Sobre Latas De Cerveja E Embalagens De Açúcar
o boi, eu,
eu estou com frio esta noite
esta manhã
as 4 da madrugada
só com uma lata de cerveja e 2
charutos;
mulher e criança saindo
quarta-feira;
o rádio toca uma ária escocesa e
o velho aquecedor solta
gás, gás, gás,
se eu apenas conseguisse dormir.
eu não consigo dormir.
a morte nem sempre chega como uma bomba
ou uma puta gorda
às vezes a morte rasteja polegada a polegada
como uma pequena aranha rastejando na sua barriga
enquanto você
dorme.
isso não é novidade para você,
eu sei.
as mãos do meu esqueleto rezam esta noite
rezam por algo
não sei
o quê.
minhas mãos seguram este charuto
sobre meu sonho
esvaziado.
eu sou
meio que uma piada suja
contada vezes demais contada tarde demais
quando as pessoas não conseguem mais
rir.
há uma embalagem na mesa.
leio seu rótulo, diz:
medidas de açúcar: 1 libra de pó igual a
4 e 1/2 xícaras coadas; 1 libra granulada igual a
2 e 1/2 xícaras etc.
agora, aí está um novo mundo! eu fico sentado e olho de soslaio a caixa,
esquecendo de tudo:
General Grant
sopa de ervilhas
etc.
o boi, eu, estou com frio esta noite.
amanhã vou à mercearia arrumar embalagens de cartolina vazias
para que eles possam empacotar suas
coisas. a mulher guarda toda espécie de cartas, retalhos,
fotografias. a garotinha, é claro, tem seus
brinquedos de garotinha.
preciso de mais para ler. leio minha lata de cerveja. diz:
fermentada com água pura de fonte da primavera de Rocky Mountain
que se converte em mijo; fermentada da carne que
se converte em repasto para vermes;
fermentada com amor que se converte em nada; minha terra e
sua terra; meu túmulo e seu túmulo; um gosto de
mel; um sonho de uma noite de ouro; eu vim por esse caminho por
um tempo e depois parti: fermentado, ferrado,
emprestado, cedido e mentido em nome da
Vida.
eu tomo essa cerveja.
paguei por
ela.
agora são 5:30 da manhã e muita gente fodeu e
dormiu e agora está saindo de seus pequenos sonhos enquanto
o homem no rádio pergunta se eu quero dinheiro emprestado por
minha casa.
consigo dormir com isso. consigo dormir pensando que
quem sabe na próxima vez em que houver tumultos nas ruas
quem sabe eles me deixem participar
mesmo minha pele sendo da cor errada
e enquanto eles estão lutando por Cadillacs e
TVs a cores
eu estarei lutando por outra coisa -
para quê
neste momento
não está claro para
mim.
mas pode ser que quando eu despertar tudo isso esteja claro
neste momento
é terminar o charuto
esperar pela mercearia abrir e
trocar esses shorts
sujos.
Nunca Trago Minha Mulher
estaciono, saio, tranco o carro, é um dia perfeito, calmo
e agradável. eu me sinto bem, começo a caminhar em direção à
entrada e um gordinho se junta a mim. ele caminha a meu lado.
não sei de onde saiu.
"oi", ele diz, "como vai você?"
"tudo bem", eu digo.
ele diz, "acho que você não se lembra de mim. você me viu
talvez duas ou três vezes".
"pode ser", eu digo. "venho às pistas todo dia."
"eu venho talvez três ou quatro vezes por mês", ele diz.
"com sua mulher?", eu pergunto.
"oh, não", ele diz, "nunca trago minha mulher."
"qual você prefere para a ponta?", ele pergunta.
eu lhe digo que ainda não comprei meu boletim do turfe.
seguimos e eu ando mais depressa. ele se esforça para me acompanhar.
"onde você fica?", ele pergunta.
eu lhe digo que fico em diversos lugares.
"esse maldito Gilligan", ele diz, "é o pior
jóquei aqui. eu perdi uma nota nele o outro dia. por que
eles o usam?"
eu digo a ele que Whittingham e Longden acham que está tudo certo
com ele.
"com certeza, eles são amigos", ele responde. "sei alguma coisa sobre
Gillingan. quer saber?"
eu lhe digo para esquecer.
estamos chegando perto da banca de jornal junto da entrada
e me viro na direção dela como se fosse comprar
um jornal.
