Lista de Poemas

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Hermes Fontes

Hermes Fontes

Jogos de Sombras

Sempre que me procuro e não me encontro em mim,
pois há pedaços do meu ser que andam dispersos
nas sombras do jardim,
nos silêncios da noite,
nas músicas do mar,
e sinto os olhos, sob as pálpebras, imersos
nesta serena unção crepuscular
que lhes prolonga o trágico tresnoite
da vigília sem fim,
abro meu coração, como um jardim,
e desfolho a corola dos meus versos,
faz-me lembrar a alma que esteve em mim,
e que, um dia, perdi e vivo a procurar
nos silêncios da noite,
nas sombras do jardim,
na música do mar...


Publicado no livro A Fonte da Mata...: 1830 em 1930 (1930). Poema integrante da série A Fonte.

In: FONTES, Hermes. Poesias escolhidas. Sel. e pref. Oliveira e Silva. Rio de Janeiro: Epasa, 1944. p.362-363. (Coleção de lirismo brasileiro
2 889
Lao Zi

Lao Zi

Ser amado dá-te força, amar dá-te coragem.

Ser amado dá-te força, amar dá-te coragem.
3 959
Martha Medeiros

Martha Medeiros

Para que serve uma relação?

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, 
À vontade para concordar com ela e discordar dela. 
Para ter sexo sem "não-me-toques" ou para cair no sono logo após o jantar. 

Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas. 
Para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete. 
Para ter alguém com quem viajar para um país distante. 

Para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso. 
Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, 
Estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo. 

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações

Para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, 
E deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa. 

Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, 
E cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, 
E cobrirem o corpo um do outro quando o cobertor cair. 

Uma relação tem que servir para um perdoar as fraquezas do outro, 
Para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.
2 123
Ruy Belo

Ruy Belo

A missão das folhas

Naquela tarde quebrada
contra o meu ouvido atento
eu soube que a missão das folhas
é definir o vento


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
3 804
Ruy Belo

Ruy Belo

Ah, a música

Quem terá deixado esquecida
esta música ouvida num canto de rua?
Ninguém de quem passa nela repara
No entanto - é ela - faltava
no dia de chuva
No meu dia de chuva?
Meu seria decerto este dia
pois por mais precário que eu seja
nenhuma chuva fora podia
cair se acaso em mim não caísse
Cai chuva e há música em meu coração
Era mera ilusão o dia de chuva


Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 50 | Editorial Presença Lda., 1984
2 049
Albano Dias Martins

Albano Dias Martins

Ainda te falta dizer isto

Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.
1 697
Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

FLORESCE

Últimos Sonetos

Floresce, vive para a Natureza,
para o Amor imortal, largo e profundo.
O Bem supremo de esquecer o mundo
reside nessa límpida grandeza.

Floresce para a Fé, para a Beleza
da Luz, que é como um vasto mar sem fundo,
amplo, inflamado, mágico, fecundo,
de ondas de resplendor e de pureza.

Andas em vão na Terra, apodrecendo
à toa pelas trevas, esquecendo,
a Natureza e os seus aspectos calmos.

Diante da luz que a Natureza encerra
andas a apodrecer por sobre a Terra,
antes de apodrecer nos sete palmos!

3 163
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Shelley sem anjos e sem pureza,

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,mas não sei
que dizer-te desta história de maneira
que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite
que te há-de trazer e nos há-de de deixar sós


de As Mãos e os Frutos
5 863
Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral

Assim se Revisita o Coração

Só mal tocando as cordas
Da memória
Consegue o coração ressuscitar

Porque era este lugar
que eu precisava agora
como em deserto até
ao infinito,
e de repente,
uma gravidez imensa,
um cacto verde e limpo

Porque os olhos conhecem
estes sons
de dar à luz o vento
e são-lhe amantes
de tangível luz

Só mal tangendo as cordas
da memória
como estas flores
se tingem de alegria

Porque era neste azul
que eu me queria
como a rocha transpira
e se resolve
em mar
4 982
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

A Mata

A mata agita-se, revoluteia, contorce-se toda e sacode-se!
A mata hoje tem alguma coisa para dizer.
E ulula, e contorce-se toda, como a atriz de uma pantomima trágica.
Cada galho rebelado
Inculca a mesma perdida ânsia.
Todos eles sabem o mesmo segredo pânico.
Ou então — é que pedem desesperadamente a mesma instante coisa.

Que saberá a mata? Que pedirá a mata?
Pedirá água?
Mas a água despenhou-se há pouco, fustigando-a, escorraçando-a, saciando-a como aos alarves.

