Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Garrafa de Cerveja

uma coisa de fato miraculosa acaba de acontecer:
minha garrafa de cerveja girou e caiu
e aterrissou com a parte do fundo no chão,
e eu a coloquei de volta na mesa para baixar a espuma,
mas as fotos não estavam lá essas coisas hoje
e havia uma pequena fenda no couro
do meu sapato esquerdo, mas é tudo muito simples:
não podemos adquirir muita coisa: há leis
que desconhecemos de todo, todo tipo de cutucão
para nos queimar ou congelar; o que faz com que
o melro se encaixe na boca do gato
não nos cabe dizer, ou por que certos homens
terminam enjaulados como esquilos de estimação
enquanto outros se espremem contra peitos enormes
ao longo de infindáveis noites – esta é a
missão e o terror, e não nos é dito
por quê. ainda assim, que sorte a garrafa
ter aterrissado direito, e embora
eu tivesse uma de vinho e uma de uísque,
isto prediz, de algum modo, uma noite boa,
e talvez amanhã meu nariz esteja mais comprido:
novos sapatos, menos chuva, mais poemas.
1 086

Eles, Todos Eles, Sabem

pergunte aos pintores de calçada em Paris
pergunte ao raio de sol sobre um cão adormecido
pergunte aos 3 porquinhos
pergunte ao menino que entrega jornais
pergunte à música de Donizetti
pergunte ao barbeiro
pergunte ao assassino
pergunte ao homem escorado no muro
pergunte ao pastor
pergunte ao marceneiro
pergunte ao batedor de carteiras ou ao
dono da loja de penhores ou ao soprador de vidro
ou ao vendedor de estrume ou
ao dentista
pergunte ao revolucionário
pergunte ao homem que enfia a cabeça na
boca de um leão
pergunte ao homem que vai disparar a próxima
bomba atômica
pergunte ao homem que pensa ser Cristo
pergunte ao azulão que volta para casa
à noite
pergunte ao bisbilhoteiro
pergunte ao homem tomado pelo câncer
pergunte ao homem que precisa de um banho
pergunte ao perneta
pergunte ao cego
pergunte ao homem com língua presa
pergunte ao comedor de ópio
pergunte ao cirurgião vítima de tremores
pergunte às folhas que você pisoteia
pergunte a um estuprador ou a
um motorneiro ou a um velho
arrancando as ervas de seu jardim
pergunte à sanguessuga
pergunte a um treinador de pulgas
pergunte a um engolidor de fogo
pergunte ao mais miserável homem que você
puder encontrar em seu mais
miserável momento
pergunte a um mestre de judô
pergunte a um condutor de elefantes
pergunte a um leproso, a um condenado à prisão perpétua, a um lenhador
pergunte a um professor de história
pergunte ao homem que jamais limpa as
unhas
pergunte a um palhaço ou ao primeiro rosto que você vir
à luz do dia
pergunte a seu pai
pergunte a seu filho e
e ao que ainda virá a ser
pergunte a mim
pergunte a uma lâmpada queimada dentro de um saco de papel
pergunte aos fracos de vontade, aos malditos, aos tolos
aos insolentes, aos escravizadores
pergunte aos construtores de templos
pergunte ao homem que nunca gastou os sapatos
pergunte a Jesus
pergunte à lua
pergunte às sombras dentro do armário
pergunte à mariposa, ao monge, ao louco
pergunte ao homem que faz as tiras para
The New Yorker
pergunte a um peixinho dourado
pergunte a uma samambaia balançando como uma dança sensual
pergunte ao mapa da Índia
pergunte a um rosto gentil
pergunte ao homem escondido debaixo da sua cama
pergunte ao homem que você mais odeia na face da
terra
pergunte ao homem que bebia com Dylan Thomas
pergunte ao homem que amarrava as luvas de Jack Sharkey
pergunte ao homem de cara triste bebendo café
pergunte ao encanador
pergunte ao homem que sonha com avestruzes todas as
noites
pergunte ao bilheteiro em um show de horrores
pergunte ao falsário
pergunte ao homem dormindo em um beco sob
folhas de jornal
pergunte aos conquistadores das nações e planetas
pergunte ao homem que acaba de decepar o dedo
pergunte a uma passagem da bíblia
pergunte às gotas d’água pingando de uma torneira
enquanto toca o telefone
pergunte a quem perjura
pergunte à pintura de azul profundo
pergunte ao paraquedista
pergunte ao homem com dor de barriga
pergunte ao olho divino tão astuto e flutuante
pergunte ao garoto de calças justas na
faculdade cara
pergunte ao homem que escorregou na banheira
pergunte ao homem mastigado pelo tubarão
pergunte ao cara que me vendeu as luvas
sem pares
pergunte a esses e a todos aqueles que deixei de fora
pergunte ao fogo do fogo do fogo –
pergunte até para os mentirosos
pergunte a quem você quiser a qualquer momento
que quiser em qualquer dia que quiser
faça chuva ou esteja
nevando ou mesmo que
você esteja avançando pela varanda
amarelada pelo calor
pergunte isto pergunte aquilo
pergunte ao homem com merda de passarinho no cabelo
pergunte ao torturador de animais
pergunte ao homem que assistiu a touradas demais
na Espanha
pergunte aos donos de Cadillacs novos em folha
pergunte aos famosos
pergunte ao tímido
pergunte ao albino
e ao estadista
pergunte aos senhorios e aos jogadores de sinuca
pergunte aos farsantes
pergunte aos assassinos de aluguel
pergunte aos carecas e aos gordos
e aos caras altos e aos
nanicos
pergunte aos caolhos, aos
homens que treparam demais ou de menos
pergunte aos homens que leem todos os
editoriais
pergunte aos homens que cultivam rosas
pergunte aos homens quase incapazes de sentir dor
pergunte aos moribundos
pergunte aos cortadores de grama e aos espectadores
dos jogos de futebol
pergunte a qualquer um desses ou a todos esses
pergunte pergunte pergunte e
todos responderão a você:
uma esposa grunhindo no corrimão da escada é mais
do que um homem pode suportar.
1 104

