Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Tira

3 moleques correm em minha direção
soprando apitos
e eles gritam
você está preso!
você está bêbado!
e eles começam
a me golpear as pernas com
seus cassetetes de brinquedo.
um deles chega a ter uma
insígnia. outro tem
algemas mas minhas mãos estão erguidas no ar.
quando entro na loja de bebidas
eles ficam circulando lá fora
como abelhas
excluídas de suas colmeias.
compro uma garrafa de uísque
barato
e
3
barras de chocolate recheadas.
1 150

Os Trabalhadores

eles riem sem parar
mesmo quando
uma placa cai
e destrói um rosto
ou deforma um
corpo
eles continuam
rindo,
quando a cor do olho
adquire uma temerária palidez
por causa da má
iluminação
eles continuam a rir;
enrugados e imbecilizados
ainda jovens
fazem piadas sobre isso:
um homem com aparência de sessenta
dirá
tenho 32, e
então rirão
todos eles rirão;
por vezes são postos
do lado de fora para tomar um pouco de ar
mas grilhões os trazem de volta
grilhões que não arrebentariam
mesmo
que pudessem;
mesmo do lado de fora, entre
homens livres
eles continuam rindo,
vagam por aí
com um passo hesitante e
tímido
como se tivessem perdido
os sentidos; do lado de fora
ruminam um pedaço de pão,
pechincham, dormem, contam os tostões,
olham perdidos para o relógio
e retornam;
às vezes em seus confins
chegam até a se pôr sérios
por um momento, falam do lado de
Fora, de quão horrível
deve ser
ficar trancado
do lado de Fora
para sempre, sem jamais poder
retornar;
faz calor enquanto trabalham
e eles suam um
pouco,
mas eles trabalham duro e
bem, trabalham tão duro
que os nervos se rebelam
e causam tremores,
mas com frequência
são elogiados por aqueles
que dentre eles
se ergueram
como estrelas,
e agora as estrelas
estão de olho
de olho também
naqueles poucos
que podem tentar
retardar o passo ou
mostrar desinteresse
ou falsificar um
mal-estar
a fim de obter uma
folga (a folga deve ser
ganha para um aumento de força
para um trabalho ainda mais
perfeito).
às vezes algum deles morre
ou enlouquece
e então de Fora
alguém novo entra
e uma oportunidade
é oferecida.
estive lá por
muitos anos;
no começo achava que o trabalho era
monótono, até mesmo
tolo
mas agora entendo
que tudo tem uma função,
e os trabalhadores
sem rostos
que vejo não são realmente
feios, e que
as cabeças sem olhos –
agora eu sei que esses olhos
podem ver
e estão aptos
ao trabalho.
as trabalhadoras
são geralmente as melhores,
adaptando-se de modo natural,
e com algumas dessas
fiz amor em nossas
horas de descanso; de início
pareciam ser
como primatas
mas depois
com iluminação
percebi
que elas eram coisas
tão reais e vivas como eu
mesmo.
noite dessas
um velho trabalhador
cego e grisalho
a serventia perdida
foi aposentado e mandado
para o lado de Fora.
discurso! discurso!
nós exigimos.
foi um
inferno, ele disse.
rimos
os 4.000 de nós:
ele mantivera seu
humor
até o
fim.
799

Nenhuma Lady Godiva

ela chegou bêbada a minha casa
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
593

Feijão Com Alho

isto basta em sua importância:
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
1 275

Mama

aqui estou
no chão
minha boca
aberta
e
não posso sequer dizer
mama,
e
os cachorros correm e param e mijam
em minha lápide; consigo de tudo
exceto sol
e meu terno está com um aspecto
péssimo
e ontem
o que restava do meu braço
esquerdo se foi
muito pouco resta, uma espécie de harpa
sem música.
um bêbado
em sua cama com um cigarro
pode ao menos acionar 5 caminhões
de bombeiros e
33 homens.
já eu
não
posso
nada.
mas p.s. – Hector Richmond na tumba
ao lado pensa apenas em Mozart e doces
larvas.
ele é
uma péssima
companhia.
1 143

