Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Introdução do Autor

Os poemas das três primeiras partes deste livro são dos anos de 1955 a 1968, e os poemas da última parte correspondem aos trabalhos novos de 1972 a 1973. O leitor poderá se perguntar o que aconteceu entre os anos de 1969 e 1971, uma vez que o autor desapareceu (literalmente) entre os anos de 1944 e 1954. Mas não desta vez. The Days Run Away Like Wild Horses Over the Hills (Black Sparrow Press, 1969) contém os poemas escritos ao fim de 1968 e em boa parte de 1969, mais uma seleta de cinco poemas que haviam saído em edições caseiras não cobertas pelas três primeiras partes do presente livro. Mockingbird Wish me Luck (Black Sparrow Press, 1972) traz impressos poemas escritos do fim de 1969 até o início de 1972. Assim, para os críticos, leitores, amigos, inimigos, ex-amantes, novas amantes, o presente volume, junto com Days e Mockingbird, contém o que considero ser o melhor de meu trabalho escrito nos últimos dezenove anos.
Cada uma das partes faz ressurgir lembranças caras. Para Meu coração tomado em suas mãos me pediram para fazer uma viagem a Nova Orleans. O editor tinha que, em primeiro lugar, certificar-se de que eu era uma pessoa decente. Ao apanhar o trem na Union Station logo na sequência do Terminal Anexo aos Correios onde eu trabalhava para o Tio Sam, sentei-me no vagão-restaurante e comecei a beber uísque com água e voei para Nova Orleans para ser julgado e avaliado por um ex-presidiário que dirigia uma antiga casa editorial. Jon Webb acreditava que a maioria dos escritores (e ele conhecera alguns bons, incluindo Sherwood Anderson, Faulkner, Hemingway) eram seres humanos detestáveis quando estavam longe de suas máquinas de escrever. Cheguei, eles me conheceram, Jon e sua esposa, Louise, bebemos e conversamos por duas semanas, então Jon Webb disse, “Você é um canalha, Bukowski, mas vou publicá-lo assim mesmo”. Fui embora da cidade. Mas isso não foi tudo. Logo os dois estavam em Los Angeles com seus dois cães em um hotel ecológico que ficava nos limites da periferia. Ele queria uma confirmação. Bebemos e conversamos. Eu seguia sendo um canalha. Adeus. Muitos acenos pela janela do trem. Louise chorava por detrás do vidro. Meu coração foi publicado...
O grosso dos poemas de Crucifixo em uma mão morta foi escrito durante um mês extremamente quente e lírico em Nova Orleans no ano de 1965. Eu caminhava pela rua e tonteava, sóbrio eu tonteava, ouvir os sinos das igrejas, os cachorros feridos, feria a mim, tudo isso me feria. Eu tinha mergulhado em uma depressão, sofrera um apagão depois de publicar Meu coração e Jon e Louise haviam me trazido de volta para Nova Orleans. Eu vivia em uma esquina perto da casa deles com uma mulher gorda e gentil cujo ex-marido (que já estava morto) tinha quase chegado a ser campeão mundial dos pesos médios ou dos leves, esqueci ao certo. Todas as noites eu visitava Jon e Louise, e bebíamos até o amanhecer junto à pequena mesa da cozinha secundada por baratas que não paravam de subir e descer na parede a nossa frente (elas gostavam, em especial, de se mover em círculo ao redor de um bico de luz que brotava diretamente da parede) enquanto conversávamos e bebíamos.
Eu voltava para o meu canto e acordava por volta das dez e meia da manhã, bastante enjoado. Eu me vestia e seguia até a casa de Jon. A editora ficava abaixo do nível da rua e eu dava uma olhada para ver se ele estava por ali antes de bater. Podia vê-lo pela janela, calmo, relaxado, sem qualquer sinal de ressaca, murmurando e alinhando as páginas de Crucifixo na prensa.
“Trouxe algum poema, Bukowski?”, ele perguntava, assim que eu entrava. (É preciso ter cuidado: alimentar uma prensa à espera de material com poemas pode facilmente reduzir-se a jornalismo.)
