Poemas neste tema

Cidade e Cotidiano

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Cidades, com seus comércios (...)

Cidades, com seus comércios (...)
Tudo é mesmamente estranho, mesmamente
Descomunal ao pensamento fundo
Estranhamente incompreendido.
Tudo é mistério, tudo é transcendente
Na sua complexidade enorme,
Um raciocínio visionado e exterior;
Uma ordeira misteriosidade,
Silêncio interior cheio de som.
940
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Meu cérebro fotográfico...

Meu cérebro fotográfico...
Vaga náusea física... o cies no longe cheira-me a aqui perto...
Que tristeza a de partir! What time did the captain say an order to leave? de partir e deixar atrás de nós
Não só as pedras da cidade, e as casas e a cidade vista de longe
Mas oh, [...] just ever and ever on that village on the other side up at river, it's just perfect in this [...]
Também as memórias antigas, as carícias maternas hoje na sepultura,
Tudo isso parece que ficou aqui, deixado aqui, e nós indo sem levar
                 isso tudo... Non, Monsieur, c'est de l'autre bord...

Ó Chico, não te chegues para fora
([...] oh!) podes cair!

Que lume na lenha da velha lareira provinciana — o senhor dá-me
        licença?... passa uma farda de guarda fiscal pelo meu ombro
        — e dos contos que me contavam nas noites de inverno
         u-uf-u-u-u-u... o apito do vapor...

Et vous aussi, Mark — Sim senhor, para o Rio de Janeiro
Tenho lá... yes, all the time... Ó pobre pequenino rio da minha terra!
O ruído da água — shl, shl, shlbrtsher, shlbrtsher, e o meu velho primo, perdido para sempre
Quase que me esqueço de me poder lembrar dele
         came into the smoking room... God [...] Lisboa? Oh, yes, but
         not (entram para dentro alguns dias [...] através da minha sensação
        deles no meu cérebro que não tem olhos para os ver)
u-u-u-u-u-u-u
        u u-u
        u-u-u-u-u-u
u-u-u-u-u-u-u-u-u
        u-u-u-u-u-u-u
        u-u-u-u-u-u u
        u-u-u
                  u-u-u
                  u-u
u-fff-(uu uff)
         f.f.
        (fff)
885
Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho

O AMOR NAS ESCADAS DO METRO

De quem é o braço?
E os cabelos sujos, roídos pela caspa
e falta de água?
E a perna que enlanguesce sob o tecido ruço
que não retém memória?

Meu deus, dirão os velhos ao descer com vagares
as escadas do metro, a mocidade agora
é sexo só e sujo a rolar pelo chão.

Mas quem deita o olhar com mais ternura
e calma
sobre o novelo dos dois
descobre no ar em volta a tessitura tensa
do desejo, um halo amarrotado pela fugaz curvatura
do sonho.

E na lama pérfida que se sobrepõe aos beijos
a parábola fiel às gerações
da terra.

Forçoso será então que caia a chuva,
e cubra a carne sôfrega
exposta à multidão.
Os solitários amaldiçoam toda a inocência
exibida em degraus, caída de bocas tão imundas,
tão perto do inferno
e do êxtase.

O amor pode ser também dalguns que passam
de olhos feridos,
o coração apertado de sangue
e breve compaixão.

Mas só os dois, ali, enleados na energia da alma,
são um palco da alegria do mundo,
gratuito,
à distância da morte e da sua serpente
circular.

São jovens, e estão a soletrar
tão mansos, o horror apreendido pelas bocas
que despontam,
como a planta se eleva do chão endurecido,
como o animal à luz no limiar do medo.

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.
722
Armando Silva Carvalho

Armando Silva Carvalho

Soneto Panorâmico

Do alto deste hotel de cinco estrelas
Lisboa não morreu. Nesta revista
até se fala em novas caravelas
e pra tamanho ardor tão curta a vista.

Dum lado o rio do outro o cimenteiro
nas suas sete quintas da marinha
em cima o céu de barro do barbeiro
em baixo o sol a fazer farinha.