Pedirá o fogo para a purificação das necroses milenárias?
Ou não pede nada, e quer falar e não pode?
Terá surpreendido o segredo da terra pelos ouvidos finíssimos das suas raízes?

A mata agita-se, revoluteia, contorce-se toda e sacode-se!
A mata está hoje como uma multidão em delírio coletivo.

Só uma touça de bambus, à parte,
Balouça... levemente... levemente... levemente...
E parece sorrir do delírio geral.

Petrópolis, 1921
7 756
Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

PROSA

Hipérbole! desta memória
Triunfalmente não tens tido
Como erguer-te, hoje obscura história
Em livro de ferro vestido:

Pois instalo, pela ciência,
O hino de almas espirituais
Na obra de minha paciência,
Atlas, herbários e rituais.

Passeávamos nosso semblante
( Éramos dois, posso afirmar)
Nos encantos da cena adiante,
Ó irmã, para os teus reafirmar.

Turva-se a era de autoridade
Quando, sem motivo, se fala
Desse sul que a duplicidade
De nossa inconsciência assinala

Que, chão multíris, seu lugar,
Se existiu o deverão
Saber, não traz nome que ecoar
O ouro da trompa de Verão.

Sim, em uma ilha que o ar
Enche não de visões mas vista
Toda flor se abria invulgar
Sem em conversa ser revista.

Tais, imensas, que oportuna
Cada uma se preparou
Com lúcido entorno, lacuna
Que dos jardins a separou.

Idéias, glória do desejo,
Tudo em mim se exaltou de ver
As irídeas em cortejo
Surgir para o novo dever,

Mas seu olhar, terna e tranqüila,
Não o levou esta irmã
Além do sorriso e, a ouvi-la,
Cuido de meu antigo afã.

Oh! o Espírito de porfia
Saiba, quando estamos silentes,
Que a haste de mil lírios crescia
Por demais para nossas mentes

E não como a margem chora,
Se o jogo monótono mente
E quer a amplitude afora
Neste meu susto viridente

De ouvir todo o céu e a carta
Firmados em meus passos mil
Vezes, pela onda que se aparta,
Que esse país não existiu.

A criança do êxtase abdica
E douta já pelos caminhos
- Anastásio, é o que ela indica,
Criado p'ra eternos pergaminhos,

Antes de um túmulo rir em
Qualquer clima, seu antepassado,
Do nome - Pulquéria! - que tem,
Pelo alto gladíolo ocultado.


3 824
Florbela Espanca

Florbela Espanca

Torre de Névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...”

Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Céu!...
4 769
Federico García Lorca

Federico García Lorca

Grito Hacia Roma

(Desde La Torre Del Crysler Building)
Manzanas levemente
heridas
por los finos espadines de plata,
nubes rasgadas por una mano de coral
que lleva en el dorso una almendra de fuego,
peces de arsénico como tiburones,
tiburones como gotas de llanto para cegar una multitud,
rosas que hieren
y agujas instaladas en los caños de la sangre,
mundos enemigos y amores cubiertos de gusanos
caerán sobre ti. Caerán sobre la gran cúpula
que untan de aceite las lenguas militares
donde un hombre se orina en una deslumbrante paloma
y escupe carbón machacado
rodeado de miles de campanillas.
Porque ya
no hay quien reparta el pan ni el vino,
ni quien cultive hierbas en la boca del muerto,
ni quien abra los linos del reposo,
ni quien llore por las heridas de los elefantes.
No hay más que un millón de herreros
forjando cadenas para los niños que han de venir.
No hay más que un millón de carpinteros
que hacen ataúdes sin cruz.
No hay más que un gentío de lamentos
que se abren las ropas en espera de la bala.
El hombre que desprecia la paloma debía hablar,
debía gritar desnudo entre las columnas,
y ponerse una inyección para adquirir la lepra
y llorar un llanto tan terrible
que disolviera sus anillos y sus teléfonos de diamante.
Pero el hombre vestido de blanco
ignora el misterio de la espiga,
ignora el gemido de la parturienta,
ignora que Cristo puede dar agua todavía,
ignora que la moneda quema el beso de prodigio
y da la sangre del cordero al pico idiota del faisán.
Los maestros
enseñan a los niños
una luz maravillosa que viene del monte;
pero lo que llega es una reunión de cloacas
donde gritan las oscuras ninfas del cólera.
Los maestros señalan con devoción las enormes cúpulas sahumadas;
pero debajo de las estatuas no hay amor,
no hay amor bajo los ojos de cristal definitivo.
El amor está en las carnes desgarradas por la sed,
en la choza diminuta que lucha con la inundación;
el amor está en los fosos donde luchan las sierpes del hambre,
en el triste mar que mece los cadáveres de las gaviotas
y en el oscurísimo beso punzante debajo de las almohadas.
Pero el viejo
de las manos traslucidas
dirá: amor, amor, amor,
aclamado por millones de moribundos;
dirá: amor, amor, amor,
entre el tisú estremecido de ternura;
dirá: paz, paz, paz,
entre el tirite de cuchillos y melones de dinamita;
dirá: amor, amor, amor,
hasta que se le pongan de plata los labios.
Mientras tanto,
mientras tanto, ¡ay!, mientras tanto,
los negros que sacan las escupideras,
los muchachos que tiemblan bajo el terror pálido de los directores,
las mujeres ahogadas en aceites minerales,
la muchedumbre de martillo, de violín o de nube,
ha de gritar aunque le estrellen los sesos en el muro,
ha de gritar frente a las cúpulas,
ha de gritar loca de fuego,
ha de gritar loca de nieve,
ha de gritar con la cabeza llena de excremento,
ha de gritar como todas las noches juntas,
ha de gritar con voz tan desgarrada
hasta que las ciudades tiemblen como niñas
y rompan las prisiones del aceite y la música,
porque queremos el pan nuestro de cada día,
flor de aliso y perenne ternura desgranada,
porque queremos que se cumpla la voluntad de la Tierra
que da sus frutos para todos.

