Escritas

Lista de Poemas

Roçou-me

Roçou-me
O [...] pelo rosto o manto seu
E o seu manto é de Mal e Escuridão.
Coroou-me rei e a coroa que me deu
É um sinal de servidão.
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A vida é má e o pensamento é mau,

A vida é má e o pensamento é mau,
Mas eu temo com mudo e íntimo horror
A morte, pois concebo-lhe como essência,
Olhando-a do movimento e (...) da vida,
Uma monotonia não sei qual,
Cujo pressentimento desvaria
O meu incoerente pensamento.

Essa monotonia que me nasce
Da incompreensão, de nela suspeitar
Diferença suprema do viver,
Pavoroso contrário do bulício
E movimentação da vida vã
Que inda assim entretém meus olhos tristes;
Essa ideia de (...) monotonia —
Imovidamente concebi-a —
Faz-me o horror elevar-se até loucura
Conscientemente, pavorosamente.
E eu sinto um arrepio de pavor,
Em torno meu o mundo oscila, o ser
Oscila, e a consciência de sentir
Desfaz-se em sensações de pensamento
E distúrbios obscuros de ideação,
Embebidos num sonho de sentir
E sonhado sentimento de sonhar.
Horror supremo! E não poder gritar
A Deus — que Deus não há — pedindo alívio!
A alma em mim se ironiza, só pensando
Na de pedir ridícula vaidade,
Interrupção da determinação
E férrea lei do mundo.

Górgias, antigo Górgias, que dizias
Que se alguém algum dia compreendesse,
Atingisse a verdade, não podia
Comunicá-la aos outros — já entendo
O teu profundo e certo pensamento
Que ora não compreendia. Tenho em mim
A verdade sentida e compreendida,
Mas fechada em si mesma, que não posso
Nem pensá-la. Senti-la ninguém pode.

Cada homem tem em si — eu chego a crer
E tu Platão sonhaste-o — a verdade,
Sem consciência de a possuir.
Pois o inanalisado sentimento
E inanalisável, de viver,
De existir, da existência, e do existente
Não tem em si verdade? Pois o Ser
Mesmo na inconsciência não é Ser...
Mas inconsciência como? Nada sei.
Eu quero desdobrar em conhecidos
A unidade da verdade que eu
Possuo dentro em mim e certa sinto,
E ela não pode assim ser desdobrada.
Negro horror d'alma! Ah como estou só!
No isolamento negro de quem pensa
E além naquele de quem sabe
E nada dizer pode!
Como eu desejaria bem cerrar
Os olhos — sem morrer, sem descansar,
Nem sei como — ao mistério e à verdade,
E a mim mesmo — e não deixar de ser.
Morrer talvez, morrer, mas sem na morte
Encontrar o mistério face a face.
Só, tão só! Olho em torno e vejo o riso,
As lágrimas (...) e não percebo
Qual a essência e (...) disso tudo.
Sinto-me alheio pelo pensamento,
Pela compreensão e incompreensão.
Ando como num sonho. Compungido
Pelo terror da morte inevitável
E pelo mal da vida que me faz
Sentir, por existir, aquele horror
Atormentado sempre.
Objectos mudos
Que pareceis sorrir-me horridamente
Só com essa existência e estar-ali,
Odeio-vos de horror. Eu quereria
(Ah pudesse eu dizê-lo — não o sei)
Nem viver nem morrer — não sei o quê,
Nem sentir nem ficar sem sentimento...
Nada sei... Serão frases o que digo
Ou verdades? Não sei... eu nada sei...
Não posso mais, não posso, suportar
Esta tortura intensa - o interrogar
Das existências que me cercam... Vamos,
Abramos a janela... Tarde, tarde...
E tarde... Eu outrora amava a tarde
Com seu silêncio suave e incompleto
Sentido além
Da base consciente do meu ser...
Hoje... não mais, não mais me voltarão
As inocências e ignorâncias suaves
Que me tornavam a alma transparente...
Nunca mais, nunca mais eu te verei
Como te vi, oh sol da tarde, nunca,
Nem tu, monte solene de verdura,
Nem as cores do poente desmaiando
Num respirar silente. E eu não poder
Chorar a vossa perda (que eu perdi-vos),
Mas nem as lágrimas poder achar
Por amargas que fossem — com que outrora
Eu me lembrava que vos deixaria.