"boa sorte", eu digo e desvio.
ele parece perplexo. seus olhos parecem chocados. ele me lembra
uma mulher que só se sente segura quando o polegar de alguém está
em seu rabo.
ele olha ao redor, acha um homem de cabelo grisalho que
manca, apressa-se, alcança o velho e começa
a conversar com ele.
compro meu ingresso, acho um lugar longe de todo mundo, sento.
tenho sete ou oito bons minutos sossegados, então escuto um
movimento: um cara senta-se perto de mim, não a meu
lado mas a um assento de distância embora haja centenas de
assentos vazios.
outro Mickey Mouse, eu penso. por que será que eles sempre me
acham?
continuo a fazer meus cálculos.
então ouço a voz dele: "Blue Baron vai levar
a ponta."
faço uma nota para riscar aquele cachorro e dou uma olhada e
me parece que essa observação me foi dirigida; não há
mais ninguém em 15 jardas ao redor.
vejo a cara dele.
ele tem uma cara que a maioria das mulheres adoraria: extremamente
macia e
branca.
ele permaneceu quase intocado pelas circunstâncias, é um
milagre do zero.
eu o encaro encantado.
é como olhar um lago de leite
nunca perturbado nem por uma pedrinha.
volto a olhar para meu boletim.
"qual você prefere?", ele pergunta.
"senhor", eu lhe digo, "prefiro não falar."
ele me olha por trás de seu bigode negro perfeitamente
aparado, não há nenhum pelo fora do lugar;
eu tentei bigodes; nunca liguei o bastante para espelhos
para deixar um bigode parecer tão antinatural.
ele diz, "ouvi falar de você. você não gosta de falar
com ninguém".
levanto, pego meus papéis, caminho por três fileiras para baixo e 16
assentos adiante. chego a meu último refúgio, pego meus
protetores de ouvido vermelhos, enfio-me neles.
ser o guardião de meu irmão só iria fazer com que eu me recolhesse
entre muros em um lugar
onde tudo é a mesma coisa.
sinto pelos solitários, sinto por suas necessidades, mas também sinto
que os solitários são feitos uns para os outros e que eles deveriam se
encontrar
uns aos outros e me deixar em paz.
assim, de protetores de ouvido, perco a cerimônia de hasteamento da
bandeira, mergulhado no boletim.
eu teria gostado de ser humano
se eles deixassem que eu fosse.
ir às pistas de corrida é como ir a qualquer outro lugar exceto,
falando genericamente,
que há mais pessoas solitárias por lá, o que não adianta muito.
elas têm o direito de estar lá e eu tenho o direito de estar lá.
isto é uma democracia e todos nós fazemos parte de uma
família infeliz.
Olhando Para Os Colhões Do Gato
sentado aqui junto à janela
suando suor de cerveja
atormentado pelo verão
estou olhando para os colhões do meu gato.
não é por minha escolha.
ele dorme em uma velha cadeira de balanço
na varanda
e dali ele me olha
dependurado em seus colhões de gato.
aí está seu rabo, coisa danada,
dependurada de lado
de modo que eu possa
ver seus felpudos reservatórios mas
em que pode um homem pensar
enquanto olha para as bolas de um gato?
certamente não sobre a nave naufragada após uma
grande batalha naval.
certamente não sobre um programa para salvar os
pobres.
certamente não sobre um mercado de flores ou uma dúzia de
OVOS.
certamente não sobre um interruptor de luz quebrado.
colhões são colhões, é isso aí,
e com muita certeza isso é verdade a respeito
dos colhões de um gato.
os meus são bem moles e macios e
diz-me minha atual mulher
bem grandes:
"você tem colhões enormes, Chinaski!"
mas os colhões do gato:
eu não consigo entender se ele está dependurado neles
ou se eles estão dependurados nele.
você vê, há essa batalha de atravessar quase toda a noite
pela fêmea
e isso não é nada fácil para nenhum de nós.
veja:
falta um pedaço da sua orelha esquerda.
certa vez pensei que um de seus olhos tinha sido
arrancado
mas quando o sangue seco
descascou
uma semana depois
aí estava seu puro
olho verde-dourado
me encarando.
todo o seu corpo está coberto de escaras de mordidas
e no outro dia,
tentando acariciar sua cabeça
ele gemeu e quase me mordeu -
a pele do seu crânio
havia sido rasgada até o osso.
com certeza não é fácil para nenhum de nós,
pobre coitado.
ele dorme
e agora sonha
o quê?
um gordo pardal em sua boca?
ou rodeado por gatas com tesão?
ele sonha seus sonhos diurnos
e nós saberemos o que é
esta noite.
boa sorte, velho camarada,
a vida não é fácil,
estamos dependurados em nossos colhões, é assim que estamos, ou seja,
estamos no cativeiro de nossos colhões,
e eu deveria me conter um pouco
quando se trata de mulheres.
enquanto isso
olharei seus olhos e me defenderei com jabs de esquerda
e correrei como do diabo
quando nada mais
adiantar.