3 805
Ulisses Tavares

Ulisses Tavares

Soneto Desbundado

a poesia pode ser quadrada
enquadrada para sê-la
camisa-de-força rimada
fazer ouvir estrelas.

nada impede também a poesia
de não falar coisa com coisa
igual jacaré escrevendo na lousa
em vez de preta, da cor do dia.

por que não a poesia, menina
cantando detalhes simples
um beijo, pulo na piscina?

tímida, pirada, sortida
negócio de poesia é este: riiip
rasgar o coração da vida.


In: TAVARES, Ulisses. Caindo na real. Il. Angeli. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.73. (Jovens do mundo todo
7 267
David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira

Testamento

Que fique só da minha vida

um monumento de palavras

Mas não de prata Nem de cinza

Antes de lava Antes de nada

Daquele nada que se aviva

quando se arrisca uma viagem

por entre os pântanos da ira

além do sol das barricadas

Ou quando um poço que cintila

parece o tecto de uma sala

Ou quando importa que se extinga

dentro de nós a inexacta

irradiação que vem das criptas

em que o azul nos sobressalta

em que à penumbra se diria

que se acrescenta o som das harpas

Ou quando a terra não expira

senão segredos feitos de água

Ou quando a morte nos avisa

Ou quando a vida nos agarra

Adeus ó pombas

todas iguais ante as muralhas

Adeus veredas invisíveis

que na floresta nos aguardam

Adeus ó barcos à deriva

Adeus canais Adeus guitarras

Adeus ó sílabas da brisa

Adeus sibilas ningas cabras

tantas que a Deus se prometiam

mas só adeuses encontravam

Adeus ó deusas de partida

no meu minuto de chegada

Adeus ardentes evasivas

a ver se um pouco as demorava

Se as demorava ou demovia

de tão depressa me deixarem

Adeus ó portas clandestinas

que ao fim da tarde se entreabrem

Adeus adeus íntimas vítimas

das cerimónias implacáveis

Como deixar-vos todavia

se as vossas mãos as vossas faces

ora parecem despedir-me

ora conseguem renovar-me

E tantas tantas tantas ilhas

no mar que não nos limitasse

Como deixar-vos se na linha

deste horizonte aquela praia

tão de repente se aproxima

tão de repente se me escapa

Jorram vulcânicas as crinas

de récuas de éguas subaquáticas

Jorram do fundo. E à superfície

crescem as ilhas assombradas

Eis que de longe lembras liras

mas entre as ondas só navalhas

É quando o poeta menos grita

que mais se crê nas suas lágrimas

Fique porém de quanto sinta

um monumento de palavras

Mas não de bronze Nem de argila

E nem de cinza nem de mármore

De fumo sim Do que se infiltra

no coração das velhas máquinas

no estertor dos suicidas

no riso triste dos apátridas

no ondular das gelosias

de onde se espia a madrugada

Do fumo enfim que se eterniza

na longa insónia das estátuas

E que de nós a alma extirpa

não nos deixando nem a máscara

quando é só corpo o que nos fica

para morrer às mãos dos bárbaros

E que nos conta só mentiras

E nos aceita só verdades

Múltiplas ágeis infinitas

sejam as linhas que ele trace

como as que traça a própria vida

sem liberdade em liberdade

Adeus ó fogo Adeus raízes

que todo o fumo alimentavam

E adeus o mel Adeus urtigas

da minha terra calcinada

Adeus cortiço Adeus cortiça

Ó madrugadas inflamáveis

Já se nem sabe a que sevícias

é que por fim a boca sabe

Nem qual a sombra que improvisa

esta sonâmbula sonata

que apazigua que arrepia

que nos destói que nos exalta

Nem qual o crime inda mais crime

se acaso chega a desvendar-se

Adeus adeus eterna esfinge

Adeus Não penses que me ultrajas

E lembro tudo o que era simples

antes do nada inevitável

Mas que do nada ao menos fique

um monumento de palavras

4 315
Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry

É o Silêncio

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas... Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima...
E a câmara muda. E a sala muda, muda...
Àfonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
.......................................................................
E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas... O dia
Tarde florescerá pela montanha.

E ó minha amada, o sentimento é cego...
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

5 550
Orlando Teixeira

Orlando Teixeira

Oração ao Diabo