Nem em vós o mistério me abandona,
Nem a vossa beleza em mim ignora
Que vós, da beleza a própria essência,
Inomináveis são! E mais sublime
Apenas o mistério em vós; e não
Como nas cousas simples horroroso...
Nas cousas[?] que em meu quarto contemplando
Me horrorizo... Estremeço, como sinto
Atrás de mim o mistério! Já não ouso
Voltar-me e ver... E ver! Delírio insano...
Ver? A que loucura, a que delírio
A sensação aguda do mistério
Me leva... Nunca mais eu terei paz...

Céus, montes pedir-vos não poder
Que entorneis na minha alma esse segredo
Que vos faz existir e eu sentir-vos!
Não poder oração de arte negra
(Puerilidades não! para quê citá-las?)
Provocar a verdade a que se mostre...
Se mostre como? Oh, minha alma amarga,
Cheia de fel, e eu não poder chorar!
Quem sente chora, mas quem pensa não.
Eu, cujo amargor e desventura
Vem de pensar, onde buscaria lágrimas
Se elas para o pensar não foram dadas?
Já nem sequer poder dizer-vos: Vinde,
Lágrimas, vinde! Nem sequer pensar
Que a chorar-vos ainda chegarei!

(Cai de joelhos ante a janela, a cabeça sobre os braços, olhando distraidamente para longe)
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Na ampla sala de jantar das tias velhas

Na ampla sala de jantar das tias velhas
O relógio tictaqueava o tempo mais devagar.
Ah o horror da felicidade que se não conheceu
Por se ter conhecido sem se conhecer,
O horror do que foi porque o que está está aqui.
Chá com torradas na província de outrora
Em quantas cidades me tens sido memória e choro!
Eternamente criança,
Eternamente abandonado,
Desde que o chá e as torradas me faltaram no coração.

Aquece, meu coração!
Aquece ao passado,
Que o presente é só uma rua onde passa quem me esqueceu...
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(após as canções da tarde)

Com o súbito frio do crepúsculo
Entra em minh'alma um frio mais subtil
Corporeamente entra o mistério em mim
E eu comungo a presença ausente sua.
Sua presença (...) se volve eucaristia
De sombra. Sua carne e o seu sangue
De universo e além me tornam seu.

Terras, céus
A irrealidade do mundo
A realidade de Deus,
Tudo sorvo em meu mistério
Tudo é irreal ante mim,
Ó infinitos!
Transcendo o que não tem fim.
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SONNET - Lady, believe me ever at your feet,

Lady, believe me ever at your feet,
When all the Venus in you you condense
Unto a gesture natural and sweet,
Full-filled with purity's white eloquence.

Your sentient arm so softly did incense
The love of beauty in my soul complete,
That I had given the dearest things of sense
For that your gesture natural and sweet.

Genius and beauty, and the things that mar
The love of life with Love's own purest glow,
Out of all thinking, all unconscious are;

And even you, sweet lady, may not know
How much that gesture was to me a star
Leading my bark upon a sea of woe.
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THE UNNATURAL AND THE STRANGE

The unnatural and the strange
Have a perfume of their own
Full of the constancy in chance,
Of the smile at heart a groan:
The unnatural and the strange
Have a perfume of their own.

Flowers are they in a vase
Of no human workmanship,
 The unnatural that dismays
And the strange strong as a whip:
Flowers are they in a vase
Of no human workmanship.

They have the scent of troubled peace,
Of disturbed halls of joy,
This the scent they have, which is
A thing half to sting and cloy:
They have the scent of troubled peace,
Of disturbed halls of joy.