O Corpo

estive
enforcado aqui
decapitado
há tanto tempo
que o corpo já esqueceu
por que
ou onde ou quando isto
aconteceu
e os dedos dos pés
avançam em sapatos
que não estão nem

e ainda que
os dedos das mãos
fatiem coisas e
segurem coisas e
movam coisas e
toquem
coisas
como
laranjas
maçãs
cebolas
livros
corpos
já não tenho
suficiente certeza
do que essas coisas
são
são em sua maioria
como
lamparina e
névoa
então com frequência as mãos
buscarão pela
cabeça perdida
como as mãos de uma
criança
em volta de uma bola
um bloco
de ar e madeira –
sem dentes
sem partes pensantes
e quando uma janela
se escancara
para uma
igreja
colina
mulher
cachorro
ou algum ser cantante
os dedos da mão
são insensíveis à vibração
porque eles não possuem
ouvidos
insensíveis à cor porque
eles não têm
olhos
insensíveis ao cheiro
por não terem nariz
o país prossegue assim
sem sentido
os continentes
as luzes diurnas e as noites
brilham
nas minhas
unhas sujas
e em algum espelho
meu rosto
um bloco para desaparecer
parte gasta da bola de uma
criança
enquanto todos os lugares se
movem
vermes e aviões
fogos na terra
altas violetas em santidade
minhas mãos deixam tudo ir tudo ir
tudo ir
1 356

Domingo Antes do Meio-Dia

os galhos se quebram, os pássaros caem, os prédios ardem,
as putas resistem,
as bombas se empilham,
entardecer, manhã, noite,
manteiga de amendoim,
falcões de manteiga de amendoim,
a chuva respirando como lírios do topo de minha cabeça,
pinças pinças
beijos como grampos de aço
bocas cheias de mariposas,
chupadores com cabeça de hidra,
Flórida sob a lua cheia,
tubarão com a boca cheia de homem
homem com a boca cheia de manteiga de amendoim, chuva
chuva espiando as entranhas das horas cinzentas,
cavalos sonhando com cavalos,
flores sonhando com flores,
cavalos correndo com pedaços de horas cinzentas de minha adorada carne,
pães queimando, a Espanha inteira em chamas e
cidades a sonhar com crateras,
bombas maiores que os miolos de qualquer criatura,
vindo abaixo
são os cucos dos relógios galos?
os galos se postam junto à cerca
os galos são manteiga de amendoim cantarolante,
a CHAMA se erguerá alta, a chama será grande,
beije beije beije
até que tudo suma,
espero que hoje chova, espero
que os jatos morram, espero
que o gato encontre um rato, espero
não ver isso, espero
que chova, espero
que tudo soma daqui,
espero por uma ponte, um peixe, um cacto em algum lugar
empertigando os pelos da barba até o meio-dia
sonho flores e cavalos
os galhos se quebram os pássaros caem e os prédios
ardem, minha puta caminha pelo quarto e
me sorri.
1 217