Grande deus Satanás, vermelho deus maldito,
Rei do inferno, senhor absoluto da trevas;
Espírito que o mal domina e que o ódio leva,
Arrastado após si, pelo eterno infinito;

Grande deus Satanás, minha alma de precito,
Branca de misticismo, à tua alma se eleva,
E reza esta oração cheia de fé, coeva
Da antiga crença azul do boi Ápis, no Egito.

Dizem que se a alma tens de qualquer desgraçado
Em troca tu lhe dás das fortunas o açoite,
E de outros não sei eu que a teu eleito vençam;

Se tanto for mister para que seja amado
Pela dos risos bons, a dos olhos de noite,
Grande deus Satanás, lança-me tua bênção.

4 937
Silva Alvarenga

Silva Alvarenga

O Amante Satisfeito - Rondó XXVI

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Este rio sossegado,
Que das margens se enamora,
Vê co'as lágrimas da Aurora
Bosque e prado florescer.

Puro Zéfiro amoroso
Abre as asas lisonjeiras,
E entre as folhas das mangueiras
Vai saudoso adormecer.

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Novos sons o Fauno ouvindo
Destro move o pé felpudo:
Cauteloso, agreste e mudo
Vem saindo por me ver.

Quanto vale uma capela
De jasmins, lírios e rosas,
Que co'as Dríades mimosas
Glaura bela foi colher!

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte.
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Receou tristes agoiros
A inocência abandonada;
E aqui veio retirada
Seus tesoiros esconder.

O mortal, que em si não cabe,
Busque a paz de clima em clima;
Que os seus dons no campo estima,
Quem os sabe conhecer.

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.

Os metais adore o mundo;
Ame as pedras, com que sonha,
Do feliz Jequitinhonha,
Que em seu fundo as viu nascer.

Eu contente nestas brenhas
Amo Glaura e amo a lira,
Onde terno amor suspira,
Que estas penhas faz gemer.

Canto alegre nesta gruta,
E me escuta o vale e o monte:
Se na fonte Glaura vejo,
Não desejo mais prazer.


Publicado no livro Glaura: poemas eróticos de Manuel Inácio da Silva Alvarenga, bacharel pela Universidade de Coimbra e professor de retórica no Rio de Janeiro. Na Arcádia, Alcindo Palmireno (1799).

In: ALVARENGA, Silva. Glaura: poemas eróticos. Pref. Afonso Arinos de Melo Franco. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1943. (Biblioteca popular brasileira, 16
5 213
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Casa na chuva

A chuva,outra vez a chuva sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
se minha mãe já se foi embora,
já não vem à varanda para a ver cair,
já não levanta os olhos da costura
para perguntar:Ouves?
Oiço,mãe,é outra vez a chuva,
a chuva sobre o teu rosto.


de Escrita da Terra
7 739
Bocage

Bocage

Epigrama imitado

Levando um velho avarento
Uma pedrada no olho,
Põe-se-lhe no mesmo instante
Tamanho como um repolho.

Certo, doutor, não das dúzias,
Mas sim do médico perfeito,
Dez moedas lhe pedia
Para o livrar do defeito.

"Dez moedas! (diz o avaro)
Meu sangue não desperdiço:
Dez moedas por um olho!
O outro eu dou por isso."

6 668
Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Pequena elegia de setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.

Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.


de Coração de Dia
9 455
Paulo Leminski

Paulo Leminski

para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

6 097
Paulo Leminski

Paulo Leminski

eu queria tanto

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões

em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois


Publicado no livro Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
5 582
Afonso Schmidt

Afonso Schmidt

Cubatão

Minha terra não passa de uma estrada,
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.

O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latão de um velho balde,

Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pálidas que vêm da escola.

Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que são jacatirões — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.

A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visões amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas...


Publicado no livro Mocidade (1921).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
3 556