The unnatural and the strange
Have a perfume of their own
That of human flesh, of change
Made corruption without moan:
The unnatural and the strange
Have a perfume of their own.
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Quando se amam, vívidos,

Quando se amam, vívidos,
Dois seres juvenis e naturais,
Parece que harmonias se derramam
Como perfumes pela terra em flor.
Mas eu, ao conceber-me amando, sinto
Como que um gargalhar hórrido e fundo
Da existência em mim, como ridículo
E desusado no que é natural.
Nunca, senão pensando no amor,
Me sinto tão longínquo e deslocado,
Tão cheio de ódios contra o meu destino
De raivas contra a essência do viver.
E nasce então em mim de tal sentir,
Um negrume de tédio e ódio imenso
Que torna os grandes crimes e os mais torpes
Inadequadas cousas ao que sinto
Em sua humilde e popular vileza.
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III -  Somos meninos de uma primavera

IIISomos meninos de uma primavera
De que alguém fez tijolos. Quando cismo
Tiro da cigarreira um misticismo
Que acendo e fumo como se o esquecera.

No teu ar de dormir nessa cadeira,
(Reparo agora, feito o exorcismo,
Que o terceiro soneto ergue do abismo)
És sempre a mesma, anónima — terceira...

Ó grande mar atlântico, desculpa!
Cuspi à tua beira três sonetos.
Sim, mas cuspi-os sobre a minha culpa.

Mulher, amor, [alcova?] — sois tercetos!.
Só vós ó mar e céu nos libertais,
Que qualquer trapo incógnito franjais
Sossego? Outrora? Ora adeus! Foi feita
No cárcere a Marília de Dirceu.
De realmente meu só tenho eu.

Pudesse eu pôr um dique ao que em mim espreita,
(No seu perfil de pálida imperfeita,
Recorte morto contra um vivo céu,
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UMA VOZ: Silente, medonho,

UMA VOZ:

Silente, medonho,
Embebido em sonho
Sombrio e profundo
É o mistério do mundo.

                SEGUNDA VOZ:

Tecido de horrores,
Mordido de dores
Agudas de medo,
E do mundo o segredo.

                TERCEIRA VOZ:

Submerso
É o Ser do universo.

                UMA VOZ DOLORIDA

Mesmo que além do mundo (...) não seja
Ainda assim há-de sonho e dor,
Boca que ri, o lábio que beija
Seu ódio ter, ter o seu horror.
Nem só além do mundo há tristeza,
Silente horror o mistério tem,
Nem que humilde e com singeleza
Seja aqui DOR corno HORROR além.

Há muita voz — ouvi com espanto -
A quem dá o mundo (...) de chorar
Não só pensar tão triste o canto,
Basta viver, para soluçar.
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NIRVANA

A non-existence deeply within Being,
A sentient nothingness ethereal,
A more than real Ideality, agreeing
Of subject and of object, all in all.

Nor Life, nor Death, nor sense nor senselessness,
But a deep feeling of not feeling aught;
A calm how deep! ‑ much deeper than distress,
Haply as thinking is without the thought.

Beauty and ugliness, and love and hate,
Virtue and vice ‑ all these nowise will be;
That peace all quiet shall eliminate
Our everlasting life ‑ uncertainty.

A quietness of all our human hopes,
An end as of a feverish, tired breath...
For fit expressions vainly the soul gropes;
It is beyond the logic of our faith.

An opposite of joy's stir, of the deep
Disconsolation that our life doth give,
A waking to the slumber that we sleep,
A sleeping to the living that we live.

All difference unto the life we have,
All other to the thoughts that through us roam;
It is a home if our life be a grave,
It is a grave if our life be a home.

All that we weep, all to which we aspire
Is there, and like an infant on the breast,
We shall e'er be with more than we desire
And our accursed souls at last shall rest.
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Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!