Herberto Helder

Herberto Helder

1930–2015 · viveu 84 anos PT PT

Herberto Helder foi um poeta português singular e enigmático, conhecido pela sua obra avassaladora e experimental que desafia classificações fáceis. A sua poesia é um universo denso e labiríntico, marcado por uma linguagem transgressora, pela exploração visceral do corpo, da sexualidade, da morte e da transcendência. Helder é considerado um dos poetas mais originais e influentes da literatura portuguesa contemporânea, com uma obra que continua a intrigar e a fascinar leitores e críticos pela sua radicalidade e pela sua profunda reflexão sobre a condição humana e a própria natureza da linguagem e da poesia.

n. 1930-11-23, Funchal · m. 2015-03-23, Cascais

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Tríptico

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.



(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
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Biografia

Identificação e contexto básico

Herberto Helder, cujo nome de nascimento era Herberto Helder da Silva, foi um poeta, tradutor e editor português, amplamente considerado uma das figuras mais originais e enigmáticas da literatura portuguesa do século XX e XXI. Nasceu em Funchal, Madeira, e viveu grande parte da sua vida em Portugal continental, em Lisboa e no Porto. Escreveu em português e a sua obra é marcada por uma constante experimentação linguística e temática, explorando os limites da linguagem e da representação.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a sua infância e formação, uma vez que Helder cultivou um profundo secretismo em torno da sua vida pessoal. Sabe-se que teve uma educação formal, mas a sua verdadeira formação parece ter sido autodidata e moldada por um contacto intenso com a literatura, a filosofia e as artes. A sua obra revela uma vasta cultura e uma capacidade única de absorver e reconfigurar diversas influências.

Percurso literário

O percurso literário de Herberto Helder é marcado por uma produção intensa, embora por vezes esporádica e avessa às convenções editoriais. Iniciou a sua atividade literária nas décadas de 1950 e 1960, publicando poemas em revistas e antologias. A sua obra evoluiu num sentido de radicalização e aprofundamento, explorando temas cada vez mais complexos e utilizando uma linguagem cada vez mais ousada e transgressora. Foi também tradutor e editor, tendo tido um papel relevante na divulgação de obras estrangeiras em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras principais incluem "A Colher na Boca" (1961), "O Ofício de Ser Saudade" (1975), "Poesia" (1974) e "Payback" (1977). Os temas centrais da sua poesia são o corpo, a sexualidade, a morte, o sagrado, a matéria, a memória e a própria linguagem. O seu estilo é inconfundível, caracterizado por uma densidade imagética extraordinária, por um vocabulário rico e por vezes obscuro, e por uma sintaxe fragmentada e elíptica. Helder utiliza recursos como a metáfora ousada, a acumulação e a repetição para criar um efeito de vertigem e de intensidade. A sua voz poética é visceral, confessional e ao mesmo tempo universal, explorando a fragilidade e a força do ser humano. Introduziu inovações radicais na forma e no conteúdo da poesia portuguesa, dialogando com a tradição, mas projetando-a para um futuro incerto e experimental. É frequentemente associado a uma poética existencialista e a uma vanguarda literária sem paralelos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Herberto Helder atravessou um período histórico de grandes transformações em Portugal, incluindo o fim da ditadura e a transição para a democracia. No entanto, manteve-se, em grande medida, à margem dos círculos literários e dos movimentos artísticos mais estabelecidos, cultivando uma postura de independência e de distanciamento. A sua obra dialoga com a tradição modernista, mas projeta-se para além dela, antecipando muitas das preocupações da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Helder foi uma figura notoriamente reclusa e avessa a exposições públicas. Pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, relações afetivas ou convicções políticas e religiosas. A sua obra é, em si mesma, a principal porta de entrada para o seu universo interior, onde a experiência humana é explorada nas suas vertentes mais cruas e transcendentes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora tenha mantido uma postura discreta, Herberto Helder conquistou um lugar de profundo respeito e admiração na literatura portuguesa. A sua obra é considerada de vanguarda e a sua influência tem vindo a crescer ao longo do tempo, sendo reconhecida por críticos, académicos e por um público cada vez mais alargado que se sente atraído pela sua radicalidade e originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências em Herberto Helder são vastas e diversificadas, abrangendo a literatura universal, a filosofia, a religião e as artes. O seu legado é o de um poeta que levou a linguagem poética a novos limites, que explorou a complexidade do ser e que ofereceu uma visão intransigente e visceral da existência. Influenciou uma nova geração de poetas com a sua audácia e a sua liberdade criativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Helder é um desafio constante para a crítica, dada a sua complexidade, a sua densidade e a sua natureza polissémica. As interpretações focam-se na sua exploração da alteridade, da transgressão, do corpo como lugar de revelação e da linguagem como matéria primordial. Debates sobre a sua posição na poesia portuguesa e o seu impacto na literatura contemporânea são recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um dos aspetos mais curiosos de Herberto Helder é o seu mistério. Viveu uma vida praticamente anónima, protegendo a sua privacidade com um rigor quase absoluto. A sua obra, no entanto, é de uma transparência e de uma visceralidade arrebatadoras, contrastando com o seu silêncio exterior.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Herberto Helder faleceu em Lisboa, deixando uma obra que continua a ser descoberta e a ser objeto de estudo. A sua memória é a de um poeta intransigente, um criador de mundos e um mestre da palavra que marcou indelevelmente a paisagem literária portuguesa.