Nota Sobre Alguém Que Bate À Porta
é? eu disse, é isso
mesmo?
sim, ele disse, ela mora em
Malibu, vou vê-la esta
noite.
ah, eu disse, foi uma relação
duradoura?
diabo, não, ele disse, não sou um
masoquista.
ele mexia em sua corrente de ouro
e falava sobre
poesia. ele falou sobre poesia
por uma
hora.
não sou um masoquista, tampouco, eu disse,
então você poderia
cair fora
daqui?
ele foi embora. mas eu sabia que ele
voltaria.
ele falava sobre
poesia. eu a
escrevia.
ele não conseguia entender
que isso e nós
não éramos
iguais.
Idade
a decência de suar em uma cadeira de balanço
está reservada aos velhos generais ou aos antigos
estadistas enquanto as tardes florescem com
garotinhas que não têm nada a fazer a não ser rir
e passar por perto.
para mim
quando os dedos forem embora o cérebro terá ido embora.
não haverá mais nada para erguer o
copo e eu ficarei por aí pensando em
camisolas brancas e piranhas
e blocos de noite com ratos no lugar dos olhos.
quando os dedos falharem no copo eu terei
falhado
e a alma
em um velho saco de papel marrom
dirá adeus
assim como as sebes dizem adeus
assim como os canhões parados nos parques perguntando-se o que
vem aí.
Os Cães Latem Facas
jesus cristo os cães latem facas
e nos elevadores
homens como brinquedos de armar
decidem minha vida e minha morte;
os falcões são vesgos
e não há nada para salvar;
saibamos o impossível
saibamos que homens fortes morrem aos magotes,
saibamos que o amor é comprado e criado
como um cão de estimação - um cão que late facas
ou um cão que late amor;
saibamos que viver uma vida
entre bilhões de idiotas com a sensibilidade de moléculas
é em si uma arte;
saibamos manhãs e noites e
perfídia;
partamos com as andorinhas
linchemos a última esperança
encontremos o cemitério dos elefantes
e o cemitério dos loucos;
e aqueles que cantam suas próprias canções
que as cantem para os idiotas e os mentirosos
e os planejadores de estratégias
em um jogo chato demais para as crianças;
só existe um modo de viver
que é estar só,
e só um modo de morrer, que é o mesmo;
ouvi a marcha de seus exércitos
por todos esses anos;
que aborrecido -
o que eles querem e o que eles ganharam;
que aborrecido eles serem meus donos
e provavelmente me seguirem na morte
trazendo mais morte à morte;
o caminho todo é oco -
eu toco um pequeno anel no meu dedo
e respiro o ar
derrotado.
2 Vistas
meu amigo diz, como é que você pode escrever tantos poemas
daí desta janela? eu escrevo, do útero,
ele me diz. a coisa escura da dor,
a ponta da pena da dor.
bom, isso impressiona muito
mas acontece que eu sei que nós dois recebemos uma boa quantidade de
cartas de recusa, fumamos uma boa quantidade de cigarros,
bebemos demais e tentamos roubar as mulheres
um do outro, o que não é poesia de jeito nenhum.
e ele me lê seus poemas
ele sempre me lê seus poemas
e eu ouço e não digo muita coisa,
olho pela janela,
e lá está a mesma rua
minha rua,
minha rua bêbada, ensolarada, enchuvarada, da
criançada,
e à noite olho para esta rua
às vezes
quando ela pensa que não a estou olhando,
os 1 ou 2 carros movendo-se silenciosamente,
o mesmo velho, ainda vivo, em sua
caminhada noturna,
as cortinas das casas cerradas,
o amor falhou mas
se aguenta
então vamos em frente.
mas agora é dia claro e as crianças
que algum dia serão homens velhos e mulheres velhas
caminhando através de seus últimos momentos,
essas crianças correm ao redor de um carro vermelho
gritando qualquer bobagem,
então meu amigo pousa seu poema.
bem, o que você acha?, ele pergunta.
tente assim e assim, eu cito uma revista
e então estranhamente
penso em guitarras sob o mar
tentando tocar música;
isso é triste e bom e quieto.
ele me vê parado à janela.
o que há lá fora?
olhe, eu digo,
e veja...
ele é 11 anos mais novo que eu.
ele se afasta da janela. eu preciso de uma cerveja,
não tenho mais cerveja.
caminho até a geladeira
e o assunto está encerrado.