Torres de Metralhadora & Relógios de Ponto

sinto-me logrado por néscios
como se a realidade fosse propriedade
de homens medíocres
com sorte e que receberam uns pontos de vantagem,
e eu me sento no frio
maravilhado com as flores púrpuras
ao longo da cerca
enquanto o resto deles
acumula ouro
e Cadillacs e
amantes,
eu me deixo ocupar por palmas
e por lápides
e pela preciosidade de um sono
como se dentro de um casulo;
ser um lagarto seria
bem ruim
ter de se escaldar ao sol
seria bastante ruim
mas não tão ruim
como ter de se erguer
à estatura de um homem e à vida de um homem
e desprovido da vontade de fazer parte do
jogo, sem vontade de ter
metralhadoras e torres e
relógios de ponto,
sem vontade de lavar o carro
de extrair um dente
de ter um relógio de pulso, abotoaduras
um radinho de pilha
pinças e algodão
um armarinho com iodo,
sem vontade de ir a coquetéis
de ter um gramado no pátio da frente
de todo mundo cantando junto
sapatos novos, presentes de Natal,
seguro de vida, a Newsweek
162 jogos de beisebol
umas férias nas Bermudas.
sem vontade para nada sem vontade,
e eu me ponho a analisar as flores
tão melhores do que eu
o lagarto tão melhor
a mangueira verde-escura
a eterna grama
as árvores os pássaros,
os gatos sonhando ao sol
amanteigado estão
muito melhor do que
eu, tendo agora de vestir este velho casaco
subjugado a meus cigarros
à chave do carro
a um mapa da estrada,
tendo de sair
pela calçada
como um homem a caminho da execução
avançando seguramente
em direção a ela,
seguindo a seu encontro
sem escolta
rumando em sua direção
correndo até ela
a 110 km por hora,
manejando
maldizendo
deitando cinzas
cinzas mortais de cada
coisa mortal
queimando,
a larva enfrenta menos
horror
os exércitos de formigas são
mais valentes
o beijo de uma cobra
menos voraz,
eu quero apenas o céu
a me queimar mais e mais
me aniquilar
de modo que o sol surja
às 6 da manhã
e siga até depois da meia-noite
como uma porta bêbada sempre aberta,
avanço em direção a ele
sem desejá-lo
chegando nele chegando nele
enquanto o gato se espreguiça
boceja
e se revira em direção a
outro sonho.
701

Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...

nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 119

Balancem Comigo

balancem comigo, todas as coisas tristes –
loucos em casas de pedra
sem portas,
leprosos vertendo amor e canção
sapos tentando vislumbrar
o céu;
balancem comigo, coisas tristes –
dedos decepados numa forja
a velhice como ovos cozidos de café da manhã
livros usados, pessoas usadas
flores usadas, amores usados
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês
eu preciso de vocês:
esta coisa fugiu
como um cavalo ou um cão,
morto ou perdido
ou implacável.
1 241

No 6

vou mesmo com o cavalo no 6
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
1 221

A Falta de Quase Tudo

a essência da pança
como um balão branco ensacado
é perturbadora
como passos correndo
pela escada
quando você não sabe
de quem se trata.
claro, se você liga o rádio
é capaz de esquecer
a gordura debaixo da camisa
ou os ratos alinhados ordeiramente
como as velhotas no Hollywood Blvd
esperando pelo show
de humor.
penso nos homens velhos
em quartos de quatro dólares
procurando por meias nas gavetas do armário
enquanto ficam de pé com cuecas marrons
o tempo todo o relógio soando
quente como uma
cobra.
ah, existem algumas coisas decentes, talvez:
o céu, o circo
as pernas das mulheres saindo dos carros,
a beleza entrando pela porta
como uma sinfonia de Mozart.
a balança diz 90 kg. é este o
meu peso. são 2:10 da manhã
dedicação é para jogadores de xadrez.
a causa singular e gloriosa continua
em discussão
enquanto se fuma, se mija, se lê Genet
ou alguns jornais engraçados;
mas talvez ainda seja muito cedo
para escrever àquela sua tia em
Palm Springs e revelar a ela
o que está errado.
1 113

Citações

2

Obras

11

Videos

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