Poemas

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Um Espelho

Um espelho, uma trama de diamante onde a cabeça
friamente brilhasse.
— O fulgor molecular de uma imagem.
Arde alto como as torres de calcário.
Como arde um animal, a sua coroa, a rosa
entranhada na carne.
A rosa.
Esse terrífico volume, esse
cometa fundo
à cara. Que luzisse como um braço no espectáculo
do corpo. O corpo minado pelo
sistema do sono. E nesta luz, a fronte com o corno
soldada ao rosto. Os tremendos domínios do sangue, massa
fechada com uma áscua no centro.
A cabeça que emerge de um esplendor
tumultuoso, um
estrangulamento. E em baixo o coração bombeia
a água
estancada no escuro. O pavor do mundo.
“La beauté sbuvre les veines
et en meurt.” Uma estrela enorme, um sorvo.
O inferno é branco, tem um espelho dentro.
1 225

Lenha

Lenha — e a extracção de pequenos astros,
áscuas. De poro a poro,
os electrões das corolas. Somente no mais escuro
não há nada. No escuro, a carne é um buraco
invisual, e o que arde é o pão
no estômago, e nos brônquios
cortadamente
o ar. E o carbono devora sono a sono a inocência
das imagens. O que toca o órgão mais profundo
do sopro não é música
nem chama: apenas um dedo de mármore entre
as têmporas como
uma bala. E enquanto pontas de fogo marcam
aboca, morremos afogados,
no espelho, no rosto. E se a loucura um instante
levanta as pálpebras.
A grande válvula do corpo.
A escuridão, aterra.


Abril, 1980.
1 093

8

que um momento, um só, me toque o deslumbre
de estar no meio do mundo
encostado ao ar apenas, eu, o bruto,
o que não entendeu o sinal,
o que não viu a onda a entrar no porto
e a espuma a espumar no ar,
a estrela a rebentar no ar como uma estrela,
oh sim, abra as pernas como a Lady Godiva,
ou a grávida extrema,
a deusa,
a mais simples rapariga que vai parir,
a segunda rapariga rapariga a cantar a contar da outra,
abra, que dou logo com a boca na primeira palavra
onde já o sangue coze todo,
eu que em verdade não sei nada senão que me pareceu um
momento que estava pronto para ver,
e afinal só quero cair a um canto, fechar os olhos e, em
havendo algum calor,
chegar-me a ele, e quem sabe se pegar fogo,
ir embora numa labareda grande de meia dúzia de palmos
de iluminura:
purificação de esterco, oh glória que nunca ninguém me
prometera
nunca nunca:
uma espécie de musa ou de puta
946

