Escritas

Lista de Poemas

Seria doce amar, cingir a mim

Seria doce amar, cingir a mim
Um corpo de mulher, mas fixo e grave
E feito em tudo transcendentalmente.
O pensamento impede-me e confrange-me
Do terror de ter perto e comungar
Em sensação ou ser com outro corpo.
Gelada mão misteriosa cai
Sobre a imaginação que nem em si
Me pode amante conceber.

Ó corpo! Amante, entrega-te! Talvez
Te salves entregando-te e amando!
Mas não! A consciência do mistério
Mantém-me isolado e em horror
Perante tudo.
                      Ah não poder
Arrancar de mim a consciência!
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Quando às vezes eu penso em meu futuro,

Quando às vezes eu penso em meu futuro,
Abre-se de repente   (...)   abismo
Perante o qual me cambaleia o ser.
E ponho sobre os olhos as mãos da alma
Para esconder aquilo que não vejo.
— Oh lúgubres gracejos de expressão!
Estorce-se-me a alma sacudida e louca
Até parecer rindo.
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V - Lá fora vai um redemoinho de sol

V

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,

E a noite que pega na feira e a levanta ao ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,

E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...
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O pensamento que a dor (...)

O pensamento que a dor (...)
E a aspiração que a sua essência ignora.

Se olho em torno de mim que longe eu vejo
A humanidade do meu pensamento,
Incompreendido eu sempre.

A envolver a humanidade inteira
Na inabjecção do meu desprezo frio.
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Oh o maior horror de terem cessado os clarins

Oh o maior horror de terem cessado os clarins
Que sons indecisos nos traz o que substitui o vento
Nesta profunda palidez [...] dos que mataram?
Quem é que vem? O que nos vai dar
Que criança a soluçar em calma noite intranquila,
Meu irmão? A irmã de quem? Ó anos de infância
Em que eu olhava da janela os soldados e via os uniformes
E a sangrenta e carnal realidade das coisas não existia para mim!...

Choque de cavaleiros onde?
Artilharia, onde, onde, onde?
Ó dor da [indecisão?] com agitações inexplicáveis à superfície de águas estagnadas...
Ó murmúrio incompreensível da morte como que vento nas folhagens...
Ó pavor certo de uma realidade desenhada pelos espelhos indecisos...

(Lágrimas nas tuas mãos
E plácido o teu olhar...
E tu, amor, és uma realidade também...
Ah, não ser tudo senão um quadro, um quadro qualquer...
E quem sabe se tudo não será um quadro e a dor e a alegria
E a incerteza e o terror
Coisas, meras coisas, [...]
Lágrimas nas tuas mãos, no terraço sobre o lago azul da montanha
E lento o crepúsculo sobre os cumes altos das nossas duas almas
E uma vontade de chorar a apertar-nos aos dois ao seu peito...)

A guerra. a guerra, a guerra realmente.
Excessivamente aqui, horror, a guerra real...
Com a sua realidade de gente que vive realmente,
Com a sua estratégia realmente aplicada a exércitos reais compostos de gente real
E as suas consequências, não coisas contadas em livros
Mas frias verdades, de estragos realmente humanos, mortes de quem morreu, na verdade,
E o sol também real sobre a terra também real
Reais em acto e a mesma merda no meio disto tudo!

Verdade do perigo, dos mortos, dos doentes e das violações,
E os sons florescem nos gritos misteriosamente...
A gaiola do canário à tua janela, Maria,
E o sussurro suave da água que gorgoleja no tanque...

O corpo... E os outros corpos não muito diferentes deste,
A morte... E o contrário disto tudo é a vida...
Dói-me a alma e não compreendo...
Custa-me a acreditar no que existe...
Pálido e perturbado. não me mexo e sofro.
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O mistério ideal dum corpo humano,

O mistério ideal dum corpo humano,
O qual se as potestades e os seus seres
Intimamente vissem e soubessem
Nenhum homem em guerra ou dessidência
Cairia, tal o terror que inspira
E o respeito que nasce do terror!
O corpo humano o mistério inventa.
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MY LIFE

I

Duty calls on me; I must fight against
That which 'tis duty unto all to fight.
Therefore, oh, illness of my will that stain'st
My mind - oh, leave me free to seek the right!

Take me from the vile sleep of purpose cold,
Give me an impulse to do good, to make
A struggle for the new against the old
Ere time my useless life away may take.

Keen is my feeling of the suffering
Of men and nations, keen into despair;
But not a will to speak it doth it bring,
Moveless I rest, not like a thing too fair,

But like a stagnant water full of filth,
A bog of will, inactive and alone,
Unopen unto Learning's fresh and tilth
And locked from doing good as men have done.

