Escritas

Lista de Poemas

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a vida inteira para fundar um poema,
a pulso,
um só, arterial, com abrasadura,
que ao dizê-lo os dentes firam a língua,
que o idioma se fira na boca inábil que o diga,
só quase pressentimento fonético,
filológico,
mas que atenção, paixão, alumiação
e se me tocam na boca?
de noite, a mexer na seda para, desdobrando-se,
a noite extraterrestre bruxulear um pouco,
o último,
assim como que húmido, animal, intuitivo, de origem,
papel de seda que a rútila força lírica rompa,
um arrepio dentro dele,
batido, pode ser, no sombrio, como se avara enflorasse com as faúlhas
e assim a mão escrita se depura,
e se movem, estria atrás de estria, pontos voltaicos,
manchas ultravioletas a arder através do filme,
leve poema técnico e trémulo,
linhas e linhas,
línguas,
obra-prima do êxtase das línguas,
tudo movido virgem,
e eu que tenho a meu cargo delicadeza e inebriamento
tenho acaso no nome o inominável?
mão batida, curta, sem estudo, maravilhada apenas,
nada a ver com luminotecnia prática ou teórica,
mas com grandes mãos, e eu brilhei,
o meu nome brilhou entrando na frase inconsútil,
e depois o ar, e os objectos que ocorrem: onde?
fora? dentro?
no aparte,
no mais vidrado,
no avêsso,
no sistema demoroso do bicho interrompido na seda,
fibra lavrada sangrando,
uma qualquer arte intrépida por uma espécie de pilha eléctrica
como alma: plenitude,
através de um truque:
os dedos com uma, suponhamos, estrela que se entorna sobre a mesa,
poema trabalhado a energia alternativa,
a fervor e ofício,
enquanto a morte come onde me pode a vida toda
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Texto 3