Lei
veja, ele me disse,
todas essas criancinhas morrendo nas árvores,
e eu disse, o quê?
e ele disse, veja,
e eu fui até a janela
e, com certeza, lá estavam elas dependuradas nas árvores,
mortas e moribundas.
e eu disse, o que isso significa?
e ele disse, eu não sei mas foi autorizado.
no dia seguinte quando despertei
eles haviam colocado cães nas árvores
mortos e dependurados e moribundos,
e eu me voltei para meu amigo e disse,
o que isso significa?
e ele disse, não se preocupe,
as coisas são assim, houve uma votação,
foi resolvido,
e no dia seguinte foram gatos,
não entendo como eles pegaram todos aqueles gatos com tamanha
rapidez
e os dependuraram nas árvores
mas eles fizeram isso,
e no dia seguinte foram cavalos e não foi nada bom
pois muitos galhos quebraram,
e depois do bacon com ovos no dia seguinte,
meu amigo me apontou uma pistola
por cima do café e disse,
vamos,
e saímos
e lá estavam todos esses homens e mulheres nas
árvores, a maioria deles mortos ou
moribundos, e ele pegou a corda, e eu disse,
o que significa isso? e ele disse, não se preocupe,
foi autorizado, é constitucional, foi aprovado pelo
voto majoritário, e ele amarrou minhas mãos às minhas costas,
depois abriu o laço.
não sei quem vai me enforcar, ele disse,
quando eu terminar com você. suponho, no fim das contas,
que só vai sobrar um de nós
e ele terá que se enforcar
a Si mesmo.
supondo que ele não faça isso?, eu perguntei.
ele terá que fazer isso, ele disse, foi autorizado.
ó, eu disse, bem, vamos em frente
com isso
então.
Dia Maldito
nos velhos tempos
após as corridas eu costumava terminar com uma
amarela alta ou uma branca louca em algum quarto
de motel
mas agora estou com 70 e tenho que levantar quatro vezes
toda noite para mijar
e quase que a única coisa a me preocupar é
o tráfego nas vias expressas.
hoje eu perdi $810,00 nas corridas e quando
tentei entrar na via expressa um
tipo em um Camaro vermelho quase me jogou
fora da estrada (automóveis vermelhos sempre
me aborreceram) então me mandei atrás dele e dirigimos lado a lado.
dando uma olhada nele vi que era um cara magro
que parecia com um contador, então baixei
minha janela e berrei para ele enquanto
buzinava, informando-o de que ele era um pedaço de
merda subnormal mas ele só continuou a olhar
para a frente por isso pisei fundo e o deixei para
trás e meu pensamento seguinte foi, será que
devo contar isso à minha mulher?
e então rapidamente uma voz de algum lugar
respondeu, não seja trouxa, meu chapa, ela
só vai tornar isso uma piada sem graça.
"oh, hahaha! ele provavelmente nem viu
que você estava lá!"
se um homem vive por 70 anos ele aprende
duas ou três coisas - a primeira sendo: não faça confidências
desnecessárias
para sua mulher.
a segunda sendo: outros podem às vezes
entendê-lo mas
ninguém o entenderá
melhor que sua
mulher.
Uma Sede Imensa
tenho me tratado com anticorpos por quase 6 meses, baby, para curar um
caso de tuberculose, cara, sobrou para um velho como eu pegar
uma doença tão
antiquada, pegar uma do tamanho de uma bola de basquete ou como uma
sucuri
engolindo um macaco gibão; então agora estou me tratando com
anticorpos e me disseram para não beber
ou fumar por 6 meses, e falam sobre morder ferro com seus
dentes, eu tenho bebido e fumado pesadamente e firmemente com os
melhores
e os piores deles por mais de 50 anos, é,
e a parte mais difícil, parceiro, é eu conhecer gente demais que
bebe e fuma e eles continuam a beber e fumar direto na minha frente
como se
eu não estivesse me segurando para não quebrar seus crânios e rolá-los
pelo assoalho
ou só afugentá-los para bem longe da minha vista - uma vista que
anseia muito por qualquer coisa mesmo microscopicamente viciante.
a parte difícil seguinte disso é ficar sentado à máquina de escrever sem
aquilo,
quero dizer, isso foi meu show, minha dança, minha distração, minha
raison dºêtre, é isso, misturando fumaça e bebida com bater à máquina e
você pode
apostar que é onde a sorte chove dia e noite e o restante do tempo, e
você ouve a frase "cortar é um bode" mas eu não acho que seja
forte o bastante, deveria ser "fazer picadinho é um bode" ou "enterrando
o bode
ainda quente", enfim não tem sido fácil, não não não não não não não
não não não,
e quando eu olho para uma garrafa de cerveja
parece sol engarrafado, uma tragada de cigarro é como o sopro da vida
e uma garrafa de vinho tinto parece o sangue da própria vida.
para mim, é difícil pensar no futuro ou preocupar-me com isso: o
presente
imediato parece tão esmagador e agora eu simpatizo com todos aqueles
que fracassam
em dominar sua bebida e seu cigarro
pois estes últimos 6 meses têm sido os 6 meses mais longos da minha
vida!
desculpe aborrecê-lo com tudo isso, mas não é por isso que você está
aqui?