Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Penicos

nos hospitais em que estive
você vê as cruzes nas paredes
com as finas folhas de palma atrás delas
amareladas e escurecidas

é o sinal para aceitar o inevitável

mas o que realmente machuca
são os penicos
duros debaixo da sua bunda
você está à beira da morte
e tem que dar um jeito de sentar sobre essa
coisa impossível
e urinar e
defecar

enquanto isso na cama
ao lado da sua
uma família de 5 traz mensagens de esperança
para um caso incurável
de doença cardíaca
câncer
ou putrefação generalizada.

o penico é uma pedra impiedosa
uma horrorosa zombaria
porque ninguém quer arrastar seu corpo agonizante
até o banheiro e voltar.

você se arrasta
mas eles mantêm as barras erguidas
você está no seu leito
seu minúsculo leito de morte
e quando a enfermeira volta
uma hora e meia depois
e não há nada no penico
ela o encara com seu mais
imoderado olhar

como se à beira da morte
alguém estivesse apto a fazer
as coisas mais comuns
vez após vez.

mas se você pensa que isso é ruim
apenas relaxe
e deixe a coisa vir
toda
nos lençóis

então você ouvirá
não só da enfermeira
mas também
de todos os outros pacientes...

a parte mais complicada de morrer
é que eles esperam que você
se vá
como um disparo em direção ao
céu noturno

algumas vezes isso pode ser feito

mas quando você precisar da bala na espingarda
olhará
e descobrirá
que os fios sobre sua cabeça
conectados anos atrás
ao botão
foram cortados
retalhados
eliminados
transformados
em algo
tão inútil quanto
o penico.
1 116

Garotas Voltando Para Casa

as garotas voltam para casa em seus carros
e eu me sento à janela e
assisto.

há uma garota num vestido vermelho
dirigindo um carro branco
há uma garota num vestido azul
dirigindo um carro azul
há uma garota num vestido rosa
dirigindo um carro vermelho.

quando a garota no vestido vermelho
desce do carro branco
eu olho para suas pernas

quando a garota no vestido azul
desce do carro azul
eu olho para suas pernas
quando a garota no vestido rosa
desce do carro vermelho
eu olho para suas pernas.

a garota no vestido vermelho
que desceu do carro branco
tinha as melhores pernas

a garota no vestido rosa
que desceu do carro vermelho
tinha pernas razoáveis

mas sigo lembrando da garota no vestido azul
que desceu do carro azul

vi suas calcinhas

você não sabe o quão excitante a vida pode ser
por volta
das 5h25 da tarde.
1 160

Certo Piquenique

que me lembra que
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava

meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto

certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata

por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade

todos riam
eu não.

mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.

seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?

percebi o quê?

eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.

oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.

à nossa bela criança,
ela disse.

viramos os copos.
1 166

Uma Arte

todo o percurso desde o México
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.

todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.

todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.

retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.

retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.

e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.

é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
1 081

O Bom Perdedor

a face vermelha
do Texas
mais a idade
ele está num hipódromo
de L.A.
falando com
um grupo de pessoas.
é o 4º páreo
e ele está pronto pra
partir:
“bem, até mais,
camaradas, que Deus os abençoe,
vejo vocês
amanhã...”

“um cara bacana.”
“é.”

ele segue para o
estacionamento para
entrar num carro de
12 anos

dali ele seguirá
para uma pensão

seu quarto não terá
nem toalete nem
chuveiro

seu quarto terá
uma janela com uma
persiana de papel rasgada
e do lado de fora haverá
uma parede de cimento descascada
grafitada por cortesia
de uma gangue de jovem chicanos

ele tirará os
sapatos e
deitará

estará escuro
mas ele não acenderá
a luz

ele não tem nada
a fazer.
1 197

As Garotas do Hotel Verde

são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.

as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.

entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.

“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.

lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.

engato a
primeira,
me afasto.

haverá algumas
risadas
esta noite.
1 121

Loucura

não bato com meus punhos nas paredes
apenas sento
mas a loucura entra de assalto
uma maré de loucura.

a mulher do quintal dos fundos urra,
chora todas as noites.
às vezes a polícia chega
e a leva por um ou dois dias.

eu acreditava que ela sofria com a perda
de um grande amor
até que um dia ela superou aquilo e me contou
sua história –
ela perdera 8 apartamentos
para um gigolô que a havia logrado e ficado
com eles.
ela urrava e chorava por causa da perda das propriedades.
começou a soluçar enquanto me contava aquilo
então com uma boca cheirando a alho e cebolas
delineada com um batom vencido
ela me beijou e disse:
“Hank, ninguém te ama se você não tiver dinheiro”.

ela é velha, quase tão velha quanto eu.

ela se foi, ainda chorosa...

na manhã seguinte às 7h20 dois enfermeiros negros
apareceram com uma maca,
só que bateram na minha porta.

“vamos lá, cara”, disse o mais alto.
“esperem”, eu disse, “isso é um engano.”

eu estava numa terrível ressaca
parado com meu roupão surrado
os cabelos caindo sobre os olhos.

“este é o endereço que nos deram, cara,
aqui não é o 5437?”

“sim.”