7

um leão atrás da porta, que faz ele?
que faz um leão senão
que se transforma numa estrela
que faz uma estrela senão que se transforma numa rápida
assim entre os dedos no ar atrás da porta
numa, oh mãe nossa!, mulher grande toda nua,
deite-se ai, senhora, nesse aparelho-cama,
levante as pernas, abra-as agora, pouse-as à direita e à
esquerda,
isso assim deixe à vontade subir a estrela,
vou ver se está ligado,
vou ver se há luz na terra,
vou ver se é verdade que há um milagre que a acerte toda,
um leão vermelho atrás da porta,
uma segunda rosa esquerda,
uma esferográfica sombria,
mas veja agora como tudo isso brilha,
entre as suas pernas afastadas,
dentro das minhas mãos unidas,
um leão atrás da porta nunca poderia brilhar tanto,
uma bic cristal preta,
um papel quadriculado,
umas unhas sujas,
uns pulmões de carvão abusados pelo tabaco,
uma vida cega de olhar tanto por aí adentro
que até já tenho medo
1 059

18

estava o rei em suas câmaras, mandou que lhe trouxessem as
fêmeas,
disse:
entre os sete e os setenta, ineptas, hábeis,
de ao pé das águas,
e lhes imitem o movimento,
ou ásperas, ou raparigas que se desfaçam quase
de serem súbito tocadas,
inacessíveis no sentido mais recôndito,
fúlgidas, frígidas,
fêmeazinhas de cândido repouso carnal,
e então o demónio as possua e elas subam acima de qualquer
linha,
que em eu, rei, as tocando, logo soçobrem,
logo tremam, gritem, se desfaçam e refaçam e subam
como se Deus as tocasse entre o cu e a côna,
oh fêmeas ininterruptas,
quero-as de todas as raças, longilíneas, espessas, sedosas,
árduas, amaras,
bravas debaixo das minhas unhas,
ou humílimas como cadelas domésticas domadas pelas palavras,
ou subtis movidas lunaticamente pela forma poética
— quero ser confirmado,
intrínseco,
tornado vasto como dez campos de aveia compacta,
rio fantasista concorrido por outros mais pequenos,
disse: vão à caça e tragam-mas:
nuas, vestidas, violentas, descalças, catorzinhas, inspiradas,
revoltas, ou como óleo entre os dedos,
e que cheirem ou a cabra ou a jasmim —
lírico, difuso, suprarreal, nocturno,
estava o rei em suas câmaras dolorosas e ordenou as músicas,
e perguntou alguém: ^Salomé, a cabeça de S. João Baptista
sangrando numa bandeja de ouro?
(não a cômo! — gritou ele),
ou a teoria dodecafónica,
ou uma frauta cabreira,
ou a voz acerbadamente fugida da Dietrich,
ou esse fantasma de voz quebrada pelo soluço da Marilyn,
ou Mahalia Jackson,
para ele, rei em suas câmaras, morrer durante a noite inteira?
— só lhe falta a rapariga esquiva que ele pense que é um enigma,
só lhe falta saber tudo,
só lhe falta a mulher para morrer com ele,
a mulher que só há nele, no fundo,
a morta nele que de noite ressuscita,
e pelo dia todo de cada dia da terra
lhe rouba a alma,
o ceptro,
o segredo de ser senhor de tudo
(menos dela que é pensamento sensível
dos elementos juntos dois feito como do mundo,
etc.)
tragam-ma —
e vão trazendo mas nunca lhe trazem a mulher que está nele,
e ele não lhe toca nem de olhos nem de boca nem do nó de um só d<
da mão que firma o ceptro sobre a terra,
o rei sozinho no meio das mulheres menos a outra
(que é mãe e filha de todas),
e que pode um rei assim fazer senão deixar que as águas o subam
pelas câmaras acima e afoguem tudo,
como o mundo está sempre à espera que aconteça,
pois está escrito nos livros,
está marcado a fogo nas cabeças,
treme em todos os sentidos de quem vive nas câmaras,
ela nas altas montanhas ele ao rés das águas baixas,
sobre o tremor do maremoto,
sobre a ameaça maior do desejo do seu corpo pelo corpo que está
selado dentro dele,
porque ele é rei apenas no fundo dos espelhos que estremecem
cheios de água,
— levem (lavem) a minha cara, eu sou outro,
levem a minha alma,
levem a minha amante e troquem-ma por outra,
outra mais conforme à mulher que não existe,
e ponham tão baixo a música que deitado no chão estreme
só eu a ouça, a música escrita apenas
para a minha loucura, a paixão, a aflição, a explicação
da minha biografia irónica e sensível:
e não se esqueçam: as putas todas e as virgens todas nas minhas
câmaras vazias,
manda o rei terrífico com voz política,
aquela voz que de muito falar já treme um pouco,
que eles não saibam sobretudo que já estou demente
(mas toda a gente sabe),
tragam-me as putas todas, religiosas, profanas ou outras,
o meu pénis tem o tamanho de um ceptro
(e ergue o ceptro que tem cerca de metro e meio,
e na verdade o sexo dele é até maior um pouco),
traspasso-as da côna ao coração
(e que mulher não tremeria de pânico e oculto gozo?),
e assim passa ele o tempo e o medo e o mundo
A MORTE S E M M E S T E 713
e eu que me esqueci de cultivar: família, inocência, delicadeza,
vou morrer como um cão deitado à fossa!
1 066