Jon desconcertava-se de imediato se eu não tivesse trazido um punhado de poemas. Não era tão bom ficar ao lado daquele puto nessas ocasiões, e eu logo me via de volta ao meu quarto trabalhando na máquina de escrever. À noite, se eu lhe trouxesse algumas páginas de poesia, seu humor melhorava de modo considerável.
Então eu seguia escrevendo poemas. Bebíamos com as baratas, o lugar era pequeno, e as páginas 5, 6, 7 e 8 ficavam enfiadas na banheira, ninguém tomaria banho, e as páginas 1, 2, 3 e 4 ficavam em um grande baú, e logo não havia espaço para colocar qualquer outra coisa. Havia páginas até o teto. Com muita cautela, nos moviámos entre elas. A banheira tinha sido útil, mas a cama se tornou um problema. Então Jon construiu uma espécie de elevação com umas sobras de madeira. Mais uma escada. E Jon e Louise passaram a dormir ali sobre um colchão e a cama foi descartada. Assim havia mais espaço no chão para espalhar as folhas. “Bukowski, Bukowski por toda parte! Vou ficar louca!”, disse Louise. As baratas circulavam e nós bebíamos e a prensa engolia meus poemas. Um tempo muito estranho, e lá estava Crucifixo...
Eu costumava ir à casa de John Thomas e ficar por lá a noite inteira. Tomávamos boletas e bebíamos e conversávamos. Quero dizer, John tomava as boletas e eu as tomava junto com a bebida, e nós conversávamos. John tinha então o hábito de gravar tudo, fosse bom ou não, estúpido ou interessante, inútil ou aproveitável. Escutaríamos nossas conversas no dia seguinte, e era um processo válido, ao menos para mim. Eu percebia o quão imbecil, insuportável e desfocado seguidamente me tornava, ao menos quando estava bêbado. E algumas vezes mesmo quando não estava.
Certa vez, durante essas gravações, John pediu que eu levasse uns poemas e os lesse. Eu o fiz. E deixei os poemas por lá e esqueci que existiam. Os poemas foram jogados fora junto com o lixo. Meses se passaram. Um dia, Thomas me ligou. “Aqueles poemas, Bukowski, dariam um bom livro.” “Que poemas, John?” Ele disse que tinha pegado a fita com os meus poemas e a tinha ouvido de novo. “Eu teria que transcrevê-los, isso daria muito trabalho”, eu disse. “Eu transcrevo para você.” Concordei, e logo tinha os poemas mais uma vez datilografados.
Desta vez, um homem careca e ruivo, com uma testa alta e lustrosa, meticuloso e gentil, com um sorriso escarninho quase imperceptível e constante, estava por aparecer. Trabalhava como gerente em uma firma de móveis e suprimentos e era colecionador de livros raros. Seu nome era John Martin. Havia publicado alguns de meus poemas em edições caseiras. Ele assinava uns cheques em meu nome enquanto eu me sentava a sua frente na cozinha e assinava aqueles panfletos. Ali estava começando a Black Sparrow Press, uma editora que logo começaria a publicar uma grande parcela da poesia de vanguarda na América, mas nenhum de nós sabia disso então.
Mostrei a John os poemas que Thomas tinha transcrito para mim. Eu havia revisado as transcrições e ele fizera um trabalho muito cuidadoso e acurado. John Martin levou os poemas consigo e me ligou alguns dias depois: “Você tem um livro aí e eu mesmo vou publicá-lo”. E foi assim que alguns poemas quase perdidos foram reencontrados e impressos em livro e a Black Sparrow alçou voo. Chamei o livro de Na rua do terror e no caminho da agonia.
Dando uma olhada nesses poemas escritos entre 1955 e 1973, gosto mais (por uma ou outra razão) daqueles escritos por último. Isso é algo que me agrada. Não faço a mais vaga ideia, claro, da forma que meus poemas futuros terão, sequer se escreverei outros mais, porque não posso garantir nem mesmo que vá seguir vivendo, mas uma vez que comecei a escrever poesia tarde na vida, por volta dos 35, gosto de pensar que eles me darão alguns anos a mais nessa reta final. Enquanto isso, os poemas que agora seguem terão de cumprir essa missão.
Charles Bukowski
30 de janeiro de 1974
1 169