“vamos lá, cara, não foda com a gente.”

“a mulher que vocês querem mora lá nos fundos.”

os dois contornaram o pátio.

“esta porta aqui?”

“não, não, esta é a minha porta dos fundos. olhem, subam esses degraus atrás de vocês. é a porta da direita, a que está com a caixa do correio pendurada.”

eles foram até lá e bateram na porta. eu vi os dois a levarem
consigo. não usaram a maca. ela seguiu entre eles.
e me passou rapidamente a impressão de que estavam
[levando
a pessoa errada, mas não tive certeza.
1 229

Um Bom Sujeito

recebo telefonemas
demais.
eles procuram
pela criatura.
não deviam fazer isso.

nunca liguei para
Knut Hamsun ou
Ernie ou
Céline.

nunca liguei para
Salinger
nunca liguei para
Neruda.

esta noite recebi
uma chamada:

“olá. você é
Charles Bukowski?”

“sim.”

“bem, eu tenho uma
casa.”

“e?”

“um bordel.”

“entendo.”

“li seus
livros. tenho
um puteiro num barco em
Sausalito.”

“beleza.”

“quero lhe passar o meu
número de telefone. quando
você vier a San Franciso
eu lhe pago um drinque.”

“certo. me passa o
número.”

anotei-o.

“mantemos um negócio de categoria. estamos
em busca de advogados e senadores,
cidadãos da elite, assaltantes,
cafetões, e por aí vai.”

“eu ligo pra você quando
estiver por aí.”

“boa parte das garotas
lê seus livros. elas
o amam.”

“sério?”
“sério.”

nos despedimos.

gostei daquela
ligação.
1 069

Hora da Cagada

meio bêbado
deixei a casa dela
suas cobertas quentes
e eu estava de ressaca
não sabia sequer que cidade era
aquela.
saí caminhando sem conseguir
achar meu carro.
mas eu sabia que ele tinha que estar em algum lugar.
e logo eu também estava
perdido.
caminhei a esmo. era a
manhã de uma quarta-feira e eu podia
ver o oceano ao sul.
mas toda aquela bebida:
a merda estava prestes a escorrer
para fora de mim.
segui em direção ao
mar.
avistei uma estrutura de tijolos
marrons nos limites
da rebentação.
entrei. havia um
velho gemendo em um
dos reservados.
“olá, meu chapa”, ele disse.
“olá”, eu disse.
“está um inferno lá fora,
não?”, o velho
perguntou.
“sim”, respondi.
“precisa de um trago?”
“nunca bebo antes do meio-dia.”
“que horas você tem aí?”
“11h58”
“temos dois minutos.”
me limpei, dei a descarga, subi minhas
calças e me afastei.
o velho continuava no seu reservado,
gemendo.
apontou para uma garrafa de vinho
junto a seus pés
quase vazia
e eu a apanhei e tomei cerca de metade
do que ainda restava.
estiquei para ele uma nota de dólar, velha e
amassada
então segui para o lado de fora e vomitei
num gramado.
olhei para o oceano e o
oceano parecia bom, cheio de azuis e
verdes e tubarões.
saí dali e refiz o caminho
até a rua
determinado a encontrar meu automóvel.
custou-me uma hora e quinze minutos
e quando finalmente consegui encontrá-lo
entrei e dei a partida
fingindo saber tanto quanto
o homem
ao lado.
1 153

Um Poema de 56 Anos

segui com duas damas
até Venice
para dar uma olhada nuns móveis antigos.
estacionei no fundo da loja
e entrei com elas.
US$ 125 por um relógio, US$ 700 por 6 cadeiras.
parei de olhar.

as damas circulavam
olhando tudo.
tinham classe.
me despedi de uma delas
e dei o fora.

era domingo e o bar
não estava muito melhor,
todos nervosos e jovens
e loiros e pálidos.
terminei minha bebida, peguei 4 cervejas
na loja de conveniências
e sentei em meu carro para bebê-las.

ao terminar a 4ª cerveja
as damas apareceram.
perguntaram-me se eu estava bem.
eu lhes disse que toda experiência
era válida
e que elas me haviam tirado de
meu habitualmente negro estado de
espírito.

a que eu conhecia melhor havia comprado uma mesa
com tampo de mármore por US$ 100.
ela possuía seu próprio negócio e era uma
pessoa civilizada.
civilizada o suficiente para conhecer um vizinho
que tinha uma van
e enquanto eu estava acomodado em seu apartamento
[bebendo
um Zeller Schwarze Katz 1974
eles foram apanhar a mesa.

mais tarde ela quis saber a minha opinião sobre
a mesa e eu disse que me parecia bacana,
às vezes eu perdia cem pratas nos
cavalinhos. assistimos tevê na cama e mais tarde
naquela noite eu não consegui gozar. pensei que era
porque não conseguia deixar de pensar na mesa de
[mármore.
tinha certeza de que era isso. eu não possuía nenhuma
[antiguidade
em mármore na minha casa, quase nunca tive problemas
[sexuais na
minha casa. algumas vezes, mas
muito raramente.
não consigo entender toda essa função de
antiguidades

tenho certeza de que é uma gigantesca
vigarice.
1 129

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Mário Quintana
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