3E
Laranjas instantâneas, defronte — e as íris ficam amarelas.
Avisão da terra é uma obra cega. Mas as laranjas
atrás das costas, as mais
pesadas, as mais
lentamente maduras, as laranjas que mais tempo demoram
a unir o dia à noite, que têm uma força maior em cima
das mesas, essas.
Operatórias. São laranjas ininterruptas trabalhando em imagens
as regiões ofuscantes da cabeça.
Enriquecem o ofício sentado com um incêndio
quarto a quarto da alma. Enriquecem, devastam.
— Constelação ao vento avassalando a casa.
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madeira por onde o mundo se enche de seiva,
ouro e néon numa só baforada,
laranja numa risca única tão intensa que abala tudo à volta,
sustida pelo arco de ar que a acompanha
sobre o abismo e o caos das formas
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para que venha alguém no estio e lhe arranque o coração,
e o devore,
e o gosto seja tão abundante que lhe magoe a boca
e tudo quanto nela se apoie:
soluço, respiração, idioma,
e abale os modos nada cuidadosos do corpo:
o fruto onde o cacto se concentra,
o cacto que frutifica uma só vez na vida
Iv E
Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
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alguém salgado porventura
te
toca
entre as omoplatas,
alguém algures sopra quente nos ouvidos,
e te apressa, enquanto corres
algumas braças acima
do chão fluido, leva-te a luz e subleva,
tão aturdidos dedos e sopros,
até ao recôndito,
alguma vez te tocaram nas têmporas e nos testículos, alto,
baixo,
com mais mão de sangue e abrasadura,
e te cruzaram nesse furor,
e criaram, com bafo
ardido, ásperos sais nos dedos, e te levaram,
a luz corrente lavrando o mundo,
cerrado e duro e doloroso, acaso
sabias
a que domínios e plenitudes idiomáticas
de íngremes ritmos, que buraco negro,
na labareda radioactiva,
bic cristal preta onde atrás raia às vezes
um pouco de urânio escrito
Iv F
Um espelho em frente de um espelho: imagem
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.
Trabalha naquilo antigo enquanto o mundo se move
para o centro de si mesmo,
como se todos os pontos em que trabalhas fossem o centro do mundo.
Se se pudesse, se um insecto exímio pudesse,
com o seu nome do princípio,
entrar numa turquesa, monstruosa pela amplitude
da cor e do exemplo,
se até ao coração da pedra e dele mesmo
devorasse a matéria exaltada,
por si e por ela e pelo nome primeiro ficaria
vivo: profundamente
num único nó de corpo,
e brilharia até se consumir
de si, todo — e a terra, suportaria ela
o poema disso?
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vem aí o sagrado, e tornam-se radiosas as coisas mínimas,
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor da ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
a cabeça
purificada
— e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? —
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos
de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
3H
Os cometas dão a volta e batem as caudas.
Têm luz própria, estes peixes orbitais
e crisântemos. Nos viveiros das bolhas, ébrios de oxigénio.
As águas atravessam as trevas.
Atravessam-nas os animais de coração translúcido entre os ombros.
Quando um abraço engrandece tudo, cabem na barragem
espádua a espádua.
As palavras com bolhas dos pulmões à boca.
ÚLTIMA CIÊNCIA 401
E no bravio espaço de nome a nome — desabrochadamente:
guelras, e os cometas florais
derramados.
Quando a loucura abala as residências vivas
entre a água e a instantânea
atmosfera
dos besouros, altos, todos, furiosos
como jóias. Quando a loucura me abala
com ar e água.
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roupas pesadas de sangue, cabeças
como de mármore e ouro moído,
a luz arranca-as,
nem as víboras poderiam coroá-las,
nem os elementos ar e fogo,
e assim em silêncio amadurecem
madeixas, pálpebras,
gargantas,
fremindo ainda do sangue que ficou nas roupas,
fremindo no ar que chega aos poucos,
a pouca estrela,
e abaixo do nó de luz, abaixo
da avassaladora floração do amarelo no escuro,
o sangue,
porque ainda se respira um pouco,
rápido,
destroncadas,
o ar grande aberto para que a luz as encharque
<;e os dedos?
o sombrio, trabalham-no
os dedos bêbedos
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a madeira trabalhamo-la às escondidas,
e com o barro e o ferro às escondidas reluzimos no escuro,
o Deus que há-de vir não veio ainda,
a água não sobe ao rosto,
não sobe com luz ao rosto como devia e não trabalhamos com
água coada e fogo,
quebrou-se a enxuta substância da terra,
e então o Deus que há-de vir não há-de vir nunca