Viagem À Praia

os homens fortes
os homens musculosos
lá na praia eles
se sentam
bronzeados como chocolate
os pesos
espalhados ao seu redor e
intocados

ficam sentados enquanto
as ondas avançam e
recuam

ficam sentados enquanto o
mercado de ações
ergue e destrói
homens e famílias

ficam sentados enquanto
um apertar de botão
poderia transformar
seus caralhos
em palitos de fósforos
pretos e enrugados

ficam sentados enquanto
suicidas em quartos verdes
os trocam por espaço

ficam sentados enquanto antigas
Miss Américas
choram diante de espelhos
enrugados

ficam sentados
ficam sentados com menos
vivacidade que macacos
e minha mulher para e
os olha:
“uuuu uuuu uuuu”, ela
diz.

me afasto com
minha mulher enquanto as ondas
avançam e recuam.

“há alguma coisa errada
com eles”, ela diz, “o que
é?”

“o amor deles só corre em
uma direção.”

as gaivotas giram e
o mar avança e recua

e nós os abandonamos
lá atrás
desperdiçando o tempo que lhes
resta
o momento presente
as gaivotas
o mar
a areia.
1 218

O Estado Das Coisas do Mundo Vistas a Partir da Janela de Um 3O Andar

olho para uma garota vestindo um
suéter verde-claro, shorts azuis, longas meias negras;
usa algum tipo de colar
mas seus seios são pequenos, pobrezinha,
e ela confere as unhas
enquanto seu cachorro branco e encardido fareja a grama
em erráticos círculos;
um pombo também está por ali, circulando,
semimorto com seu cérebro de ervilha
e eu estou andares acima em minha roupa de baixo,
barba de 3 dias, servindo uma cerveja e esperando
que alguma coisa literária ou simbólica aconteça;
mas eles seguem circulando, circulando, e um homem velho e magro
em seu último inverno desliza puxado por uma garota
com um uniforme de escola católica;
para algum lugar além há os Alpes, e navios
cruzam agora mesmo o mar;
há pilhas e mais pilhas de bombas-H e -A,
suficientes para explodir cinquenta vezes o mundo e Marte junto,
mas eles seguem circulando,
a garota movimentando o traseiro,
e as colinas de Hollywood mantêm-se lá, mantêm-se lá
cheias de bêbados e pessoas insanas e
muitos beijos nos automóveis,
mas isso nada resolve: che sera, sera:
seu cachorro branco e encardido não cagará,
e com um último olhar para as unhas
ela, fazendo rebolar ao máximo o traseiro
desce em direção ao pátio
seguida por seu cachorro constipado (simplesmente sem se importar),
deixando-me a ver o pombo mais antissinfônico.
bem, quanto ao balanço das coisas, relaxe:
as bombas nunca vão ser detonadas.
1 051

Para a Puta Que Levou Meus Poemas

alguns dizem que deveríamos evitar remorsos particulares no
poema,
manter-nos abstratos, e há certa razão nisso,
mas jezus;
lá se vão doze poemas e eu não tenho cópias deles em carbono e você está com
minhas
pinturas também, as melhores; é sufocante;
quer me destruir como fez com todos os outros?
por que não leva meu dinheiro? é o que normalmente fazem com
os bêbados desacordados na esquina de quem batem os bolsos das calças.
da próxima vez leve meu braço esquerdo ou cinquenta contos
mas não meus poemas:
eu não sou Shakespeare
mas vai chegar um tempo em que simplesmente
não haverá mais nenhum, abstrato ou como quer que seja;
sempre haverá dinheiro e putas e bêbados
até a última bomba cair,
mas como Deus disse,
cruzando as pernas,
sei muito bem onde coloquei um bocado de poetas
mas não muita
poesia.
1 432

A Tragédia Das Folhas

despertei para a aridez e as samambaias estavam mortas,
as plantas nos vasos, amarelas como milho;
minha mulher partira
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
cercavam-me com sua inutilidade;
o sol seguia bem, no entanto,
e o bilhete da minha senhoria se quebrava num belo e
resignado tom de amarelo; o que se precisava agora
era de um bom comediante, ao velho estilo, um bobo da corte
com piadas sobre a dor absurda; a dor é absurda
porque ela existe, quando nada mais;
cuidadosamente faço a barba com uma velha navalha
o homem que uma vez tinha sido jovem e
dizia ter gênio; mas
essa é a tragédia das folhas,
as samambaias mortas, as plantas mortas;
e eu caminho por um corredor negro
onde a senhoria se mantém
execrável e decisiva,
mandando-me para o inferno,
balançando seus braços gordos e sudorentos
e gritando
gritando pelo aluguel
porque o mundo falhou conosco
duplamente.
1 175