17

como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
568

Para o Leitor Ler De/Vagar

Volto minha existência derredor para. O leitor. As mãos
espalmadas. As costas
das. Mãos. Leitor: eu sou lento.
Esta candeia que rodo amarela por fora,
e ardentescura por dentro.
Candeia tão baixa-viva. Sou lento numa luminosidade como em meio de ilusão.
Volto o que é um rosto ou um
esquecimento. Uma vida distribuída
por solidão.

Sou fechado
como uma pedra pedrissima. Perdidíssima
da boca transacta. Fechado
como uma. Pedra sem orelhas. Pedra una
reduzida a. Pedra.
Pedra sem válvulas. Com a cor reduzida
a. Um dia de louvor. Proferida lenta.
Escutada lenta.

— Todo o leitor é de safira, é
de. Turquesa.
E a vida executada. Devagar.
Torna-se a infiltrada cor da. Pedra
do leitor.
Volto para essa pedra absoluta. Relativa
à minha pedra.
Minha pedra pensada com a forma
de. Uma lenta vida elementar.

Leitor acentuado, redobrado leitor moroso.
Que entende o relato sem poros,
o mês atroz dealbado sobre a pedra
sem orelhas, pedra sem boca. E que desce os dedos
sobre. Meus dedos pelo ar. E toca e passa.
Pelas pálpebras paradas. Pelos
cerrados lábios até às raízes.
E cai com seus dedos em meus dedos.
E espera devagar.
Leitor que espera uma flor atravancada,
balouçando baixa
sobre. Mergulhados
filamentos no terror
devagar.

Mas que espera. Doce. Contra o hermético
movimento do mundo.
E que o mundo movimenta contra.
As ondas de Deus auxiliado
auxiliar. E que Deus movimenta contra. Suas ondas
muito lentas, amargas ondas muito.
Antigas, ignoradas, corridas. Sobre
a primitiva face do poema. Leitor
que saberá o que sabe dentro. Do que sabe
de mais selado. E esperará
dias e anos dobrado, leitor. Varrido
pelo movimento dos dias.
Contra o movimento nocturno do. Poema devagar.

E que espera.
E para quem volto. Muitas coisas sobre
uma coisa. Volto
uma exaltante morte de Deus. Auxiliado
auxiliar. O espírito, a pedra.
Do poema.
Leitor à minha frente. Vindo
do mais difícil lado
das noites. Ainda tocado e molhado
de suas flores aniquiladas.
Rodo. Para esse rosto difuso e vagaroso
meu sono.
A fantasia minuciosa. A oblíqua inovação.
A solidão. Trémula devagar.

Leitor: volto
para ti. Um livro que vai morrer depressa.
Depressa antes. Que a onda venha, a onda
alague: A noite caída em cima de teus dedos.
De encontro à cor de encontro à. Paragem
da cor. Este livro apertado nas estrelas
da boca, estrelas.
Aderentes fechadas. Por fora
leves às vezes, presas.
Para eu batê-las durante o tempo.
Eterno, o tempo. De uma onda maior que o nosso
tempo. O tempo leitor de um. Autor.
Ou um livro e um Deus com ondas de um mar
mais pacientes. —
Ondas do que um leitor devagar.
1 254