Afinal a ideia é sempre a mesma o bailarino a pôr o pé
no sítio uma coisa muito forte
na cabeça no coração nos intestinos no nosso próprio pé
pode imaginar-se a ventania quer dizer
"o que acontece ao ar” é a dança
pois vejam o que está a fazer o bailarino que desata por aí fora
(por “aí dentro” seria melhor) ele varre o espaço
se me permitem varre-o com muita evidência
somos obrigados a “ver isso”
que faz o pé forte no sítio forte o pé leve no sítio leve
o sítio rítmico no pé rítmico?
e digo assim porque se trata do princípio “de cima para baixo
de baixo para cima”
que faz? que fazem? oh apenas um pouco de geometria
em termos de tempo um pouco de velocidade
dm termos de espaço dentro de tempo
"vamos lá encher o tempo com rapidez de espaço”
pensam os pés dele quando o ar está pronto
o “problema” do bailarino é coisa que não interessa por aí além
mas são chegados os tempos da agonia
estamos “exaltados” com este pensamento de morte
é preciso pensar no “ritmo” é uma das nossas congeminações exaltadas
na realidade algo se transformou desde que ele começou a dançar
sem qualquer auxílio excepto
não haver ainda nomes para “isso” e haver os ingredientes
do espectáculo i. e. a qualidade “forte” do sítio
esperem pela abertura de negociações entre “não” e “sim”
hão-de ver como coisas dessas se passam
não vai ser fácil os recursos de designação as acomodações várias
já se não encontram às ordens de vossências
comecem a aperceber-se da “energia” como “instrumento”
de criar “situações cheias de novidade”
vai haver muito nevoeiro nessas cabeças
e ainda ‘o coração caiu-lhe aos pés” o banal
a contas com o inesperado talvez então se tenha a ideia de murmurar
os pés subiram-lhe ao coração”
pois vão dizendo que exagero logo se verá
também Jorge Luis Borges escreveu esta coisa um nadinha espantosa
a lua da qual tinha caído um leão” nunca se pode saber
maçãs caem Newton cai na armadilha
quedas não faltam umas por causa das outras
os impérios caem etc. o assunto do bailarino cai
mas sempre em cima da cabeça e estamos para ver
Cristo a andar sobre as águas é ainda o caso do bailarino
“o estilo”
claro que “isto” apavora
a dança faz parte do medo se assim me posso exprimir
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queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima
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lá está o cabrão do velho no deserto, último piso esquerdo,
que nem o Diabo ousa
ouvi-lo
quanto mais os anjos do Senhor, os pintainhos!
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talha, e as volutas queimam os olhos quando se escuta,
madeira floral suada alto,
que música,
que Deus bêbado,
e a luz se fosse irrefutável,
se de madura lavrasse a fruta vara a vara,
e a frase pensasse na boca,
se eu pudesse,
com os joelhos junto à cabeça e os cotovelos junto ao sexo,
intenso ao ponto de faiscar no escuro,
mas não me lembra a música
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arranca ao maço de linho o fio enxuto,
nascido assim, ali, na roca, o fio,
e que gire no fuso para dentro do que fica pronto,
e vá até ao fim o trabalho que brilha,
o toque transitivo,
que a luz se mova nas pupilas,
e se ficares cego é para veres tudo unido,
escuta então como te chamam pelo nome
daquilo que te cerca,
mas não acumules nada,
amaina o fio bravio quando irrompe
e,
pálpebras cerradas,
sente como estremece tudo, o centrípeto e o centrífugo,
e morre de ti mesmo
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mal com as — soberbas! — pequenas putas que me ensinaram tudo
por amor d’el-rei, mal com el-rei por amor das putas?
bom é acabar —
mal com as academias por amor da língua portuguesa,
mal com tudo por amor do inferno,
mal com o fulgor dos dias perdidos,
uma a uma com as pessoas gerais que não conheço,
mal com tudo por amor de um pequeno e ínvio poema,
e mal ainda com o orvalho que aprisiona a borboleta
raríssima como um poema sumério,
bom é acabar mal com este petit monde à volta,
por amor do mundo que também me cerca incertamente,
o modo como te aproximas deste poema e se vê
que o teu nome é constelação,
tu tão fixa,
mal com tudo o mais por amor de ti, quente de tão impura,
tão móvel onde se aproxima o mundo que tanto tarda —
nos dicionários que abro ao acaso das línguas:
stella, queima-me tu as palmas das mãos,
depressa manto real depressa lençol de cima para baixo,
embrulha-me desembrulha porque ressuscito agora mesmo,
que afinal me envolves porque sim,
desata-me, nó de luz,
e ata-me depressa enquanto eles não sabem,
abraça-me,
abarca-me,
abrasa-me,
mal com a terra por amor dos caminhos marítimos,
a estas horas do sal espalhado fundo na noite,
quando se olhava da pedra preta a pique
e se dizia:
mergulha lá de cima a mão esquerda dá-que-dá
completamente bêbeda;
depois mão de basalto dormindo por baixo de algumas linhas
de espuma,
sim sim afinal escrevera um poema durante um reinado
de muitas guerras,
uma pouca de areia afogada quase imperceptível,
quando vinha o estio os banhistas batiam com os pés no fundo,
ou alguém mergulhava para apanhar moedas
redondas, triangulares, quadradas, esféricas,
de ouro, de prata, de bronze,
moedas cunhadas ao mesmo tempo que se passava o sal
grosso de mão em mão,
não nunca jamais ninguém deu por nada
— a essa pouca mão, a esse pouco de escrita
insensata, sensível, canhota,
se calhar, que sei eu?, devo a vida,
e se a vida, a minha, me vale de alguma coisa,
não para fortuna do mundo,
mas para mim mesmo que respiro enquanto escrevo,
embora possa haver quem o não creia ou não queira,
então, para acabar, agradeço como acabo:
estupor velho e relho,
um bom sacana
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que um nó de sangue na garganta,
um nó de ar no coração,
que a mão fechada sobre uma pouca de água,
e eu não possa dizer nada,
e o resto seja só perder de vista a vastidão da terra,
sem mais saber de sítio e hora,
e baixo passar a brisa
pelo cabelo e a camisa e a boca toda tapada ao mundo,
por cada vez mais frios
o dia, a noite, o inferno,
sem números para contar os dedos muito abertos
cortados das pontas dos braços,
sem sangue à vista:
só uma onda, só uma espuma entre pés e cabeça,
para sequer um jogo ou uma razão,
oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta,
um nó apenas duro
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tão fortes eram que sobreviveram à língua morta
esses poucos poemas acerca do que hoje me atormenta,
décadas, centenas, milhares de anos,
e eles vibram,
e entre as coisas técnicas do apartamento,
máquinas de medir o pequeno tempo, digo:
relógios de parede — um,
relógios de pulso — três, mas apenas um que funciona furiosamente,
e rádio e tv e telemóveis,
esmagam-me meu Deus por assim dizer com a sua verdade última
sobre a morte do corpo,
dizem apenas: igual ao pó da terra, que não respira,
o que é falso, pois eu é que deixarei de respirar
sobre o pó da terra que respira,
entre o poema sumério e este poema de curto fôlego
mas que talvez respire, um dia,
ou dois, ou três dias mais:
quanto às coisas sumérias: as mãos da rapariga,
o cabelo da estreita rapariga,
a luz que estremecia nela,
tudo isso perdura entre nós dois pelos milénios fora,
e delas eu estremeço ainda
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e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma
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Comentários (4)

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Graca
Graca
2022-03-31

I can't keep a secret??

euskadia
euskadia
2020-08-06

H. H.

Julia
Julia
2020-03-12

Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10

A Pikena dele
A Pikena dele
2020-03-12

Casava