Nos silos da mais sábia segurança
boémia estouvanada e bem ligeira
os anjos dão as mãos na contradança

Da seringa mais nobre e derradeira
que existe a refulgir na lua mansa
à esquina onde se dorme a noite inteira.
685
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Balanço de Março de 1959

Março. Visita da princesa inglesa.
Raivou o calor desabaladamente.
Foi culpa mesmo da duquesa,
Que é Kent.

Fui ao Museu de Arte Moderna,
À exposição dos neoconcretos.
Motivos por demais secretos
Poderão construir obra eterna?

Em Lígia, tão dotada, a pintura transcende
À tela e incorpora a moldura.
Vendo e escutando é que se aprende:
Aprendi, mas não vi pintura.

Uma palavra só e em torno
Muito branco basta a Gullar
Para um belo poema compor
No estilo mais oracular.

Minha amiguinha X pretende
Que o entende. Será que entende?

Jaime Maurício me apresenta
era Pedrosa, hoje Martins.
Saio azul na tarde nevoenta,
Neoconcretizado até os rins.

Deixa Boto — última prova
Em sua terrena lida —
"Os movimentos da vida
Pelos silêncios da cova."
539
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Saudades do Rio Antigo

Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
1 212
Luís Quintais

Luís Quintais

Subjectivas mesas

(sobre Wallace Stevens)

É com uma estranha malícia
que distorço o mundo.
Assim se revigora o opaco
e a possibilidade de invenção, ainda.

O cimento é o tonal modo
de nos agarrar às significativas paisagens
a ocidente.

Dobram-se como árvores, as frases,
sob o vento que veio do nada.
Asas destroem a insaciada ordem
que nos governa, a polis de anátema
que se instala no texto.

Vejamos: a cidade começa aqui
nas ásperas figuras do entardecer.
Descrevo o que flutua
neste espaço, a infigurável

destreza moderna trucidando
com dedos de morte
os acantos e as cicutas
que só existem em reais palavras
como subjectivas mesas
sobre as quais me desloco,
velozmente.
681
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Aos Sábados repousava

Aos Sábados repousava:
instalava-me no lugar mais cómodo
da minha cultura ocidental,
de cachimbo num quadro de época,
e levantava com o olhar
as rolas passeabundas da marquise.

Nos intervalos,
cultivava em pequenos parágrafos,
ao lado de couves-flor à sombra dum ginjal,
a história universal
do jeito como andas pela sala,
Adélia, Rosa-Maria, Lulú,
toda feita de rendas, toda gazes e veludos,
toda cheia de recantos africanos,
penas e cheiros, paisagens com garrafas,
pretos e pelicanos,
savanas e leopardos, minas gerais,
anéis e diamantes,
casas de campo em Vigo, Barcelona, Abrantes,
toda feita contas em dólares nos bancos da Suíça,
vistos para Estados Unidos,
minha fufa, minha farofa com linguiça,
toda Armani,
toda Gucci,
toda despida nos filmes de Mizoguchi.
À mesma hora,
na sala de microfilmes da Torre do Tombo,
uma turma de dez alunos curiosos
desfia o pergaminho do meu cancioneiro pessoal
num aparato crítico fundamental:
Filho de mãe incógnita,
fruto de um amor irregular,
(toma nota e vê lá se aprendes):
Carlos Fradique Mendes.
592
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Poeta na Praça da Alegria

Não sou infeliz. Não, não me quero matar. 
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias 
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas. 
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa. 
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles. 

Não, não guardo nenhum sentido escondido. 
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda. 
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor. 
Isto é apenas um croché 
esquecido em cima do refrigerador. 

Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

Obrigado por procurarem a eternidade da raça. 
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.
1 102
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Abro a porta

Abro a porta.
Olho constantemente para o mapa
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa
antes de dormir.

Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.

Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz,
com ou sem vodka.
666
Golgona Anghel

Golgona Anghel

Porque falta meia hora

Porque falta meia hora antes de 
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.

Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.

O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.

Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!

O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.
987
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Elegia Inútil

Lágrimas, duas a duas,
choraram dentro de mim,
ao ler que o Prefeito Alvim
mudou o nome de muitas ruas.

Nomes de ruas que havia
no Rio de antigamente!
(A respeito, minha gente,
ainda há a Rua da Alegria?)

Eram tão lindos! Assim:
Rua Bela da Princesa
(que distinção, que beleza!
nome que cheira a jardim).