7O Páreo Quando Os Anjos Balançam Lentos E Queimados

eu olhava o painel de apostas e o 6 caiu para 9
depois de um primeiro lampejo de 18 numa linha de partida
de 12... dois minutos para apostar e um gordão
seguia me empurrando pelas costas, mas consegui,
apostei 20 na vitória e me afastei em direção à plataforma
olhando meu programa:
quartos púrpuras e cereja, mangas cor de cereja
e boné; b.f.3, Vermelho Indiano – Impetuoso, de Alta Linhagem,
e as pessoas seguiam caminhando em minha direção
ainda que não houvesse nenhum lugar para ir,
estavam alinhando os cavalos no portão
e as pessoas seguiam caminhando como formigas sobre açúcar
derramado,
a máquina os havia engolido em suas engrenagens
e eles seguiam cegos para a morte,
e agora à altura do 7o páreo
irrompia medonho o cheiro fedido de suor
perfurante
impossível retornar ao caminho do sonho,
e os cavalos partiram pelo portão
e eu procurei por minhas cores –
eu as vi, e o jóquei parecia montar meio de lado
conduzia o cavalo por dentro e lhe puxava a cabeça
em direção à guarda externa,
e eu podia dizer pelo modo como o cavalo avançava
que ele estava fora;
a ação havia sido totalmente equivocada
e caminhei em direção ao bar
enquanto os vencedores seguiam para a chegada
e eles faziam as últimas apostas enquanto eu pedia minha bebida,
e eu me debrucei ali pensando
certa vez eu conhecia lugares que gritavam com doçura
suas vozes das paredes
onde os espelhos me mostravam o acaso,
certa vez eu me entristecia quando um entardecer se tornava
finalmente uma noite para mergulhar no sono
– o atendente do bar disse, ouvi dizer que eles vão colocar
o cavalo 7 no próximo.
certa vez eu cantei óperas e acendi velas
num lugar que se fazia sagrado por nada além de mim
e o que quer que lá estivesse.
– nunca aposto em éguas no verão,
eu lhe disse.
então a multidão entrou
reclamando
explicando
garganteando
pensando em suicídio ou bebedeira ou sexo,
e eu dei uma olhada em volta
como um homem que acorda na cadeia
e o que quer que lá estivesse
assim ficou,
e eu terminei minha bebida
e saí dali.
1 036

K.O.

ele era barbada, gordo como um beija-flor
e eu o mantinha golpeando,
lançava um soco e trocava a guarda e dava um tempo:
todos esperavam pela luta da noite,
bebendo cerveja, e eu pensava
como vamos mobiliar a casa,
eu precisava de uma bancada e algumas ferramentas,
e então ele disparou uma direita –
eu tinha ficado olhando para as luzes
e a próxima coisa que fui capaz de me lembrar
foram todos uivando, e eu de joelhos como se
rezasse, e quando me levantei
ele era forte e eu era fraco;
bem, pensei, vou voltar para a fazenda,
eu sempre fui um pobre vencedor.
1 012

Eu Queria Derrubar o Governo Mas Tudo o Que Consegui Foi a Esposa de Um Outro Cara

