Escritas

Lista de Poemas

JUSTICE

There was a land, which I suppose,
Where everyone had a crooked nose;

And the crooked nose that everyone had
In no manner did make him sad.

But in that land a man was born
Whose nose more straight and clean was worn;

And the men of that land with a public hate
Killed the man whose nose was straight.
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De vez em quando surge-me nos lábios

De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro unia amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
                                Ah que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção — o que eu
Mais odeio e mais prezo — e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regalo de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!

Hoje se morre alguém que estimo — se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu — se morre alguém
Que amo — admitamo-lo — já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
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Diálogo na Noite

Ó vestidas razões! Dor que é vergonha
E por vergonha de si própria cala
A si mesma o seu nexo! Ó vil e baixa
Porca animalidade do animal,
Que se diz metafísica por medo
A saber-se só baixa e a si dá nomes
De (...)

Ó horror metafísico de ti!
Sentido pelo instinto, não na mente,
Vil metafísica do horror da carne,
Medo do amor...

Entre o teu corpo e o meu desejo dele
Stá o abismo de seres consciente;
Pudesse-te eu amar sem que existisses
E possuir-te sem que ali estivesses!

Ah, que hábito recluso de pensar
Tão desterra o animal, que ousar não ouso
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O que é haver haver? Porque é que o que é

O que é haver haver? Porque é que o que é
É isto que é? Como é que o mundo é mundo?
Ah, o horror de pensar, como que súbito
Desconhecer onde estou.
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Basta ser breve e transitória a vida

Basta ser breve e transitória a vida
Para ser sonho. A mim, como a quem sonha,
E obscuramente pesa a certa mágoa
De ter que despertar — a mim a morte
Mais como o horror de me tirar o sonho
E dar-me a realidade me apavora,
Que como morte. Quantas vezes, (...),
Em sonhos vários conscientemente
Imersos, nos não pesa ter que ver
A realidade e o dia!

Sim, este mundo com seu céu e terra,
Com seus mares e rios e montanhas,
Com seus arbustos, aves, bichos, homens
Com o que o homem, com translata arte
De qualquer outra, divina, faz —
Casas, cidades, cousas, modos —
Este mundo que sonho reconheço,
Por sonho amo, e por ser sonho o não
Quisera deixar nunca, e por ser certo
Que terei que deixá-lo e ver verdade,
Me toma a gorja com horror de negro
O pensamento da hora inevitável,
E a verdade da morte me confrange.

Pudesse eu, sim pudesse, eternamente
Alheio ao verdadeiro ser do mundo,
Viver sempre este sonho que é a vida!
Expulso embora da divina essência,
Ficção fingindo, vã mentira eterna,
Alma-sonho, que eu nunca despertasse!
Suave me é o sonho, e a vida porque é
Temo a verdade e a verdadeira vida.
Quantas vezes, pesada a vida, busco
No seio maternal da noite e do erro,
O alívio de sonhar, dormindo; e o sonho
Uma perfeita vida me parece...
Perfeita porque falsa, e porventura
Porque depressa passa. E assim é a vida.
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MARIA: Amo como o amor ama.

Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração...

Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.

Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (...)

Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas,
                                                               buscas
E encontras cinzas.

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.

Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m'o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m'o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu'rer o teu segredo.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.

Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

                FAUSTO:
Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir...?
                MARIA:
Para que queres compreender
Se dizes qu'rer sentir?
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Estatelo-me ao comprido em toda a vida

Estatelo-me ao comprido em toda a vida
E urro em mim a minha ferocidade de viver...
Não há gestos de prazer pelo mundo que valham
A alegria estupenda de quem não tem outro modo de a exprimir
Que rolar-se pelo chão entre ervas e malmequeres
E misturar-se com terra até sujar o fato e o cabelo...
Não há versos que possam dar isto...
Arranquem um (...) de erva, trinquem-na e perceber-me-ão,
Perceberão completamente o que eu incompletamente exprimo.
Tenho a fúria de ser raiz
A perseguir-me as sensações por dentro como uma seiva...
Queria ter todos os sentidos, incluindo a inteligência,
A imaginação e a inibição
À flor da pele para me poder rolar pela terra rugosa
Mais de dentro, sentindo mais rugosidade e irregularidades.
Eu só estaria contente se o meu corpo fosse a minha alma...
Assim todos os ventos, todos os sóis, e todas as chuvas
Seriam sentidos por mim do único modo que eu quereria...
Não podendo acontecer-me isto, desespero, raivo,
Tenho vontade de poder arrancar à dentada o meu fato
E depois ter pesadas garras de leão para me despedaçar
Até o sangue correr, correr, correr, correr...
Sofro porque tudo isto é absurdo
Como se me tivesse medo alguém,
Com o meu sentimento agressivo para o destino, para Deus,
Que nasce de encararmos com o Inefável
E medirmos bem, de repente, a nossa fraqueza e pequenez.
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ENDINGS

Farewells, departures, goings - these are most sad:
They are endings, dissolutions; they drive sentiment mad.
Even the fall of priests, of tyrants, of slaves and of kings
Has the bitterness and the sadness of the finishing of things.
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Eu quisera poder abrir a mão

Eu quisera poder abrir a mão
E deixar-te cair. Atrais-me estranho
E vago horror, tu líquido que podes
Adormecer-me na loucura e (...)
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Puseram-me uma tampa —

Puseram-me uma tampa —
Todo o céu.
Puseram-me uma tampa.

Que grandes aspirações!.
Que magnas plenitudes!
E algumas verdadeiras...
Mas sobre todas elas
Puseram-me um tampa.
Como a um daqueles penicos antigos —
Lá nos longes tradicionais da província —
Uma tampa.
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Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!