Rua Direita da Sé:
nome firme, nome nobre;
nome em que nada há que dobre;
nome-afirmação de fé!

Havia as ruas de ofício:
Dos Ourives, dos Latoeiros...
Becos: Beco dos Ferreiros...
E havia as ruas do vício...

Muito nome foi mudado,
mas o novo não pegou:
nunca ninguém não falou
senão Largo do Machado.

(Este nome pode ser,
quando muito, acrescentado,
assim, Largo do Machado
de Assis gosto de dizer.

Na do Catete, contou-me
Z.., o mestre escreveu Brás Cubas.
Darás na casa se subas
pela rua do seu nome.)

Esta Rua do Ouvidor
já foi Caminho do Mar!
(Ouvidor pode passar,
mas o antigo era melhor.)

Não tens laranjas, mas cheiras
aos frutos da minha infância:
ah inesquecível fragrância
da que ainda és das Laranjeiras!

O Largo da Mãe do Bispo
há muito tempo acabou-se.
(E hoje acabou o que era doce
ainda: a Rua do Bispo...)

Vais ter um nome pequeno,
Rua do Jogo da Bola!
Vais ter um nome pachola,
ai Travessa do Sereno!
1 223
Filipa Leal

Filipa Leal

SMS

Porto. 20h. Ninguém canta.
760
Filipa Leal

Filipa Leal

Do medo em diante

Trazia a novidade de não ter medo
de descer a rua e atravessar a sombra
dos prédios atirada como arma
de granito, como festejo de civilização.

Perdera subitamente o medo do seu século,
do século que se vivia naquela rua
onde alguns se morriam à injecção,
do século das luzes dos seus vizinhos
a apagarem se ao mesmo tempo
sem nunca terem trocado nada que não
essa distância de garagem, essa coincidência
dos horários civilizacionais.

Trazia a consciência de ser europeia
(África doera-lhe nos olhos como holofotes)
e de não querer escrever sobre esse assunto.
Mas não ter medo de descer aquela rua,
não ter medo de apagar sozinha a luz àquela hora,
não ter medo de nunca estacionar o carro na garagem
e de estar por isso sempre mais só do que os vizinhos,

pensava,

era suficientemente novo
para o poema.
495
Filipa Leal

Filipa Leal

Digo-te por isso

Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
873
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Cartão-postal

Paris encanta. Londres mete medo.
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
1 135
Filipa Leal

Filipa Leal

Traindo o poema

Juro: eu tinha prometido não escrever
este poema. Não gosto de supermercados 
nem de poetas de supermercado, mas hoje enchi
a casa de manteiga e não pude evitar uma sensação
de metáfora, uma ironia a escorregar-me nos dedos
como anúncio de contemporaneidade. Juro: eu não preciso
de tantas embalagens, nem preciso deste poema,
mas há tantos dias que não posso tomar o pequeno-almoço
na minha casa sem manteiga, sem poema, que hoje enchi-me
de coragem para tudo isto.
E juro: apesar da traição, sinto-me hoje mais
contemporânea
do que nunca.
417
Filipa Leal

Filipa Leal

Hoje, também os carros dançam

Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu – que
mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras... Eu, que mudei
de música e de carro, de saudade, de quarto... Eu – que mudei de computador
e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima... Eu – que mudei
de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu... Eu – que
mudei de lume, que mudei de medos... Eu – que mudei de planos, de lençóis,
de secretária... Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô,
de rituais e de supermercado... Eu – que mudei de tudo que em quase nada
mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.
694
Filipa Leal

Filipa Leal

A cidade líquida

A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum
lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água.
Como sobreviver a uma cidade líquida?

(Eu tentava sustentar-me como um barco.)

As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios,
os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na
soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os
marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a
entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em
plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os
lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A
cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras
cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas.
Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam
aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e
de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior
das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram
soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade
líquida.

(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)
726
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Minha Gente Salvemos Ouro Preto

As chuvas de verão ameaçaram derruir Ouro Preto.
Ouro Preto, a avozinha, vacila.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.

Bem sei que os monumentos veneráveis
Não correm perigo.
"Mas Ouro Preto não é só o Palácio dos Governadores
A Casa dos Contos,
A Casa da Câmara,
Os templos,
Os chafarizes,
Os nobres sobrados da Rua Direita.