16

queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
1 181

15

se um dia destes parar não sei se não morro logo,
disse Emília David, padeira,
não sei se fazer um poema não é fazer um pão
um pão que se tire do forno e se coma quente ainda por entre
as linhas,
um dia destes vejo que não vou parar nunca,
as mãos súbito cheias:
o mundo é só fogo e pão cozido,
e o fogo é que dá ao mundo os fundamentos da forma,
pão comprido nas terras de França,
pão curto agora nestes reinos salgados,
se parar não sei se não caio logo ali redonda no chão frio
como se caísse fundo em mim mesma,
a mão dentro do pão para comê-lo
— disse ela
1 144

Lugar - I

Uma noite encontrei uma pedra
oh pedra pedra!
verde ou azul, de lado, como se estivesse morta.
Encontrei a noite como uma pedra inclinada
sobre o meu corpo
puro, profundo como um sino.
Vi que havia em mim um pensamento
inocente, uma pedra
quando se entra na noite pelo lado onde
há menos gente.
Ou era um sino de um futuro
maior silêncio, tão
grande silêncio para se habitar só em gestos.

Aí eu poderia erguer-me na ponta
dos pés e ficar para sempre: chama
que a noite viesse alimentar com sua
própria matéria que se queima. Noite —
— lenha para nossa leveza humana. Encontrei
uma coisa caída, talvez madura, um pouco
metida pela terra dentro.
Alguma coisa dessas coisas da imobilidade, objecto
executado pelo sono,
onde eu passava os dedos apavorados e doces.

Som ou degrau que eu beijaria,
elevando-se da terra, não como uma árvore
ou uma mulher
desenvolvida em sua atmosfera de doçura
e dolorosa exaltação. Alguma coisa
subida de raízes mais milagrosas, que se não
exprimia com a brevidade
subtil de folhas, ou a quente agudeza de dedos espalhados.
Algo não levantado inteiramente da obscuridade
de uma vida sepulta,
e não jacente por sobre o qual milhares de estrelas
rolassem as asas de gelo.
Uma coisa numa existência demorada entre
o êxtase e a força sombria
das estações.

Encontrei uma pedra pedra
que não era uma colina com o mês de março em volta.
Nem era a boca materna aberta
debaixo dos rios lisos.
Uma coisa para se encostar a cabeça, oh não
para morrer. Para alguém subir
e de onde não era possível gritar. Uma pedra
sem folhas, um sino
sem pensamento. Encontrei algo que não andava
pelos montes nem seria atravessado
por uma flecha. E não sangrava.
Que não se ouvia se cantava. Talvez fosse fria
ou vivesse abrasada sobre a ilusão.

Era verde na noite quando se vem de longe,
ou azul, ou verde pelo milagre
que não existe. Ou então
era clara de certas flores que se dobram.
Ou então era alta, ou esmagada, ou degolada,
no meio de um silêncio global.
Encontrei em mim essa clareira desarrumada na seiva,
como se um poço distante ressoasse,
ou como
se os dias se fossem aproximando da minha idade
triunfante,
e eu me calasse e movesse o rosto aberto
pela luz para a abstracta violência
da solidão.

Encontrei
um animal adormecido, uma flor hipnotizada,
uma viola ferozmente taciturna.
Era amarela só se eu levantasse a cabeça, ou era
tão escura na infância grande.
Encontrei uma verde pedra cravada no mundo
das pessoas, à entrada da candura,
tão admirável pelo azul da terra dentro.
Uma coisa incompreendida no instante
de morrer para a frente.

Encontrei ondas e ondas contra mim, como se eu fosse
um homem morto entre palavras.
Campos de cevada inspirados no fogo que batiam
nas costas das minhas mãos,
aldeias inteiras cantando sua pureza
quase louca. Encontrei depois o lugar
onde deitar a cabeça e não ser mais ninguém
que se saiba. Uma pedra
pedra seca, uma vida entre muitos dons.
Com as raizes de quem divaga.
Uma pedra sem som como quem se move
sobre os alimentos.

Encontrei como quem arrasta para a noite
um símbolo pesado e ardente.
Ou a ideia
da morte mais leve que o coração sem nada
do amor.
Se me perguntam, digo: encontrei
a lua, o sol.
Somente o meu silêncio pensa.

— Se era uma pedra, um sino. Uma vida verdadeira.
1 224

Obras

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Graca
Graca

I can't keep a secret??

euskadia

H. H.

Julia
Julia

Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10

A Pikena dele
A Pikena dele

Casava