosamente frias,
limpas,
devastadoras,
oh maldita cocaína, musa minha, droga pura,
minha aranha idiomática,
estrela de cinco pontas, o fundo do ar ardendo,
e os já ditos braços meus muito abertos,
e entre os braços o já dito coração aos pedaços
always toujours sempre
oh pulsando
pulsando!
Um Dia Destes Tenho o Dia Inteiro Para Morrer
espero que me não doa,
um dia destes em todas as partes do corpo,
onde por enquanto ninguém sabe de que maneira,
um dia inteiro para morrer completamente,
quando a fruta com seus muitos vagares amadura,
o dom — que é um toque fundo na ferida da inteligência:
oh será que um poema entre todos pode ser absoluto?
:escrevê-lo, e ele ser a nossa morte na perfeição de poucas linhas
Nenhuma Linha É Menos do Que Outrora
azougue, e basta:
é tudo só memória inverosímil,
sem proporção alguma: e nenhuma
consolação da forma
Talvez Certa Noite Uma Grande Mão Anónima
um a um, lado alado, escavando,
escrito os nomes,
um a um escrito os nomes esquecidos,
e entre os nomes mais obscuros o mais desmemoriado deles todos,
e eu esteja atrás vivendo desse próprio esquecimento,
a mão cortada, cortado o nome, além da morte escrita,
pelo buraco da voz o nome escoado para sempre
2010.12
Oh Não, Por Favor Não Impeçam o Cadáver
deixem-no lá passar, a portagem foi já paga,
quando assaz desabridamente pela única porta improvável
passou o dono sem custos nem modos:
arrasou tudo e arrastou tudo consigo:
a laranja, o orvalho, o ar, a rosa
— mas penso: <;não é assim que se passa
(ou é assim mesmo que se passa),
alheio aos mortos e aos vivos,
ou afrontando-os a todos?
Pedras Quadradas, Árvores Vermelhas, Atmosfera
estou aqui para quê porquê e como?
e mal pergunto sei que morro todo entre pés e cabeça,
e restam apenas estas linhas como sinal do medo:
pó, poeira, poalha
Releio E Não Reamo Nada
a minha vida abrupta é absurda,
a arte da iluminação foi toda ao ar pelos fusíveis fora,
e fiquei cego dentro da casa cuja, e pelo mundo, e na memória, e na maneira
das palavras quentes que eu amava,
com as costuras das gramáticas inventadas tortas mas tão amadas também elas,
nessa língua das músicas,
e desfaleço então de tudo e nunca mais ressuscito,
e só a dor,
só o pobre de mim com seu ramilhete de rosetas bravas,
suas mínimas corolas desirmãs que mexo
entre os dedos aos nós, eruditos e ardentes,
e os trabalhos do diabo, pobre diabo, deixo-os,
e a sopa e o pão meio comidos que nem esses sequer hei merecido nunca:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
Cada Lenço de Seda Que Se Ata ¡Oh Desastres Das Artes!
Só Quanto Ladra Na Garganta, Sofreado, Curto, Cortado
a um sopro do surto,
riscado nas gengivas,
intrínseco em suas músicas ou
intransitivo:
poema perfeito prometido que não nunca
Comentários (4)
I can't keep a secret??
H. H.
Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10
Casava
If You Forget Me by Pablo Neruda | Powerful Life Poetry
PABLO NERUDA - I LOVE YOU Without Knowing How (poem)
Romance and revolution: The poetry of Pablo Neruda - Ilan Stavans
POET, HERO, VILLAIN: The Complicated Life and Philosophy of PABLO NERUDA
Pablo Neruda documentary
PABLO NERUDA | Poema 20 - Puedo escribir los versos mas tristes esta noche
Pablo Neruda - Tonight I Can Write The Saddest Lines // Spoken Poetry
Pablo Neruda - How I Met Your Mother
Pablo Neruda - If You Forget Me // Spoken Poetry Motivational Inspirational Video
Tonight I Can Write the Saddest Lines – Pablo Neruda (A Poem for Broken Hearts)
ഇനിയും ചുരുളഴിയാത്ത നെരൂദയുടെ മരണം | The Mystery Behind Neruda's Death | Pablo Neruda | The Cue
Tonight I Can Write The Saddest Lines by Pablo Neruda
PABLO NERUDA - NO CULPES A NADIE
Keeping Quiet by Pablo Neruda
Tonight I Can Write by Pablo Neruda
Ti Amo ♥ Pablo Neruda
Patch Adams (I do not love you)(100 Love Sonnets XVII from Pablo Neruda)
Deep Meaningful Life Poetry | Pablo Neruda Poem | Spoken Word
Pablo Neruda - I Like For You To Be Still
Biografía de Pablo Neruda | Premio Nobel de Literatura
ലോകം നെഞ്ചേറ്റിയ കവിയും കവിതയും | Pablo Neruda | Book Talk
Te Amo - Pablo Neruda
Here I Love You ~ Pablo Neruda
Poetry: "Clenched Soul" by Pablo Neruda (read by Tom Hiddleston) (12/07)
Poesia "É assim que te quero amor" [Pablo Neruda]
Always by Pablo Neruda - Poetry Reading
Poesia "Te Amo" [Pablo Neruda]
Pablo Neruda - Poema 20 (con letra)
Poesia "O Teu Riso" [Pablo Neruda]
"Se tu mi dimentichi" di Pablo Neruda, letta da Paolo Rossini
Sabrás que te amo — Pablo Neruda // Poema
Saudade | Poema de Pablo Neruda com narração de Mundo Dos Poemas
PABLO NERUDA. 20 POEMAS DE AMOR Y UNA CANCIÓN DESESPERADA
Quem foi PABLO NERUDA I 50 FATOS I VRATATA
Poetry by Pablo Neruda - Poema 20
If You Forget Me - Pablo Neruda (Madonna)
Pablo Neruda: Forensic experts say Chilean poet was poisoned
The Illusionist | If You Forget Me by Pablo Neruda
Jean Ferrat - Complainte de Pablo Neruda
Tonight I Can write The saddest lines Pablo Neruda Balachandran Chullikkad
The Life and Poetry of Pablo Neruda | ADVANCED | practice English with Spotlight
I Do Not Love You As If You Were Salt-Rose ~ Pablo Neruda
Pablo Neruda - Te Amo
Douglas Cordare | Te Amo | Pablo Neruda
Vassoler responde: Por que a ditadura chilena envenenou Pablo Neruda?
Patch Adams - Poesia Pablo Neruda ITA
PABLO NERUDA - Te Amo (English Translation)
Jean Ferrat - Complainte de Pablo Neruda (de Louis Aragon) - HQ STEREO 1995
IL TUO SORRISO. Pablo Neruda
Absence by Pablo Neruda - Poetry Reading
Português
English
Español