Ouro Preto são também os casebres de taipa de sopapo
Agúentando-se uns aos outros ladeira abaixo,
O casario do Vira-Saia,
Que está vira-não-vira enxurro,
E é a isso que precisamos acudir urgentemente!

Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
Homens ricos do Brasil
Que dais quinhentos contos por um puro-sangue de corridas,
Está certo,
Mas dai também dinheiro para Ouro Preto.

Grã-finas cariocas e paulistas
Que pagais dez contos por um modelo de Christian Dior
E meio conto por uma permanente no Baldini,
Está tudo muito certo,
Mas mandai também dez contos para consolidar umas quatro casinhas de Ouro Preto.


(Nossa Senhora do Carmo de Ouro Preto vos acrescentará...)
Gentes da minha terra!
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa vontade de autonomia nos sonhos frustrados dos Inconfidentes.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa arte nas igrejas e esculturas do Aleijadinho.
Em Ouro Preto alvoreceu a nossa poesia nos versinhos do Desembargador.

Minha gente,
Salvemos Ouro Preto.
Meus amigos, meus inimigos,
Salvemos Ouro Preto.
1 303
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Retrato

O sorriso escasso,
O riso-sorriso,
À risada nunca.
(Como quem consigo
Traz o sentimento
Do madrasto mundo.)

Com os braços colados
Ao longo do corpo,
Vai pela cidade
Grande e cafajeste,
Com o mesmo ar esquivo
Que escolheu nascendo
Na esquiva Itabira.

Aprendeu com ela
Os olhos metálicos
Com que vê as coisas:
Sem ódio, sem ênfase,
Às vezes com náusea.

Ferro de Itabira,
Em cujos recessos
Um vedor, um dia,
Um vedor — o neto —
Descobriu infante
As fundas nascentes,
O veio, o remanso
Da escusa ternura.
1 386
Filipa Leal

Filipa Leal

A nossa aldeia

Era uma aldeia sem luz
directa. Uma aldeia de paredes
amarelas cujos habitantes reagiam
à sombra das palavras e as mediam
(de que tamanho o verbo?),
lavavam, preparavam para os outros.
Era uma aldeia onde se decidia a palavra
do dia seguinte, a ideia do dia seguinte,
a vida e a morte do dia seguinte.
Era uma aldeia com um plano:
o plano era simples: o plano era concreto:
o plano era difícil como a luz.
Era uma aldeia interdita na possibilidade
do sol mas tão plena de esforço na linguagem.
Era uma aldeia cujos habitantes só poderiam
comprar uma aldeia com janelas, uma aldeia
cor de mundo, se os outros habitantes,
os que estavam lá fora, lessem realmente
as palavras que eles para eles preparavam.
Era, apesar de tudo, uma velha aldeia
sem ressentimentos.
Porque a nossa aldeia era única.
Era a única aldeia no centro
da cidade.
178
Filipa Leal

Filipa Leal

A cidade esquecida

Para o António

Ela disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele disse: Sou um rio.
Ficaram em silêncio à janela
cada um à sua janela
olhando a sua cidade, o seu rio.
Ela disse: Não sou exactamente uma cidade.
Uma cidade é diferente de uma cidade
esquecida.
Ele disse: Sou um rio exacto.
Agora na varanda
cada um na sua varanda
pedindo: Um pouco de ar entre nós.
Ela disse: Escrevo palavras nos muros que pensam em ti.
Ele disse: Eu corro.
De telefone preso entre o rosto e o ombro
para que ao menos se libertassem as mãos
cada um com as suas mãos libertas.
Ela temeu o adeus, disse: Sou uma cidade esquecida.
Ele riu.

722
Filipa Leal

Filipa Leal

Vale Formoso

No Vale formoso, vou fumando cigarros,
vou tomando cafés, vou fugindo das abelhas,
vou fazendo de conta que aprecio
a natureza.

No Vale formoso, vou aprendendo o caminho
para o mercado, vou comprando fruta, vou pesando
o peixe.

No Vale formoso, vou escrevendo versos,
consciente porém de que seria mais fácil conquistar-te
com uma caldeirada de raia
do que com o poema.
 
836