30 cachorros, 20 homens em 20 cavalos e uma raposa
e veja bem, eles escrevem,
você é um bocó para o estado, para a igreja,
você está num sonho do ego,
leia sua história, estude o sistema monetário,
perceba que a luta racial data de 23.000 anos.
bem, em me lembro de 20 anos atrás, sentado com um velho alfaiate judeu,
seu nariz sob a lâmpada como um canhão apontado para o inimigo; e
havia um farmacêutico italiano que vivia num apartamento caro
na melhor parte da cidade; planejávamos derrubar
uma dinastia cambaleante, o alfaiate cosendo botões numa roupa,
o italiano enfiando seu charuto em meu olho, me inflamando,
eu mesmo uma dinastia cambaleante, sempre o mais empedrado que eu podia,
cheio de leituras, famélico, deprimido, mas de fato
um bom e jovem rabo teria resolvido todo o meu rancor,
mas eu não sabia disso; eu ouvia meu italiano e meu judeu
e eu avançava por ruelas escuras fumando cigarros filados
e assistindo o fundo das casas se tomar de chamas,
mas em algum lugar nós erramos: não éramos homens o suficiente,
nem grandes nem pequenos o suficiente,
ou quem sabe estivéssemos apenas a fim de papo ou entediados, então
a anarquia fracassou,
e o judeu morreu e o italiano se irritou porque fiquei
com sua
mulher quando ele foi para a farmácia; ele não cuidava de proteger seu
próprio governo de ser derrubado, e ela o derrubou facilmente, e
eu tive alguma culpa: as crianças dormiam no quarto ao lado;
mas depois disso eu ganhei $200 num jogo fodido e peguei um ônibus
para Nova Orleans e fiquei numa esquina escutando a música que vinha dos bares
e então eu entrei nos bares,
e fiquei ali pensando sobre o judeu morto,
como tudo o que ele sempre fizera fora falar e pregar botões,
e como ele desistiu mesmo sendo o mais forte de todos nós –
ele desistiu porque sua bexiga não seria capaz de aguentar,
e talvez isso tenha salvado Wall Street e Manhattan
e a Igreja e Central Park West e Roma e a
Margem Esquerda, mas a mulher do farmacêutico, ela era legal,
estava cansada de bombas debaixo do travesseiro e de avacalhar o Papa,
e ela tinha uma bela figura, pernas realmente decentes,
mas creio que ela sentisse o mesmo que eu: que a fraqueza não estava no Governo
mas no Homem, cada qual a seu tempo, que os homens nunca seriam tão fortes quanto
suas ideias
e que as ideias eram governos tornados homens;
e então tudo começou no sofá com um martíni derramado
e terminou no quarto: desejo, revolução,
a falta de sentido acabou, e as sombras se agitaram ao vento,
se agitaram como sabres, troaram como canhões,
e 30 cachorros, 20 homens em 20 cavalos perseguiam uma raposa
através dos campos debaixo do sol,
e eu saí da cama e bocejei e cocei minha barriga
e soube que em breve muito em breve eu teria de me
empedrar mais uma vez.
691

Sobre Sair Para Apanhar a Correspondência

o ridículo meio-dia
quando esquadrões de minhocas surgem nuas
como dançarinas
para serem estupradas por melros.
eu saio
e ao longo de toda a rua
os exércitos verdes disparam cores
como um 4 de julho eterno,
e eu também pareço me inflamar por dentro
um tipo de explosão desconhecida, uma
sensação, talvez, de que não há nenhum
inimigo
em nenhum lugar.
e eu enfio a mão na caixa
e não há
nada – nem sequer uma
carta da cia. de gás dizendo que irão
cortar mais uma vez
o fornecimento.
nem mesmo um bilhete da minha ex-mulher
se pavoneando de sua atual
felicidade.
minha mão vasculha a caixa de correspondência
numa espécie de descrença mesmo depois da cabeça há muito
já ter desistido.
não havia nem mesmo uma mosca morta
lá dentro.
sou um idiota, penso, eu deveria saber que
assim são as coisas.
entro enquanto todas as flores se projetam no espaço para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem para o
café da manhã?
1 166

As Garotas

estive olhando para
a mesma
pantalha
por
5 anos
e ela acumulou
uma poeira de solteiro
e
as garotas que entram aqui
estão ocupadas
demais
para limpá-la
mas não dei bola
estive bastante
ocupado
para notar
até agora
que a luz
brilha
mal
através
de 5 anos
de acúmulos.
626

História Verdadeira

eles o encontraram caminhando ao longo da autoestrada
coberto de vermelho
na frente
ele apanhara uma lata enferrujada
e cortara seu maquinário
sexual
como a dizer –
vejam o que fizeram
comigo? vocês bem poderiam ficar com o
resto.
e ele colocou uma parte de si
num dos bolsos e
outra parte de si
no outro
e foi assim que o encontraram,
seguindo em
frente.
eles o encaminharam para os
médicos
que tentaram costurar de volta
as
partes
mas as partes estavam
bastante satisfeitas
de estarem como
estavam.
às vezes eu penso em todos os bons
caras
que se transformam
nos monstros do
mundo.
talvez tenha sido sua forma de protestar contra
isto ou
protestar
contra
tudo.
um homem solitário
A Marcha da Liberdade
que nunca se espremeu
entre
as críticas de concertos e os
resultados do
beisebol.
Deus, ou alguém,
o
abençoe.
1 012

Citações

2

Obras

11

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