A Vida de Borodin

na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que ele era apenas um químico
que escrevia música para relaxar;
sua casa vivia cheia de pessoas:
estudantes, artistas, bêbados, vadios,
e ele nunca soube como dizer: não.
na próxima vez em que você ouvir Borodin
lembre-se de que sua esposa usou suas composições
para forrar a caixa de areia do gato
ou para embrulhar as garrafas de leite azedo;
ela sofria de asma e insônia
e o alimentava com ovos moles
e quando ele queria cobrir a cabeça
para se afastar dos sons da casa
ela permitia que ele usasse apenas o lençol;
além disso, geralmente havia alguém
na cama dele
(os dois dormiam em camas separadas quando
dormiam)
e como todas as cadeiras
normalmente estavam ocupadas
costumava dormir nos degraus
envolto em um velho xale;
ela lhe dizia quando cortar as unhas,
para não cantar ou assobiar
nem colocar muito limão no chá
nem espremê-lo com uma colher;
Sinfonia no 2 em Si Menor
Príncipe Igor
Nas estepes da Ásia Central
ele só conseguia dormir colocando um pedaço
de pano negro sobre os olhos;
em 1887 ele compareceu a um baile
na Academia de Medicina
vestido com um festivo traje nacional;
parecia, ao fim, excepcionalmente animado
e quando ele se foi ao chão,
pensaram que ele estava fazendo alguma palhaçada.
na próxima vez em que você ouvir Borodin,
lembre-se disso...
1 074

Para Marilyn M.

deslizando intensamente sobre luminosas cinzas,
alvo de lágrimas de baunilha
seu corpo certeiro acende velas para os homens
em noites escuras,
e agora sua noite é mais escura
do que podem as velas
e nós vamos esquecer você, de alguma maneira,
e isso não é justo
mas os corpos reais estão mais perto
e enquanto os vermes resfolegam por seus ossos,
de modo que eu gostaria de lhe dizer
que isso acontece a ursos e a elefantes
a tiranos e a heróis e a formigas
e aos sapos,
ainda assim, você nos trouxe alguma coisa
um tipo de pequena vitória,
e para isso eu digo: bom
e deixe que larguemos mão do pesar;
como uma flor seca e jogada fora,
esquecemos, relembramos,
esperamos. criança, criança, criança,
ergo minha bebida um minuto inteiro
e sorrio.
1 116

De Graça

esta garota na arquibancada
com os cabelos de um ruivo esmaecido
ficava apoiando seus peitos contra mim
e falando sobre Gardena
mesas de pôquer
mas joguei fumaça em
seu rosto
e falei a ela sobre uma exposição
de Van Gogh
que eu havia visto lá na colina
e naquela noite
quando a levei para casa
ela disse que
Vermelhão era o melhor cavalo
que ela já tinha visto –
até que eu fiquei sem nada. Embora
eu pensasse naquele negócio do Van Gogh
em que haviam cobrado
50 centavos.
1 104

Um Romance Literário

conheci-a de algum jeito por meio de correspondência ou poesia ou revistas
e ela começou a me mandar poemas bem sensuais sobre estupro e luxúria,
e isso misturado a um pouco de intelectualismo
me deixou confuso e peguei o carro e segui para o Norte
por montanhas e vales e autoestradas
sem dormir, saído de um porre, recém-divorciado,
sem emprego, envelhecendo, acabado, ansiando dormir
por cinco ou dez anos, finalmente encontrei um quarto
em uma cidade pequena e ensolarada junto a uma estrada suja,
e fiquei sentado ali fumando um cigarro
pensando, você deve estar totalmente louco,
e então saí dali uma hora depois
para o encontro; ela era mais do que passada,
quase tão velha quanto eu, bem pouco atraente
e ela me deu uma maçã muito dura e ácida
que mastiguei com meus dentes remanescentes;
ela estava morrendo de uma doença desconhecida
algo como asma, e ela disse,
quero lhe contar um segredo, e eu disse,
eu sei: você é virgem, 35 anos.
e ela puxou um caderninho, dez ou doze poemas:
o trabalho de uma vida e eu tinha que lê-los
e tentei ser gentil
mas eles eram muito ruins.
e eu a levei a algum lugar, às lutas de boxe,
e ela tossia em meio à fumaça
e ficava olhando ao redor
para todas aquelas pessoas
e depois para os lutadores
fechando seus punhos.
você nunca fica excitado, não é? ela perguntou.
mas eu fiquei bastante excitado naquela noite nas colinas,
e voltei a encontrá-la mais três ou quatro vezes
ajudei-a com alguns de seus poemas
e ela enfiou a língua quase até a metade da minha garganta
mas ao deixá-la
ela ainda era uma virgem
e uma péssima poeta.
acho que quando uma mulher manteve suas pernas fechadas
por 35 anos
é tarde demais
tanto para o amor
quanto para a
poesia.
1 119

O Dia Em Que Choveu No Museu do Condado de Los Angeles

o judeu se curvou e
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
1 044

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Mário Quintana
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