Pain ever, pain for ever! pain, oh pain!
Pain filling all my life like time or change.
Woe that goes from an inner waking strain
Unto the sleepiness of fears most strange.

Despair and horror, madness lone that feels
Its own too bitter taste until it quails,
The horror of a mind that fails and reels
And knows full well how far it reels and fails.

I sorrow for the past and at the future,
On that which never was I weep and pine,
Upon the things that never were in Nature,
On those that are and never shall be mine.

The sadness of the pleasure that has been,
The sorrow of the pain that once we had,
The ache of that which in dim visions seen
Leaves but an echo to make itself sad.

The knowledge that a dream is nothing more,
The science that our life is less than this:
It passes as it, and the bliss it wore
Was at its best the shadow of a bliss.

I ponder on the fates of men and things,
Thereat my soul grows dark and feeble grows,
To find Thought's body weighing on the wings
Which Fancy opens over fields and snows.

I ponder upon evil and on good
And both in life irrational I see,
One because it exists not, yet it should,
The other since it is and should not be.

Nothing is clear unto me; all is dark,
All is confusion to my Thought's o'er‑much;
Alas for him who thinks in life to work
Having cast far away Convention's crutch.

He finds that Custom, the least thing of all,
Is king and queen and law and creed and faith,
That Custom goes not further than our pall,
That Custom is with us past our own death.

I mourn that there are thrones, prisons and tumbs,
And yet to see all ill I am half glad:
That there are deaths, decays and rots and dooms,
A gladness whose eyes sparkle, because mad.

I weep all times the limits close that must
Deep souls ununderstood in living pen,
But weeping deeply wake to the disgust
That I weep for myself in other men.

My tears are for myself; so that they teach
To know men's ineradicable woe,
What matter what high point of pain they reach?
Haply their birth one day they 'll cease to know.

And that I shall forget this pain of mine
Forget myself - ah, would that it could be!
Forgotten like the drunkard in his wine
Or like the pauper in his misery.

'Twere madness, but sweet madness, better than
The waking, fully living consciousness
That unto a full unity doth span
The many woes and throes of my distress.

'Twere madness but 'twere better than to know
That evil is the source of life and thought,
For to feel madness is the greatest woe
That upon human consciousness is wrought.

To feel excluded, miserable, lone,
A leper deep at heart, having for sore
His being, is a misery past moan
'Tis better all to have and to ignore.

'Tis better? - nay, who knows? the mystery
Of consciousness and knowledge who can find?
In madness and in thought what things may be?
How far is horror deep within the mind?

II

This is my life; what will the future be?
With horror I grow sick past sighs and tears,
To think how life is torture unto me,
How Thought is father of strange cares and fears.

Yesterday one spoke to me of my youth.
Youth? Life? Twelve years I had of happiness;
The seven since then have been without ruth -
Twelve years of sleep and seven of distress.

Time, I grow sick of thee! Sounds, motions, things,
I feel a tiredness before your eyes...
Give me, oh Dream of mine! thy purest wings
That I may take from solitude my cries,

That I may seek the Heaven of this life -
Death, mother of hall things that seem to be.
Die thus the hand that could not serve for strife,
The brain that strained and toiled with misery!

III

Life - what is Life? Death - what is Death? My brain
Feels as I think on this, as one that reads
Far into dusk lifts up his eyes with pain,
Aching and dim; and my heart slowly bleeds.

IV

To work? I cannot. To be gay? I've lost
Long, long ago all laughter save a base
Mirth where Despair with Apathy incrust,
That has the scent of rots and of decays.

To do good? all desire tends unto it
But al1 my will is feeble before all:
I am become a bult for my Thought's wit
Which is no wit but Consciousness all gall.

And what avails it e'er to toil or trouble,
To make my torture of my life and thought?
Is not all life the slander‑fair soap‑bubble
That by a child in empty mind is wrought?

And what avails all verse, all art and song,
All that doth make a body for itself?
My heart is keen to feel al1 human wrong,
I careless, as one born to ease and pelf.

And what avails it ever to grow pale
Over the mute and endless lore of old
Until the wearied senses strain and fail
And the worn heart is passionless and cold?

Avails it anything? It avails not.
Let me sleep then: give me a grave for bed
In the earth's heart where I not life nor thought
But rottenness and peace my have instead.
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CRISTO: A sonhar eu venci mundos,

A sonhar eu venci mundos,
Minha vida um sonho foi.
Cerra teus olhos profundos
Para a verdade que dói.
A Ilusão é mãe da vida:
Fui doido e tido por Deus.
Só a loucura incompreendida
Vai avante para os céus.

Cheio de dor e de susto
Toda a vida delirei,
E assim fui ao céu sem custo,
Nem por que lá fui eu sei.
Meu egoísmo e vã preguiça
Um choroso amor gerou;
De ser Deus tive a cobiça,
Vê se sou Deus ou não sou!

Como tu eu não fui nada,
E vales mais do que eu;
Nada eu. De alucinada
Minha alma a si se envolveu
Na inconsciência profunda
Que nunca deixa infeliz
Ser de todo — e assim se funda
Uma fé — vê quem o diz.
Assim sou e em meu nome
Inda muitos o serão;
Um Deus — supremo renome,
E doido! — suma abjecção.

                CORO DE VOZES MÁSCULAS:

Através de ferro e fogo
        Por ti iremos
Ver a pugna. Por teu Nome logo
        Iremos.
No combate, na fogueira,
        Cessaremos
Mortos, mortos.

               BUDA:

O meu sonho foi incompleto
Por isso eu compreendi
Que sofrer é o nome do trajecto
Que o mundo faz de si a si.

                GOETHE:

Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência
E não pouca.
Maravilha do inconsciente!
Em sonhos sonhos criei
E o mundo atónito sente
Como é belo o que lhe dei.

               SHAKESPEARE:

E é loucura a inspiração!

               VOZES:

Só a loucura é que é grande!
E só ela é que é feliz!
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Meu coração, bandeira içada

Meu coração, bandeira içada
Em festas onde não há ninguém...
Meu coração, barco atado à margem
Esperando o dono cadáver amarelado entre os juncais...
Meu coração a mulher do forçado,
A estalajadeira dos mortos da noite,
Aguarda à porta, com um sorriso maligno
Todo o sistema do universo,
Concluso a podridão e a esfinges...
Meu coração algema partida.
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Por isso é a ti que endereço

Por isso é a ti que endereço
Meus versos saltos, meus versos pulos , meus versos espasmos,
Os meus versos-ataques-histéricos,
Os meus versos que arrastam o carro (...) dos meus nervos.

Aos trambolhões me inspiro,
Mal podendo respirar, ter-me-de-pé me-exalto,
E os meus versos são eu não poder estoirar de viver.

Abram-me todas as janelas!
Arranquem-me todas as portas!
Puxem a casa toda para cima de mim!
Quero viver em liberdade no ar,
Quero ter gestos fora do meu corpo,
Quero correr como a chuva pelas paredes abaixo,
Quero ser pisado nas estradas largas como as pedras,
Quero ir, como as coisas pesadas, para o fundo dos mares,
Com uma voluptuosidade que já está longe de mim!

Não quero fechos nas portas!
Não quero fechaduras nos cofres!
Quero intercalar-me, imiscuir-me, ser levado,
Quero que me façam pertença doída de qualquer outro,
Que me despejem dos caixotes,
Que me atirem aos mares,
Que me vão buscar a casa com fins obscenos,
Só para não estar sempre aqui sentado e quieto,
Só para não estar simplesmente escrevendo estes versos!

Não quero intervalos no mundo!
Quero a contiguidade penetrada e material dos objectos!
Quero que os corpos físicos sejam uns dos outros como as almas,
Não só dinamicamente, mas estaticamente também!

Quero voar e cair de muito alto!
Ser arremessado como uma granada!
Ir parar a... Ser levado até...
Abstracto auge no fim de mim e de tudo!

Clímax a ferro e motores!
Escadaria pela velocidade acima, sem degraus!
Bomba hidráulica desancorando-me as entranhas sentidas!

Ponham-me grilhetas só para eu as partir!
Só para eu as partir com os dentes, e que os dentes sangrem
Gozo masoquista, espasmódico a sangue, da vida!

Os marinheiros levaram-me preso.
As mãos apertaram-me no escuro.
Morri temporariamente de senti-lo.
Seguiu-se a minh’alma a lamber o chão do cárcere-privado,
E a cega-rega das impossibilidades contornando o meu acinte.

Pula, salta, toma o freio nos dentes,
Pégaso-ferro-em-brasa das minhas ânsias inquietas,
Paradeiro indeciso do meu destino a motores!
Salta, pula, embandeira-te,
Deixa a sangue o rasto na imensidade nocturna ,
A sangue quente, [mesmo de longe?],
A sangue fresco [mesmo de longe?].
A sangue vivo e frio no ar dinâmico a mim!
Salta, galga, pula,
Ergue-te, vai saltando, (...)
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Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!